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Domingo da Santíssima Trindade - Ano C PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE (ANO C)

22 de Maio de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 16, 12-15) 

12Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. 14Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. 15Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: 'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer'.»

Preâmbulo

Logo de início, é importante inserir esta passagem do Evangelho de São João no seu contexto. As palavras de Jesus em João 16, 12-15 fazem parte da secção que os exegetas chamam “o livro da revelação” (13, 1- 17, 26). Jesus no discurso de despedida, revela a sua profunda intimidade, chama amigos aos seus e promete-lhes o seu Espírito Santo que os acompanhará no acolhimento do mistério da sua Pessoa. Os discípulos são convidados a crescer no amor para com o Mestre, que se oferece totalmente a eles.

Nesta secção há três sequências ou partes bem delimitadas. A primeira compreende os capítulos 13-14 e tem como fio condutor o seguinte tema: a nova comunidade está fundada sobre o mandamento novo do amor. Com as suas instruções Jesus explica que a prática do amor é o itinerário que a comunidade deve percorrer na sua caminhada para o Pai. Na segunda Jesus descreve o rosto da comunidade no meio do mundo. Recorda aos discípulos que a comunidade por Ele fundada desenvolve a sua missão num mundo hostil e somente através da prática do amor é possível o seu crescimento agregando novos membros. Nisto consiste o “dar frutos” por parte da comunidade. Estas são as condições pedidas para um amor fecundo no mundo: estar unidos a Jesus. D'Ele promana a vida – o Espírito (Jo 15, 1-6); a união a Jesus com um amor que responde ao seu, de modo que se estabeleça uma relação de amizade entre Jesus e os seus discípulos (Jo 15, 7-17).

Ainda que a missão da comunidade, do mesmo modo que a de Jesus, se desenvolva no meio do ódio do mundo (Jo 15, 18-25), contudo, os discípulos serão sustentados pelo Espírito (Jo 15, 26-16, 15). Jesus diz-lhes que a missão no mundo comporta dor e alegria e que Ele estará ausente-presente (Jo 16, 16, 23a), mas assegura-lhes o amor do Pai e a vitória sobre o mundo (Jo 16, 23b-33). A terceira parte da secção contém a prece de Jesus: Ele roga pela comunidade do presente (Jo 17, 6-19); pela comunidade futura (Jo 17, 20-23) e manifesta o desejo de que o Pai honre todos os que o reconheceram e, finalmente, que se realize a sua obra no mundo (Jo 17, 24-26).

A voz do Espírito é a voz do próprio Jesus

Anteriormente em João 15, 15 Jesus disse aos seus discípulos o que ouvira ao Pai. Esta mensagem não seria nem poderia ser compreendida pelos seus discípulos em todo o seu alcance. O motivo é que os discípulos desconhecem por agora o significado da morte de Jesus na cruz e a substituição do antigo modo de ser salvo. Com a sua morte abre-se uma nova e definitiva intervenção salvífica na vida da humanidade. Os discípulos compreenderão as palavras e os gestos de Jesus depois da sua ressurreição (Jo 2, 22) ou depois da sua morte (Jo 12, 16). No ensinamento de Jesus há tantas realidades e tantas mensagens que só poderão ser compreendidas pouco a pouco à medida que a comunidade seja colocada diante de novos acontecimentos e circunstâncias; é na vida diária, compreendida à luz da ressurreição, que se poderá compreender o significado da sua morte-exaltação.

Será o Espírito Santo o profeta de Jesus. Ele comunicará aos discípulos o que tiver ouvido d'Ele. Na missão que a comunidade de Jesus realizará, o Espírito Santo comunica-lhe a verdade, no sentido de explicar e ajudar a aplicar o que Jesus é e o que significa como revelação do amor do Pai. Com as suas mensagens proféticas a comunidade dos discípulos não transmite uma nova doutrina, mas propõe continuamente a realidade da pessoa de Jesus, conteúdo do seu testemunho e orientação da sua missão no mundo. A voz do Espírito Santo, que a comunidade perceberá, é a voz do próprio Jesus. No seguimento das pegadas dos profetas do Antigo Testamento, que interpretavam a história à luz da aliança, O Espírito Santo mostra-se determinante para fazer conhecer Jesus dando à comunidade dos crentes a chave para compreender a história como um confronto contínuo entre o que o “mundo” representa e o projecto de Deus. O ponto de partida para ler a própria presença no mundo é a morte-exaltação de Jesus e crescendo sempre mais na sua compreensão, os cristãos poderão descobrir nos acontecimentos diários “o pecado do mundo” e os seus efeitos nocivos.

É determinante o papel do Espírito Santo como intérprete da vida de Jesus na vida dos discípulos: é o seu guia no compromisso a favor do homem. Para obter êxito na sua actividade a favor do homem devem, por um lado, escutar as problemáticas da vida e da história e, por outro, estar atentos à voz do Espírito Santo, única fonte atendível para encontrar o verdadeiro sentido dos acontecimentos históricos no mundo.

A voz do Espírito Santo: o verdadeiro intérprete da história

Depois Jesus explica as modalidades através das quais o Espírito Santo interpreta a vida e a história humana. Antes de tudo manifestando a sua “glória”, o que quer dizer que tomará “do que é meu”. Mais especificamente “do que é meu” quer dizer que o Espírito Santo toma de Jesus a mensagem, tudo o que Ele disse. Manifestar a glória quer dizer manifestar o amor que Ele mostrou na sua morte. Estas palavras de Jesus são muito importantes porque evitam reduzir a acção do Espírito Santo a uma iluminação. O papel do Espírito é a comunicação do amor de Jesus e colocar as palavras de Jesus em sintonia com a sua mensagem, mas também com o sentido mais profundo da sua vida: o amor demonstrado dando a própria vida na cruz. Nisto consiste o papel do Espírito Santo, Espírito de verdade. São dois os aspectos do papel do Espírito Santo que permitem à comunidade dos crentes interpretar a história: escutar a mensagem e penetrar nela e estar em harmonia com o amor. Melhor ainda, as palavras de Jesus pretendem comunicar que só através da comunicação do amor por parte do Espírito Santo é possível conhecer quem é o homem, entender a finalidade da sua vida, e construir um mundo novo. O modelo é sempre o amor de Jesus.

Jesus, o Pai, o Espírito Santo e a comunidade dos crentes (v. 15)

Quando Jesus diz que “tudo o que o Pai tem é meu” o que quer dizer? Primeiro: tudo o que Jesus tem é em comum com o Pai. O primeiro dom do Pai a Jesus foi a sua glória (Jo 1, 14), mais especificamente, o amor fiel, o Espírito (Jo 1, 3; 17, 10). Esta comunicação não deve ser entendida como estática mas dinâmica, quer dizer, contínua e recíproca. Neste sentido o Pai e Jesus são um. Tal comunicação recíproca e constante impregna a actividade de Jesus, o qual pode realizar as obras do Pai e o seu desígnio acerca da criação. Os crentes para serem capazes de entender e interpretar a história são chamados a estar em sintonia com Jesus, aceitando na sua existência a realidade do seu amor e concretizando-o a favor do homem. O plano do Pai que se realizou na vida de Jesus deve realizar-se na comunidade dos crentes e deve orientar o empenhamento dos crentes na promoção da vida dos homens. Quem realiza o plano do Pai na vida de Jesus? É o Espírito Santo, que unindo Jesus ao Pai, realiza e leva ao cumprimento o projecto do Pai e torna a comunidade dos crentes participante desta actividade dinâmica de Jesus: “receberá do que é meu”. A comunidade, graças à acção do Espírito da verdade, escuta-o e comunica-o concretamente como amor.

O Espírito Santo comunica aos discípulos de Jesus toda a verdade e riqueza de Jesus; o lugar em que habita é Jesus; “vem” na comunidade; acolhido, faz da comunidade participante do amor de Jesus.

Palavra para o caminho

Creio em Deus Pai, criador do céu e da terra. Não estamos sós com os nossos problemas e conflitos. Não vivemos esquecidos. Deus é nosso Pai querido. Assim o chamava Jesus e assim o chamamos nós. Ele é a origem e a meta da nossa vida. Criou-nos só por amor, e espera-nos com coração de Pai no final da nossa peregrinação por este mundo. O seu nome é esquecido e renegado por muitos, mas Deus continua a olhar-nos com amor e convida-nos a ser seus filhos adoptivos.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor. É a grande prenda que Deus deu ao mundo. Ele disse-nos como é o Pai. Olhando-o, vemos o Pai: nos seus gestos captamos a sua ternura e compreensão, a sua amizade e proximidade. Este Jesus, o Filho muito amado do Pai, animou-nos a construir uma vida mais fraterna e feliz para todos. Indicou-nos também o caminho a seguir: “Sede compassivos como é compassivo o vosso Pai celeste”.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida. O mistério de Deus não é algo afastado. Está presente no mais profundo de cada um de nós. Podemo-lo captar como Espírito que alenta a nossa vida, como Amor que nos conduz aos que sofrem. Este Espírito é o que há de melhor dentro de nós: torna-nos capazes de amar.

 
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DOMINGO DE PENTECOSTES (ANO C)

15 de Maio de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 20, 19-23)

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. 21E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» 22Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»

Comentário do texto

João 20, 19-20: Uma descrição da experiência da ressurreição. Jesus torna-se presente na comunidade. Nem mesmo as portas fechadas impedem de Ele estar no meio daqueles que não o reconhecem. Até agora é assim! Quando nos reunimos e as portas estão fechadas, mesmo assim Jesus está no meio de nós. E ainda hoje a primeira palavra de Jesus é: “A Paz esteja convosco!”.

E mostra-lhes os sinais da sua paixão. O ressuscitado é o crucificado! O Jesus que está connosco na comunidade, não é um Jesus glorioso que não tem nada em comum com a vida das pessoas, mas é o mesmo Jesus que veio a esta terra e que tem os sinais da sua paixão. E hoje estes mesmos sinais encontram-se no sofrimento das pessoas. São os sinais da fome, da tortura, das guerras, das doenças, da violência, das injustiças. Tantos sinais! E nas pessoas que reagem e lutam pela vida, Jesus ressuscita e torna-se presente no meio de nós.

João 20, 21: Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós. De Jesus crucificado e ressuscitado nós mesmos recebemos a missão, a mesma missão que Ele recebeu do Pai. E também a nós Ele nos diz: “A paz esteja convosco!”. A repetição realça a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. A Paz que Jesus nos deixa significa muito mais do que ausência de guerra. Significa construir um conjunto humano harmonioso, em que as pessoas possam ser elas mesmas, com o necessário para viver, e onde possam viver felizes e em paz. Numa palavra, quer dizer construir uma comunidade segundo a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

João 20, 22: Jesus comunica o dom do Espírito. Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo”. É com a ajuda do Espírito Santo que podemos realizar a missão que Ele nos confia. No Evangelho de João, a ressurreição (Páscoa) e a efusão do Espírito Santo (Pentecostes) são uma mesma coisa. Tudo acontece ao mesmo tempo.

João 20, 23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados. O ponto central da missão de paz encontra-se na reconciliação, na tentativa de ultrapassar as barreiras que nos separam: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos”. Agora este poder de reconciliar e de perdoar é dado aos discípulos. No Evangelho de Mateus, este mesmo poder é dado também a Pedro (Mt 16, 19) e às comunidades (Mt 18, 18). Uma comunidade sem perdão e sem reconciliação não é uma comunidade cristã.

A acção do Espírito Santo no Evangelho de João

A língua hebraica usa a mesma palavra para dizer vento e espírito. O vento tem em si uma meta, uma direcção: vento do norte, vento do sul. Assim também o Espírito de Deus (o vento de Deus) tem em si uma meta, um projecto que se manifesta de muitas maneiras nas obras que o Espírito de Deus realiza na criação, na história e sobretudo em Jesus. A grande Promessa do Espírito está presente nos profetas: os ossos ressequidos que se revestem de vida, graças à força do Espírito de Deus (Ez 37, 1-14); a efusão do Espírito de Deus sobre todos os povos (Jl 3, 1-15); a visão do Messias Servo que será ungido pelo Espírito para restabelecer o direito sobre a terra e para anunciar a boa nova aos pobres (Is 11, 1-9; 42, 1; 44, 1-3; 61, 1-3). Os profetas esperam um futuro no qual o povo de Deus renasce graças à efusão do Espírito (Ez 36, 26-27; Sl 51, 12; cf Is 32, 15-20).

No Evangelho de João estas profecias cumprem-se em Jesus. Como acontece na criação (Gen 1, 1), assim o Espírito aparece e desce sobre Jesus “sob a forma de pomba vinda do céu” (Jo 1, 32). É o começo da nova criação! Jesus diz as palavras de Deus e comunica-nos o Espírito abundantemente (Jo 3, 34). As suas apalavras são Espírito e vida (Jo 6, 63). Quando Jesus se despede, diz que enviará outro consolador, outro defensor que estará connosco. É o Espírito Santo (Jo 14, 16-17). Através da sua paixão, morte e ressurreição, Jesus alcança-nos o dom do Espírito Santo (Jo 20, 22). O primeiro efeito da acção do Espírito Santo em nós é a reconciliação: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos” (Jo 20, 23). Através do baptismo todos nós recebemos este mesmo Espírito de Jesus (Jo 1, 33). O Espírito é como a água que brota do íntimo das pessoas que acreditam em Jesus (Jo 7, 37-39; 4, 14). O Espírito é-nos dado para que recordemos e entendamos o pleno significado das palavras de Jesus (Jo 14, 26; 16, 12-13). Animados pelo Espírito de Jesus podemos adorar a Deus em qualquer lugar (Jo 4, 23-24). Aqui vive-se a liberdade do Espírito: “Onde está o Espírito do Senhor, há liberdade”, confirma São Paulo (2Cor 3, 17).

Invocação ao Espírito

Vem Espírito Santo. Desperta a nossa fé débil, pequena e vacilante. Ensina-nos a viver confiando no amor insondável de Deus nosso Pai para com todos os seus filhos e filhas, estejam dentro ou fora da tua Igreja. Se esta fé se apagar nos nossos corações, imediatamente morrerá, também, nas nossas comunidades e igrejas.

Vem Espírito Santo. Faz que Jesus ocupe o centro da tua Igreja. Que nada nem ninguém o suplante nem obscureça. Não vive entre nós sem nos atrair para o seu Evangelho e sem converter-nos ao seu seguimento. Que não fujamos da sua Palavra, nem nos desviemos dos seus mandamentos do amor. Que não se perca no mundo a sua memória.

Vem Espírito Santo. Abre os nossos ouvidos para escutar os teus chamamentos, os que nos chegam hoje, a partir das interrogações, sofrimentos, conflitos e contradições dos homens e mulheres dos nossos dias. Faz-nos viver abertos ao teu poder para criar a fé nova que necessita esta sociedade nova. Que, na tua Igreja, vivamos mais atentos ao que nasce e ao que morre, com o coração sustentado pela esperança e não afectado pela nostalgia.

Vem Espírito Santo e purifica o coração da tua Igreja. Põe verdade entre nós. Ensina-nos a reconhecer os nossos pecados e limitações. Recorda-nos que somos como todo o mundo: frágeis, medíocres e pecadores. Liberta-nos da nossa arrogância e falsa segurança. Faz que aprendamos a caminhar entre os homens com mais verdade e humildade.

Vem Espírito Santo. Ensina-nos a olhar de maneira nova a vida, o mundo e, sobretudo, as pessoas. Que aprendamos a olhar como Jesus olhava os que sofrem, os que choram, os que caem, os que vivem sozinhos e os esquecidos. Se mudar o nosso olhar, mudará também o coração e o rosto da tua Igreja. Os discípulos de Jesus irradiarão melhor a sua proximidade, a sua compreensão e solidariedade para com os mais necessitados. Parecer-nos-emos mais ao nosso Mestre e Senhor.

Vem Espírito Santo. Faz de nós uma Igreja de portas abertas, coração compassivo e esperança contagiosa. Que nada ou ninguém nos distraia ou desvie do projecto de Jesus: fazer um mundo mais justo e digno, mais amável e alegre, abrindo caminhos ao reino de Deus.

Recebei o Espírito

Pouco a pouco, vamos aprendendo a viver sem interioridade. Não necessitamos mais estar em contacto com o melhor que há dentro de nós. Basta-nos viver entretidos. Contentamo-nos com funcionar sem alma e alimentar-nos somente de pão. Não queremos expor-nos a buscar a verdade. Vem Espírito Santo e liberta-nos do vazio interior.

Sabemos já viver sem raízes e metas. Basta-nos que sejamos programados externamente. Movemo-nos e agitamo-nos sem cessar, porém não sabemos o que queremos nem para onde vamos. Estamos cada vez mais informados, porém sentimo-nos mais perdidos do que nunca! Vem Espírito Santo e liberta-nos da desorientação.

Não nos interessam mais as grandes questões da existência. Não nos preocupa ficarmos sem luz para enfrentarmos a vida. Tornamo-nos mais cépticos, mas também mais frágeis e inseguros. Queremos ser inteligentes e lúcidos. Por que, então, não encontramos sossego e paz? Por que nos visita tanto a tristeza? Vem Espírito Santo e liberta-nos da escuridão interior.

Queremos viver mais, viver melhor, viver mais tempo, porém viver para quê? Queremos sentir-nos bem, sentir-nos melhor, porém sentir o quê? Buscamos desfrutar intensamente da vida, retirar-lhe o máximo de proveito, porém não nos contentamos somente em divertir-nos. Fazemos o que nos agrada. Não há proibições nem terrenos proibidos. Por que queremos algo diferente? Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver.

Queremos ser livres e independentes, e encontramo-nos cada vez mais sozinhos. Necessitamos de viver e encerramo-nos no nosso pequeno mundo, às vezes tão aborrecido. Necessitamos sentir-nos queridos e não sabemos criar contactos vivos e amistosos. Ao sexo chamamos «amor» e ao prazer «felicidade», porém quem saciará a nossa sede? Vem Espírito Santo e ensina-nos a amar.

Na nossa vida não há mais lugar para Deus. A sua presença ficou reprimida ou atrofiada dentro de nós. Repletos de ruídos por dentro, não podemos mais escutar a sua voz. Voltados para mil desejos e sensações, não conseguimos perceber a sua proximidade. Sabemos falar com todos menos com Ele. Aprendemos a viver de costas para o Mistério. Vem Espírito Santo e ensina-nos a crer.

Crentes e não crentes, pouco crentes ou maus crentes, assim peregrinamos todos pela vida. Na festa cristã do Espírito Santo, Jesus nos diz a todos o que um dia disse aos seus discípulos expirando sobre eles seu alento: «Recebei o Espírito Santo». Esse Espírito que sustenta as nossas pobres vidas e anima a nossa frágil fé pode penetrar em nós por caminhos que somente Ele conhece.

Palavra para o caminho

Prefácio do Pentecostes: Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.

Hoje manifestastes a plenitude do mistério pascal e sobre os filhos de adopção, unidos em comunhão admirável ao vosso Filho Unigénito, derramastes o Espírito Santo, que no princípio da Igreja nascente revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé.

Por isso, na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra e com os Anjos e os Santos proclamam a vossa glória, cantando numa só voz: Santo, Santo, Santo...

 
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DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (ANO C)

8 de Maio de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24, 46-53)

 46Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; 47que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas destas coisas. 49E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.»50Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os.51Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu.52E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria.53E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus.

Chave de leitura

Poucas linhas que falam de vida, de movimento, de caminho, de encontro. Objectivo que cumpre assim está escrito e todos os povos. O caminho é o que é traçado pelo testemunho. Os apóstolos são os enviados, não levam nada de próprio consigo, mas fazem-se vida, movimento, caminho, encontro, caminho que faz florescer a vida a toda a parte que cheguem.

v. 46: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia.Que está escrito? Onde? A única escritura que conhecemos é a do encontro. Deus parece que não pode fazer nada sem o homem e por isso vai buscá-lo onde se encontre e não se rende até que o abrace. Isto é o que está escrito. Um amor eterno, capaz de abaixar-se no padecer, de beber até ao fim o cálice da dor contanto que veja o rosto do filho amado. Nos abismos da não-vida, Cristo desce para pegar na mão do homem e acompanhá-lo até casa. Três dias. Três momentos: paixão, morte e ressurreição. Isto é o que está escrito. Para Cristo e para todos os que lhe lhe pertencem. Paixão: tu entregas-te com confiança e o outro faz de ti o que quer, abraça-te ou destroça-te, acolhe-te ou rejeita-te... porém tu continuas a amar, até ao fim. Morte: uma vida que não retrocede... morre, acaba, mas não para sempre, porque a morte tem poder sobre a carne, o espírito que vem de Deus regressa a Deus. Ressurreição: tudo é esclarecido e tem sentido à luz da Vida: o amor doado não morre, ressuscita sempre.

v. 47: Que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém.A palavra de Jesus pronunciada na história não chegou ao fim. Tem necessidade de anunciadores. E os apóstolos vão, enviados no nome santo de Deus. São enviados a todos os povos. Já não a um povo escolhido, mas a todos os homens. Vão abraçar os seus irmãos para convertê-los e dizer-lhes: tudo te foi perdoado, podes voltar para a vida divina, Jesus morreu e ressuscitou por ti! A fé não é uma invenção. Eu venho de Jerusalém. Vi com os meus olhos, experimentei-o na minha vida. Não te conto outra coisa senão a minha história, uma história de salvação.

v. 48: Vós sois as testemunhas destas coisas. Deus é conhecido pela experiência. Ser testemunha quer dizer levar escrita na pele, cosida, sílaba por sílaba, a palavra que é Cristo. Quando alguém é tocado por Cristo, converte-se numa lâmpada que ilumina e, ainda que não queira, resplandece. E se alguém quisesse apagar a chama, voltaria a acender-se, porque a luz não é da lâmpada, mas do Espírito, derramado no coração que irradia sem fim a comunhão eterna.

v. 49: E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto. As promessas de Jesus realizam-se. Ele parte mas não deixa órfãos os seus amigos. Sabe que têm necessidade da presença constante de Deus. E Deus volta a vir ao homem. Desta vez já não na carne, mas invisivelmente no fogo do amor impalpável, no ardor de um vínculo que jamais se romperá, o arco-íris da aliança ratificada, o esplendor do sorriso de Deus, o Espírito Santo. Revestidos de Cristo, revestidos do Espírito os apóstolos já não terão medo e poderão finalmente partir.

v. 50: Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. O momento de deixá-los é solene. Betânia é o lugar da amizade. Jesus levanta as mãos e abençoa os seus. Um gesto de saudação que é um dom. Deus não se afasta dos seus, simplesmente deixa-os para voltar de forma diferente.

v. 51: Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu. Toda a separação comporta desagrado. Neste caso a bênção é um legado de graça. Os apóstolos vivem uma comunhão tão grande com o seu Senhor que não se dão conta da separação.

v. 52:E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria. A alegria dos apóstolos, alegria de ir pelas ruas de Jerusalém com um tesouro sem medida, o tesouro da pertença. A humanidade de Cristo entra no céu, é uma porta que se abre para já não mais fechar-se. A alegria da vida superabundante que Cristo derramou na experiência deles não desaparecerá jamais.

v. 53: E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus. Estar... um verbo importantíssimo para o cristão. Estar supõe uma força particular, a capacidade de não fugir das situações mas de as viver até ao fim. Estar. Um programa evangélico para entregar a todos. Então o louvor aparece sincero, porque no estar, a vontade de Deus aparece como a bebida saudável e inebriante de felicidade.

Reflexão

O testemunho da caridade na vida eclesial é sem dúvida o espelho mais claro para a evangelização. É o elemento que limpa o terreno para que quando a semente da Palavra for semeada dê fruto abundante. A boa notícia não pode escolher outros caminhos para chegar ao coração dos homens senão os caminhos do amor recíproco, uma experiência que conduz directamente até à fonte: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei!” (Jo 15, 12). Tudo isto encontra-se comprovado na Igreja primitiva: “Por isto conhecemos o amor: Ele deu a sua vida por nós; portanto também nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3, 16). O discípulo que encontrou e conheceu Jesus, o discípulo amado, sabe que não pode falar senão d'Ele e não percorrer senão os caminhos que Ele percorreu: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Que melhores palavras para dizer que o caminho fundamental de toda a evangelização é o amor gratuito? Cristo é o caminho para evangelizar. Cristo é a verdade para anunciar na evangelização. Cristo é a vida evangelizada. E é evangelização o amor com que nos amou, um amor entregue sem condições, que não retrocede, mas que avança até ao fim, fiel a si mesmo, à custa da morte na cruz da maldição, para mostrar o rosto do Pai como rosto de Amor, um Amor que respeita a liberdade do homem, ainda que isto signifique rejeição, desprezo, agressão, morte. “A caridade cristã tem em si mesma uma grande força evangelizadora. Na medida em que sabe fazer-se sinal e transparência do amor de Deus, abre a mente e o coração ao anúncio da Palavra da verdade. Como dizia Paulo VI, o homem de hoje desejoso de autenticidade e de concretude, aprecia mais os testemunhos do que os mestres e em geral só depois de ter conseguido o sinal palpável da caridade é que se deixa guiar para descobrir a profundidade e as exigências do amor de Deus (CEI, Evangelizzanione e testimonianza della caritá, em Enchiridion CEI, vol. 1-5, EDB, Bologna, 1996, nº 24). Motivar e sustentar a abertura aos outros no serviço é dever de toda a acção pastoral que pretenda realçar a relação profunda existente entre fé e caridade à luz do evangelho, e aquela nota característica do amor cristão que é a proximidade e o cuidado pelos outros (cf. Lc 10, 34).

Palavra para o caminho. Actualização

Crer na Ascensão de Jesus é crer que a humanidade de Cristo, da qual todos participamos, entrou na vida íntima de Deus de um modo novo e definitivo. Jesus ocultou-se em Deus, porém não para ausentar-se de nós, mas para viver, a partir desse Deus, uma proximidade nova e insuperável, e impulsionar a vida dos homens para seu destino último.

Isto significa que o ser humano encontrou, em Deus, um lugar para sempre. “O céu não é um lugar que está acima das estrelas, é algo muito mais importante: é o lugar que qualquer pessoa tem junto a Deus”. Isso quer dizer que nos dirigimos para o céu, entramos no céu, na medida em que orientamos a nossa vida para Jesus e nos adentramos nele.

Deus tem para os homens um espaço de felicidade definitiva que Cristo nos abriu para sempre. Uma pátria última de reconciliação e de paz para a humanidade. Isto que será escutado por muitos com um sorriso céptico, somos seres alegremente estranhos (para essas pessoas), mas levamos em nós uma fé que nos oferece razões para viver e esperança para morrer.

 
VI Domingo da Páscoa - Ano C PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

6º DOMINGO DA PÁSCOA (ANO C)

1 de Maio de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 14, 23-29)

23Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quem me ama guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. 24Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou.25Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; 26mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse. 27Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. 28Ouvistes o que Eu vos disse: 'Eu vou, mas voltarei a vós.' Se me tivésseis amor, havíeis de alegrar-vos por Eu ir para o Pai, pois o Pai é mais do que Eu. 29Digo-vo-lo agora, antes que aconteça, para crerdes quando isso acontecer».

Algumas perguntas

  • Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Se olharmos para os nossos acampamentos  interiores encontramos a tenda da shekinah (presença) de Deus?
  • Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras. As palavras que Cristo nos dirige, por causa da nossa falta de amor são palavras vazias ou, pelo contrário, observamo-las como orientadoras da nossa caminhada?
  • O Espírito Santo há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse. Jesus volta para o Pai mas tudo o que disse e fez permanece entre nós. Quando seremos capazes de recordar o que a graça divina realizou em nós? Acolhemos a voz do Espírito Santo que nos indica no mais íntimo de nós mesmos o significado de tudo o que aconteceu?
  • Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Até quando a inquietação e a mania pelo fazer, que nos afastam da fonte do ser, abandonarão o domicílio da nossa existência? Deus da paz, quando viveremos unicamente de ti, paz da nossa espera?
  • Digo-vo-lo agora, antes que aconteça, para crerdes quando isso acontecer. Antes que aconteça... Agrada a Jesus explicar-nos antecipadamente o que acontecerá, para que os acontecimentos não nos surpreendam e encontrem desprevenidos. Somos capazes de ler os sinais dos nossos acontecimentos com as palavras que escutamos d'Ele?

Chave de leitura

Vir a morar. O céu não tem melhor lugar do que o coração humano enamorado. Porque no coração dilatado, os limites alargam-se e toda a barreira de espaço e de tempo são anulados. Viver no amor equivale a viver no céu, a viver n'Aquele que é o Amor, Amor eterno.

v. 23: Quem me ama guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Na origem de toda a experiência espiritual há sempre um movimento para diante. Partindo de um pequeno passo, depois tudo se move com harmonia. E o passo a dar é somente este: Quem me ama. Pode-se amar verdadeiramente Jesus? Por que é que o seu rosto não se reflecte nas pessoas? Amar: o que significa realmente? No geral, amar, significa para nós querer-se, estar juntos, tomar decisões para construir o futuro, dar-se... mas para Jesus não é a mesma coisa. Amá-lo significa fazer como Ele fez, não retrair-se diante da dor e da morte; amar como Ele significa pôr-se aos pés dos irmãos, para responder às suas necessidades vitais; amar como Ele pode levar-nos longe... é neste amor que a palavra se converte em pão quotidiano do qual nos alimentamos e a vida se converte em céu pela presença do Pai.

vv. 24-25: Quem não me ama não guarda as minhas palavras. E a palavra não é minha mas do Pai que me enviou... Se não há amor as consequências são desastrosas. As palavras de Jesus só podem ser observadas se há amor no coração, de outro modo parecem propostas absurdas. Aquelas palavras não são de um homem, nascem do coração do Pai que propõe a cada um de nós para ser como Ele. Não se trata de fazer coisas na vida, mesmo que sejam boas. É necessário ser homens, ser filhos, ser imagem semelhante a Quem não cessa de dar-se a Si mesmo.

vv. 25-26: Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.Recordar é obra do Espírito Santo; quando durante as nossas jornadas diárias o passado desliza como algo irremediavelmente perdido e o futuro se apresenta ameaçador para nos tirar a alegria de hoje, somente o sopro divino pode fazer-nos recordar. Fazer memória do que se disse, de cada palavra saída da boca de Deus e dirigida a ti, e esquecida pelo facto de que o tempo passou.

v. 27: Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. A paz que Cristo nos dá não é a ausência de problemas, serenidade na vida, saúde... mas plenitude de todo o bem, ausência de medo diante do que pode acontecer. O Senhor não nos assegura o bem-estar, mas a plenitude da filiação numa adesão amorosa aos seus projectos de bem para nós. Possuiremos a paz quando aprendermos a confiar no que o Pai escolhe para nós.

v. 28: Ouvistes o que Eu vos disse: 'Eu vou, mas voltarei a vós.' Se me tivésseis amor, havíeis de alegrar-vos por Eu ir para o Pai, pois o Pai é mais do que Eu. Voltamos à questão do amor. Se me amasseis, alegrar-vos-ias. Que sentido tem esta expressão nos lábios do Mestre? Poderíamos completar a frase e dizer: se me amasseis, alegrar-vos-ias por eu ir para o Pai... mas como somente pensais em vós, estais tristes porque eu vou partir. O amor dos discípulos ainda é um amor egoísta. Não amam Jesus porque não pensam n'Ele mas em si próprios. O amor que Jesus nos pede é este: um amor que se alegra porque o outro é feliz. Um amor que não pensa em si mesmo como o centro do universo, mas como um lugar em que ouvir se converte em abertura para dar e poder receber: não em troca mas como “efeito” do dom entregue.

v. 29: Digo-vo-lo agora, antes que aconteça, para crerdes quando isso acontecer. Jesus ensina os seus porque sabe que ficarão confusos e terão dificuldade em compreender. As suas palavras não desaparecem mas ficam presentes no mundo, como tesouros de compreensão para a fé. Um encontro com o Absoluto que está desde sempre e para sempre em favor do homem.

Reflexão

Amor. Palavra mágica e antiga como o mundo, palavra familiar que nasce no horizonte de cada homem no momento em que é chamado à existência. Palavra escrita nas fibras humanas como origem e como fim, como instrumento e paz, como pão e dom, como a si mesmo, como outros, como Deus. Palavra confiada à história através da nossa história diária. Amor: um pacto que sempre tem uma só denominação: homem. Sim, porque o amor coincide com o homem: amor é o ar que se respira, amor é o alimento que se nos dá, o descanso de quem confia, amor é o vínculo que faz com que a terra seja um lugar de encontro. O amor através do qual Deus contemplou a criação e disse. “E era tudo muito bom”. Não retrocedeu no seu compromisso quando o homem fez de si mesmo uma rejeição, mais do que um dom, um desprezo, mais do que uma carícia, uma pedra lançada, mais do que uma lágrima enxugada. Amou ainda mais com os olhos e o coração do Filho, até ao extremo. Este homem que se tornou chama ardente do pecado, foi redimido pelo Pai, única e exclusivamente por amor, no fogo do Espírito.

Palavra para o caminho

“Neste imenso texto (João 13,12-17,26), cujas linhas temáticas vêm e refluem e voltam a vir, à maneira das ondas do mar que vêm sobre a praia, refluem e voltam, assistimos hoje (Jo 14,26) ao segundo dos cinco dizeres de Jesus relativos à Vinda do Espírito Santo, Paráclito (paráklêtos), isto é, Defensor [Advogado de defesa], Consolador e Intérprete. Este último significado deriva do aramaico paráklita, dos rabinos, que não tem o significado usual do grego (Defensor e Consolador), mas Intérprete, aquele que traduz Deus para nós e nós para Deus, fonte permanente de comunicação, compreensão e comunhão. O Espírito Paráclito é assim o grande construtor de pontes entre nós uns com os outros e com Deus. É, por isso, que Ele é o Amor, que destrói todos os muros, preconceitos, ódios, divisões, incompreensões. Eis os cinco mencionados dizeres de Jesus sobre a Vinda do Espírito Santo, sempre dita no futuro: João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15” (António Couto).

 
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5º DOMINGO DA PÁSCOA (ANO C)

24 de Abril de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 13, 31-35)

31Quando Judas saiu do Cenáculo, Jesus disse aos seus discípulos: «Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado n'Ele. 32 Se Deus foi glorificado n'Ele, Deus também o glorificará em Si mesmo e glorificá-l'O-á sem demorara.» 33«Filhinhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. 34Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. 35Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.»

Preâmbulo ao discurso de Jesus

Esta passagem conclui o capítulo 13 no qual se entrelaçam dois temas que de imediato são retomados e desenvolvidos no capítulo 14: para onde o Senhor vai e o tema do mandamento do amor. Algumas considerações acerca de como se articula o contexto em que estão inseridas as palavras de Jesus acerca do mandamento novo podem ajudar-nos nalgumas reflexões preciosas sobre os conteúdos.

Em primeiro lugar no versículo 31 é dito: “quando saiu”. De que se trata? Para entender é necessário remontar ao versículo 30 onde se diz que “tendo tomado o bocado de pão, saiu logo”. E era de “noite”. O personagem que sai é Judas. A expressão “era de noite”, é característica de todos os “discursos de despedida” que acontecem justamente de noite. As palavras de Jesus em Jo 13, 31-35 estão precedidas desta imersão na obscuridade da noite. Que significado simbólico têm? Em João a noite simboliza o momento mais alto da intimidade nupcial (por exemplo a noite nupcial), mas também a suprema angústia. Um outro significado da obscuridade da noite: representa o perigo por antonomásia, é o momento em que o inimigo urde os fios da vingança em relação aos outros. Exprime o momento do desespero, da confusão, da desordem moral e intelectual. A escuridão da noite é como um caminho sem saída.

Durante a tempestade nocturna, em João 6, a obscuridade da noite expressa a experiência do desespero e da solidão, enquanto os discípulos estão à mercê das forças obscuras que agitam as águas do mar. A anotação temporal “enquanto era ainda noite” em João 20,1, indica as trevas produzidas pela ausência de Jesus. No Evangelho de João, Cristo luz não está no sepulcro, portanto reina a escuridão (Jo 20, 1).

Os “discursos de despedida”, com razão, devem ser considerados neste enquadramento temporal, como que a indicar que a cor de fundo destes discursos é a separação, a morte, o partir de Jesus que dará lugar a uma sensação de vazio ou de amarga solidão. No hoje da Igreja e da Humanidade pode significar que quando afastamos Jesus da nossa vida nasce em nós a experiência da angústia e do sofrimento.

Retornando às palavras de Jesus em 3, 31-34, eco da sua partida e da sua morte imediata, João evoca de novo o seu passado vivido com Jesus, entrelaçado de recordações que lhe abriram os olhos relativamente à riqueza misteriosa do Mestre. Esta memória do passado faz também parte do caminho de fé.

Próprio dos “discursos de despedida” é que tudo o que é transmitido, em particular no momento trágico e solene da morte, converte-se em património inalienável, testamento que deve ser guardado com fidelidade. Os discursos de Jesus sintetizam também tudo o que ele ensinou e fez, com o propósito de solicitar aos discípulos que o sigam na mesma direcção que ele apontou.

Para aprofundar o tema

A nossa atenção detém-se, antes de tudo, sobre a primeira palavra utilizada por Jesus neste “discurso de despedida” que lemos neste Domingo de Páscoa: “Agora”. “Agora o Filho do Homem foi glorificado”. De que “hora” se trata? É o momento da cruz que coincide com a glorificação. Este termo no Evangelho de João coincide com a manifestação ou revelação. Por conseguinte, a cruz de Jesus é a “hora” da máxima manifestação da verdade. Deve ser afastado do significado de ser glorificado tudo o que possa levar a pensar em algo relativo à “honra”, ao “triunfalismo”, etc.

Por um lado Judas entra de noite e Jesus prepara-se para a glória: “Quando saiu, disse Jesus: 'Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado n'Ele. Se Deus foi glorificado n'Ele, Deus também o glorificará em si mesmo e glorificá-lo-á muito em breve'” (vv. 31-32) A traição de Judas amadurece em Jesus a convicção de que a sua morte é “glória”. A hora da morte na cruz está no plano de Deus; é a “hora” na qual sobre o mundo, mediante a glória do “Filho do Homem”, resplandecerá a glória do Pai. Em Jesus, que oferece a sua vida ao Pai na “hora” da cruz, Deus é glorificado revelando o seu ser divino e acolhendo na sua comunhão todos os homens.

A glória de Jesus (o Filho) consiste no seu “amor até ao fim” por todos os homens, quer os que se oferecem a ele quer os que o atraiçoam. É um amor que carrega todas as situações destrutivas e dramáticas que gravitam ao redor da vida e da história dos homens. A traição de Judas é o símbolo não tanto de um indivíduo mas de toda a malvadez da humanidade e da sua infidelidade à vontade de Deus.

Contudo, a traição de Judas continua a ser um acontecimento carregado de mistério. Escreve um exegeta: “Com a traição feita a Jesus a culpa insere-se na revelação; e inclusive é colocada ao serviço da revelação” (Simeons, Secondo Giovanni, 561). Em certo sentido a traição de Judas oferece a possibilidade de conhecer melhor a identidade de Jesus: a traição permitiu compreender até que ponto chegou a predilecção de Jesus pelos seus. Mazzolari escreve: “Os apóstolos, bons ou não, generosos ou não, converteram-se em amigos do Senhor; fiéis ou não, ficam sempre seus amigos. Não podemos atraiçoar a amizade de Cristo: Cristo nunca nos atraiçoa, nunca atraiçoa os seus amigos, mesmo que não o mereçamos ou nos revoltemos contra Ele ou o neguemos. Perante os seus olhos e no seu coração somos sempre os “amigos” do Senhor. Judas é um amigo do Senhor mesmo no momento em que beijando-o, consuma a traição do Mestre” (Discursos, 147).

O mandamento novo

Prestemos atenção ao mandamento novo. No versículo 33 há uma mudança no discurso de despedida de Jesus: não é mais usada a terceira pessoa mas há um “tu” a quem o Mestre dirige a sua palavra. Este “tu” é expresso no plural e através de um termo grego que exprime profunda ternura: “filhinhos” (teknía). Mais concretamente: Jesus ao usar este termo quer comunicar aos seus discípulos, através do tom da sua voz e com a abertura do seu coração, a imensa ternura que tem por eles.

É interessante verificar outra indicação que se encontra no versículo 34: “que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. O termo grego kathòs (“como”), não indica uma comparação: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O seu significado é consecutivo ou causal: “Porque eu vos amei, assim amai-vos uns aos outros”.

Há exegetas, como o P. Lagrange, que vêem no mandamento de Jesus um sentido escatológico: durante a sua relativa ausência, Jesus, esperando o seu definitivo retorno, quer ser amado e servido na pessoa dos seus irmãos. O mandamento novo é o único mandamento. Se falta, tudo falta. Escreve Magrassi: “Fora as etiquetas e as classificações: todo o irmão é sacramento de Cristo. Interroguemo-nos acerca da nossa vida diária: é possível viver ao lado do irmão desde a manhã até à noite sem o aceitar e amar? A grande tarefa neste caso é o êxtase, visto no sentido etimológico da palavra: sair de mim para me tornar próximo de quem quer que seja que tenha necessidade de mim, começando pelos que estão mais perto de mim e pelas coisas humildes de cada dia” (Vivere la Chiesa, 113).

Palavra para o caminho

Jesus fala de um “mandamento novo”. Onde está a novidade? O lema de amar o próximo já está presente na tradição bíblica. Também diversos filósofos falam de filantropia e de amor a todo o ser humano. A novidade está na forma de amar própria de Jesus: “amai-vos como eu vos amei”. Assim se irá difundindo, através dos seus seguidores, o seu estilo de amar. A primeira coisa que os discípulos experimentaram é que Jesus amou-os como amigos: ”Já não vos chamo de servos... mas chamo-vos de amigos”. Na Igreja temos que nos querer, simplesmente, como amigos e amigas. E, entre amigos, cuida-se da igualdade, da proximidade e do apoio mútuo. Ninguém está acima de ninguém. Nenhum amigo é senhor dos seus amigos.

 
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