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Lectio Divina
Solenidade da Epifania do Senhor - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – ANO A

8 de Janeiro de 2017

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 2, 1-12)

Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel». Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem». Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

Mensagem 

Notemos, em primeiro lugar, a insistência de Mateus no facto de Jesus ter nascido em Belém de Judá (cf. Mt 2,1.5.6.7). Para entender esta insistência temos de recordar que Belém era a terra natal do rei David. Afirmar que Jesus nasceu em Belém é ligá-l’O a esses anúncios proféticos que falavam do Messias como o descendente de David que havia de nascer em Belém (cf. Miq 5,1.3; 2Sam 5,2) e restaurar o reino ideal de seu pai. Com esta nota, Mateus quer aquietar aqueles que pensavam que Jesus tinha nascido em Nazaré e que viam nisso um obstáculo para O reconhecerem como Messias.

Notemos, em segundo lugar, a referência a uma estrela “especial” que apareceu no céu por esta altura e que conduziu os “Magos” para Belém. Segundo a crença popular, o nascimento de uma personagem importante era acompanhado da aparição de uma nova estrela. Também a tradição judaica anunciava o Messias como a estrela que surge de Jacob (cf. Nm 24,17). É com estes elementos que Mateus vai fazer referência à “estrela”. Mateus está, sobretudo, interessado em fornecer aos cristãos da sua comunidade argumentos seguros para rebater aqueles que negavam que Jesus era o Messias esperado.

Temos, ainda, as figuras dos “Magos”. A palavra grega “mágos“, usada por Mateus, abarca um vasto leque de significados e é aplicada a personagens muito diversas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas, propagandistas religiosos. Aqui, poderia designar astrólogos mesopotâmios, entrados em contacto com o messianismo judaico. Seja como for, esses “Magos” representam em Mateus, esses povos estrangeiros que se põem a caminho de Jerusalém com as suas riquezas (ouro e incenso) para encontrar a luz salvadora de Deus que brilha sobre a cidade. Jesus é, na opinião de Mateus e da catequese da Igreja primitiva, essa luz.

Além de uma catequese sobre Jesus, este relato recolhe, de forma paradigmática, duas atitudes que se vão repetir ao longo de todo o Evangelho: o povo de Israel rejeita Jesus, enquanto que os “Magos” do oriente (que são pagãos) O adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados” diante da notícia do nascimento de Jesus e planeiam a sua morte, enquanto que os pagãos sentem uma grande alegria e reconhecem-n’O como o seu Senhor.

Mateus anuncia, aqui, que Jesus vai ser rejeitado pelo seu povo; mas vai ser acolhido pelos pagãos, que entrarão a formar parte do novo Povo de Deus. O itinerário seguido pelos “Magos” reflecte o processo que os pagãos seguiram para encontrar Jesus: estão atentos aos sinais (estrela), percebem que Jesus traz a salvação, põem-se decididamente a caminho para O encontrar, perguntam aos judeus – que conhecem as Escrituras – o que fazer, encontram Jesus e adoram-n’O. É muito possível que um grande número de pagano-cristãos da comunidade de Mateus descobrisse neste relato as etapas do seu próprio caminho em direcção a Jesus.  

Responder à luz

Segundo o grande teólogo Paul Tillich, a grande tragédia do homem moderno é ter perdido a «dimensão de profundidade». Já não é capaz de preguntar de onde vem e para onde vai. Não sabe interrogar-se pelo que faz ou deve fazer de si mesmo neste breve espaço de tempo entre o seu nascimento e a sua morte.

Estas preguntas não encontram já resposta alguma em muitos homens e mulheres de hoje. Mais ainda, nem sequer são colocadas quando se perdeu essa «dimensão de profundidade». As gerações actuais não têm já a coragem de colocar-se estas questões com a seriedade e a profundidade com que o fizeram as gerações passadas. Preferem continuar a caminhar nas trevas.

Por isso, nestes tempos temos de voltar a recordar que ser crente é, antes de mais nada, perguntar apaixonadamente pelo sentido da nossa vida e estar abertos a uma resposta, mesmo quando não a vejamos de forma clara e precisa.

O relato dos magos foi visto pelos Padres da Igreja como exemplo de uns homens que, ainda que vivendo nas trevas do paganismo, foram capazes de responder fielmente à luz que os chamava à fé. São homens que, com a sua actuação, nos convidam a escutar todo o chamamento que nos obriga a caminhar de maneira fiel relativamente a Cristo.

A nossa vida decorre com frequência na superfície da existência. Trabalhos, contactos, problemas, encontros, ocupações diversas, levam-nos e trazem-nos, e passamos a vida enchendo cada instante com algo que temos de fazer, dizer, ver ou planear.

Corremos assim o risco de perder a nossa própria identidade, converter-nos numa coisa mais entre outras e viver sem saber já em que direção caminhar. Há uma luz capaz de orientar a nossa existência? Há uma resposta aos nossos anseios e aspirações mais profundas? Desde a fé cristã, essa resposta existe. Essa luz brilha já nesse Menino nascido em Belém.

O importante é tomar consciência de que vivemos nas trevas, de que perdemos o sentido fundamental da vida. Quem reconhece isto não se encontra longe de iniciar a busca do caminho acertado.

Oxalá no meio do nosso viver diário não percamos nunca a capacidade de estar abertos a toda a luz que possa iluminar a nossa existência, a todo o chamamento que possa dar profundidade à nossa vida (J. A. Pagola).

 
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – ANO A

1 de Janeiro de 2017

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 2, 1-21) 

1Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. 2Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria.

3Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. 4Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. 6E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz 7e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.

8Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. 9Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. 10O anjo disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.»

13De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.»

15Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» 16Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. 17Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. 18Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores. 19Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. 20E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado.

21Quando se completaram os oito dias, para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus indicado pelo anjo antes de ter sido concebido no seio materno. 

Chave de leitura 

O motivo que levou José e Maria a ir a Belém foi um censo imposto pelo imperador de Roma (Lc 2, 17). Periodicamente, as autoridades romanas decretavam estes censos nas diversas regiões do imenso império. Tratava-se de controlar a população e saber quantas pessoas deviam pagar os impostos. Os ricos pagavam os impostos sobre os terrenos e bens que possuíam. Os pobres pelo número de filhos que tinham. Às vezes o imposto total superava  50% do rendimento da pessoa.

No evangelho de Lucas notamos uma diferença significativa entre o nascimento de Jesus e o nascimento de João Baptista. João nasce em sua casa, na sua terra, no meio dos seus parentes e vizinhos e é acolhido por todos (Lc 1, 57-58). Jesus nasce desconhecido, fora do ambiente familiar e dos vizinhos, fora da sua terra. “Não havia lugar para eles na hospedaria”. Teve que ser deixado num presépio (Lc 2, 7).

Procuremos colocar e comentar o nosso texto (Lc 2, 16-21) no amplo contexto da visita dos pastores (Lc 2,8-20). 

Comentário do texto 

Lucas 2, 8-9: os primeiros convidados. Os pastores eram pessoas marginalizadas e pouco apreciadas. Viviam junto com os animais, separados do resto da humanidade. Por causa do contacto permanente com os animais eram considerados impuros. Nunca ninguém os tinha convidado para visitar um recém-nascido. Mas é precisamente a estes pastores que aparece o Anjo do Senhor para lhes transmitir a grande notícia do nascimento de Jesus. Perante a aparição dos anjos encheram-se de temor.

Lc 2, 10-12: o primeiro anúncio da Boa Nova. A primeira palavra do anjo é: Não temais! A segunda é: Alegria para todo o povo! A terceira é: Hoje! Em seguida dá três nomes a Jesus querendo indicar-nos quem é ele: Salvador, Cristo e Senhor! Salvador é aquele que a todos liberta do que os prende. Aos governantes daquele tempo gostava de se lhes dar o nome de “Salvador”. Eles mesmos se atribuíam o título de Soter (= Salvador). Cristo significa ungido ou messias. No Antigo Testamento este era o título que se dava aos reis e aos profetas. Era também o título do futuro Messias que cumprirá as promessas de Deus relativamente ao povo. Isto significa que o recém-nascido, que jaz num presépio, vem realizar a esperança do povo. Senhor era o nome que se dava ao próprio Deus! Temos aqui os três títulos maiores que se possa imaginar. A partir deste anúncio do nascimento de Jesus Salvador Cristo Senhor, imagina alguém com uma categoria mais elevada. O anjo diz-te: “Atenção! Dou-te este sinal de reconhecimento: encontrarás um menino num presépio, no meio dos pobres!”. Acreditarias? O modo como Deus actua é diferente do nosso!

Lucas 2, 13-14: louvor dos anjos. Glória a Deus no mais alto do céu, Paz aos homens do seu agrado. Uma multidão de anjos aparece e desce do céu. É o céu que desce sobre a terra. As duas frases do versículo resumem o projecto de Deus, o seu plano. O primeiro diz que acontece no mundo de cima: Glória a Deus no mais alto do céu. A segunda diz o que sucederá no mundo daqui de baixo: Paz na terra aos homens que Ele ama! Se as pessoas pudessem experimentar o que verdadeiramente significa ser amados por Deus, tudo mudaria e a paz habitaria na terra. E seria esta a maior glória de Deus que vive no mais alto.

Lucas 2, 15-18os pastores vão a Belém e contam a visão dos anjos. A palavra de Deus não é um som produzido pela boca. É sobretudo um acontecimento! Os pastores dizem literalmente: “Vamos ver esta palavra que aconteceu e que o Senhor nos manifestou”. Em hebraico DABAR pode significar ao mesmo tempo palavra e coisa (acontecimento), gerado pela palavra. A Palavra de Deus tem força criadora. Cumpre o que diz. Na Criação disse Deus: “Faça-se a luz! E a luz foi feita”! (Gen 1, 3). A palavra do anjo aos pastores é o acontecimento do nascimento de Jesus.

Lucas 2, 19-20: Conduta de Maria e dos pastores perante os factos e as palavras. Lucas acrescenta em seguida que “Maria conservava estas palavras (acontecimentos) meditando-os em seu coração”. São dois modos de perceber e acolher a Palavra de Deus: 1) Os pastores levantam-se e vão ver os factos e verificar neles o sinal que lhes foi dado pelo anjo, e depois, voltam para os seus rebanhos glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido. 2) Maria, por sua vez, conservava com cuidado todos os acontecimentos na memória e meditava-os no seu coração. Meditar as coisas significa ruminá-las, iluminá-las com a luz da Palavra de Deus, para assim chegar a entender melhor todo o significado para a vida.

Lucas 2, 21: A circuncisão e o nome de Jesus. De acordo com a norma da Lei, o menino Jesus é circuncidado no oitavo dia depois do seu nascimento (cf. Gen 17, 12). A circuncisão era um sinal de pertença ao povo. Dava identidade à pessoa. Nesta ocasião cada menino recebia o seu nome (cf. Lc 1, 59-63). O menino recebe o nome de Jesus que lhe tinha sido dado pelo anjo, antes de ter sido concebido. O anjo tinha dito a José que o nome do menino devia ser Jesus pois “ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21). O nome de Jesus é Cristo, que significa Ungido ou Messias. Jesus é o Messias esperado. O terceiro nome é Emanuel, que significa Deus-connosco (Mt 1, 23). O nome completo é Jesus Cristo Emanuel! 

Maria no evangelho de Lucas. Chave de leitura 

Nos dois primeiros capítulos do seu evangelho, Lucas apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. A chave é-nos dada por aquele episódio em que uma mulher do povo elogia a mãe de Jesus ao dizer: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram” (Lc 11, 27). Jesus modifica o elogia e diz: “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28). Aqui está a grandeza de Maria. É no modo como Maria se refere à Palavra de Deus que as comunidades contemplam a maneira mais correcta de se relacionar com a Palavra de Deus: acolhê-la, encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-se plasmar por ela, mesmo quando não se entende ou faz sofrer. É esta a visão que está subjacente nos dois primeiros capítulos do evangelho de Lucas, que falam de Maria, a Mãe de Jesus. 

Aplicando a chave aos textos 

A Anunciação (Lc 1, 26-38): “Faça-se em mim segundo a tua palavras!”. Saber abrir-se de modo que a Palavra de Deus seja acolhida e encarne.

A Visitação (Lc 1, 39-45): “Feliz aquela que acreditou!”. Saber reconhecer a Palavra de Deus nos acontecimentos da vida.

O Magnificat (Lc 1, 46-56): “O Senhor fez em mim grandes coisas!”. Um canto subversivo de resistência e esperança.

O Nascimento (Lc 2, 1-20): “Ela conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”. Não havia lugar para eles. Os marginalizados acolhem a Palavra.

A Apresentação (Lc 2, 21-32): “Os meus olhos viram a salvação!”. Os muitos anos purificam o olhar.

Simeão e Ana (Lc 2, 33-38): “Uma espada trespassar-te-à a alma”. Ser cristão quer dizer ser sinal de contradição.

Aos doze anos (Lc 2, 39-52): “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas do meu Pai?”. Eles não entenderam o que lhes dizia. 

Os contrastes que mais ressaltam no nosso texto 

  • Nas trevas da noite brilha a luz (Lc 2, 8-9).
  • O mundo de cima, o céu, parece envolver o nosso mundo daqui de baixo (Lc 2, 13).
  • A grandeza de Deus manifesta-se na pequenez de um menino (Lc 2, 7).
  • A glória de Deus faz-se presente num presépio, junto de animais (Lc 2, 16).
  • O medo provocado pela repentina aparição do anjo converte-se em alegria (Lc 2, 9-10).
  • As pessoas marginalizadas de tudo são as primeiras convidadas (Lc 2, 8).
  • Os pastores reconhecem Deus presente num menino (Lc 2, 20).  

Palavra para o caminho 

Nas vésperas de um nascimento pensamos na mãe que vai dar à luz. É Natal. Maria, mãe de Jesus, foi pintada e cantada em todas as épocas como a mulher mais bela do mundo. Sê-lo-ia, certamente. Mas a beleza é mais do que traços e equilíbrio da figura. Dizer um sim de risco e de ternura, servir e ir ao encontro do que o outro precisa, aguentar de pé a dor do outro, são esses os gestos que tornam única a beleza de Maria (Vasco P. Magalhães, sj).

 
Natal do Senhor - Missa do Dia - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

MISSA DO DIA DO NATAL DO SENHOR – ANO A

25 de Dezembro de 2016

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 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 1, 1-18) 

1No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus. 2No princípio Ele estava em Deus.3Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência. 4Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens.5A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.

6Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.

9 O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina. 10Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência, mas o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 12Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. 13Estes não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus. 14E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15João deu testemunho dele ao clamar: «Este era aquele de quem eu disse: 'O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.'»

16Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças. 17É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. 18A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer. 

Reflexão 

O quarto Evangelho começa com um prólogo muito especial. É uma espécie de hino que, desde os primeiros séculos do cristianismo, ajudou decisivamente os cristãos a aprofundar o mistério da pessoa de Jesus. Se o escutarmos ou lermos com fé, pode ajudar-nos a crer em Jesus de maneira mais profunda. Prestaremos somente atenção a algumas afirmações principais do prólogo.

Ao usar a expressão “no princípio”, João enlaça o seu Evangelho com o relato da criação (cf. Gn 1,1), oferecendo-nos assim, desde logo, uma chave de interpretação para o seu escrito. Aquilo que ele vai narrar sobre Jesus está em relação com a obra criadora de Deus: em Jesus vai acontecer a definitiva intervenção criadora de Deus no sentido de dar vida ao homem e ao mundo. A actividade de Jesus, enviado do Pai, consiste em fazer nascer um homem novo; a sua acção coroa a obra criadora iniciada por Deus “no princípio”.

“A Palavra de Deus fez-se carne”. Deus não é mudo. Não permaneceu calado, fechado para sempre no seu Mistério. Deus quis comunicar-se a nós. Desejou falar-nos, dizer-nos o seu amor, explicar-nos seu projecto. Jesus é o projecto de Deus feito carne.

Deus não se comunicou a nós por meio de conceitos e doutrinas sublimes, que somente os eruditos podem entender. A sua Palavra encarnou na vida íntima de Jesus, para que até os mais simples o possam entender, aqueles que sabem comover-se diante da bondade, do amor e da verdade que se encerra na sua vida.

Esta Palavra de Deus “acampou entre nós”. Desapareceram as distâncias. Deus fez-se “carne”. Habita entre nós. Para nos encontrarmos com ele, não devemos sair fora do mundo, mas  aproximarmo-nos de Jesus. Para conhecê-lo, não precisamos de estudar Teologia, mas  sintonizarmos com Jesus, comungarmos com ele.

“A Deus, ninguém jamais viu”. Os profetas, os sacerdotes, os mestres da Lei falavam muito de Deus, porém ninguém havia vista o seu rosto. O mesmo acontece hoje entre nós: na Igreja falamos muito de Deus, porém ninguém o viu. Somente Jesus, “o Filho de Deus, que está no seio do Pai é quem o deu a conhecer”. 

Não podemos esquecer isto: somente Jesus nos contou como Deus é. Somente ele é a fonte para nos aproximarmos do seu Mistério. De quantas ideias raquíticas e pouco humanas temos de nos libertar e deitar fora para, libertos, deixarmo-nos atrair e seduzir por esse Deus que se revela em Jesus! 

Como tudo muda, quando alguém, finalmente, compreende que Jesus é rosto humano de Deus. Tudo se torna mais simples e mais claro. Agora, sabemos como Deus nos vê quando sofremos, como nos procura quando nos perdemos, como nos entende e perdoa quando o negamos. Jesus revela-nos “a graça e a verdade” de Deus. 

Jesus faz-se pobre para nos enriquecer a todos com a sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9) 

Jesus nasce em extrema pobreza. Não se trata somente da indigência material da sua família. É muito mais. Nasce longe da aldeia onde residem os seus pais, longe dos afectos dos familiares e amigos, longe da comodidade que poderia oferecer a casa paterna, mesmo sendo pobre. Nasce entre estrangeiros que não se interessam por Ele e não lhe oferecem senão um presépio para nascer.

Aqui está o grande mistério da encarnação. Paulo dirá que “de rico que era, (Jesus) fez-se pobre por vós, para que chegásseis a ser ricos por meio da sua pobreza” (2Cor 8, 9). O Prólogo do evangelho de João atesta que sendo ele por meio do qual o mundo foi feito, Jesus, o Verbo feito carne, “veio aos seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1, 11). Este é o drama que assinala toda a vida de Jesus, chegando ao seu cume com a rejeição absoluta no processo diante de Pilatos (cf. Jo 18-28-19, 16). É, em última análise, o drama de Deus que se revela e se oferece continuamente à humanidade e é tantas vezes rejeitado.

É necessário dizer, contudo, que não era fácil para os contemporâneos reconhecer Jesus. Não é fácil para ninguém, nem sequer hoje, reconhecê-lo pelo que Ele é verdadeiramente. Só uma revelação por parte de Deus nos pode desvelar o mistério (cf. Jo 5, 37; 6, 45). Na narração do seu nascimento, o objectivo do anúncio por parte dos anjos é precisamente o de revelar o mistério.

Lucas 2, 1-20 apresenta-nos três reacções perante o mistério de Jesus.

Em primeiro lugar estão os pastores. Eles são caracterizados por várias palavras de espera / procura e descobrimento: “vigiavam de noite guardando” (v. 8): “vamos ver...” (v. 15); “foram apressadamente e encontraram... (v. 16). Os pastores estão abertos à revelação do mistério. Acolheram-no com simplicidade e acreditaram (vv. 15 e 20) e converteram-se em testemunhas do que lhes foi revelado (v. 17).

Depois estão também “aqueles que ouviram” o que os pastores contaram de Jesus (v. 16). Eles maravilham-se, mas incapazes de acolher o verdadeiro significado do que aconteceu entre eles. Finalmente está a reacção de Maria. O evangelista quer fazer realçar o contraste entre a reacção de Maria e a daqueles “que ouviram”, ao dizer “Quanto a Maria” (v. 19). Como eles, também Maria não ouviu o anúncio do anjo e não viu o coro angélico, mas o testemunho dos pastores que ela acolhe. É verdade que recebeu o anúncio angélico dirigido a ela no início de todos estes acontecimentos (1, 26-38). O anjo falou-lhe do Filho que dela nasceria como o Filho do Altíssimo que reinaria para sempre (cf. 1, 32.35). Mas os últimos acontecimentos, o seu nascimento naquelas circunstâncias, podia pôr em dúvida a palavra do anjo. Agora aparecem os pastores e de novo dizem grandes coisas acerca do seu Filho. Maria guarda tudo isto no seu coração, as palavras do anjo, as palavras dos pastores, os factos acontecidos e procura agrupá-los para compreender quem é este filho que Deus lhe deu, qual a sua missão e que parte tem ela em tudo isto. Maria é uma mulher contemplativa que tem os olhos e os ouvidos abertos para que nada se perca. Depois, conserva e medita tudo no silêncio do seu coração. Virgem da escuta, Maria é capaz de acolher as palavras que Deus lhe envia no dia-a-dia da sua vida.

Só quem tem a ânsia de procurar como a dos pastores e o coração contemplativo de Maria será capaz de decifrar os sinais da presença e das intervenções de Deus na vida, e acolher Jesus na casa da própria existência. 

Palavra para o caminho

Deus é tão grande que Se pode fazer pequeno. Deus é tão poderoso que Se pode fazer inerme e vir ter connosco como menino indefeso, para que O possamos amar. Deus é tão bom que renuncia ao seu esplendor divino e desce ao estábulo para que O possamos encontrar e, assim, a sua bondade chegue também a nós, se nos comunique e continue a agir por nosso intermédio. (…) Deus tornou-Se um de nós, para que nós pudéssemos viver com Ele, tornarmo-nos semelhantes a Ele. Como próprio sinal, escolheu o Menino no presépio: Deus é assim.

(…) A luz de Belém nunca mais se apagou. Ao longo de todos os séculos, envolveu homens e mulheres, “cercou-os de luz”. Onde despontou a fé naquele Menino, aí desabrochou também a caridade – a bondade para com todos, a carinhosa atenção pelos débeis e os doentes, a graça do perdão (Bento XVI).

 
IV Domingo do Advento - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

4º DOMINGO DO ADVENTO – ANO A

18 de Dezembro de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 1, 18-24) 

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. 

Chave de leitura 

Os membros das comunidades cristãs da Palestina e da Síria, para quem Mateus escreveu o seu Evangelho, eram constituídos na sua maioria por judeus convertidos. Eles aceitaram Jesus como o Messias e acreditaram nele. Por causa da sua fé foram perseguidos. Os seus irmãos judeus diziam: "Vós, cristãos, viveis enganados; Jesus não é, nem pode ser o Messias!". No texto que meditamos neste Domingo, é manifesta a preocupação de Mateus em confirmar a fé das comunidades. É como lhes dissesse: "Vós não viveis enganados! Jesus é o verdadeiro Messias". A finalidade dos capítulos 1º e 2º do Evangelho de Mateus é a de informar os leitores sobre a vida de Jesus, cuja atividade será descrita a partir do capítulo 3º. Nos dois primeiros capítulos, Mateus apresenta as credenciais de Jesus, novo Legislador e novo Moisés. Na genealogia (Mt 1,1-17) o evangelista já tinha mostrado que Jesus pertence à raça de David e de Abraão (Mt 1,1). Nestes versículos (Mt 1, 18-25), Mateus continua a apresentar Jesus descrevendo o seu nascimento. Conta como José recebeu a notícia de que Maria estava grávida e as profecias que se cumprirão com o nascimento de Jesus, demonstrando que ele era o Messias esperado. 

Mensagem

O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro (os “esponsais”); só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo (as cerimónias do matrimónio propriamente dito). Entre os “esponsais” e o rito do matrimónio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo uma penalidade. Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um carácter estável, de tal forma que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27). Ora, segundo o texto que nos é proposto, José e Maria estavam na situação de “prometidos”: ainda não tinham celebrado o matrimónio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.  

Maria aparece grávida antes de conviver com José, seu prometido esposo. Quem observar as coisas de fora constata uma irregularidade e dirá: “Maria, que horror! Segundo a lei de Moisés este erro merecia a pena de morte” (Dt 22,20). Para evitar esta falsa interpretação dos factos, Mateus ajuda o leitor a ver o outro aspeto da gravidez de Maria: “Concebeu por obra do Espirito Santo”. Aos olhos humanos pode parecer uma transgressão da Lei, mas aos olhos de Deus era exactamente o contrário.  A gravidez de Maria acontece antes da sua convivência com José, não por um desvio humano, mas antes pela vontade divina. O próprio Deus não deu importância às leis da pureza legal na forma como ele fez nascer o Messias no meio de nós. Se José tivesse agido segundo as exigências da lei da época, deveria denunciar Maria e possivelmente ter-lhe-iam atirado pedras. A gravidez antes do casamento era proibida e segundo a lei da pureza legal, deveria ser castigada com a pena de morte (Dt 22,20). Mas José, porque era justo, não obedeceu às exigências das leis da pureza legal. A sua justiça é maior. Em vez de denunciar, prefere respeitar o mistério que não entende e decide abandonar Maria em segredo. A justiça maior de José salva tanto a vida de Maria como a de Jesus.

O anjo do Senhor ajuda a descobrir a dimensão mais profunda da vida e dos acontecimentos. Ajuda a fazer a radiografia dos acontecimentos e a perceber o chamamento de Deus, que aparentemente, não se percebe. O anjo faz compreender a José que a gravidez de Maria é fruto da acção do Espírito Santo. O próprio Deus, no dia da criação, pairava sobre as águas e enchia de força a palavra criadora de Deus (Gen 1,2). Em Maria acontece a nova criação. É o princípio do novo céu e da nova terra, anunciados por Isaías (Is 65,17). O filho de Maria recebe dois nomes: Jesus e Emanuel. Jesus significa “Yahvé salva”. A salvação não vem pelo que fazemos por Deus, mas pelo que Deus faz por nós. Emanuel significa “Deus connosco”. Na saída do Egipto, no Êxodo, Deus inclina-se sobre o povo oprimido (Ex 3,8) e diz a Moisés: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12) e a partir desse momento não abandona mais o seu povo.

“Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta”. Esta frase e outras semelhantes são como uma melodia, palavras que se repetem muitas vezes no Evangelho de Mateus (Mt 1,23; 2,5.15.17.23; 4,14; 8,17; 13,14.35; etc). Ela revela o objectivo que o autor tem em mente: confirmar aos seus leitores de origem judia o facto de que Jesus é verdadeiramente o Messias prometido. Nele se cumprem as profecias dos profetas. Aqui Mateus invoca o texto de Isaías. “A Virgem conceberá e dará á luz um filho e pôr-lhe-ão o nome de Emanuel” (Is 7,14) O título Emanuel, mais do que um nome, revela o significado de Jesus para nós. Jesus é a prova de que Deus continua a estar connosco (Mt 1,25). Despertando do sono, José fez o que o anjo lhe disse, e levou Maria para sua casa. E continua a dizer que não teve nenhuma relação com Maria para confirmar que Jesus nasceu do Espírito Santo. 

Palavra para o caminho 

«Sendo que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente» (Mt 1, 19). Esta breve frase sintetiza um verdadeiro drama interior, se pensarmos no amor que José sentia por Maria! Mas também em tal circunstância, José deseja fazer a vontade de Deus e decide, certamente com grande sofrimento, deixar Maria em segredo. É necessário meditar sobre estas palavras para compreender qual é a provação que José teve que enfrentar nos dias que precederam o nascimento de Jesus. Uma provação semelhante àquela do sacrifício de Abraão, quando Deus lhe pediu o filho Isaac (cf. Gn 22): renunciar à coisa mais preciosa, à pessoa mais amada.

Mas, como no caso de Abraão, o Senhor intervém: encontrou a fé que procurava e abriu um caminho diferente, um caminho de amor e de felicidade: «José - diz-lhe - não temas de receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20).

Este Evangelho mostra-nos toda a grandeza de alma de São José. Ele estava a seguir um bom projecto de vida, mas Deus reservava para ele outro desígnio, uma missão maior. José era um homem que ouvia sempre a voz de Deus, profundamente sensível ao seu desejo secreto, um homem atento às mensagens que lhe chegavam do fundo do coração e das alturas. Não se obstinou em perseguir aquele seu projecto de vida, não permitiu que o rancor lhe envenenasse a alma, mas esteve pronto para se pôr à disposição da novidade que, de forma desconcertante, lhe se apresentava. Era um homem bom. Não odiava, e não permitiu que o rancor lhe envenenasse a alma (Papa Francisco).

 
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3º DOMINGO DO ADVENTO – ANO A

11 de Dezembro de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 11, 2-11) 

2Naquele tempo João, que estava no cárcere, tendo ouvido falar das obras de Cristo, enviou-lhe os seus discípulosoão, 3com esta pergunta: «És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?»

4Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: 5Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. 6E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.»

7Depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? 8Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. 9Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta. 10É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. 11Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele. 

Mensagem 

Não é fácil reconhecer o Messias de Deus. Formado pelos profetas, Israel esperou-o durante séculos e, no entanto, quando chegou, até mesmo aquelas pessoas espiritualmente mais preparadas tiveram dificuldade em o entender e acolher. O próprio João Baptista ficou desorientado.

Na primeira parte do evangelho de hoje (vv. 2-6), são apresentadas as dúvidas que surgiram um dia até mesmo na mente do precursor, bem como as respostas que Jesus lhe deu. João encontra-se na prisão, e o motivo é narrado em Mt 14, 1-12: ele denunciara o comportamento imoral de Herodes, que se apropriara da mulher de seu irmão. Ele duvida que Jesus fosse o Messias e manda perguntar: “És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?” (v. 3).

Como surgiu nele esta perplexidade? A resposta é bastante simples. É suficiente ter presente a imagem de Messias que, desde pequeno, João assimilara dos guias espirituais do seu povo. Espera um Messias que é juiz rigoroso e se lança contra os maus. E olha com surpresa: Jesus não só não condena os pecadores, mas come com eles e gloria-se de ser amigo deles (Lc 7, 34). Recomenda que não se apague a mecha que ainda fumega e sugere que se cuide da “cana rachada”. Nada destrói, recupera e conserta o que está arruinado. Não queima os pecadores, muda os seus corações e quer que sejam felizes a todo o custo, tem palavras de salvação para os que já não têm esperança e os que são evitados por todos como leprosos. Não se desencoraja diante de nenhum dos problemas do homem, não se rende nem mesmo perante a morte. Aos enviados do Baptista, Jesus apresenta-se como Messias, enumerando os sinais tomados de alguns textos de Isaías (Is 35, 5-6; 26, 19; 61, 1), o profeta da esperança.

O Baptista é convidado a dar-se conta de seis novas realidades: a cura dos cegos, dos surdos, dos leprosos, dos coxos, a ressurreição dos mortos e o anúncio do evangelho aos pobres. Todos são sinais de salvação, nenhum de condenação.

Surgiu então o mundo novo: quem caminhava na escuridão e desorientado na vida, agora é iluminado pelo evangelho; quem era coxo e não conseguia dar um passo em direcção ao Senhor e aos irmãos, agora caminha ligeiro; quem estava surdo para a palavra de Deus, agora escuta-a e deixa-se conduzir por ela; quem se envergonha de si mesmo pela lepra do pecado que o mantinha afastado de Deus e dos irmãos, sente-se agora purificado; quem só fazia obras de morte, vive agora a plenitude da sua existência; quem se considerava um miserável e não tinha esperança, ouviu a boa nova: “Também para ti há salvação”.

O Messias de Deus nada tem a ver com a personagem enérgica e severa que João esperava. O seu modo de proceder escandalizou o precursor, e continua a escandalizar-nos a nós também, nos dias de hoje. Um Deus bom para com todos contradizia as convicções de João. Como nós, também o Baptista imaginava um Deus forte, e encontrava-o diante de si débil; esperava intervenções clamorosas, e as coisas continuavam a acontecer como se o Messias não tivesse chegado. Bem-aventurado aquele que acolhe Deus tal como ele é, e não como gostaria que ele fosse! A fé no Deus que se revela em Jesus não pode deixar de ser acompanhada de dúvidas, incertezas, dificuldades em acreditar. O Baptista é a figura do verdadeiro crente: debate-se entre muitas perplexidades, questiona-se, mas não renega o Messias porque este não corresponde aos seus critérios; põe em causa as próprias certezas. Não causa preocupação quem tem dificuldade em acreditar, quem se sente perdido perante o mistério e os enigmas da existência, quem diz não compreender os pensamentos e o agir de Deus.

Partindo os discípulos de João, Jesus pronuncia o seu juízo acerca dele com três perguntas. É a segunda parte do evangelho de hoje (vv. 7-11). As respostas às duas primeiras são óbvias: o Baptista não é como as canas que crescem ao longo do Jordão, símbolos da volubilidade porque se dobram conforme a direcção do vento. João não é um oportunista que se adequa a todas as situações e se inclina diante de quem tem o poder no momento. Pelo contrário, é alguém que se opõe resolutamente aos próprios chefes políticos, que enfrenta de cara descoberta o rei e que não tem medo de dizer o que pensa.

João não é um corrupto, um daqueles que só pensam no próprio interesse, que acumulam dinheiro sem escrúpulos e o esbanjam em divertimentos, em roupas elegantes e refinadas. Os corruptos – diz Jesus – são os reis e os seus cortesãos, os ricos, os chefes que o aprisionaram.

A terceira pergunta pede uma resposta positiva: João é um profeta, e mais que profeta. Ninguém no Antigo Testamento cumpriu uma missão superior à sua.

É significativo o aditamento final: “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (v. 11). Jesus não estabelece uma graduação baseada na santidade e na perfeição pessoal, mas convida a verificar a superioridade da condição do discípulo. Quem pertence ao Reino dos Céus consegue ver mais longe do que João Baptista. Quem entendeu o rosto novo de Deus, quem entendeu que o Messias veio ao encontro do homem para o perdoar, para o acolher, e além de tudo para o amar, esse entrou na perspectiva nova, na perspectiva de Deus. Aquilo que nós hoje, independentemente da nossa santidade pessoal, podemos ver e entender, João Baptista apenas intuiu, porque ficou no limiar dos tempos novos. 

Palavra para o caminho 

Hoje é o terceiro Domingo do Advento, chamado também Gaudete, ou seja, Domingo da Alegria. Na liturgia ressoa várias vezes o convite a alegrar-se, a rejubilar, porquê? Porque o Senhor está próximo. O Natal está próximo. A mensagem cristã chama-se «evangelho», isto é, «boa nova», um anúncio de alegria para todo o povo; a Igreja não é um refúgio para pessoas tristes, a Igreja é a casa da alegria! E quantos estão tristes encontram nela a alegria, a verdadeira alegria!

Mas a alegria do Evangelho não é uma alegria qualquer! Tem a sua razão de ser no saber que se é acolhido e amado por Deus. Ele está sempre connosco para nos ajudar a ir em frente. É um Deus que gosta muito de nós, que nos ama e por isso está connosco, para nos ajudar, para nos fortalecer e ir em frente. Coragem! Sempre em frente! Graças à sua ajuda podemos recomeçar sempre do início.

A alegria cristã, como a esperança, tem o seu fundamento na fidelidade de Deus, na certeza que Ele mantém sempre as suas promessas (Papa Francisco).

 
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