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Lectio Divina
V Domingo da Páscoa - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

5º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A

14 de Maio de 2017


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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 14, 1-12)

 

Naquele tempo, disse Jesus: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também. E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho.» Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.» Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, ‘mostra-nos o Pai’? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que Eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede, ao menos, por causa dessas mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai»

 

Jo 14, 1-12: uma resposta às eternas perguntas do coração humano

 

Jo 14, 1-4:as comunidades perguntavam. “Como viver em comunidade com ideias tão diferentes?”. Jesus responde com uma exortação: “Não se perturbe o vosso coração. Em casa de meu Pai há muitas moradas”. A insistência em ter palavras de ânimo que servissem de ajuda para ultrapassar perturbações e divergências, é sinal de que devia existir tendências muito diferentes entre as comunidades, querendo uma ser mais verdadeira do que a outra. Jesus diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas!”. Não é necessário que todos pensem do mesmo modo. O que importa é que todos aceitem Jesus como revelação do Pai e que, por amor a Ele, tenham atitudes de serviço e de amor. Serviço e amor são o cimento que une os azulejos da parede e faz com que as diferentes comunidades se convertam numa Igreja sólida de irmãos e irmãs.


Jo 14, 5-7:Tomé pergunta. “Senhor não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?”. Jesus responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida!”. Três palavras importantes. Sem caminho não se caminha. Sem verdade não se acerta. Sem vida só há morte! Jesus explica o sentido. Ele próprio é o caminho porque “Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Ele é a porta pela qual as ovelhas entram e saem (Jo 10, 9). Jesus é a verdade, porque olhando para Ele, vemos a imagem do Pai. “Se me conhecêsseis conheceríeis também o meu Pai!”. Jesus é a vida, porque caminhando como Jesus caminhou, estaremos unidos ao Pai e teremos a vida em nós!


Jo 14, 8-11: Filipe pede. Diz-Lhe Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta”. Jesus responde-lhe: “Quem me viu, viu o Pai!”. Filipe expressou um desejo que era o de muitas pessoas da comunidade de João e continua a ser o desejo de todos nós: que devo fazer para ver o Pai de quem Jesus fala tanto? A resposta de Jesus é muito bela: “Há tanto tempo que estou convosco e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai”. Não devemos pensar que Deus está longe, como alguém distante e desconhecido. Quem quiser saber como é e quem é Deus Pai, basta olhar para Jesus. Ele revelou-o nas palavras e gestos da sua vida! “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim”. Pela sua maneira de ser, Jesus revelava um rosto novo de Deus que atraía o povo. Através da sua obediência, estava totalmente identificado com o Pai. Em cada momento fazia o que o Pai lhe mostrava fazer (Jo 5, 30; 8, 28-29.38). Por isso, em Jesus tudo é revelação do Pai! Os sinais e obras que realiza são obras do Pai! Do mesmo modo, nós, na nossa maneira de viver e de partilhar, temos que ser uma revelação de Jesus. Ele que nos vê, tem que poder ver e reconhecer em nós algo de Jesus.


O que é importante meditar aqui é perguntar-me: “Que imagem tenho de Jesus?”. Sou como Pedro que não aceitava um Jesus servo e sofredor e queria um Jesus à sua própria medida? (Mt 8, 32-33). Sou como aqueles que só sabem dizer: “Senhor! Senhor!” (Mt 7, 21)? Sou como aqueles que querem só um Cristo celeste e glorioso e esquecemos Jesus de Nazaré que caminhava com os pobres, acolhia os marginalizados, curava os enfermos, reinseria os excluídos e que, por causa deste compromisso com o povo e com o Pai, foi perseguido e foi morto?


Jo 14, 12:A promessa de Jesus. Jesus afirma que a sua intimidade com o Pai não é um privilégio só d'Ele, mas que é possível para todos nós que acreditamos n'Ele. Através d'Ele, podemos chegar a fazer as mesmas coisas que Ele fazia em favor do povo do seu tempo. Ele intercederá por nós. Tudo o que Lhe pedirmos, Ele pedirá ao Pai e obtê-lo-á, desde que seja para servir (Jo 14, 13).

 

Bento XVI, Angelus de 22 de Maio de 2011

 

O Evangelho deste Domingo, o Quinto de Páscoa, propõe um dúplice mandamento sobre a fé: crer em Deus e crer em Jesus. De facto, o Senhor diz aos seus discípulos: «Credes em Deus, crede também em Mim» (Jo 14, 1). Não são dois actos separados, mas um único acto de fé, a plena adesão à salvação realizada por Deus Pai mediante o seu Filho Unigénito. O Novo Testamento pôs fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou o seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Filipe: «Quem viu a Mim, viu o Pai» (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com a sua encarnação, morte e ressurreição, libertou-nos da escravidão do pecado para nos doar a liberdade dos filhos de Deus e fez-nos conhecer o rosto de Deus que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa de Ávila escreve que «não devemos afastar-nos do que constitui todo o nosso bem e o nosso remédio, ou seja, da santíssima humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo» (Castello interiore, 7, 6: Opere complete, Milão 1998, 1001). Por conseguinte, só crendo em Cristo, só permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos nós também, podem continuar a sua acção permanente na história: «Em verdade, em verdade vos digo — diz o Senhor —: aquele que acredita em Mim fará também as obras que Eu faço» (Jo 14, 12).


A fé em Jesus exige que o sigamos quotidianamente, nas simples acções que compõem o nosso dia. «É próprio do mistério de Deus agir de maneira humilde. Só lentamente Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-se homem mas de modo a poder ser ignorado pelos contemporâneos, pelas forças poderosas da história. Sofre e morre e, como Ressuscitado, deseja alcançar a humanidade unicamente através da fé dos seus aos quais se manifesta. Ele bate continuamente à porta dos nossos corações e, se lhe abrimos, lentamente torna-nos capazes de "ver"» (Jesus de Nazaré II, 2011, 306). Santo Agostinho afirma que «era necessário que Jesus dissesse: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6), porque quando se conhece o caminho, só falta conhecer a meta» (Tratactus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Portanto, para os cristãos, para cada um de nós, o Caminho para o Pai é deixar-nos guiar por Jesus, pela sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: «Abre, portanto, os olhos, põe à escuta o ouvido espiritual, abre os teus lábios e dispõe o teu coração, para que tu possas em todas as criaturas ver, ouvir, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar o teu Deus» (Itinerarium mentis in Deum, 1, 15).

 

Palavra para o caminho

 

Jesus (…) é verdadeiramente o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA (João 14,6). Não é um caminho de terra batida ou uma estrada de alcatrão. É um CAMINHO pessoal, uma maneira de viver, com entranhas e coração. Não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A VERDADE bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (João 18,38), mas à pergunta inédita: «QUEM é a VERDADE?». De facto, ʼemet deriva de ʼaman, e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se aprende. É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar. A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE. Não engana. É assim que JESUS é também a VIDA toda recebida (do PAI), toda dada a nós (António Couto).

 
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4º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A

7 de Maio de 2017

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 10, 1-18) 

1Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é um ladrão e salteador. 2Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3A esse o porteiro abre-a e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair. 4Depois de tirar todas as que são suas, vai à frente delas, e as ovelhas seguem-no, porque reconhecem a sua voz. 5Mas, a um estranho, jamais o seguiriam; pelo contrário, fugiriam dele, porque não reconhecem a voz dos estranhos.» 6Jesus propôs-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que lhes dizia.

7Então, Jesus retomou a palavra: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. 9Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. 10O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

11Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. 12O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, 13porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. 14Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, 15assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas.

16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. 17É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. 18Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.» 

Chave de leitura 

O Evangelho deste Domingo coloca diante de nós a figura tão familiar do bom pastor. Falando das ovelhas do redil de Deus, Jesus utiliza diversas imagens para descrever a conduta dos que se ocupam do rebanho. O texto da liturgia estende-se desde o versículo 1 a 10. No comentário acrescentamos os versículos 11 a 18, porque contêm a imagem do bom pastor que ajuda a entender melhor o sentido dos versículos 1 a 10.

As palavras de Jesus sobre o pastor (Jo 10, 1-18) é como um ladrilho colocado numa parede quase pronta. Imediatamente antes, em João 9, 40-41, Jesus falava da cegueira dos fariseus. Imediatamente depois, em João 10, 19-21, encontramos a conclusão da discussão sobre a cegueira. Deste modo, as palavras sobre o bom pastor ensinam-nos como fazer para retirar dos olhos a cegueira. Com este ladrilho a parede fica mais forte e mais bela. 

João 10, 1-5: A semelhança entre o salteador e o pastor 

Jesus começa o seu discurso com a semelhança da porta: “Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é um ladrão e salteador. Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas”. Para entender esta semelhança devemos recordar o que se segue. Naquele tempo, os pastores ocupavam-se do rebanho durante todo o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas para um grande redil ou recinto comunitário, bem protegido contra os salteadores e os lobos. Todos os pastores de uma mesma região conduziam os seus rebanhos para aí. Um guarda ocupava-se do redil durante toda a noite. Pela manhã vinha o pastor, batia as palmas das mãos na porta e o guarda abria-a. O pastor aproximava-se e chamava as suas ovelhas pelo seu nome. As ovelhas reconheciam a voz do pastor, levantavam-se e saiam atrás dele para pastar. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas ficavam onde estavam, porque não conheciam a voz. Os perigos de assalto eram diários. Os ladrões entravam por uma abertura, tirando as pedras do muro que rodeava o redil, para roubar as ovelhas. Não entravam pela porta, porque ali encontrava-se o guarda vigiando. 

João 10, 6-10: A semelhança com a porta das ovelhas 

Os que escutavam, os fariseus (Jo 9, 40-41), não entendiam o que significava “entrar pela porta”. Então Jesus explica-lhes: “Eu sou a porta! Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores”. A quem se refere Jesus com esta frase tão dura? Provavelmente, pela sua maneira de falar dos salteadores, referia-se aos chefes religiosos que arrastavam as pessoas atrás deles, mas não respondiam às suas esperanças. Não estavam interessados no bem do povo mas antes no dinheiro e nos seus interesses. Enganavam as pessoas e abandonavam-nas à sua sorte. O critério fundamental para discernir entre o pastor e o salteador é a defesa da vida das ovelhas. Jesus diz: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”! Entrar pela porta significa imitar a conduta de Jesus na defesa da vida das ovelhas. Jesus pede às pessoas para que não sigam a quem se apresenta como se fosse pastor mas não está interessado na vida das pessoas. 

João 10, 11-15: A semelhança com o bom pastor 

Jesus muda a semelhança. Antes era a porta , agora é o pastor. Todos sabiam o que era um pastor e como vivia e trabalhava. Mas Jesus não é um pastor qualquer: é o bom pastor! A imagem do bom pastor vem do Antigo Testamento. Ao dizer que é o bom pastor, Jesus apresenta-se como aquele que vem cumprir as promessas dos profetas e as esperanças do povo. Há dois pontos em que insiste: 1) – Na defesa da vida das ovelhas: o bom pastor dá a sua vida. 2) – No mútuo entendimento entre o pastor e as ovelhas: o pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o pastor.

O falso pastor, que quer vencer a sua cegueira, deve confrontar a sua própria opinião com a opinião das pessoas. Isto era o que os fariseus não faziam. Eles desprezavam as ovelhas e chamavam-nas gente maldita e ignorante (Jo 7, 49; 9, 34). Pelo contrário, Jesus diz que as pessoas têm uma percepção infalível para saber quem é o bom pastor porque reconhecem a voz do pastor (Jo 10, 4). “Elas conhecem-me” (Jo 10, 14). Os fariseus pensavam que possuíam a certeza de discernir as coisas de Deus. Mas na realidade eram cegos.

O discurso sobre o bom pastor encerra duas importantes regras para retirar a cegueira farisaica dos nossos olhos: 1) – Os pastores devem estar muito atentos aos comportamentos das ovelhas porque elas reconhecem a voz do pastor. 2) – As ovelhas devem prestar muita atenção à conduta dos que se dizem pastores para verificar se verdadeiramente lhes interessa a vida das ovelhas, ou se não, ou se são capazes de dar a vida pelas ovelhas. E os pastores de hoje? 

João 10, 16-18: A meta a que Jesus quer chegar: um só rebanho e um só pastor 

Jesus abre o horizonte e diz que tem outras ovelhas que não são deste redil. E elas não ouvem a voz de Jesus mas quando a ouvirem reconhecerão que Ele é o pastor e segui-lo-ão. Aqui aparece o comportamento ecuménico das comunidades do “Discípulo Amado”. 

A imagem do pastor na Bíblia 

Na Palestina a sobrevivência do povo dependia em grande parte da posse de cabras e de ovelhas. A imagem do pastor que guia o seu rebanho para as pastagens era muito conhecida, como hoje conhecemos o condutor de autocarros ou o maquinista de comboios. Era normal o uso da imagem do pastor para indicar a função de quem governava ou conduzia o povo. Os profetas criticam os reis porque eram pastores que não se preocupavam com a sua grei e não a conduzia a pastar (Jer 2, 8; 10, 21; 23, 1-12). Esta crítica aos maus pastores aumentou de tal medida que, por culpa dos reis, o povo viu-se arrastado para a escravidão (Ez 34, 1-10; Zac 11, 4-17).

Perante a frustração sofrida por causa da ausência de guia por parte dos maus pastores, crescia o desejo ou a esperança de ter, um dia, um pastor que fosse verdadeiramente bom e sincero, que imitasse Deus no modo de conduzir o povo. Nasce assim o salmo: “O Senhor é o meu pastor, nada me falta” (Sal 23, 1-6; Jer 48, 15)! Os profetas esperam que no futuro o próprio Deus seja o pastor que guie o rebanho (Is 40, 11; Ez 34, 11-16). E espera que a partir disto o povo saiba reconhecer a voz do seu pastor: “Escutai hoje a sua voz!” (Sal 95, 7). Esperam que Deus venha na qualidade de Juiz que julgue as ovelhas do rebanho (Ez 34, 17). Nasce o desejo e a esperança de que um dia Deus suscite bons pastores e que o Messias seja um pastor para o povo de Deus (Jer 3, 15; 23, 4).

Jesus muda esta esperança em realidade e apresenta-se como o bom pastor, diante dos salteadores que roubavam o povo. Ele apresenta-se como um Juiz que, no fim, julgará como um pastor que separa as ovelhas das cabras (Mt 25, 31-46). Em Jesus cumpre-se a profecia de Zacarias, segundo a qual o bom pastor será perseguido pelos maus pastores, incomodados pela denúncia que Ele faz: “Ferirão o pastor e o rebanho dispersar-se-á” (Zac 13, 7). E finalmente Jesus é tudo: é a porta, o pastor e o cordeiro! 

Palavra para o caminho 

Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). São muitos os cristãos que não chegam, sequer, a suspeitar que a fé é, precisamente, um princípio de vida, e vida sadia. Falta-lhes descobrir, por experiência pessoal, que Deus não é alguém ao qual convém ter em conta por acaso, mas que Deus é, precisamente e antes de mais nada, “alguém que faz viver”.

 
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3º DOMINGO DA PÁSCOA (ANO A)

30 de Abril de 2017

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 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24, 13-35) 

13Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 14e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 15Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 16os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. 17Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 18E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 19Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada 23e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» 25Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 27E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 30E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 31Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»

33Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 34que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 35E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. 

O contexto em que escreve Lucas 

Lucas escreve por volta do ano 85 para as comunidades da Grécia e da Ásia Menor que viviam numa situação difícil, tanto internamente como externamente. No interior existiam tendências divergentes que tornavam difícil a convivência: fariseus que queriam impor a lei de Moisés (Act 15, 1); grupos estreitamente vinculados a João Baptista que não tinham ouvido falar do Espírito Santo (Act 19, 1-6); judeus que se serviam do nome de Jesus para expulsar demónios (Act 19, 13); existiam os denominados discípulos de Pedro, outros que eram de Paulo, outros de Apolo, outros de Cristo (1Cor 1, 12). Da parte de fora por parte do Império Romano a perseguição era cada vez maior (Ap 1, 9-10; 2, 3.10.13; 6, 9-10, 12-16) e a infiltração enganadora da ideologia dominante do Império e da religião oficial, como acontece hoje com o consumismo que se infiltra em todos os sectores da nossa vida (Ap 2, 14.20; 13, 14-16).

Lucas escreve para estas comunidades, para que recebam uma orientação segura no meio das dificuldades e para que encontrem força e luz na sua vida vivida a partir da fé em Jesus. Lucas escreve uma única obra em dois volumes: o Evangelho e os Actos dos Apóstolos com o mesmo objectivo geral: “poder verificar a solidez dos ensinamentos recebidos” (Lc 1, 4). Um dos objectivos é o de mostrar, mediante a história tão bela de Jesus com os discípulos de Emaús, como a comunidade deve ler e interpretar a Bíblia. Na realidade, os que caminhavam pelo caminho de Emaús eram as comunidades (e somos todos nós). Cada um de nós e todos juntos, somos o companheiro ou a companheira de Cléofas (Lc 24, 18). Juntamente com ele, caminhamos pelos caminhos da vida, procurando uma palavra de apoio e orientação na Palavra de Deus.

O modo como Lucas narra o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús indica-nos a forma como as comunidades do tempo de Lucas usavam a Bíblia e faziam o que hoje chamamos a Lectio Divina ou Leitura Orante da Bíblia. São três os aspectos ou os passos que caracterizavam a sua maneira de interpretar o que se referia à Bíblia. 

Os diferentes passos ou aspectos do processo de interpretação da Escritura 

1º Passo: Partir da realidade (Lc 24, 13-24) 

Jesus encontra os dois amigos numa situação de medo e de dispersão, de desconfiança e de perturbação. Estavam a fugir. As forças da morte, a cruz, mataram neles a esperança. Jesus aproxima-se e caminha com eles, escuta a conversa e pergunta: “De que estais a falar?”. A ideologia dominante impede-os de entender e de ter uma consciência crítica: “Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas...” (Lc 24, 21). Hoje, de que fala o povo sofredor? Hoje, quais são os factos que colocam em crise a nossa fé?

O primeiro passo é este: aproximar-se das pessoas, escutar a realidade, os problemas, ser capazes de fazer perguntas que ajudem a olhar a realidade com um olhar mais crítico. 

2º Passo: Servir-se do texto da Bíblia (Lc 24, 25-27) 

Jesus serve-se da Bíblia não para dar uma lição acerca da Bíblia mas para iluminar o problema que fazia sofrer os seus dois amigos e, portanto, clarificar a situação que estavam a viver. Com a ajuda da Bíblia, Jesus coloca os dois discípulos no projecto de Deus e mostra-lhes que a história não escapa das mãos de Deus. Jesus não usa a Bíblia como um doutor que já sabe tudo mas como um companheiro que quer ajudar os seus amigos a recordar o que tinham esquecido: Moisés e os Profetas. Jesus não causa neles um complexo de ignorância mas procura colocá-los em condições de recordar, despertando a sua memória.

O segundo passo é este: com a ajuda da Bíblia, iluminar a situação e transformar a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim o que impede de ver converte-se em luz e força para a caminhada. 

3º Passo: Celebrar e compartilhar em comunidade (Lc 24, 28-32) 

A Bíblia, por si só, não abre os olhos, mas faz arder o coração (Lc 24, 32)! O que abre os olhos e faz descobrir aos amigos a presença de Jesus é a partilha do pão, o gesto comunitário. No momento em que é reconhecido, Jesus desaparece. E eles experimentam a ressurreição, renascem e caminham sozinhos. Jesus não se apropria do caminho dos seus amigos. Não é paternalista. Ressuscitados, os discípulos são capazes de caminhar pelos próprios pés.

O terceiro passo é este: saber criar um ambiente orante de fé e fraternidade, onde o Espírito possa agir. É o Espírito que faz descobrir e experimentar a palavra de Deus na vida e nos leva a entender o sentido das palavras de Jesus (Jo 14, 26; 16, 13). 

O objectivo: Ressuscitar e regressar de novo a Jerusalém (Lc 24, 33-35) 

Tudo mudou nos discípulos. Eles mesmos ressuscitam, ficam animados e regressam a Jerusalém, onde continuam activas as forças da morte que mataram Jesus mas onde também se manifestam as forças da vida na partilha da ressurreição. Coragem em lugar do medo. Fé em vez da ausência. Esperança em vez do desespero. Consciência crítica em vez de fatalismo perante o poder. Liberdade em vez de opressão. Numa palavra: vida em vez de morte! E em vez da notícia da morte de Jesus, a Boa Nova da Ressurreição!

O objectivo da leitura da Bíblia é este: experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito, presentes no nosso meio. É o Espírito que abre os olhos acerca da Bíblia e sobre a realidade, e nos leva a partilhar a experiência da Ressurreição, como acontece também hoje nos encontros comunitários. 

O novo modo de Jesus fazer uma leitura orante da Bíblia 

Às vezes não é possível entender se o uso que os Evangelhos fazem do Antigo Testamento vem de Jesus ou se se trata de uma explicitação dos primeiros cristãos que, desta forma, procuravam expressar a sua fé em Jesus. Mas o que é inegável é o uso constante e frequente que Jesus faz da Bíblia. Uma simples leitura dos Evangelhos mostra-nos que Jesus orientava-se pela Escritura para realizar a sua missão e para instruir os discípulos e as pessoas.

Na raiz da leitura que Jesus faz da Bíblia está a experiência de Deus como Pai. A intimidade com o Pai dá a Jesus um critério novo que o coloca em contacto directo com o autor da Bíblia. Jesus procura o significado na fonte. Não da letra para a raiz mas antes da raiz para a letra.

Folheando as fotografias do Antigo Testamento, as pessoas do tempo de Jesus, fazem a ideia de um Deus muito distante, severo, de difícil acesso, cujo nome não pode ser pronunciado. Mas as palavras e os gestos de Jesus, nascidos da experiência de Filho, sem sequer alterar uma letra (Mt 5, 18-19), mudaram todo o sentido do Antigo Testamento. O Deus que parecia tão distante e severo, adquire os traços de um Pai cheio de ternura, sempre presente, pronto a acolher e a libertar! Esta Boa Notícia de Deus, comunicada por Jesus, é a nova chave para reler todo o Antigo Testamento. O Novo Testamento é uma releitura do Antigo Testamento, feita a partir da nova experiência de Deus, revelada em Jesus. Este modo diferente de iluminar a vida com a luz da palavra de Deus, causa-lhe muitos conflitos.

Ao interpretar a Bíblia para o povo, Jesus mostra os traços do rosto de Deus, a experiência que ele mesmo tinha de Deus como Pai. Revelar Deus como Pai era a fonte e o objectivo da Boa Nova de Jesus. No seu comportamento Jesus manifesta o amor de Deus para com os discípulos, tanto homens como mulheres. Revela o Pai e encarna-o no amor! Jesus podia dizer: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Por isso, o Espírito do Pai estava também com Jesus (Lc 4, 18) e acompanhava-o em tudo, desde a encarnação (Lc 1, 35), no início da sua missão (Lc 4, 14), até ao fim, na morte e ressurreição (Act 1, 8).

Jesus intérprete, educador e mestre, era uma pessoa significativa para os seus discípulos que marcou para sempre as suas vidas. Interpretar a Bíblia não é só ensinar verdades que o outro deve viver. O conteúdo que Jesus devia dar não se encontrava somente nas palavras mas estava também presente nos gestos e no seu modo de se relacionar com as pessoas. O conteúdo nunca está separado da pessoa que o comunica. A bondade e o amor que afloram nas suas palavras fazem parte do conteúdo. São o seu temperamento. Um bom conteúdo sem a bondade é como leite derramado. 

Palavra para o caminho 

A estrada de Emaús tornou-se símbolo do nosso caminho de fé: as Escrituras e a Eucaristia são os elementos indispensáveis para o encontro com o Senhor. Também nós com frequência chegamos à Missa dominical com as nossas preocupações, dificuldades e desilusões... A vida às vezes fere-nos e voltamos tristes para a nossa «Emaús», voltando as costas ao desígnio de Deus. Afastamo-nos de Deus. Mas a Liturgia da Palavra acolhe-nos: Jesus explica-nos as Escrituras e reacende nos nossos corações o calor da fé e da esperança, e na Comunhão, dá-nos a força. Palavra de Deus, Eucaristia. Ler um trecho do Evangelho todos os dias. Recordai: ler todos os dias um trecho do Evangelho, e aos domingos receber a Comunhão, receber Jesus. Aconteceu assim com os discípulos de Emaús: acolheram a Palavra; partilharam a fracção do pão e de tristes e derrotados que se sentiam, tornaram-se alegres. Queridos irmãos e irmãs, a Palavra de Deus e a Eucaristia enchem-nos de alegria sempre. Recordai! Quando vos sentis tristes, tomai a Palavra de Deus. Quando vos sentis desanimados, tomai a Palavra de Deus e ide à Missa do domingo e comungai, participai do mistério de Jesus. Palavra de Deus, Eucaristia: enchem-nos de alegria (Papa Francisco).

 
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2º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A

23 de Abril de 2017

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 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 20, 19-31) 

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome. 

Mensagem 

No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena traz a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que lhes aparece. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que já tinha prometido no ultimo discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos : “A paz esteja convosco”.

O texto que nos é proposto divide-se em duas partes bem distintas. Na primeira parte (vers. 19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a situação de insegurança e de fragilidade em que a comunidade estava (o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”), o autor deste texto apresenta Jesus “no centro” da comunidade. Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência, factor de unidade, videira à volta da qual se enxertam os ramos. A comunidade está reunida à volta d’Ele, pois Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.

A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite duplamente a paz: é o “shalom” hebraico. O “shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. O SHALOM pode ser definido como “o bem-estar total para todos”: é tudo o que Deus deseja para os seus filhos. Ela não pode existir sem fraternidade, sem solidariedade e sem justiça social em todos os níveis. Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia os seus discípulos para a missão árdua em favor do Reino, prometendo-lhes o shalom, pois ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projecto de Deus. Assegura-se, assim, aos discípulos que Jesus venceu aquilo que os assustava (a morte, a opressão, a hostilidade do mundo), e que, doravante, os discípulos não têm qualquer razão para ter medo.

Depois, Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado, estão os sinais do seu amor e da sua entrega. É nesses sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.

Em seguida, Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos à sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente. Com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui e anima a comunidade de Jesus.

Na segunda parte (vers. 24-29), apresenta-se uma catequese sobre a fé. Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado? João responde: podemos fazer a experiência da fé em Cristo vivo e ressuscitado na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus. Tomé representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século primeiro, que estavam vacilando na sua fé no Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Deste modo, ele representa-nos quando vacilamos e duvidamos. Jesus fortalece-nos com as palavras “Felizes os que acreditaram sem terem visto!”. Assim muitas vezes será a realidade da nossa fé, acreditar, contra todas as aparências, que o bem é mais forte do que o mal, e a vida é mais forte do  que a morte! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado no nosso meio nos dá essa firmeza.

Tomé representa também aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora) e que não faz caso do testemunho da comunidade, nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em lugar de se integrar e participar da mesma experiência, pretende obter (apenas para si próprio) uma demonstração particular de Deus.

Tomé acaba, no entanto, por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. Porquê? Porque no “dia do Senhor” volta a estar com a sua comunidade. É uma alusão clara ao Domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado. 

Palavra para o caminho 

“Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados» (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5)” (Papa Francisco).

“... o meu amado predecessor João Paulo II quis intitular este domingo, o segundo de Páscoa, à Divina Misericórdia, e indicou a todos Cristo ressuscitado como nascente de confiança e de esperança, acolhendo a mensagem espiritual transmitida pelo Senhor a Santa Faustina Kowalska, sintetizada na invocação: Jesus, em Ti confio!” (Bento XVI). 

2º Domingo da Páscoa: Domingo da misericórdia 

Senhor Jesus Cristo,Vós que nos ensinastes a ser misericordiosos como o Pai celeste, e nos dissestes que quem Vos vê, o vê a Ele, mostrai-nos o Vosso rosto e seremos salvos!

O Vosso olhar de amor libertou Zaqueu e Mateus da escravidão do dinheiro; a adúltera e Madalena de colocarem a felicidade nas coisas criadas; fez chorar Pedro depois da traição, e assegurou o Paraíso ao ladrão arrependido. Fazei que cada um de nós escute, como nos fossem dirigidas, as palavras que dissestes à samaritana: «Se tu conhecesses o dom de Deus!»

Vós sois o rosto visível do Pai invisível, do Deus que manifesta a sua omnipotência sobretudo com o perdão e a misericórdia: fazei que a Igreja seja no mundo o vosso rosto visível, seu Senhor, ressuscitado e glorificado.

Vós quisestes que os Vossos ministros fossem também eles revestidos de fraqueza para sentirem como justa a compaixão pelos que estão na ignorância e no erro: fazei com que todos os que se aproximem de cada um dos vossos ministros se sintam acolhidos, amados e perdoados por Deus.

Enviai o Vosso Espírito e consagrai-nos a todos com a sua unção para que o Jubileu da Misericórdia seja um ano de graça do Senhor e a vossa Igreja possa, com renovado entusiasmo, levar a alegre mensagem aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e oprimidos e restaurar a vista aos cegos.

Nós Vo-lo pedimos por intercessão de Maria, Mãe de Misericórdia, a Vós que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Ámen (Oração do jubileu da misericórdia).

 
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DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO A


16 de Abril de 2017

 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 20, 1-9)

 

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Mensagem

 

A experiência da ressurreição aconteceu, primeiro, nas mulheres (Mt 28,9-10; Mc 16,9; Lc 24,4-11.23; Jo 20,13-16); depois, nos homens. Ela é a confirmação de que, para Deus, uma vida vivida como Jesus a viveu é uma vida vitoriosa. Deus ressuscita-a! Em torno desta Boa Nova surgiram as comunidades cristãs.


Os evangelhos recolheram a memória de umas mulheres admiráveis que, ao amanhecer de sábado, se aproximaram do sepulcro onde foi enterrado Jesus. A mensagem que escutam ao chegar é de uma importância excepcional. O evangelho de Mateus diz assim: “Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou, como disse. Vinde ver o sitio onde jazia”. É um erro procurar Jesus no mundo da morte. Está vivo para sempre. Nunca o poderemos encontrar onde a vida está morta.


As mulheres recebem este encargo: “Ide de seguida dizer aos discípulos: 'Ressuscitou de entre os mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Ali o vereis'”. Porque tem de se voltar para a Galileia para ver o Ressuscitado? Que sentido profundo se encerra neste convite? Que se pretende dizer aos cristãos de hoje?

Na Galileia escutou-se, pela primeira vez e em toda a sua pureza, a Boa Nova de Deus e o projecto humanizador do Pai. Se não voltarmos a escutá-Lo hoje com o coração simples e aberto não conheceremos a alegria do Evangelho de Jesus, capaz de “ressuscitar” a nossa fé.


Além disso, na margem do lago da Galileia foi-se formando a primeira comunidade de Jesus. Com Ele aprende a viver acolhendo, perdoando, curando a vida e despertando a confiança no amor insondável de Deus. Se não colocamos quanto antes Jesus no centro das nossas comunidades, nunca experimentaremos a Sua presença no meio de nós.


Crer na ressurreição o que é? É voltar para Jerusalém, de noite, reunir a comunidade e partilhar as experiências, sem medo das autoridades dos judeus e dos romanos (Lc 24,33-35). É receber a força do Espírito, abrir as portas e anunciar a Boa Nova à multidão (At 2,4). É ter a coragem de dizer: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5,29). É reconhecer o erro e voltar para a casa do pai: “Teu irmão estava morto e voltou a viver” (Lc 15,32). É sentir a mão de Jesus ressuscitado que, nas horas difíceis, nos diz: “Não tenhas medo! Eu sou o Primeiro e o Último. Sou o Vivente. Estive morto, mas eis que estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos” (Ap 1,17s). É crer que Deus é capaz de tirar vida da própria morte (Hb 11,19). É crer que o mesmo poder usado por Deus para tirar Jesus da morte opera também em nós e nas nossas comunidades, através da fé (Ef 1,19-23).


Ainda hoje, a ressurreição acontece. Ela faz-nos experimentar a presença libertadora de Jesus na comunidade, na vida de cada dia (Mt 18,20) e leva-nos a cantar: “Quem nos separará do amor de Cristo? Se ele é por nós, quem será contra nós?” Nada, ninguém, autoridade nenhuma é capaz de neutralizar o impulso criador da ressurreição de Jesus (Rm 8,38-39). A experiência da ressurreição ilumina a cruz e transforma-a em sinal de vida (Lc 24,25-27). Abre os olhos para entender o significado da Sagrada Escritura (Lc 24,25-27.44-48) e ajuda a entender as palavras e os gestos do próprio Jesus (Jo 2,21-22; 5,39; 14,26). Uma comunidade que quiser ser testemunho fiel da Boa Nova da Ressurreição deve ser sinal de vida, lutar pela vida contra as forças da morte.

 

Palavra para o caminho

 

Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível: Jesus de Nazaré, Filho de Maria, que ao pôr do sol de sexta-feira foi descido da cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo (Bento XVI).

 

Frases sobre a Ressurreição de Cristo  

  • Mas a primeira pedra a fazer rolar para o lado nesta noite (noite da vigília pascal) é esta: a falta de esperança, que nos fecha em nós mesmos. O Senhor nos livre desta terrível armadilha: sermos cristãos sem esperança, que vivem como se o Senhor não tivesse ressuscitado e o centro da vida fossem os nossos problemas (Papa Francisco).
  • A ressurreição deu a expressão definitiva e mais completa do poder messiânico, que estava em Jesus Cristo. Verdadeiramente Ele é o Enviado por Deus. É o Filho de Deus. E a palavra que provém dos seus lábios é divina (São João Paulo II).
  • O Domingo é o dia da ressurreição, é o dia dos cristãos, é o nosso dia ( São Jerónimo).
  • Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé (1 Coríntios 15, 12-14).
  • A ressurreição de Cristo é a nossa esperança (Santo Agostinho).
  • A fé em Cristo crucificado e ressuscitado é o âmago de toda a mensagem evangélica, o núcleo do nosso Credo (Bento XVI).
  • Vemos e continuaremos a ver problemas perto e dentro de nós. Sempre existirão, mas esta noite (noite da vigília pascal) é preciso iluminar tais problemas com a luz do Ressuscitado, de certo modo «evangelizá-los». Evangelizar os problemas. Não permitamos que a escuridão e os medos atraiam o olhar da alma e se apoderem do coração, mas escutemos a palavra do Anjo: o Senhor «não está aqui; ressuscitou!»; Ele é a nossa maior alegria, está sempre ao nosso lado e nunca nos decepcionará (Papa Francisco).
  • O mistério da Ressurreição, em que Cristo aniquilou a morte, penetra o nosso velho tempo com a sua poderosa energia, até que tudo Lhe seja submetido (Catecismo §1169).
  • O Senhor está vivo e quer ser procurado entre os vivos. Depois de O ter encontrado, cada um é enviado por Ele para levar o anúncio da Páscoa, para suscitar e ressuscitar a esperança nos corações pesados de tristeza, em quem sente dificuldade para encontrar a luz da vida. Há tanta necessidade disto hoje. Esquecendo-nos de nós mesmos, como servos jubilosos da esperança, somos chamados a anunciar o Ressuscitado com a vida e através do amor; caso contrário, seremos uma estrutura internacional com um grande número de adeptos e boas regras, mas incapaz de dar a esperança de que o mundo está sedento (Papa Francisco).
  • Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo actua já, pela força do Espírito Santo, nos corações dos homens; não suscita neles apenas o desejo da vida futura, mas, por isso mesmo, anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações, que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana e a submeter para esse fim toda a terra (Concílio Vaticano II).
 
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