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Lectio Divina
XXV Domingo do Tempo Comum - ANo C PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

18 de Setembro de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 16, 1-13)

Disse ainda Jesus aos discípulos: «Havia um homem rico, que tinha um administrador; e este foi acusado perante ele de lhe dissipar os bens. Mandou-o chamar e disse-lhe: 'Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar.' O administrador disse, então, para consigo: 'Que farei, pois o meu senhor vai tirar-me a administração? Cavar não posso; de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei-de fazer, para que haja quem me receba em sua casa, quando for despedido da minha administração.' E, chamando cada um dos devedores do seu senhor, perguntou ao primeiro: 'Quanto deves ao meu senhor?' Ele respondeu: ´Cem talhas de azeite.' Retorquiu-lhe: 'Toma o teu recibo, senta-te depressa e escreve cinquenta.' Perguntou, depois, ao outro: 'E tu quanto deves?' Este respondeu: 'Cem medidas de trigo.' Retorquiu-lhe também: 'Toma o teu recibo e escreve oitenta.' O senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. É que os filhos deste mundo são mais sagazes que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes.»

«E Eu digo-vos: Arranjai amigos com o dinheiro desonesto, para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito. Se, pois, não fostes fiéis no que toca ao dinheiro desonesto, quem vos há-de confiar o verdadeiro bem? E, se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores; ou há-de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.»

Comentário e mensagem

O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

A parábola do Administrador desonesto, que ouviremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a lêem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o mal-estar sentido, pelos costumes em uso na Palestina, em que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que deixavam no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão e inteligência com que o administrador procede, sem permitir que o assalte nem por um momento a hesitação.

É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras  diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza. É isto que está em causa. É que face ao Reino de Deus, o discípulo de Jesus deve ser igualmente rápido, hábil e perspicaz a tomar decisões. Não há, de facto, urgência maior. É quanto resulta do ensino de Jesus no caminho.

Mas a grande questão que salta da parábola é ainda esta: e Jesus não esbanja também os bens do Pai, o amor, o perdão, a misericórdia? Surge, portanto, uma segunda e inevitável questão: e nós, discípulos de Jesus, que vimos e ouvimos estas coisas no caminho, guardamos ciosamente estas riquezas divinas, ou esbanjamo-las com largueza e alegria como Jesus?

A parábola contada por Jesus permite ainda uma correcta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5).

Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben-Sirá já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben-Sirá 27,1-3).

O livro de Amós, que hoje ouvimos também, caustica asperamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda actualidade.

Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

António Couto

Palavra para o caminho

“Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz”. Quando Jesus disse isto tinha em mente aquelas pessoas que, para chegar aos seus fins mesquinhos, são capazes de arquitectar estratégias com argúcia e fazer mexer o mundo, enquanto tanta gente boa não é capaz de ser crítica nem de ser criativa. Ora uma caridade sem inteligência, sem discernimento, pura e simplesmente não é caridade (Vasco P. Magalhães, sj)

 
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24º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

11 de Setembro de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 15, 1-32

Naquele tempo, aproximavam-se de Jesus todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.» Jesus propôs-lhes, então, esta parábola: «Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida.’ Digo-vos Eu: Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.»

«Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.’ Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.»

Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.’ E, levantando-se, foi ter com o pai.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’ Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou.

Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’ Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’ O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»

Comentário

O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase na misericórdia de Deus. Se fosse para classificar numa só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo saliente esta convicção tanto como o capítulo 15, que hoje lemos na sua totalidade.

As três parábolas aqui relatadas são entre as mais conhecidas da Bíblia, geralmente chamadas (com razão ou não) “A Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho Pródigo”.

Para entender melhor o que Lucas quer ensinar, devemos dar muita atenção aos primeiros dois versículos do capítulo 15. Pois, estes versículos fornecem-nos o motivo pelo qual Jesus contou as parábolas, e, por conseguinte, uma chave valiosa de interpretação: “Todos os cobradores de impostos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo. Mas, os fariseus e os doutores da Lei criticavam Jesus, dizendo: “Este homem acolhe pecadores, e come com eles!”. Depois, vem a chave de interpretação: “Então Jesus contou lhes esta parábola”. Ou seja, Jesus contou estas parábolas porque os fariseus e doutores da Lei o criticavam-no por associar-se com gente de má fama! Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus.

Neste sentido podemos interpretar a parábola conhecida como a parábola da “Ovelha Perdida”. Jesus, diante da intransigência dos fariseus, pergunta: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?”. A resposta razoável é “não” pois nenhum pastor, com a cabeça no lugar, deixaria noventa e nove ovelhas à deriva para tentar encontrar uma ovelha perdida. Seria loucura! Mas, exactamente aqui está o sentido da parábola: Deus faz loucuras por amor a nós! Ele é capaz de fazer o que nenhuma pessoa humana faria: ir atrás da ovelha perdida, custe o que custar, até a achar e trazer de volta! Aqui a parábola funciona não por comparação, mas por contraste: Deus é o oposto dos homens, que só agem através de decisões calculistas. Faz loucura, e a loucura do amor consegue o que a razão jamais conseguiria, a volta da ovelha perdida! Assim, se faz contraste entre a atitude de Deus e a atitude dos fariseus e doutores da Lei! Esta parábola questiona-nos sobre as nossas atitudes diante das “ovelhas perdidas” das nossas comunidades e famílias! Agimos como os fariseus, com censuras e moralismos? Ou, como Deus, com a loucura do amor?

Retoma-se a mensagem na segunda parábola, a parábola da “moeda perdida”. Não que ela fosse de tão grande valor. Mas para a pobre, até uma moeda pequena faz falta! Então, a mulher faz questão de virar a casa (as casas não tinham janelas, por isso era necessário acender uma lâmpada) até a achar. É assim com Deus. Talvez achemos que uma pessoa não tenha grande valor, mas para Deus faz falta, e Ele é capaz de “exagerar” para recuperar a pessoa perdida, por tão insignificante que possa parecer. Mais uma vez, um contraste com a atitude elitista dos fariseus, e quem sabe, de nós próprios!

Por fim, chegamos à parábola do “Filho Pródigo”, ou do “Pai que perdoa”, ou dos “Dois Irmãos”, conforme a interpretação e o gosto de cada um! Fiquemos somente com o texto sagrado e não com os subtítulos! Podemos ler este texto a partir do filho perdido, ou do pai, ou do irmão mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (= esbanjador). Assim, ressaltaria o processo de conversão: sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceite pelo pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal, mas diante dos primeiros três versículos do capítulo, não a interpretação primeira que Lucas queria dar.

Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válida. Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a liberdade da decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa atitude não “digna” de um patriarca oriental idoso, preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e que se alegra com a volta de quem estava morto! Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável!

Mas, o contexto do capítulo quinze, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente: a partir do irmão mais velho. Pois, Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam porque Ele acolhe os pecadores! Então, o filho mais velho é imagem dos fariseus , “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujos corações estão fechados, a ponto de serem incapazes de se alegrarem com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a sua atitude contradiz claramente a atitude de Deus! No fundo a questão é, em que Deus acreditamos: um Deus que age com critérios humanos, não buscando nem acolhendo pecadores, ou o Deus de Jesus, “enlouquecido” pelo amor que faz “loucuras” para que ninguém se perca?!...  Aqui temos ecos de Isaías 55, 10-11, onde Deus afirma: “os meus caminhos não são os vossos caminhos e os meus pensamentos não são os vossos pensamentos”. 

Aqui, Jesus questiona-nos a todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão mais velho, “gente boa”, gente de “observância”, mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrar-nos com a volta ao estado original do irmão ou irmã perdido/a?

Podemos até dizer que o capítulo quinze de Lucas é o coração do seu Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o Deus de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estivesse perdido. É o Deus de misericórdia e do perdão. Como traduzimos esta visão de Deus nas nossas vidas?

Palavra para o caminho

O gesto mais provocativo e escandaloso de Jesus foi, sem dúvida, a sua forma de acolher com simpatia especial pecadoras e pecadores, excluídos pelos dirigentes religiosos e marcados socialmente pela sua conduta à margem da Lei. O que mais irritava era o seu costume de comer, amigavelmente, com eles.

Jesus não faz caso das críticas que lhe dirigem. Sabia que Deus não é o Juiz severo e rigoroso do qual falavam com tanta segurança aqueles mestres que ocupavam os primeiros assentos nas sinagogas. Ele conhece bem o coração do Pai. Deus entende os pecadores; oferece o seu perdão a todos; não exclui ninguém; perdoa tudo. Ninguém deve obscurecer ou desfigurar o seu perdão insondável e gratuito. Por isso, Jesus oferece-lhes a sua compreensão e a sua amizade.

O acolhimento que dá cura por dentro. Liberta da vergonha e da humilhação. Devolve a alegria de viver. Jesus acolhe os “pecadores” tal como são, sem exigir-lhes, previamente, nada. Transmite-lhes a sua paz e a sua confiança em Deus, sem estar seguro de que responderão, mudando a sua conduta. Faz isto confiando, totalmente, na misericórdia de Deus que já os espera de braços abertos, como um pai bom que corre ao encontro do filho perdido.

A primeira tarefa de uma Igreja fiel a Jesus, não é condenar os pecadores, mas compreendê-los e acolhê-los amigavelmente.

 
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23º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

4 de Setembro de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 14, 25-33)

25Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-se e disse-lhes:26«Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Quem não tomar a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo.

28Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? 29Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, 30dizendo: 'Este homem começou a construir e não pôde acabar.'

31Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? 32Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz. 33Assim, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.»

Mensagem

Aprofundando o ensinamento sobre o discipulado, Jesus expõe aqui as condições para um verdadeiro seguimento. À primeira vista, a leitura pode chocar-nos! Pode até parecer que Jesus esteja a ensinar algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos. Isso especialmente se a tradução da nossa bíblia fala que nós devemos “odiar” os nossos pais e família (uma tradução literalmente correta). Mas aqui estamos novamente diante do problema das culturas e das línguas. Pois, este texto traz-nos um “semitismo”, ou seja, uma expressão de uma língua semita (no caso de Jesus, o aramaico, embora Lucas escreva em grego) que tem que ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua expressa. O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que não tinham a mesma força que têm em português. Realmente o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”. Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses: “Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo” (v. 26).

Jesus quer deixar bem claro - como faz muitas vezes “na caminhada” - que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias. Não só renúncia do mal e do pecado, mas renúncia de coisas altamente positivas em si; não renúncia por renunciar, mas em vista de um bem maior - o Reino de Deus, o único bem que pode satisfazer plenamente os anseios mais profundos do coração humano. Por isso, a vinda de Jesus pode ser vista como a crise escatalógica última - pois põe todos nós diante da opção mais fundamental - quais são os valores reais da nossa vida?

No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes, onde tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados, e a subjectividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa como contra-cultural. Pois Jesus convida-nos a definir os valores mais profundos da nossa vida, e insiste que nada, por mais valioso que seja, possa ser mais importante do que a dedicação total ao Reino. Claro, ele não obriga, estamos livres para recusar esta exigência, mas então não seremos discípulos d’Ele! Aqui põe em cheque a vivência do cristão que “não é frio nem quente, mas morno”, e por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca” (Ap 3 16).

O tema da cruz reaparece aqui, e de novo lembramos que “carregar a cruz” não é de maneira alguma simplesmente “sofrer”. É a consequência de uma coerência com o projecto e a proposta de vida de Jesus. É condição imprescindível para quem quer ser discípulo d’Ele: “Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v 27). Podemos dizer que, se o trecho que precede este texto (vv 15-24, “Um rei fez um grande banquete”) enfatiza a gratuidade do chamamento da parte de Deus, esses versículos salientam o outro lado da medalha: a resposta incondicional dos discípulos. Todo o Evangelho de Lucas, como também os outros, deixa bem claro que esta resposta é a meta da nossa vida. Ninguém começa a caminhada com total dedicação ao Reino, mesmo que pense que faz! É na caminhada de anos, com as nossas incoerências, tropeços, erros, e traições, que a gente aprende a ser discípulo/a. A experiência de Pedro e dos Doze que nos diga!

As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do rei que vai à guerra - ensinam-nos a necessidade de reflexão antes da acção. Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem reflectir sobre o preço a pagar. A situação triste do construtor falido e do rei derrotado são símbolos da situação do discípulo que desistiu “pelo caminho”.

A reflexão sobre as exigências do discipulado pode desanimar-nos diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser que reflictamos também sobre a gratuidade de Deus que não nos abandona, mas nos ama como somos e nos dará forças para a caminhada. Assim foi a experiência do grande discípulo Paulo, que após longos anos de experiência, incluindo as maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos, pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto... Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero” (Rm 7, 15s). Mas, mesmo assim, reconhecendo os fracassos e falhas na sua caminhada de discípulo, exclama com alegria: “Portanto com muito gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 9s).

Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes ao seguimento de Jesus, ele também fez a experiência da graça de Deus: “Para você, basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder” (2 Cor 12,9).

Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança, pois ele nos dará a graça necessária para a caminhada. Basta querer e pedir! (Tomaz Hughes).

Aprofundamento

Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele «odiar» (miséô). É óbvio que não se trata de ódio em sentido próprio. Colidiria, por exemplo, com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico, refere a «honra devida ao pai e à mãe». O «odiar» acima referido é, na verdade, a tradução do modo de dizer aramaico, hebraico e semítico em geral, línguas que não têm outro verbo para dizer «preferir». Vê-se melhor com exemplos: em Génesis 29,31, lê-se literalmente: «O Senhor viu que Lia era odiada», e em Génesis 29,33, após ter concebido Simeão, lê-se literalmente: «O Senhor viu que eu era odiada». Em Deuteronómio 21,15-17, lê-se literalmente: «Se forem para um homem duas mulheres, e ele amar uma e odiar a outra, e gerarem para ele filhos a que é amada e a que é odiada, e se for o filho primogénito da odiada…». Nos dois textos do Génesis, a locução era odiada aparece sempre traduzida por não era amada. No texto do Deuteronómio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e a mulher odiada, a mulher odiada é a não amada ou de que não gosta. Portanto, é facilmente compreensível que o sentido do texto acima não passa por «odiar» a família ou a própria vida, mas por alguém «preferir» ou «pôr antes» do seguimento de Jesus a família, a própria vida ou os bens. (António Couto).

 
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22º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

28 de Agosto de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 14, 1. 7-14)

1Naquele tempo, Jesus entrou a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição. Todos o observavam. 7Observando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, disse-lhes esta parábola: 8«Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, 9venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: 'Cede o teu lugar a este.' Ficarias envergonhado e passarias a ocupar o último lugar.

10Mas, quando fores convidado, senta-te no último lugar; e assim, quando vier o que te convidou, há-de dizer-te: 'Amigo, vem mais para cima.' Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que estiverem contigo à mesa. 11Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.»12Disse, depois, a quem o tinha convidado: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. 13Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. 14E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»

Contexto

A parábola da escolha dos últimos lugares está situada num sábado, quando Jesus está já em Jerusalém, onde se cumprirá o mistério pascal, onde será celebrada a Eucaristia da nova aliança, à qual se seguirá o encontro com o vivente e o encargo da missão dos discípulos que continuarão a de Jesus. A luz da Páscoa permite ver o caminho que o Senhor faz percorrer a todos os que são chamados para o representar como servo, no meio da comunidade, reunida à volta da mesa. É o tema lucano da comunhão ou participação. As realidades mais formosas, Jesus realizou-as, proclamou-as e ensinou-as à mesa, num ambiente convivial.

No capítulo 14, Lucas, com a sua hábil arte de narrador, pinta um quadro, no qual sobrepõe duas imagens: Jesus, à mesa, define o rosto da nova comunidade, reunida à volta da mesa eucarística. A página divide-se em duas cenas: a primeira, o convite para comer em casa de um dos chefes dos fariseus em dia de festa, um sábado (Lc 14, 1-6); depois, o ensinamento através de duas pequenas parábolas sobre o modo de escolher os lugares à mesa e o critério para fazer os convites (Lc 14, 7-14); finalmente, a parábola dos convidados para o banquete (Lc 14, 15-16), em que aparece o problema dos convidados: quem participará na mesa do reino? Esta participação é preparada desde este momento até à hora da relação com Jesus, que reúne à sua volta as pessoas na comunidade-Igreja.

O sábado: dia de festa e de libertação

Eis o versículo de Lucas: “Tendo entrado, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição, todos o observavam” (Lc 14, 1). Jesus é convidado num dia festivo por um responsável dos movimentos dos observantes ou fariseus. Jesus está à mesa. Neste contexto acontece o primeiro episódio: a cura de um homem hidrópico, impedido por causa da sua enfermidade de participar à mesa. Os que estão marcados na sua carne são excluídos da comunidade dos observantes, como sabemos pela Regra de Qumran. O almoço do sábado tem carácter festivo e sagrado, sobretudo para os observantes da lei. No dia de sábado faz-se memória semanal do êxodo e da criação. Jesus, justamente num sábado, devolve a liberdade e a saúde plena a um homem hidrópico. Ele justifica o seu gesto perante os mestres e observantes da lei com estas palavras: “Quem de vós, se lhe cai um asno ou um boi ao poço não o tira imediatamente em dia de sábado?”. Deus interessa-se pelas pessoas e não somente pelas propriedades do homem. O sábado não se reduz unicamente a uma observância externa do descanso sagrado, mas está ao serviço do homem. Com esta preocupação orientada para o homem, apresenta-se também a chave dos critérios para convocar a esta comunidade simbolizada pela mesa: como fazer a escolha dos lugares? Quem convidar e quem participará no fim no banquete do Reino? O gesto de Jesus é programático: o sábado é feito para o homem. Ele realiza em dia de sábado o que é o significado fundamental da celebração da memória da saída do Egipto e da criação.

Sobre a escolha dos lugares e dos convidados

Os critérios para escolher os lugares não se baseiam na precedência ou sobre critérios de notoriedade, mas no agir de Deus que exalta os humildes, “porque todo aquele que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado” (Lc 14, 11). Este princípio que encerra a parábola do novo livro da urbanidade, que atira por terra os critérios mundanos, faz alusão à acção de Deus por meio do passivo “será exaltado”. Deus exalta os humildes e os pobres, assim como Jesus introduziu na mesa da festa sabática o hidrópico excluído.

A seguir aparecem os critérios acerca da escolha dos convidados. São excluídos os critérios da recomendação ou da solidariedade cooperativa: “Não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos...”. Pelo contrário, quando deres um banquete, chama os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos...” (Lc 14, 12-13). A enumeração começa com os pobres que no evangelho de Lucas são os destinatários das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o reino dos céus”. Na lista dos convidados, os pobres estão representados pelos que são fisicamente deficientes, excluídos pelas irmandades farisaicas e pelo ritual do templo (cf. Sam 5, 8; Lv 21, 18). Esta enumeração volta a ser encontrada na parábola do banquete: pobres, estropiados, coxos e cegos tomam o lugar dos convidados importantes (Lc 14, 21).

A segunda parábola acerca dos convidados fecha-se com esta proclamação: “E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos” (Lc 14, 14), no fim dos tempos, quando Deus manifestar o seu senhorio dando a vida eterna. Há uma frase de um dos comensais, neste momento, que faz o laço de união entre as duas pequenas parábolas e o banquete da grande ceia: “Um dos comensais, tendo escutado isto, disse: 'Bem-aventurado o que comer o pão do reino de Deus!'” (Lc 14, 15). Esta parábola que faz alusão à bem-aventurança do reino e à condição para participar no mesmo mediante a imagem do banquete, “comer o pão”, situa a parábola do banquete dentro do seu significado escatológico. Contudo, este banquete final, que é o reino de Deus e a plena comunhão com Ele, é preparado na comunhão actual. Jesus narra esta parábola para interpretar a convocação dos homens com o anúncio do reino de Deus através da sua situação histórica.

A palavra ilumina-me

Jesus, estando em casa do fariseu que o convidara para comer, observa como os convidados escolhem os primeiros lugares. É uma atitude muito comum na vida, não somente quando se está à mesa: cada um procura o primeiro lugar em atenção e à consideração que os outros têm por ele. Todos, começando por nós mesmos, temos experiência disto. Mas devemos tomar cuidado porque as palavras de Jesus, que exortam a não procurar o primeiro lugar, não são simplesmente palavras de urbanidade: elas são uma regra de vida. Jesus esclarece que é o Senhor quem dá a cada um a dignidade e a honra e não somos nós que a damos a nós mesmos, talvez presumindo dos nossos próprios méritos. Como fez nas bem-aventuranças, Jesus deita por terra o juízo e o comportamento deste mundo. O que se reconhece pecador e humilde, será exaltado por Deus, o que, pelo contrário, pretende que lhe sejam reconhecidos os seus méritos e procura os primeiros lugares, arrisca auto-excluir-se do banquete.

“Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: 'Cede o teu lugar a este.' Ficarias envergonhado e passarias a ocupar o último lugar” (Lc 14, 8-9). Parece que Jesus joga com as tentativas infantis dos convidados que se preocupam em alcançar a melhor posição; mas, a sua intenção é muito mais séria. Falando aos mestres de Israel, mostra qual é o poder que edifica as relações do reino: “O que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado” (Lc 14, 11). Jesus mostra-lhes “o bom uso do poder”, fundado na humildade. É o mesmo poder que Deus introduz na humanidade através da encarnação: “Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil 2, 6-8). Esta kenosis gloriosa do Filho de Deus “tem a capacidade” de curar, reconciliar e libertar toda a criação. A humildade é a força que edifica o reino e a comunidade dos discípulos, a Igreja.

Palavra para o caminho

 “Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante que tu; então, aquele que vos convidou a ambos terá de te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar”. Jesus não quer que soframos uma humilhação!

Assistimos, por vezes, a uma corrida desenfreada na comunidade cristã pelos primeiros lugares. É uma luta – para alguns de vida ou de morte – em que se recorre a todos os meios: a intriga, a exibição, a defesa feroz do lugar conquistado, a humilhação de quem faz sombra ou incomoda… Para Jesus, as coisas são bastante claras: esta lógica não tem nada a ver com a lógica do “Reino”; quem prefere esquemas de superioridade, de prepotência, de humilhação dos outro (Jesus não quer que soframos uma humilhação! Não vai longe o tempo em que, na Igreja, se dizia: “Para crescer em humildade, é preciso suportar humilhações!”), de ambição, de orgulho, está a impedir a chegada do “Reino”. Atenção: isto talvez não se aplique só àquela pessoa da nossa comunidade que detestamos; isto talvez se aplique também em maior ou menor grau, a mim próprio.

“Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos”. Por esta lógica simétrica [hoje convido-te eu a ti; amanhã convidas-me tu a mim], os pobres ficam sempre de fora! A assimetria do Reino de Deus vira tudo do avesso e ao contrário: “convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que te retribuir” (Lucas 14,14). É por esta brecha de GRAÇA aberta no nosso quotidiano, que entra Deus e o mundo novo de Deus, diz Jesus.

Devemos escutar os apelos evangélicos do Papa Francisco na pequena ilha de Lampedusa (Itália): “A cultura do bem-estar faz-nos insensíveis aos gritos dos outros”, “Caímos na globalização da indiferença”, “Perdemos o sentido da responsabilidade”.

O caminho da gratuidade é, quase sempre, difícil. É necessário aprender coisas como estas: dar sem esperar muito,  perdoar sem exigir, ser paciente com as pessoas pouco agradáveis, ajudar pensando somente no bem do outro.

Jesus atreve-se a dizer ao fariseu que o convidou: “Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir”. Esta bem-aventurança ficou tão esquecida que muitos cristãos jamais ouviram falar dela. No entanto, contém uma mensagem muito querida para Jesus: “Felizes os que vivem para os outros sem receber recompensa. O Pai do céu os recompensará”.

 
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21º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

21 de Agosto de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 13, 22-30)

22Naquele tempo, Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. 23Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes: 24«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: 'Abre-nos, Senhor!' Mas ele há-de responder-vos: 'Não sei de onde sois.' 26Começareis, então, a dizer: 'Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.' 27Responder-vos-á: 'Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.' 28Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora. 29Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, sentar-se à mesa no Reino de Deus. 30E há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.»

Nós que nos considerávamos dentro e seguros...

A palavra do Evangelho proclamado neste Domingo XXI (Lucas 13,22-30) se dirige fortemente a NÓS, os que nos consideramos de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos» (Lucas 13,26)! É como quem diz: frequentámos a Igreja e os sacramentos, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua palavra, conhecemos-te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez… beatos!

Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no banquete do Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!». É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

Salta à vista que o texto de Lucas 13,22-30 se divide claramente em duas partes; Lucas 13,22-24 e Lucas 13,25-30. A primeira parte abre com o aceno ao caminho crucial de Jesus, que, desde Lucas 19,51, se dirige sem hesitação para Jerusalém. Lucas 13,22 apresenta-nos a segunda menção deste caminho para Jerusalém. É neste contexto do caminho, que surge a nossa pergunta: «Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?» (Lucas 13,23). Como é seu hábito, Jesus não responde directamente «sim» ou «não». Em vez disso, deixa uma forte interpelação (Lucas 13,24) e conta uma parábola (Lucas 13,25-30).

Eis a interpelação: «Lutai com todas as forças por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). O verbo empregado implica luta e empenho extremo, não assim assim. A parábola é ainda mais desconcertante para nós. É mesmo tão desconcertante, que corremos o risco de nem sequer levarmos a sério o que ouvimos. Da porta estreita, Jesus passa para a casa e para o dono da casa que fecha a porta (Lucas 13,25). E, pelos vistos, nós não estamos dentro da casa, estamos fora, a bater à porta e a gritar: «Senhor, abre-nos!». E, de dentro, vem a resposta do dono da casa: «Não vos conheço!» (Lucas 13,25).

Ao contrário, e para novo e ainda maior espanto nosso, NÓS, de fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do norte, do sul, do nascente e do poente. E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do grupo coral e não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao dono da casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial?

É neste caminho que acontecem coisas importantes, e não podemos andar nele distraídos, inactivos, de braços caídos. A página de Mateus 25 explicita bem o tom do Evangelho de hoje: «Afastai-vos de MIM (…), pois tive fome e não ME destes de comer, tive sede e não ME destes de beber, era estrangeiro e não ME acolhestes, nu e não ME vestistes, estive doente e na prisão e não ME visitastes. (…) Em verdade vos digo: cada vez que não o fizestes a UM destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO FIZESTES”» (Mateus 25,42-43.45).

Salta à vista que é urgente começar AGORA a compreender que é preciso validar, com a vida, o bilhete que dá acesso à mesa do Reino dos Céus. A compreender e a fazer. É a inacção que nos desclassifica. Jesus manda-nos lutar: «Lutai com todas as forças, até agonizar, por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz acepção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Actos dos Apóstolos 10,34-35).

Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!». O cristão meramente praticante é aquele que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: hoje cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que não pára de dizer: «Sim, fiz alguma coisa; mas ainda tenho tanta coisa para fazer!».

Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados! E não vos esqueçais que o amor verdadeiro (agápê) é uma luta (agôn), sendo que agápê e agôn têm a mesma etimologia (António Couto).

Palavra para o caminho

Segundo Lucas, um desconhecido interrompe a marcha de Jesus e pergunta-lhe pelo número dos que se salvarão: serão poucos?, serão muitos?, salvarão-se todos?, só os justos? Jesus não responde directamente à sua pergunta. O importante não é saber quantos se salvarão. O decisivo é viver com atitude lúcida e responsável para acolher a salvação desse Deus Bom. Jesus recorda-o a todos: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita». 

Desta forma, corta pela raiz a reacção de quem entende a Sua mensagem como um convite ao laxismo. Seria escarnecer do Pai. A salvação não é algo que se recebe de forma irresponsável de um Deus permissivo. Não é tampouco o privilégio de alguns eleitos. Não basta ser filhos de Abraão. Não é suficiente ter conhecido o Messias.

Para acolher a salvação de Deus é necessário esforçar-nos, lutar, imitar o Pai, confiar no Seu perdão. Jesus não reduz as Suas exigências: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso»; «Não julgueis e não sereis julgados»; «Perdoai setenta vezes sete» como o vosso Pai; «Buscai o reino de Deus e a sua justiça».

Para entender correctamente o convite para «entrar pela porta estreita», temos de recordar as palavras de Jesus que podemos ler no evangelho de João: «Eu sou a porta; se alguém entrar por mim será salvo» (João 10,9). Entrar pela porta estreita é «seguir Jesus»; aprender a viver como Ele; tomar a sua cruz e confiar no Pai que o ressuscitou.

Neste seguir a Jesus, nem tudo vale, nem tudo é igual; temos de responder ao amor do Pai com fidelidade. O que Jesus pede não é rigor legalista, mas amor radical a Deus e ao irmão. Por isso, a Sua chamada é fonte de exigência, mas não de angústia. Jesus Cristo é uma porta sempre aberta. Ninguém a pode fechar, só nós se nos fechamos ao Seu perdão (J. A. Pagola).

 
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