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Lectio Divina
XVII Domingo do Tempo Comum - Ano C PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

24 de Julho de 2016

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Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 11, 1-13)

1Sucedeu que Jesus estava algures a orar. Quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos.» 2Disse-lhes Ele: «Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; 3dá-nos o nosso pão de cada dia;4perdoa os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixes cair em tentação.»5Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele a meio da noite e lhe disser: 'Amigo, empresta-me três pães, 6pois um amigo meu chegou agora de viagem e não tenho nada para lhe oferecer', 7e se ele lhe responder lá de dentro: 'Não me incomodes, a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados; não posso levantar-me para tos dar'. 8Eu vos digo: embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos, levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.»

9«Digo-vos, pois: Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; 10porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á.11Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente12Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?13Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!»

Uma chave de leitura

Esta passagem apresenta a oração como uma das exigências fundamentais e um dos pontos qualificadores da vida do discípulo de Jesus e da comunidade dos discípulos.

vv. 1-4: Jesus, como os grandes mestres religiosos do seu tempo, ensina aos seus seguidores uma oração que os caracteriza: o “Pai nosso”.

Sucedeu que Jesus estava algures a orar. Quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar». Jesus afasta-se para orar. Fá-lo com frequência segundo a narração de Lucas (5, 16), sobretudo nos momentos imediatos a acontecimentos importantes: antes de constituir o grupo dos Doze (6, 12-13); antes de provocar a confissão de fé de Pedro (9, 18-20); antes da transfiguração (9, 28-29) e finalmente antes da paixão (22, 40-45). Jesus ao rezar provoca nos discípulos o desejo de rezar como Ele. É uma oração que tem reflexos exteriores verdadeiramente especiais, que certamente se repercutem na pregação. Os discípulos compreendem que uma tal oração é muito diferente da que é ensinada pelos outros mestres espirituais de Israel e, por isso, pedem que lhes ensine a sua oração. Deste modo, a oração que Jesus transmite aos seus converte-se para eles na expressão característica do seu ideal e da sua identidade, no modo de relacionar-se com Deus e entre eles.

Pai. A primeira coisa que Jesus ensina a propósito da oração é chamar a Deus com o nome de “Pai”. Diferentemente de Mateus, Lucas não acrescenta o adjectivo “nosso”, colocando menos o acento sobre o aspecto comunitário da oração cristã; o facto de invocar o mesmo Pai constituiu o melhor laço da unidade comunitária dos discípulos. Para um judeus do século I, a relação com o pai era feita de intimidade mas também de reconhecimento da soberania sobre cada membro da família. Isto reflecte-se no uso cristão de chamar a Deus “pai”, mas não há testemunhos seguros de que os judeus da época usassem chamar a Deus com o confidencial “abba”. Este termo não é outra coisa senão a enfatização do aramaico “ab”, termo familiar e respeitoso usado para o pai terreno. O facto de Jesus o usar para se dirigir ao Pai chamando-o “abba” manifesta o novo tipo de relação que Ele e também os seus discípulos instauram com Deus: uma relação de proximidade, familiaridade e confiança.

Segundo o esquema clássico da oração bíblica, a primeira parte do “Pai nosso” orienta directamente para Deus enquanto a segunda parte refere-se às necessidades do homem relativamente à vida terrena.

Pai, santificado seja o teu Nome. Na mensagem dos profetas é o próprio Deus quem “santifica o próprio Nome” (ou seja: Ele mesmo: “o nome da pessoa”) intervindo com poder na história humana, ainda que Israel e os outros povos o tenham desonrado. Lemos em Ezequiel: “E nas nações onde chegaram, profanaram o meu santo nome, fazendo que se dissera a propósito deles: 'São o povo de Yahvé e tiveram que sair da sua terra'. Mas eu tive consideração pelo meu santo nome que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi. Por isso diz à casa de Israel: 'Assim diz o Senhor Yahvé: Não faço isto por consideração a vós mesmos, casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que vós profanastes entre as nações para onde fostes. Eu santificarei o meu grande nome profanado entre as nações, profanado ali por vós mesmos. E as nações saberão que eu sou Yahvé – oráculo do Senhor Yahvé – quando eu por meio de vós, manifestar à vista deles a minha santidade'. Tomar-vos-ei de entre as nações, recolher-vos-ei de todos os países e vos levarei à vossa terra!” (36, 20-24: cf. Dt 32, 51; Is 29, 22; Ez 28, 22-25).

Em Lc 11, 2 o sujeito do verbo “santificar” é o próprio Deus: estamos perante um “passivo” teológico. Isto significa que a primeira petição desta oração não se refere ao homem e ao seu indiscutível dever de honrar e respeitar a Deus, mas ao próprio Deus Pai que deve fazer de modo a dar-se a reconhecer como tal por todos os homens. Pede-se, portanto, a Deus que se revele na sua soberana grandeza: é uma invocação de tonalidade escatológica, estreitamente ligada com a seguinte.

Venha o teu Reino. O grande acontecimento anunciado por Jesus é a proximidade definitiva do Reino de Deus aos homens: “sabei que o reino de Deus está próximo” (Lc 10, 11; Mt 10, 7). A oração de Jesus e do cristão está em perfeita sintonia com este anúncio. Pedir na oração que este Reino esteja cada vez mais visivelmente presente, obtém dois efeitos: o que reza confronta-se com o desígnio escatológico de Deus, mas coloca-se coloca-se também numa radical disponibilidade em relação a esta Sua vontade de salvação.

Por isso, se é verdade que a Deus pode e deve-se manifestar as nossas necessidades, é também verdade que a oração cristã não está dirigida e finalizada no homem, não é uma petição egoísta do homem, mas o seu fim é o de glorificar a Deus, invocar a sua total proximidade, a sua completa manifestação: “Procurai o reino de Deus e estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Lc 22, 31).

Dá-nos o nosso pão de cada dia. Passamos à segunda parte da oração do Senhor. O orante colocou já as bases para uma correcta e confidencial relação com Deus. Já vive na lógica da proximidade de Deus que é Pai e os seus pedidos brotam deste modo de viver. O pão é o alimento necessário, o elemento primário, tanto no tempo de Jesus como no nosso (ou quase). Contudo, aqui “pão” indica o elemento em geral e também, mais amplamente, todo o género de necessidade material dos discípulos.

O termo português “pão” é a tradução do grego “epiouson”, que encontramos também na versão de Mateus, e também noutro texto grego bíblico ou profano. Isto torna muito difícil atribuir-lhe uma versão verdadeiramente atendível, já que se deve optar ou traduzi-lo com base no contexto. O que é verdadeiramente claro, é que o discípulo que ora deste modo está consciente de não ter muitas seguranças materiais em relação ao futuro, nem sequer o alimento diário: ele, na verdade “abandonou tudo” para seguir Cristo (cf. Lc 5, 11). Trata-se de uma situação característica dos cristãos das primeiras gerações, mas não se diz que a oração pelo “pão” não possa servir para os cristãos do nosso tempo: todos somos chamados a receber tudo da Providência, como um dom gratuito de Deus, ainda que provenha do trabalho das nossas mãos; a isto, por exemplo, nos chama constantemente a dinâmica do rito eucarístico do ofertório: oferece-se a Deus algo que se sabe bem que foi recebido d'Ele, para o receber novamente das suas mãos. Isto significa também que o cristão de todos os tempos não deve ter nenhuma preocupação pela própria situação material, porque o Pai cuida de cada um de nós: “Não vos preocupeis com a vossa vida, com o que haveis de comer; nem com o vosso corpo, com o que haveis de vestir. A vida vale mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestido” (Lc 12, 22-23).

Perdoa os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende. Imerso na salvação outorgada pelo Pai com a chegada do seu Reino, o cristão sabe-se perdoado antes de qualquer culpa. Isto coloca-o na condição e na obrigação de perdoar aos outros, consentindo a Deus conceder o perdão definitivo para o crente ser capaz de perdoar (cf. Mt 18, 13-35). Estamos sempre a galope entre o reino “já” presente e o reino “ainda não” realizado. O comportamento do cristão que não estivesse em sintonia com a salvação já recebida de Deus em Cristo, tornaria vão para si o perdão já recebido. Eis porque Lucas diz: “porque também nós perdoamos”: não pretende colocar o homem no mesmo plano de Deus, mas a consciência de que o homem pode arruinar a obra salvífica de Deus, na qual o Pai o quis colocar como elemento activo, para estender a todos o seu perdão sempre gratuito.

vv. 5-8. Mais do que uma parábola, trata-se de uma semelhança, porque ilustra um comportamento típico que suscita no auditório uma resposta espontâneamente unívoca. No nosso caso, à pergunta “quem de vós...?” (v. 5) seria difícil encontrar quem não respondesse de imediato “ninguém!”. Com efeito o relato quer mostrar-nos o modo de agir de Deus através do filtro do agir humano, que é uma má cópia de como age o Pai.

A cena está enquadrada no mundo rural da Palestina. Geralmente quem desejasse empreender uma viagem punha-se a caminho ao cair do sol, para evitar as consequências das altas temperaturas diurnas. Nas casas palestinenses da época existia unicamente uma sala que era usada por toda a família, tanto para as actividades diurnas como para o descanso nocturno, bastando para isso estender unicamente umas mantas no chão. O pedido do homem que se encontra em plena noite recebendo um hóspede inesperado reflecte o sentido da hospitalidade dos povos antigos, e o pedido dos “três pãos” (v. 5) explica-se pelo facto de que aquela era precisamente a quantidade de pão que constituía a porção normal de um adulto.

O homem que de noite vai ter com o amigo é a figura do discípulo de Cristo, chamado a orar a Deus sempre e em toda a parte, com confiança de ser escutado, não porque o cansou, mas porque Ele é um Pai misericordioso e fiel às promessas. A parábola, serve, portanto, para explicar com que disposição o verdadeiro discípulo deve rezar o “Pai nosso”: com uma confiança total em Deus, Pai amável e justo, confiança que leva a uma certa desfaçatez, ou seja, a “molestá-lo” em qualquer momento e a insistir perante Ele de qualquer modo, com a certeza de ser escutado.

A oração como conduta fundamental de todo o cristão que queira ser verdadeiramente discípulo de Cristo é muito bem apresentada pelo apóstolo Paulo: “Orai sem cessar; em tudo dai graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus” (1Ts 5, 17-18); “Rezai incessantemente com toda a espécie de orações e de súplicas, orai em todo o tempo no Espírito; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos” (Ef 6, 18).

vv. 9-13. A última parte do nosso evangelho é propriamente didáctica. Volta a retomar os temas dos versículos anteriores, realçando a confiança que deve caracterizar a oração cristã, baseada na sólida rocha da fé. É a confiança do orante que abre as portas do coração do Pai e é precisamente a sua identidade de Pai que gosta de levar nos braços os seus filhos e consolá-los com a ternura de uma mãe (cf. Is 66, 12-13) que deve alimentar a confiança dos cristãos.

Deus é Pai que gosta de receber os pedidos dos seus filhos, porque isto demonstra a confiança n'Ele, aproximando-se d'Ele com um coração disponível, impelindo-os a olhar o rosto manso e amável de Deus, porque fazendo assim (ainda que indirectamente), manifestam que acreditam que Ele é o verdadeiro Senhor da história e do mundo e, sobretudo, porque isto Lhe dá o modo de lhes demonstrar abertamente o seu amor delicado, atento, livre e unicamente orientado para o bem dos seus filhos. O que desgosta o Pai não é a insistência ou a indiscrição dos filhos em pedir mas o facto de que não peçam o suficiente, permanecendo em silêncio ou quase indiferentes em relação a Ele, permanecendo longe sob o pretexto de mil desculpas de respeito, “Ele já sabe tudo”, etc.

Deus é um Pai que sabe prover a tudo o que se refere à existência quotidiana dos seus filhos, mas, também, sabe o que é bom para eles e sabe-o melhor do que nós. É por isso que Ele concede muitos bens aos cristãos e, sobretudo, o dom por excelência: o Espírito, o único bem verdadeiramente indispensável nas nossas vidas, aquele que, deixando-o agir, nos torna cada vez mais autenticamente filhos no Filho.

 
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15º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

10 de Julho de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 10, 25-37)

25Naquele tempo levantou-se um doutor da Lei e perguntou a Jesus para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»27O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo.32Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.' 36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»37Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

Comentário

O texto da parábola começa com um diálogo entre um doutor da lei que se levanta para pôr à prova o Senhor dizendo: “Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”. Jesus não responde mas faz-lhe outra pergunta: “O que é que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10, 26). Devemos considerar este diálogo como um confronto entre dois mestres, muito frequente naquela época, como modo de clarificar e aprofundar alguns pontos da lei. Mesmo aqui prevalece o tom polémico, não como no texto que Marcos nos apresenta, onde a pergunta é feita por um escriba que “os tinha visto discutir (Jesus e os saduceus) e, vendo como Jesus lhes tinha respondido bem” (Mc 12, 28), aproxima-se para perguntar. Este escriba encontra-se disponível para escutar Jesus, de modo que o Senhor termina o diálogo dizendo: “Não estás longe do reino de Deus” (Mc 12, 34).  Por sua vez Mateus coloca esta pergunta no contexto de uma discussão entre Jesus e os saduceus estando presentes alguns fariseus que “tendo ouvido dizer que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo e um doutor da lei interrogou-o para o pôr à prova...” (Mt 22, 34-35). Jesus responde citando o mandamento do amor, que se encontra nos livros do Deuteronómio e do Levítico. Só em Lucas a pergunta não é feita acerca de qual é o maior mandamento, mas como herdar a vida eterna, uma pergunta que os sinópticos colocam na boca de um jovem rico (Mt 19, 16; 10, 17; Lc 18, 18). Tal como em Marcos, também aqui Jesus louva o doutor da lei: “Respondeste bem; faz isto e viverás” (Lc 10, 28). Mas o doutor não fica totalmente contente com a resposta de Jesus e “querendo justificar-se” (Lc 10, 29) por ter feito a pergunta,  pede-lhe que lhe diga quem é o seu próximo. Esta segunda pergunta faz de introdução e liga a seguinte parábola com o diálogo entre Jesus e o doutor da lei. Podemos ver uma inclusão entre o versículo 28 que fecha a disputa e nos prepara para a narração da parábola e o versículo 37 que encerra definitivamente o diálogo e a parábola. Neste versículo, Jesus repete ao doutor da lei que dissera que o próximo era aquele “que teve compaixão”: “Vai e faz o mesmo”. Esta frase de Jesus recorda-nos as palavras que pronunciou na última ceia, como nos conta João, depois de lavar os pés aos discípulos, Jesus convida-os a fazer o mesmo (Jo 13, 12-15). Na última ceia Jesus deixa aos seus o mandamento do amor, entendido como disponibilidade para “dar a vida”, para nos amarmos como o Senhor nos amou (Jo 15, 12-14).

Este mandamento vai para além da observância da lei. O sacerdote e o levita observaram a lei, não se aproximando do pobre ferido e deixado quase morto, para não se tornarem  impuros (Lev 21, 1). Jesus vai para além da lei e quer que os seus discípulos façam como ele. “Por isto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). Para o discípulo de Jesus, a mera filantropia não é suficiente, o cristão é chamado a algo mais que o torna semelhante ao mestre, como diz o apóstolo Paulo: “Agora, nós temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2, 16). “Porque o amor de Cristo nos absorve completamente, ao pensar que um morreu por todos” (2Cor 5, 14).

“Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”

Jesus era a misericórdia em pessoa. Como o samaritano da parábola, tinha o coração na miséria dos outros. Ele conhecia de perto a miséria e o sofrimento do seu povo. Nas parábolas ele menciona a angústia dos trabalhadores desempregados que viviam à espera de um biscate e nem sempre o conseguiam (Mt 20,1-6); a situação do povo cheio de dívida e ameaçado de ser escravizado (Mt 18,23-26); o desespero que chegava a levar o pobre a explorar seu próprio companheiro (Mt 18,27-30; Mt 24,48-50); a extravagância dos ricos que ofendia os pobres (Lc 16,19-21); a luta da viúva pobre pelos seus direitos (Lc 18,1-8). Jesus sabia o que se passava no seu país. A miséria do povo o rodeava e enchia o seu coração.

O que Jesus mais fazia era atender às pessoas que o procuravam em busca de alguma ajuda ou alívio. Ele fazia isto desde pequeno. Lá em Nazaré, como todo mundo, ele trabalhava na roça e, além disso, ajudava o povo como carpinteiro. Carpinteiro era aquela pessoa bem prática do povoado a quem todos recorriam para resolver seus pequenos problemas domésticos: mesa quebrada, telha estragada, arado desregulado, etc. Este seu jeito natural de servir aos outros, Jesus o deve ter aprendido de sua mãe que chegou a viajar mais de 100 quilómetros só para ajudar sua prima idosa Isabel, no primeiro parto (Lc 1,36-39.56-57). Jesus dizia de si mesmo, resumindo o sentido da sua vida: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

Sim, Jesus era a misericórdia em pessoa. Certa vez, ele queria descansar um pouco e foi de barco para o outro lado do lago (Mc 6,31). O povo soube e foi a pé na frente dele e ficou esperando por ele na praia (Mc 6,33). Vendo o povo, Jesus esqueceu o descanso e dizia: “Tenho dó desse povo. São como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Outra vez, em Cafarnaum, terminado o sábado, no momento de aparecer a primeira estrela no céu, o povo levou a ele todos os doentes da cidade, e ele curou a todos (Mc 1,32-34). Era tanta gente que o procurava, que nem sobrava tempo para ele comer (Mc 3,20; Mt 6,31). O evangelho conta muitos episódios desta atenção misericordiosa de Jesus para com as pessoas: com a mulher adúltera (Jo 8,11), com o paralítico (Mc 2,9), a moça pecadora (Lc 7,47), o bom ladrão (Lc 23,34). Perdoou até o soldado que o estava matando (Lc 23,34).

Pedro, ouvindo Jesus falar tanto em misericórdia e perdão, perguntou: “Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21) O número sete significava a totalidade. No fundo, Pedro pergunta: “Então devo perdoar sempre?” E Jesus responde: “Não lhe digo que até sete vezes, Pedro, mas até setenta vezes sete”. Ou seja: “Não lhe digo até sempre, mas até setenta vezes sempre!”

O evangelho conta também as brigas e discussões que Jesus sustentava para defender os sofredores contra as agressões injustas das autoridades religiosas. Defendeu a mulher que vivia curvada há 18 anos e que foi agredida pelo coordenador da sinagoga (Lc 13,10-17). Defendeu a moça que foi agredida como pecadora na casa de um fariseu (Lc 7,36-50). Defendeu as mães que queriam uma bênção para suas crianças, contra a má vontade dos discípulos (Mt 19,13-15). Defendeu os discípulos quando criticados por arrancarem espigas em dia de sábado (Mt 12,1-8). Defendeu a mulher acusada de adultério por alguns fariseus (Jo 8,1-11). Defendeu e curou o rapaz com mão seca dentro da sinagoga em dia de sábado (Mc 3,1-6). Acolhia os leprosos, os doentes, os cegos, os coxos, todos e todas que o procuravam. E ele explicou o motivo que o levava a ter esse seu comportamento. Ele disse: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7; 23,23). Agindo assim, Jesus irradiava para os outros o amor solidário que ele mesmo recebia do Pai. Colocava em prática o que ensinava aos outros: “Sede misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). (Carlos Mesters, O. Carm.).

A palavra "samaritano"

A palavra "samaritano" vem de Samaria, capital do reino de Israel no Norte. Depois da morte de Salomão, em 931 antes de Cristo, as dez tribos do Norte se libertaram-se do reino de Judá no Sul e formaram um reino independente (1Rs 12,1-33). O Reino do Norte sobreviveu durante uns 200 anos. Em 722, o seu território foi invadido pela Assíria. Grande parte da sua população foi deportada (2Rs 17,5-6) e gente de outros povos foi trazida para a Samaria (2Rs 17,24). Houve mistura de povos e de religiões (2Rs 17,25-33). Desta mistura nasceram os samaritanos. Os judeus do Sul desprezavam os samaritanos como infiéis e adoradores de falsas divindades (2Rs 17,34-41). Chegaram ao ponto de dizer que ser samaritano era coisa do diabo (Jo 8,48). Muito provavelmente, a causa deste ódio não era só étnica e religiosa. Era também um problema político-económico, ligado à posse da terra. Esta rivalidade perdurava ainda no tempo de Jesus. 

Palavra para o caminho

Recordemos que a pergunta inicial era: “o que fazer para alcançar a vida eterna”. A conclusão é óbvia: para alcançar a vida eterna é preciso amar a Deus e amar o próximo. «Para os cristãos não há “pessoas estranhas”. O nosso próximo é todo aquele que está diante de nós e tem necessidade de nós; não importa se é nosso familiar ou não, se nos “agrada” ou não, se é“moralmente digno” de ajuda» (Santa Teresa Benedita da Cruz).

Sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: “Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá compaixão de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna”.

 
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14º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

3 de Julho de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 10, 1-12.17-20) 

1Naquele tempo, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. 5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.' 10Mas, em qualquer cidade em que entrardes e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: 11'Até o pó da vossa cidade, que se pegou aos nossos pés, sacudimos, para vo-lo deixar. No entanto, ficai sabendo que o Reino de Deus já chegou.'»

17Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome!» 18Disse-lhes Ele: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. 19Olhai que vos dou poder para pisar aos pés serpentes e escorpiões e domínio sobre todo o poderio do inimigo; nada vos poderá causar dano. 20Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.»

Chave de leitura

A pregação de Jesus atrai muita gente (Mc 3, 7-8). À sua volta forma-se uma pequena comunidade.  Primeiro, duas pessoas (Mc 1, 16-18); depois outras duas (Mc 1, 19-20); depois, doze (Mc 3, 13-19); e agora, no nosso texto, mais de setenta e duas pessoas (Lc 10, 1). A comunidade vai crescendo. Uma das coisas que Jesus mais insiste é a vida comunitária. Ele mesmo deu o exemplo. Já não quer trabalhar sozinho. O que primeiramente faz no início da sua pregação na Galileia é chamar pessoas para que estejam com ele e o ajudem na sua missão (Mc 1, 16-20; 3, 14). O ambiente de fraternidade que nasce à volta de Jesus é um ensaio do Reino, uma amostra da nova experiência de Deus como Pai. E se Deus é Pai e Mãe, então somos todos uma família, irmãos e irmãs. Assim nasce a comunidade, a nova família (cf. Mc 3, 34-35). O Evangelho deste Domingo apresenta normas práticas para orientar os setenta e dois discípulos no anúncio da Boa Nova do Reino e na reconstrução da vida comunitária.

Anunciar a Boa Nova do Reino e reconstruir a comunidade são duas faces da mesma moeda. Uma sem a outra não existe e não se entende. No decurso da leitura do texto procura descobrir a ligação que existe entre a vida em comunidade e o anúncio do Reino de Deus.

Comentário do texto

Lucas 10, 1: A missão. Jesus envia os discípulos aos lugares aonde precisamente ele deve ir. O discípulo é o porta-voz de Jesus. Não é o dono da Boa Nova. Jesus envia-os dois a dois. Assim favorece a ajuda mútua, e, deste modo, a missão não é individual, mas comunitária. Duas pessoas representam melhor a comunidade.

Lucas 10, 2-3: A corresponsabilidade: O primeiro dever é orar para que Deus envie operários. Todos os discípulos de Jesus devem sentir-se responsáveis pela missão. Por isso devem orar ao Pai pela continuidade da missão. Jesus envia os seus discípulos como cordeiros para o meio de lobos. A missão é uma tarefa difícil e perigosa. O sistema em que viviam e que ainda continuamos a viver era e continua a ser contrário à reorganização das pessoas em comunidades vivas. Quem, como Jesus, anuncia o amor numa sociedade organizada a partir do egoísmo individual e colectivo, será cordeiro no meio de lobos, será crucificado.

Lucas 10, 4-6: A hospitalidade. Os discípulos de Jesus não podem levar nada, nem bolsa, nemsandálias. Só devem levar a paz. Isto significa que devem confiar na hospitalidade das pessoas. Pensa que será recebido e o povo sente-se respeitado e confirmado. Por meio desta prática os discípulos criticavam as leis da exclusão e resgatavam os antigos valores da convivência comunitária do Povo de Deus. Não saudar ninguém pelo caminho significa que não se deve perder tempo com as coisas que não pertencem à missão. É possível que seja uma evocação do episódio da morte do filho da sunamita, onde Eliseu diz ao seu criado: “Parte! Se alguém te saudar não lhe respondas!” (2 Re 4, 29), porque se tratava de um caso de morte. Anunciar a Boa Nova de Deus é um caso de vida ou de morte!

Lucas 10, 7: A partilha. Os discípulos não devem andar de casa em casa, mas permanecer na mesma casa. Isto é, devem conviver de modo estável, participar na vida e no trabalho das pessoas do lugar e viver do que recebem em troca, porque o operário merece o seu salário. Isto significa que devem ter confiança na partilha. E assim, por meio desta nova prática, eles resgatam uma das mais antigas tradições do Povo de Deus, criticando uma cultura de acumulação que marcava a política do Império Romano e anunciavam um novo modelo de convivência humana.

Lucas 10, 8: A comunhão à volta da mesa. Os discípulos devem comer o que lhes oferecerem. Quando os fariseus iam em missão, iam preparados. Levavam alforges e dinheiro para poder comprar a sua comida. Sustentavam a ideia de que não podiam confiar na comida das pessoas porque nem sempre era ritualmente “pura”. Assim as observâncias da Lei acerca da pureza legal em vez de ajudar a ultrapassar as divisões, enfraqueciam a vivência dos valores comunitários. Os discípulos de Jesus não deviam separar-se das pessoas, mas pelo contrário, deviam aceitar a comunhão à volta da mesa. No contacto com as pessoas não deviam ter medo de perder a pureza legal. O valor comunitário da convivência fraterna prevalece sobre as normas rituais. Agindo deste modo, criticavam as leis da pureza que vigoravam, e anunciavam um novo acesso à pureza, à intimidade com Deus.

Lucas 10, 9a: O acolhimento dos excluídos. Os discípulos devem ocupar-se dos enfermos, curar os leprosos e expulsar os demónios (cf. Mt 10, 8). Isto significa que devem trazer para o interior da comunidade os que foram excluídos. A prática da solidariedade critica a sociedade que exclui uma pessoa da comunidade. Assim é recuperada a antiga tradição profética do goêl. Desde os tempos mais antigos, a força do clã ou da comunidade revela-se na defesa dos valores da pessoa, da família, da posse da terra e manifestava-se concretamente cada “sete vezes sete anos” na celebração do ano jubilar (Lv 25, 8-55; Dt 15, 1-18).

Lucas 10, 9b: A vinda do Reino. Hospitalidade, partilha, comunhão à volta da mesa, acolhimento dos marginalizados (goêl) eram as quatro colunas que deviam sustentar a vida comunitária. Por causa da difícil situação causada pela pobreza, falta de trabalho, perseguição e repressão por parte dos romanos, estas colunas vieram abaixo. Jesus quer reconstruí-las e afirma que se se retornar a estas quatro exigências, os discípulos podem anunciar aos quatro ventos: O Reino dos céus está aqui! Anunciar o Reino não é, em primeiro lugar, ensinar verdades ou doutrinas, mas conduzir as pessoas a um modo novo de viver e conviver, a um modo novo de pensar e agir, partindo da Boa Nova que Jesus anuncia: Deus é Pai e, portanto, nós somos irmãos e irmãs uns dos outros.

Lucas 10, 10-12: Sacudir o pó das sandálias. Como se deve entender esta ameaça tão severa? Jesus não veio trazer uma coisa totalmente nova. Veio para resgatar os valores comunitários do passado: hospitalidade, partilha, comunhão à volta da mesa, acolhimento dos marginalizados. Isto explica a severidade contra aqueles que rejeitam a mensagem. Mas eles não recusam uma coisa nova, mas o seu passado, a própria cultura e sabedoria. O programa de Jesus apresentado aos 72 discípulos tinha como finalidade escavar na memória, resgatar os valores comunitários da mais antiga tradição, reconstruir a comunidade, renovar a aliança, refazer a vida, e fazer assim que Deus se converta de novo na grande Boa Notícia para a vida humana.

Lucas 10, 17-20: O nome escrito no céu. Os discípulos voltam da missão e reúnem-se a Jesus para avaliar o que fizeram. Começam a contar. Informam com muita alegria que, usando o nome de Jesus, conseguiram expulsar os demónios. Jesus ajuda-os a discernir. Se eles conseguiram expulsar os demónios, foi precisamente porque Jesus lhes deu o poder. Estando com Jesus nada de mal lhes poderá acontecer. E Jesus diz que o mais importante não é expulsar os demónios mas ter os seus nomes escritos no céu. Ter o próprio nome escrito no céu quer dizer que são conhecidos e amados pelo Pai. Um pouco antes Tiago e João pediram para que descesse fogo do céu para matar os samaritanos (Lc 9, 54). Agora, por causa do anúncio da Boa Nova, Satanás cai do céu (Lc 10, 18) e os nomes dos discípulos samaritanos entram no céu. Naquele tempo havia muitos que pensavam que o que era samaritano era coisa do demónio, coisa de Satanás (Jo 8, 48). Jesus muda tudo!

Sem medo da novidade

O Papa Francisco está a chamar a Igreja para sair de si mesma, esquecendo medos e interesses próprios, para se pôr em contacto com a vida real das pessoas e tornar presente o Evangelho ali onde os homens e mulheres de hoje sofrem e se alegram, lutam e trabalham.

Com a sua linguagem inconfundível e as suas palavras vivas e concretas, está a abrir os nossos olhos para nos advertir sobre o risco de uma Igreja que se asfixia numa atitude auto-defensiva: “quando a Igreja se fecha, ela adoece”, “prefiro, mil vezes, uma Igreja acidentada a uma que esteja doente por fechar-se em si mesma”.

A instrução de Francisco é clara: “A Igreja deve sair de si mesma para a periferia, para dar testemunho do Evangelho e encontrar-se com os demais”. Não está a pensar em exposições teóricas, mas em passos concretos: “Saiamos de nós mesmos para irmos ao encontro da pobreza”.

O Papa sabe o que está a dizer. Quer arrastar a Igreja actual para uma renovação evangélica profunda. Não é fácil. “A novidade dá-nos, sempre, um pouco de medo, porque sentimo-nos mais seguros, se temos tudo sob controle, se somos nós que construímos, programamos e planeamos a nossa vida segundo os nossos esquemas, seguranças e gostos”.

Porém, Francisco não tem medo da “novidade de Deus”. Na festa de Pentecostes, formulou para toda a Igreja uma pergunta decisiva que teremos de ir respondendo nos próximos anos: “Estamos decididos a percorrer caminhos novos, que a novidade de Deus nos apresenta ou entrincheiramo-nos em estruturas caducas que perderam a capacidade de resposta?”.

Não quero ocultar a minha alegria por ver que o Papa Francisco chama-nos a reavivar na Igreja o alento evangelizador que Jesus quis que animasse sempre os seus seguidores. O evangelista Lucas recorda-nos as suas instruções. "Colocai-vos a caminho". Não se deve esperar nada. Não devemos segurar Jesus dentro das nossas paróquias. Temos de dá-lo a conhecer na vida.

“Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Deve-se sair para a vida de maneira simples e humilde. Sem privilégios nem estruturas de poder. O Evangelho não se impõe à força. É difundido a partir da fé em Jesus e a confiança no Pai. 

Quando entrardes numa casa, dizei: “Paz a esta casa”. Esta é a primeira coisa. Deixai de lado as condenações, curai os enfermos, aliviai os sofrimentos que há no mundo. Dizei a todos que Deus está próximo e nos quer ver a trabalhar por uma vida mais humana. Esta é a grande notícia do Reino de Deus. (J. A. Pagola)

Palavra para o caminho

Domingo 14º do Tempo Comum, aí estão os 72 discípulos ENVIADOS por Jesus, portanto vinculados a Jesus. O número 72 traduz a universalidade: somos todos enviados por Jesus! Na mentalidade hebraica, eram 72 as nações que povoavam a terra. Assim, ao escolher um discípulo por nação, Jesus possibilita que todas as nações possam escutar o Evangelho!

O ENVIO dos 72 discípulos que hoje se apresenta diante de nós, em Lucas 10,1-20, é um exclusivo do Evangelho de Lucas e vinca bem a qualidade missionária deste Evangelho, que faz missionários, não apenas os Doze, mas todos os discípulos de Jesus! Sem equívocos: ser cristão ou discípulo de Jesus é ser missionário. Ser missionário não é uma segunda vocação, facultativa, uma espécie de adorno ou adereço que pode advir apenas a alguns cristãos. Sempre sem equívocos: SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO! É viver intensamente de Jesus e com Jesus, e partir, sair de si, para levar Jesus ao coração dos nossos irmãos. A grande Apóstola das ruas de Ivry, Madeleine Delbrêl (1904-1964), dizia as coisas assim, de maneira contundente, como evangélicas facas de dois gumes: “A missão não é facultativa. Os meios ateus [e indiferentes] em que vivemos impõem-nos uma escolha: MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTÔ. (António Couto)

 
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13º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

26 de Junho de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9, 51-62)

51Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém 52e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. 53Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. 54Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» 55Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.57Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.» 58Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.»59E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» 60Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.»61Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» 62Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.»

Chave de leitura

No contexto do Evangelho de Lucas, o texto deste Domingo encontra-se no princípio da nova fase das actividades de Jesus. Os frequentes conflitos de mentalidade com o povo e com as autoridades religiosas (Lc 4, 28; 5, 21.30; 6, 2.7; 7, 19.23.33-34.39) confirmaram Jesus ao longo da sua caminhada como o Messias-Servo, previsto por Isaías (Is 50, 4-9; 53, 12) e assumido por ele desde o princípio da sua actividade apostólica (Lc 4, 18). A partir disto, Jesus começa a anunciar a sua paixão e morte (Lc 9, 22.43-44) e decide ir a Jerusalém (Lc 9, 51). Esta mudança de rota dos acontecimentos causa uma crise nos discípulos (Mc 8, 31-33). Eles não entendem e têm medo (Lc 9, 45), porque continuam dominados pela mentalidade antiga acerca do Messias glorioso. Lucas descreve vários episódios nos quais aflora a velha mentalidade dos discípulos: desejo de ser o maior (Lc 9, 46-48); vontade de controlar o uso do nome de Jesus (Lc 9, 49-50); reacção violenta de Tiago e de João perante a rejeição dos samaritanos em acolher Jesus (Lc 9, 51-55). Lucas indica também como Jesus se esforça por fazer entender aos seus discípulos a nova ideia da sua missão. O texto deste Domingo (Lc 9, 51-62) descreve alguns exemplos de como Jesus procedia para formar os seus discípulos.

Contexto histórico do nosso texto

O contexto histórico do Evangelho de Lucas tem sempre dois aspectos: o contexto do tempo de Jesus dos anos trinta, na Palestina, e o contexto das comunidades cristãs dos anos oitenta, na Grécia, para as quais Lucas escreve o seu Evangelho

No tempo de Jesus na Palestina. Não foi fácil para Jesus formar os seus discípulos e discípulas. Não é pelo facto de uma pessoa acompanhar Jesus ou viver em comunidade que essa pessoa é santa e perfeita. A dificuldade maior vem do “fermento dos fariseus e de Herodes” (Mc 8, 15), ou seja, da ideologia dominante da época, promovida pela religião oficial (fariseus) e pelo governo (herodianos). Fazia parte da formação que Jesus dava aos seus discípulos combater este fermento. O modo de pensar dos poderosos tinha raízes profundas e renascia sempre de novo na cabeça dos pequenos, dos discípulos. O texto que meditamos este Domingo dá-nos uma ideia do modo como  Jesus enfrenta este problema.

No tempo de Lucas, nas comunidades da Grécia. Era importante para Lucas ajudar os cristãos a não se deixar levar pelo “fermento” do império romano e da religião pagã. O mesmo vale para hoje. O “fermento” do sistema neo-liberal, divulgado pelos meios de comunicação, propagandeia a mentalidade consumista, contrária aos valores do Evangelho. Não é fácil para as pessoas descobrir que estão a ser enganadas:”Isto será um puro engano o que tenho na minha mão direita?” (Is 44, 20).

Comentário do texto

Lucas 9, 51-52: Jesus decide ir a Jerusalém. “Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo”. Esta afirmação indica que Lucas lê a vida de Jesus à luz dos profetas. O evangelista quer deixar bem claro aos seus leitores que Jesus é o Messias, no qual se cumpre o que fora anunciado pelos profetas. O mesmo do modo de falar aparece no Evangelho de João: “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai...” (Jo 3, 1). Jesus, obediente ao Pai, “dirige-se decididamente para Jerusalém”.

Lucas 9, 52b-53: Uma aldeia da Samaria não oferece hospitalidade. A hospitalidade era uma das bases da vida comunitária Dificilmente alguém passava a noite ao relento, sem ser acolhida (Gn 18, 1-5; 19, 1-3; Jz 19, 15-21). Mas no tempo de Jesus a rivalidade entre judeus e samaritanos levava as pessoas da Samaria a não acolher os judeus na peregrinação que faziam a Jerusalém o que obrigava os judeus a não passar pela Samaria, quando se dirigiam para Jerusalém. Preferiam caminhar pelo vale do Jordão. Jesus não está de acordo com esta discriminação e passa pela Samaria. Como consequência da discriminação não recebe hospitalidade.

Lucas 9, 54: Reacção violenta de Tiago e João perante a rejeição dos samaritanos. Inspirados pelo exemplo do profeta Elias, Tiago e João querem que desça fogo do céu para que extermine os habitantes daquela aldeia (2Re 1, 10.12; 1 Re 18, 38). Pensam que pelo simples facto de que estando com Jesus todos devem acolhê-los. Eles têm a velha mentalidade, a de se considerarem pessoas privilegiadas. Pensam ter Deus da sua parte para os defender.

Lucas 9, 55-56: Reacção de Jesus perante a violência de Tiago e de João. “Jesus voltou-se e repreendeu-os”. Algumas Bíblias baseando-se em manuscritos antigos dizem também: “Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do homem não veio para tomar a vida dos homens mas para salvá-la”. Pelo facto de alguém estar com Jesus não lhe dá o direito de pensar que é superior aos outros ou que os outros devem prestar-lhe vassalagem. O “Espírito” de Jesus pede o contrário: perdoar setenta vezes sete (Mt 18, 22). Jesus escolhe perdoar ao ladrão que lhe pedia na cruz (Lc 23, 43).

Lucas 9, 57-58: Primeira proposta de seguimento de Jesus. Alguém disse: “Seguir-te-ei aonde quer que vás”. A resposta de Jesus é muito clara e sem máscaras. Não deixa dúvidas: o discípulo que quer seguir Jesus deve imprimir na mente e no coração o seguinte: Jesus não tem nada, nem sequer uma pedra para reclinar a cabeça. As raposas e os pássaros levam-lhe vantagem porque, pelo menos, têm tocas e ninhos.

Lucas 9, 59-60: Segunda proposta de seguimento de Jesus. Jesus diz a outro: “Segue-me!”. Este mesmo convite foi dirigido aos primeiros discípulos: “Segue-me!” (Mc 1, 17.20; 2, 14). A reacção da pessoa convidada a seguir Jesus é positiva. Está disposta a segui-lo. Somente pede autorização para ir enterrar o seu pai. A resposta de Jesus é dura: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu vai a anunciar o Reino de Deus”. Provavelmente trata-se de um provérbio popular usado para significar que se deve ser radical nas decisões tomadas. Quem segue Jesus deve deixar tudo para trás. É como se morresse a tudo o que possui e ressuscitasse para outra vida.

Lucas 9, 61-62: Terceira proposta se seguimento de Jesus. Um terceiro caso: “Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família”. Novamente a resposta de Jesus é dura e radical: “Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus”. Jesus é mais exigente do que o profeta Elias quando este chamou Eliseu para que fosse seu discípulo (1Re 19, 19-21). O Novo Testamento supera o Antigo na exigência e na prática do amor.

Jesus formador

O processo de formação dos discípulos era exigente, lento e doloroso. Não foi fácil fazer nascer neles uma nova experiência de Deus, uma nova visão da vida e do próximo. É como nascer de novo (Jo 3, 5-9). A mentalidade antiga renasce e reaparece na vida das pessoas, das famílias e das comunidades. Jesus não se poupa a esforços para formar os seus discípulos. Dedicava muito tempo a esta tarefa. Nem sempre o conseguiu. Judas atraiçoou-o, Pedro negou-o e, no momento da provação, todos o abandonaram. Somente algumas mulheres e João permaneceram junto a ele na cruz. Mas o Espírito Santo que Jesus lhes enviou depois da ressurreição, completou a operação começada por Jesus (Jo 14, 26; 16, 13). Além do que observamos no texto deste Domingo (Lc 9, 51-62), Lucas fala de muitos outros casos para indicar como fazia Jesus para formar os discípulos e ajudá-los a ultrapassar a mentalidade errada da época.

Em Lucas 9, 46-48 os discípulos discutem entre eles para saber quem é o maior entre eles. Aqui, a mentalidade competitiva e de luta pelo poder, própria da sociedade do Império Romano, infiltra-se na pequena comunidade de Jesus, que apenas está a começar. Jesus manda ter uma outra mentalidade. Toma uma criança, coloca-a junto de si e identifica-se com ela e diz: “Quem acolhe uma criança como esta acolhe-me a mim e quem me acolhe, acolhe o Pai!”. Os discípulos discutem acerca de quem é o maior, e Jesus manda olhar e acolher o mais pequeno. Este é o ponto acerca do qual Jesus insiste mais vezes e acerca dele deu o seguinte testemunho: “Não vim para ser servido mas para servir” (Mc 10, 45).

Em Lucas 9, 49-50 uma pessoa não era do grupo dos discípulos. Servia-se do nome de Jesus para expulsar demónios. João viu e proibiu-o: “Impedimo-lo porque não é dos nossos”. Em nome da comunidade João impede a prática de uma boa acção. Ele pensava que era o dono de Jesus e queria proibir que outros usassem o nome de Jesus para fazer o bem. Queria uma comunidade fechada em si mesma. Aqui manifesta-se a velha mentalidade do “Povo eleito, Povo separado!”. Jesus responde: “Não o impeçais porque quem não está contra vós, está por vós”. O objectivo da formação não pode levar a um sentimento de privilégio e de posse mas antes deve conduzir a uma atitude de serviço. Para Jesus o que importa não é se a pessoa faz ou não parte da comunidade mas se faz ou não o bem que a comunidade deve fazer.

Eis outros casos exemplificativos de como Jesus educa os seus discípulos e discípulas, uma maneira de dar forma humana à experiência que ele tinha de Deus Pai. A lista pode ser completada:

  • compromete-os na missão e no regresso da acção missionária faz a revisão com eles (Mc 6, 7: Lc 9, 1-2; 10, 1-12; 12, 17-20);
  • corrige-os quando se equivocam (Lc 9, 46-48; Mc 10, 13-15);
  • ajuda-os a discernir (Mc 9, 28-29);
  • pergunta-lhes quando não compreendem e são lentos em entender (Mc 4, 13; 8, 14-21);
  • prepara-os para a luta (Mt 10, 17s);
  • reflecte com eles sobre os problemas do momento (Lc 13, 1-5);
  • manda-os observar a realidade (Mc 8, 27-29); Jo 4, 35; Mt 16, 1-3);
  • coloca-os diante das necessidades das pessoas (Jo 6, 5);
  • ensina-lhes que as necessidades das pessoas estão acima de qualquer prescrição ritual (Mt 12, 7.12);
  • defende-os quando são criticados pelos adversários (Mc 2, 19; 7, 5-13);
  • preocupa-se com o seu descanso e com a sua alimentação (Mc 6, 31; Jo 21, 9);
  • passa momentos a sós com eles para os instruir (Mc 4, 34; 7, 1; 9, 30-31; 10, 10; 13, 3);
  • insiste na vigilância e ensina-os a orar (Lc 11, 1-13; Mt 6, 5-15).

Palavra para o caminho

O início desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusalém fica marcado pelo seu não acolhimento e rejeição numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejeição tinha acontecido no início da sua missão em Nazaré (Lucas 4,29). Portanto, e sem medos e sem equívocos, a rejeição acompanha o Evangelho em pessoa, que é Jesus Cristo. Os seus discípulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para não procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. Aí está sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: “Se me perseguiram a mim, perseguir-vos-ão também a vós” (João 15,20).

Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, “não tem onde reclinar a cabeça”, o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.

 
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12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

19 de Junho de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9, 18-24)

18Um dia, Jesus orava em particular, estando com Ele apenas os discípulos, perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?» 19Responderam-lhe: «João Baptista; outros, Elias; outros, um dos antigos profetas ressuscitado.»20Disse-lhes Ele: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Pedro tomou a palavra e respondeu: «O Messias de Deus.»21Ele proibiu-lhes formalmente de o dizerem fosse a quem fosse; 22e acrescentou: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.»23Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. 24Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la.»

Uma chave de leitura

A passagem de hoje retoma o tema de quem é Jesus. A pergunta foi colocada por João Baptista e por Herodes. João pergunta a Jesus: “És tu o que deve vir ou devemos esperar outro?” (Lc 7, 19). Herodes faz a pergunta: “A João decapitei-o eu, mas quem é este homem de quem oiço tais coisas?” (Lc 9, 9). No Evangelho de hoje é o próprio Jesus que pergunta o que pensam as pessoas acerca dele, qual é a opinião pública e a dos apóstolos. Pedro afirma: “Tu és o Messias de Deus”. Imediatamente encontramo-nos com o primeiro anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Algumas perguntas

  • Todos acreditamos em Jesus, mas há quem o entenda de uma forma e outros de outra. Qual é hoje o Jesus mais comum segundo o modo de pensar das pessoas?
  • De que modo a publicidade interfere no meu modo de ver Jesus? O que faço para não cair no círculo da publicidade?
  • O que nos impede hoje de reconhecer e assumir o projecto de Jesus?
  • Todos esperavam o Messias, cada um a seu modo. Qual é o Messias que eu espero e que as pessoas esperam hoje?
  • A condição para seguir Jesus é a cruz. Como reajo perante as cruzes da vida?

Comentário do texto       

Lucas 9, 18: A pergunta de Jesus depois da oração. “Um dia, quando orava em particular, estando com Ele apenas os discípulos, perguntou-lhes: 'Quem dizem as multidões que Eu sou?'”. No Evangelho de Lucas em várias ocasiões importantes e decisivas, Jesus é apresentado a orar: no baptismo, momento em que assume a sua missão (Lc 3, 21); nos 40 dias no deserto, quando vence as tentações do demónio à luz da Palavra de Deus (Lc 4, 1-13); a noite antes de escolher os doze apóstolos (Lc 6, 12); na transfiguração, quando conversava com Moisés e Elias acerca da sua Paixão em Jerusalém (Lc 9, 29); no Jardim das Oliveiras, quando enfrenta a agonia (Lc 22, 39-46); na cruz, quando pede perdão para o soldado (Lc 23, 34) e entrega o seu espírito (Lc 23, 46).

Lucas 9, 19: A opinião do povo acerca de Jesus.Eles responderam: “João Baptista, outros Elias, outros um dos antigos profetas que ressuscitou”. Do mesmo modo que Herodes, muitos pensavam que João Baptista ressuscitara em Jesus. Estava espalhada a crença de que Elias retornaria (Mt 17, 10-13; Mc 9, 11-12; Ml 3, 23-24; Sir 18, 15). Respostas insuficientes.

Lucas 9, 20: A pergunta de Jesus aos discípulos.Depois de ouvir as opiniões que estavam espalhadas acerca de si, Jesus pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?”. Pedro respondeu: “O Messias de Deus!”. Pedro reconhece que Jesus é aquele que as pessoas estão à espera e que vem cumprir as promessas. Lucas omite a reacção de Pedro que procura dissuadir Jesus de seguir o caminho da cruz e também omite as duras críticas de Jesus dirigidas a Pedro (Mc 8, 32-33; 16, 22-23).

Lucas 9, 21: A proibição de revelar que Jesus é o Messias de Deus.Jesus ordenou-lhes severamente para que nada fosse mencionado: “Ele proibiu-lhes formalmente de o dizerem fosse a quem fosse”. Porquê esta proibição? Naquele tempo todos esperavam a vinda de Cristo, o Messias de Deus, mas cada um à sua maneira: alguns esperavam um rei, outros um sacerdote, outros um médico, um guerreiro, um juiz, ou um profeta! Ninguém parecia esperar um Messias-Servo, anunciado por Isaías (Is 42, 1-9; 52, 13-53). Quem insiste em manter a ideia de Pedro, quer dizer, a de um Messias glorioso sem a cruz, não entende nada e nunca chegará a assumir a atitude de um verdadeiro discípulo. Continuará a caminhar na obscuridade, como Pedro, confundindo as pessoas com as árvores (cf. Mt 8, 24). Sem a cruz é impossível entender quem é Jesus e o que significa seguir Jesus. Por isso, Jesus voltou a insistir na cruz e mais tarde faz o segundo anúncio da sua paixão, morte e ressurreição.

Lucas 9, 22: O primeiro anúncio da paixão.Jesus começa a ensinar que ele é o Messias-Servo, e diz que como o Messias-Servo anunciado por Isaías, será condenado à morte no cumprimento da sua missão de justiça (Is 49, 4-9; 53, 1-12). Lucas no geral segue o Evangelho de Marcos, mas neste caso omite a reacção de Pedro que aconselha Jesus a não pensar no Messias sofredor e omite também a dura resposta: “Vai-te, Satanás! Porque não pensas segundo Deus, mas segundo os homens”. Satanás é uma palavra hebraica que significa acusador, que afasta os outros dos caminhos de Deus. Jesus não permite que Pedro o afaste da sua missão. E Jesus acrescenta: “O Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, os sumos sacerdotes e os escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”.

Lucas 9, 23-24: O seguimento de Jesus.De imediato diz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la”. A compreensão plena do seguimento de Jesus não é alcançada através de uma instrução teórica, mas do compromisso prático, caminhando com ele pelo caminho do serviço, desde a Galileia até Jerusalém. O caminho do discipulado é o caminho da entrega pessoal, do abandono, do serviço, da disponibilidade, da aceitação do conflito, sabendo que haverá ressurreição. A cruz não é um incidente mas é parte de um caminho. Porque num mundo organizado na base de princípios egoístas, o amor e o serviço só podem existir crucificados! Quem faz da sua vida um serviço aos outros incomoda os que vivem agarrados aos privilégios e sofre.

Condições para seguir Jesus

Jesus tira conclusões que são válidas até ao dia de hoje: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. Naquela época a cruz era a pena de morte que o Império Romano impunha aos delinquentes marginais. Tomar a cruz e carregá-la após Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. Era o mesmo que romper com o sistema. Como diz Paulo em Gálatas: “O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gal 6,14). A cruz não é fatalismo e muito menos é exigência do Pai. A cruz é o resultado do compromisso livremente aceite por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai, e que, portanto, todos e todas temos que nos aceitar e tratar como irmãos e irmãs. Devido a este anúncio revolucionário, foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos irmãos.

 
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