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Regra Carmelita
Da revisão de vida e da correcção fraterna (nº 15) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da revisaõ de vida e da correcção fraterna (n.º 15) -

 

15- Da mesma maneira, nos domingos ou em outros dias caso for necessário, vocês devem tratar da observância na vida comum e do bem-estar espiritual das pessoas. Igualmente, nessa mesma ocasião, as trans­gressões e culpas dos irmãos, que por ventura forem encontradas em algum deles, sejam corrigidas mediante a caridade.

Um pouco de história: sobre a revisão semanal

A revisão semanal tal como é recomendada pela Regra era uma das características da Vida Religiosa dos mendicantes. Nos grandes mosteiros da época existia, desde séculos, a prática chamada "collatio". Todas as semanas, o Abade reunia a comunidade e lhe fazia uma palestra, cha­mada collatio, na qual ele colocava para os outros o seu pensamento e os instruía no caminho espiri­tual e nas tradições da vida monacal. Muitas destas collationes foram conservadas. As Collationes de Cassiano, por exemplo, são de uma riqueza enorme. Nelas encontramos a tradição e a espiritualidade que animava a vida dos monges.

A Regra do Carmo, porém, não impõe a "collatio", mas sim a revisão semanal e a partici­pação de todos na discussão e na solução dos problemas da comunidade. Nesta diferença, aparentemente insignificante, transparece o novo estilo de Vida Religiosa dos primeiros carmelitas. Através da prática da revisão semanal, eles iam adquirindo cada vez mais o jeito próprio dos mendi­cantes e iam se tornando fraternidades orantes e proféticas a serviço dos "menores". Eis as características da revisão semanal recomendada pela Regra:

  • A ordem de se fazer a revisão semanal não é dada ao superior, mas sim a todos: é a comunidade que assume o seu próprio destino.
  • A revisão semanal deve ser feita, de preferência, nos Domingos. Isto é, no dia em que não há jejum (Rc 16). É o dia em que se comemora a ressurreição de Jesus. Pois, a revisão não pode ser um encontro pesado, mas deve ser alegre, cheio de alegria pascal.
  • A revisão é feita no lugar da reunião em comum, isto é, na capela, onde se celebra a Eucaristia, onde se mantém viva a memória da doação de Jesus. No começo, não havia outro lugar comunitário. Nas ruínas da primeira capela lá no Monte Carmelo, ainda se vê o banco de pedra ao longo das paredes, onde os frades sentavam durante a reunião.
  • A prática da revisão semanal faz com que eles entrem num processo em que todos se responsabilizam por todos e por cada um. Faz crescer entre eles a consciência da igualdade e da correspon­sabilidade: todos são responsáveis pela observância da Regra. Um por todos, todos por um! 
  • A correcção das faltas que ocorre durante a revisão semanal deve ser feita com caridade. O amor é o critério para se reencontrar novamente o equilíbrio perdido da fraternidade.

A revisão semanal recomendada pela Regra

Quatro pontos merecem uma breve explicação: (1) a preservação da ordem (custodia ordinis), (2) o bem-estar das pessoas (animarum salute) e (3) a correcção fraterna (4) que deve ser feita com caridade (caritate media):

A preservação da ordem. A expressão custodia ordinis não indica a Ordem do Carmo, nem a ordem no sentido de disci­plina, mas indica a organização da vida em comum. Trata-se do bom funcionamento do con­junto, da fraternidade. Esta tarefa, não é dada ao superior, mas a todos os frades. Todos devem assumir o funcionamento do conjunto e são responsáveis por ele. Nos outros números, sempre se indica o responsável pelas coisas que são aconselhadas. Geralmente, é o superior e a maioria qualificada, ou algum responsável indicado pelo Prior. Mas aqui, é a comunidade como um todo que é respon­sabilizada.

Uma vez por semana, eles devem tratar deste assunto e ver se a sua vida está dentro do objectivo, que eles mesmos se propuseram quando foram falar com Alberto. Devem verificar, por exemplo, como está a permanência nas celas, como está sendo feita a comunhão de bens, como está sendo celebrada a Eucaristia diária. Devem verificar se tudo está sendo vivido de acordo com o objectivo principal da sua vida: ao serviço do povo, ao lado dos "menores", ao serviço da renovação da Igreja, como seguimento de Jesus.

O bem-estar das pessoas. A expressão animarum salute não significa "salvação das almas", no sentido de trabalho apostólico. Aqui, salute indica "salvação" no sentido de saúde, isto é, o bem-estar de cada um. Na revisão semanal, eles devem tratar não só do bom funcionamento do conjunto (vida comum), mas também do bem-estar de cada membro da comunidade. Isto é, devem interessar-se não só pela fraternidade em geral enquanto testemunho para fora, mas também pela fraternidade para dentro, pelo irmão, pela irmã, bem concre­tamente, para que o relacionamento mútuo se aprofunde e se torne transparente .

A correcção fraterna. Devem tratar também de culpas e excessos. Pois, inevitavelmente, caso existirem, tais de­feitos vão aparecer na revisão semanal. A comunidade reunida deve descobrir estas falhas e, através de uma discussão aberta, deve procurar corrigi-las, usando como directriz a caridade. Na correcção fraterna, cada um deve sair da sua cela, do seu pequeno santuário pessoal, deve sair de si mesmo e ir em direcção ao outro. É uma ascese difícil. Não se trata de ataque, mas de entrega e doação.

Usar a caridade. O texto em latim diz caritate media. Isto pode ser traduzida no sentido de que a caridade deve ser o meio que se usa para corrigir as faltas. Ao mesmo tempo, a expressão evoca o que se disse anteriormente falando do oratório que deve ser construído no meio das celas. Ou seja, no centro de tudo deve estar a caridade, o amor, que nasce da sua fonte que é a Eucaristia a ser celebrada diariamente no oratório.

E aqui vale a pena lembrar o texto da carta de Paulo aos Coríntios, onde ele tenta descrever o que vem a ser o amor na vida de uma pessoa ou de uma comunidade. Segue aqui o texto que já foi lido durante o encontro, mas agora o apresentamos misturado com algum comentário (1Cor 13,1-13): "Posso falar todas as línguas" (1Cor 13,1), posso ter muita comunicação para anunciar a Boa Nova; mas sem o amor, nada sou! "Posso ter o dom da profecia" (1Cor 13,2), posso fazer grandes denúncias e animar o povo; mas sem o amor, nada sou! "Posso ter o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência"  posso ser grande teólogo e ter muita consciência crítica; mas sem o amor, nada sou! "Posso ter toda a fé a ponto de transportar montanhas" (1Cor 13,2), posso ter a doutrina certa e uma fé milagrosa; mas sem o amor, nada sou! "Posso distribuir os meus bens aos famintos" (1Cor 13,3), posso fazer opção pelos pobres e dar tudo a eles; mas sem o amor, nada sou! "Posso até entregar o meu corpo às chamas" (1Cor 13,3), posso ser preso e torturado; mas sem o amor, "isto nada me adiantaria" (1Cor 13,3).

Todas estas coisas, enumeradas por Paulo e tão importantes para a vida da pessoa e da comunidade, não conseguem definir o amor, não se identificam com o amor, nem o esgotam. Apenas o revelam. O amor é um dom que ultrapassa tudo isto! O que é o amor? Paulo não res­ponde, mas cita a letra de um canto da comunidade, onde oferece uma chave para cada um, cada uma, avaliar se na sua vida existe ou não este amor (1 Cor 13,4-8). Eis a letra do canto: O amor é paciente, O amor é prestativo. Não é invejoso, Não se ostenta, Não se incha de orgulho; Não faz nada faz de inconveniente, Não procura seu próprio interesse; Não se irrita, Não guarda rancor, Não se alegra com a injustiça, Mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, Tudo crê, Tudo espera, Tudo suporta, O amor jamais passará!

Observações sobre os números 10 a 15 da Regra

Os números 10 a 15 são o miolo, o coração da Regra, as cinco pilastras da vida carmelitana. Oferecem a estrutura básica dentro da qual deve ser vivida a nossa espiritualidade:

  • Oração individual.
  • Oração em comum.
  • Partilha dos bens.
  • Eucaristia diária.
  • Revisão semanal.

Há uma coisa curiosa comum em cada uma destas cinco pilastras, que revela, ao mesmo tempo, a radicalidade e a humanidade da Regra. Em cada um destes cinco pontos, alguma coisa é relativizada:

  • Permanecer na cela, se não estiver ocupado em outra coisa justificada (Rc 10).
  • Rezar o Ofício, se souber. Se não souber, pode rezar o Pai Nosso (Rc 11).
  • Partilhar e distribuir os bens, mas conforme as necessidades e idades de cada um (Rc 12).
  • Não podem ter nada, mas podem ter jumento e galinhas (Rc 13).
  • O oratório deve ser construído no meio das celas, se for possível (Rc 14).
  • Devem celebrar a Eucaristia todos os dias, se for possível (Rc 14).
  • Devem fazer revisão nos domingos ou em outros dias, caso seja necessário (Rc 15).

Outros aspectos, porém, não são relativizados, a saber:

  • Meditar e vigiar sempre, dia e noite.
  • Rezar em comum.
  • Comunhão de bens, não ter propriedade pessoal.
  • Ter Eucaristia, ter lugar de oração.
  • Ter revisão semanal.

Com outras palavras: o ideal é permanente e absoluto. A forma de realizá-lo é relativizada. Deste modo, a Regra impede que a pessoa busque a sua segurança na observância perfeita das normas, pois é exactamente destas normas que se diz: "Se for possível.....;  se puder....; conforme for....". Ou seja, a Regra aponta vários caminhos possíveis para se caminhar em direcção ao ideal. Há várias maneiras de realizá-lo. O ideal é muito simples e despretensioso, profundamente revolucionário e altamente com­prometedor com relação ao sistema da sociedade e da Igreja. É nesta perspectiva revolu­cionária que a Regra insiste e não abre mão nem a relativiza. Ela abre mão de pequenas coisas, mas não abre mão da inspiração fundamental: ser uma fraternidade orante e profética ao serviço do povo, dos "menores".

Carlos Mesters, O. Carm.

 
Do lugar do Oratório e da Eucaristia diária (nº 14) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do lugar do Oratório e da Eucaristia diária (n.º 14) -

14- O oratório, de acordo com as possibilidades, seja con­struído no meio das celas, aonde, cada dia pela manhã, vocês devem reunir-se para participar da soleni­dade da Missa, quando as circunstâncias o permitirem.

Um pouco de história: sobre o oratório no meio das celas e a Eucaristia diária

Alberto pede que o oratório (capela) seja construído no meio das celas dos frades. Então, será que ainda não havia uma capela no Monte Carmelo? Muito provavelmente, já existia um pequeno oratório no lugar onde moravam os primeiros carmelitas. Os peregrinos da época mencionam a existên­cia desta capela e informam que ela era dedicada a Santa Maria do Monte Carmelo. Então, porque a Regra manda construir algo que já existia? É que Alberto escreveu a Regra não só para aquele pri­meiro grupo, mas também para os outros grupos e comunidades carmelitanas que viriam depois. Cada nova comunidade deve ter um oratório ou uma capela num lugar central, onde os membros da comunidade devem reunir-se todos os dias de manhã para a celebração da Eucaristia. Olhando bem de perto, ponto por ponto, as palavras deste texto tão curto sobre a celebração diária da Eucaristia, a gente descobre uma riqueza muito grande:

Devem construir uma capela. A construção do templo material é expressão e símbolo da construção do templo espiritual, isto é, da comunidade feita de pedras vivas. A construção do templo espiritual é uma tarefa permanente que não termina nunca: ser fraternidade orante e profética no meio do povo.

No meio das celas. No centro do Carmelo está a casa de Deus, para onde tudo converge. Deus é o eixo da vida, o centro de tudo. Ele é o lugar dos encontros comunitários: missa, ofício divino, revisão semanal. "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28).

Onde devem reunir-se. Os frades devem sair de si mesmos para o meio das celas a fim de encontrar-se com os outros e com Deus. Vida mística não pode levar as pessoas a se concentrar em si mesmas, mas deve levá-las a abrir-se para os outros.

Todos os dias. Trata-se de um processo que deve ser recomeçado e reassumido cada dia de novo. A construção e a manutenção da capela material recorda a obrigação da construção espiritual.

De manhã. Após o sono restaurador da noite, quando de manhã Deus nos devolve a nós mesmos, o primeiro ato do dia é a Eucaristia. E é um ato comunitário que nos obriga a sair da solidão das celas para partilhar com os outros o pão da comunhão.

Para assistir à solenidade da Missa. No centro de tudo está a presença viva de Jesus, cuja memória perigosa é reativada todos os dias de manhã, fora de nós mesmos, lá no centro das celas, no eixo da comunidade. "Ele está no meio de nós!" A Regra diz: assistir à solenidade da Missa. Este jeito de falar é anterior ao Concílio Vaticano II. Hoje preferimos dizer: “participar da celebração eucarística”.

Se não for demasiadamente incómodo. O rito é relativo. O que importa é a realidade por ele representada e celebrada. O rito não pode ocupar o centro. No centro está a memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Quando a observância da letra se torna mais importante que o objectivo da mesma, a letra já matou o espírito!

Resumindo. O profeta Ezequiel pede que o Templo, a morada de Deus, fique no meio. Ele diz: "No meio das tribos deve estar o santuário" (Ez 48,8). No Monte Carmelo, cada frade tinha a sua cela, o seu oratório pessoal, onde ele passava o dia meditando na lei do Senhor e vigiando em orações (Rc 10). A presença do oratório comunitário no meio das celas é como a pedra central de um edifício que dá firmeza e consistência às outras pedras dos oratórios pessoais de cada frade. Cria-se assim um conjunto, cujo centro é a presença de Deus: "A presença do Senhor no meio de vós" (Ez 48,35). Saindo cada um do seu oratório pessoal, todos os dias, de manhã, eles saíam de si mesmos para encontrar-se com a memória perigosa da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus na Eucaristia. A capela no meio das celas evocava também a presença de Maria no meio dos Apóstolos (At 1,14), pois a pequena capela era dedicada a Santa Maria do Monte Carmelo.

A Forma de Vida, escrita por Alberto em 1207, estabelece três atos comunitários, mas cada um de um jeito diferente: 1) a Eucaristia, que reúne todos os frades, todos os dias, na mesma hora e no mesmo lugar (Rc 14); 2) o Ofício Divino, que congrega todos os frades, todos os dias, na mesma hora, mas não no mesmo lugar, pois todos o rezavam na sua própria cela (Rc 11); 3) a revisão semanal, que reúne todos os frades na mesma hora e no mesmo lugar, mas não todos os dias (Rc 15). A Regra aprovada pelo Papa Inocêncio IV em 1247, estabelece três atos comunitários que reúnem todos os frades, todos os dias, na mesma hora e no mesmo lugar: a refeição em comum (Rc 7), o Ofício Divino (Rc 11) e a Eucaristia (Rc 14).

Eucaristia, fonte de fraternidade

A fraternidade orante e profética está no centro do ideal do Carmelo. Ela é celebrada e aprofundada na Eucaristia como na sua fonte, que celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, a doação que Ele fez da sua vida pelos irmãos (Rc 14). A palavra Eucaristia significa bendizer, agradecer. Eucaristia é, antes de tudo, ação de graças por tudo aquilo que Deus fez por nós ao longo da história e sobretudo através de Jesus. Eucaristia é celebrar a memó­ria de Jesus que se doou por nós e não teve medo de entregar sua vida, para que nós pudéssemos viver em Deus e ter acesso ao Pai. Aqui está o sentido profundo da Eucaristia diária: colocar presente no meio de nós, e experimentar na própria vida a experiência de Jesus que morre e ressuscita. O que Paulo escreve sobre a Eucaristia (1Cor 11,20-29), ele também o vivia na sua vida de cada dia (Fil 3,10-11).

E aqui acrescenta-se um aspecto todo especial que marca a Família Carmelitana, mas que caiu no esquecimento depois que se fez a reforma litúrgica por ocasião do Concílio Vaticano II. Na Igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém, igreja catedral do patriarca Alberto, havia um rito próprio, todo ele centrado em torno da solene comemoração da ressurreição de Jesus, celebrada no lugar mesmo do sepulcro vazio. Junto com a Regra, os carmelitas receberam de Alberto este rito da Igreja do Santo Sepulcro, que ele chamou de “costume aprovado da Igreja” (Rc 11). Na reforma litúrgica, depois do Vaticano II, a Ordem abandonou este rito.

O que não pode ser abandonado é a insistência da Regra na celebração da ressurreição, que transparece em vários lugares. Por exemplo:

  • O jejum deve ser feito desde a festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada no dia 14 de Setembro, até o dia da Ressurreição do Senhor (Rc 16). Aqui, a cruz é vista como a glorificação que antecipa a luz da ressurreição.
  • O jejum deve ser feito todos os dias da semana, mas não nos Domingos (Rc 15). Porque o Domingo é o dia da ressurreição.
  • A reunião semanal de revisão deve ser feita nos Domingos (Rc 15), isto é, no ambiente alegre da ressurreição, o que ajuda a relativizar os sofrimentos da correção fraterna e faz crescer o amor mútuo.
  • A própria celebração diária da Eucaristia.

Eucaristia sem missa - Luzes que vêm da Bíblia

Acontece com frequência: pessoas, que participam da Missa todos os dias, caem na rotina e perdem o sentido da Eucaristia. Acontece também o contrário: pessoas, que não têm a oportunidade de participar da Eucaristia todos os dias, levam uma vida eucarística profunda. A riqueza oferecida pela Bíblia pode ajudar a um e a outro no aprofundamento do sentido da Eucaristia

Páscoa: a origem remota da Eucaristia

A Páscoa era a festa principal dos judeus. Nela se comemorava o Êxodo, a libertação da escravidão do Egito, que está na origem do povo de Deus. Mais do que só uma festa ou mera lembrança, a Páscoa era uma porta que se abria, cada ano de novo, para que cada geração, cada pessoa, pudesse ter acesso à mesma origem que, no passado, havia gerado o povo. Através da celebração da Páscoa, cada geração, cada pessoa, bebia da mesma fonte; experimentava na sua vida o que a primeira geração, no longínquo passado, havia experimentado ao ser libertado da escravidão do Egito. A celebração da Páscoa era como um renascimento anual. Eles procuravam viver em estado permanente de êxodo!

A celebração da Páscoa no tempo de Jesus

No tempo de Jesus, a celebração da Páscoa era feita de tal maneira que os participantes pudessem percorrer o mesmo caminho que foi percorrido pelo povo ao ser libertado do Egito, e ter a mesma experiência de Deus: o Deus Javé que escuta o clamor do oprimido, que chama a Moisés e a todos nós para libertar o povo da escravidão. Para que isto pudesse acontecer, a celebração da Páscoa se realizava com muitos símbolos. Por exemplo:

  • O símbolo da ervas amargas permitia experimentar a dureza e a amargura da escravidão.
  • O cordeiro mal assado lembrava a rapidez da ação divina libertando o povo.
  • O pão ázimo lembrava a necessidade da renovação constante.
  • Lembrava também a falta de tempo para preparar tudo, tal era a rapidez da ação divina.
  • A celebração presidida pelo pai de família lembrava a nova estrutura comunitária tribal.
  • A resposta do pai às perguntas do filho mais novo possibilitava lembrar todos os fatos. 

Recordar: fazer passar novamente pelo coração

Era assim que eles re-cordavam e celebravam a Páscoa. Re-cordar quer dizer fazer passar tudo novamente (re) pelo coração (cor). Fazendo passar as coisas pelo coração, as gerações iam assimilando o seu próprio passado e cresciam em identidade. Descobriam também qual a sua missão, pois iam adquirindo uma visão mais crítica da realidade que viviam e que não estava de acordo com as exigências do projeto de Deus revelado no passado.

Páscoa: pano de fundo da Eucaristia

Tudo isto vale para entender melhor o significado da Eucaristia. O mistério pascal celebrada na Euca­ristia pode perder o seu brilho quando a rotina toma conta. Esquecer a riqueza da Páscoa dos judeus, quando se celebra a Eucaristia, é como tirar a parede na qual está pendurado o quadro. Os muitos aspectos da Páscoa dos judeus continuam válidos para a celebração da Páscoa de Jesus e dele são o pano de fundo. Eles mostram que, mesmo não se podendo participar da missa diária, a vida pode ser profundamente eucarística.

Resumindo, eis alguns aspectos do pano de fundo bíblico da Eucaristia:

  • Tomar consciência da opressão.
  • Libertação do Egito, da opressão.
  • Experimentar a grandeza do poder libertador de Deus.
  • Celebrar a Aliança, reassumir o compromisso.
  • Agradecer as maravilhas de Deus por nós.
  • Animar a fé, a esperança e o amor.
  • Lembrar o já feito e esperar o ainda não feito.
  • A doação que Jesus faz da sua vida.
  • Paixão, morte e ressurreição: o mistério da vida.
  • Comunhão na doação, força geradora da fraternidade.
  • Partilha dos bens, o maná do céu e do deserto.
  • Louvor ao Pai de todos os dons.
 
Da comunhão de bens e do não ter propriedade (nn.º 12-13) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da comunhão de bens e do não ter propriedade (nn.º 12-13) -

12. Nenhum dos irmãos diga que algo é propriedade sua, mas tudo entre vocês seja comum, e seja distribuído a cada um pela mão do prior, quer dizer, pelo irmão por ele designado para este serviço, conforme cada qual estiver precisando, levando-se em consideração as idades e as necessidades de cada um.

13. Contudo, na medida em que alguma necessidade de vocês o exigir, lhes é permitido possuir burros ou mulos, e algum tipo de animais ou de aves para criação.

Um pouco de história: sobre a comunhão de bens

Na época em que os primeiros carmelitas começavam a sua vida no Monte Carmelo, os grandes mosteiros da Europa tinham muitas propriedades de terra. Por isso, podiam levar uma vida autónoma, distante do povo, dedicados inteira e exclusivamente à oração e ao trabalho (Ora et Labora). Os monges tinham pouco contato com o povo e viviam alheios às grandes mudanças econômicas, sociais e políticas que estavam ocorrendo nos séculos XII e XIII. Por causa da insegurança gerada pelas mudanças, surgiam grupos fanáticos (Cátaros, Albigenses e outros) que confundiam e desviavam o povo, sobretudo o povo pobre, os menores. Os monges não se sentiam chamados para ajudá-los, e o clero secular não estava preparado nem tinha condições de dar uma resposta ao problema dos pobres que enchiam as cidades (burgos), e de anunciar-lhes a Boa Nova.

Diante desta problemática foi surgindo, aos poucos, um novo tipo de Vida Religiosa que procurava ser uma resposta de Deus à nova situação em que vivia o povo. Era o assim chamado movimento dos Mendicantes. Foi sobretudo São Francisco de Assis que soube dar forma a este novo tipo de Vida Religiosa. Os Mendicantes eram pobres com os pobres, partilhavam tudo entre si e com o povo. Não tinham propriedade e viviam em pequenas fraternidades a serviço do povo, sobretudo dos menores, e anunciavam a eles a Boa Nova. Em troca, recebiam alguma esmola. Daí o nome Mendicante.

Ora, a insistência da Regra de Alberto na comunhão de bens e na proibição de os frades carmelitas terem alguma propriedade estava de acordo com este novo tipo de Vida Religiosa que estava surgindo na Igreja. A observância destas normas da Regra (Rc 12 e 13) fazia com que eles, aos poucos, fossem empurrados para dentro da Igreja que se renovava, levados a ficar do lado dos "menores" com a missão de serem no meio deles testemunhas vivas do Evangelho.

A fraternidade assim vivida era semente e amostra da nova sociedade que eles sonhavam. Eles já não serviam ao senhor feudal, mas sim a Jesus e a Nossa Senhora, e eram irmãos entre si. Não eram como as dioceses e os mosteiros, mas viviam perto do povo e concretizavam para eles o evangelho. Esta vida fraterna no meio do povo era um ensaio do Reino, uma Boa Notícia para os pobres. O voto de pobreza não era só um meio de ascese para poder rezar melhor, mas também uma forma concreta de se contestar a injusta desigualdade social. Dentro do contexto daquela época, sua vida tinha um alcance político.

Era a necessidade das pessoas (e não o lucro) que os orientava tanto na posse comum dos bens quanto na sua distribuição. A distribuição era feita por um responsável indicado pelo prior (Rc 12). Os bens em comum eram coisas simples: aquilo que recebiam do povo; burros e galinhas (para o tra­balho e a viagem); fruto do trabalho (roçado em torno das celas).

No entanto, não era fácil de observar aquela exigência da Regra de não ter propriedade. Como vimos na Introdução, durante os primeiros quarenta anos, de 1207 até à aprovação definitiva da Regra em 1247, os papas tiveram que intervir várias vezes, para impedir que este ponto fosse abandonado. Em 1247, na aprovação final, o papa Inocêncio IV, mesmo permitindo que possuíssem alguns animais (Rc 13), reforçou a proibição acrescentando no número 4 a cláusula “com abdicação de propriedade”.

O ideal da fraternidade: fazer do uso comunitário dos bens um caminho espiritual

O primeiro passo neste caminho

Não devo relacionar os bens comigo, com a minha pessoa, nem apropriar-me deles como sendo meus, mas sim fazer com que sejam relacionados com a comunidade a que pertenço. Não isolá-los do conjunto, mas possuí-los como parte do todo. Usar todos os bens materiais e espirituais, dons e qualidades, conquistas e diplomas, estudos e capacidades, tudo, como sendo uma parte dentro de um conjunto maior que é a comunidade.

O segundo passo neste caminho

Devo ver as coisas e os bens como dons recebidos. Pois tudo me é distribuído pela mão do responsável pela comunidade. A distribuição não é anónima, mas é feita por um irmão ou uma irmã, e ele ou ela olha as necessidades e a idade de cada um. O voto de pobreza não consiste em privar-me de tudo, mas sim em aprender a receber tudo que tenho e sou como um dom bem pessoal vindo da comunidade para mim, nesta minha necessidade e nesta minha idade.

O terceiro passo neste caminho

Devo olhar as coisas com um olhar que abre tudo para Deus. Se tudo me vem do irmão e da comunidade, se tudo faz parte de um conjunto maior, onde tudo tem o seu lugar, inclusive eu, a minha pessoa, então tudo tem a sua organização a partir daquele que criou tudo para todos e que faz com que tudo seja revelação da sua presença. Tudo se torna relativo frente ao absoluto de Deus. Não se agarrando a nada, recebe-se tudo. O caminho para se chegar ao todo passa pelo nada. Esta atitude transformará minha vida numa oração permanente de louvor e de ação de graças, como diz o salmo: "Eu sou oração!" (Sl 109,4). Transforma a comunidade e faz com que ela seja comunidade orante e profética a serviço do povo, sobretudo dos "menores".

O fundamento da fraternidade: o modelo das comunidades dos primeiros cristãos

Os números 10 a 15 da Regra descrevem o miolo da vida carmelitana, o ideal da fraternidade orante e profética. A proibição de ter propriedade e a comunhão de bens (Rc 12 e 13) estão no centro desta descrição. São o miolo do miolo. A própria estrutura literária o revela: Tarefa de cada um; Oração e vigília individual (Rc 10); Oração litúrgica em comum (Rc 11); Comunhão de bens e proibição de ter coisa própria (Rc 12 e 13); Celebração eucarística em comum (Rc 14); Tarefa da comunidade: revisão e zelo pelo bem comum (Rc 15).

Alberto tinha diante de si o modelo da comunidade dos primeiros cristãos de Jerusalém, da qual se diz nos Atos dos Apóstolos: "Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles" (At 4,32). Assim também entre os carmelitas: tudo era de todos! Naquele tempo, este era também o ideal que animava a renovação da Igreja e da Vida Religiosa.

Comparando o ideal da Regra (Rc 10 a 15) com o que dizem os Atos dos Apóstolos a respeito da comunidade dos primeiros cristãos (At 2,42-47; 4,32-35), aparece o seguinte esquema:

  • Oração e vigilância (Rc 10) - "Perseveravam na oração" (At 2,42; 4,24).
  • Oração litúrgica (Rc 11) - "Frequentavam o Templo" (At 2,46-47).
  • Comunhão de bens (Rc 12 e 13) - "Tinham tudo em comum" (At 2,42.44; 4,32.34-35).
  • Celebrar a Eucaristia (Rc 14) - "Fração do pão nas casas" (At 2,42.46).

Revisão semanal (Rc 15) - "Eram um só coração e uma só alma" (At 4,32; 1,14).

Estes cinco pontos que marcaram a vida comunitária dos primeiros cristãos, formam também a base da fraternidade do jeito que esta deve ser vivida pela famí­lia car­melitana. Vejamos:

  1. A fraternidade deve alimentar-se da Palavra de Deus e da oração permanente: isto exige lei­tura orante e meditação constante (Rc 10).
  2. A fraternidade deve ter a sua expressão comunitária: oração litúrgica ou celebra­ção comunitária da Palavra de Deus (Rc 11).
  3. A fraternidade deve ter a sua expressão económica bem concreta na partilha dos bens, na igualdade básica real, na pobreza que os leva a ficar do lado dos "menores" (pobres) (Rc 12 e 13).
  4. A fraternidade deve alimentar-se da Eucaristia, que é a participação na Morte e Ressurreição: doação radical de si a Deus e aos irmãos (Rc 14).
  5. A fraternidade se consolida e se aprofunda através da revisão semanal, que promove a corresponsabilidade de todos no andamento do conjunto e no bem-estar de cada um dos irmãos (Rc 15).

Carlos Mesters

 
Do Ofício Divino ou da oração em comum (n.º 11) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do Ofício Divino ou da oração em comum (n.º 11) -

11. Os que sabem recitar as horas canônicas com os clérigos, as recitem conforme as disposições dos Santos Padres e segundo o costume aprovado da Igreja. Os que não o sabem, recitem vinte e cinco vezes o Pai Nosso nas vigílias noturnas, com exceção dos domingos e dias solenes, em cujas vigílias determinamos que se du­plique o número mencionado, de modo que o Pai Nosso seja recitado cinqüenta vezes. No louvor da manhã, porém, a mesma oração seja recitada sete vezes. Da mesma maneira, em cada uma das outras horas, a mesma oração seja recitada sete vezes, menos nas vésperas, em que devem recitá-la quinze vezes.

Um pouco de história: Sobre os sete momentos de oração ao longo do dia

A Regra recomenda que os frades tenham sete momentos por dia, em que devem parar todas as atividades e fazer orações. A origem destes sete momentos de oração vem do Salmo 119,164 que diz: "Sete vezes por dia eu te louvo por causa de tuas normas justas". Assim nasceram as sete Horas do Ofício Divino: Matinas, Laudes, Hora Primeira (Prima), Hora Terceira (Tertia), Hora Sexta, Hora Nona e Vésperas com o seu Completório. As Laudes e as Vésperas são as duas colunas que sustentam o fio da caminhada diária: o louvor matinal e a ação de graças no fim do dia. A estrutura básica do Ofício é muito simples. É um diálogo: ouvir (leituras) e responder (salmos). O Ofício Divino acentua a importância dos salmos para nós.

No início, lá no Monte Carmelo, muito provavelmente, era assim: ao toque de um sino, cada frade parava suas atividades e fazia a oração do Ofício na sua própria cela. Cada um sabia: neste momento em que eu estou rezando, estamos todos unidos em oração diante de Deus. Naqueles mesmos sete momentos do dia, em todos os mosteiros e conventos de todas as ordens e congregações em todo mundo, todos paravam para rezar. Deste modo, os primeiros carmelitas se uniam à oração universal da Igreja.

O texto de Alberto de 1207 dizia: Os que conhecem as letras e sabem ler os salmos, devem recitá-los, nas várias horas, conforme estabeleceram os Santos Padres e segundo o costume aprovado da Igreja. Os que não conhecem as letras devem dizer um determinado número de Pai Nosso. Aqui, a distinção é entre os que sabem ler e os que não sabem ler. O texto aprovado pelo Papa em 1247 é diferente do texto de Alberto. Ele diz: Os que sabem dizer as horas canônicas com os clérigos devem recitá-las conforme estabeleceram os Santos Padres e segundo o costume aprovado da Igreja. Os que não sabem recitá-las, devem dizer um determinado número de Pai Nosso. Aqui, a distinção já não é entre os que sabem ler e os que não sabem ler, mas entre os que sabem dizer o ofício com os clérigos e os que não o sabem.

Isto significa que, bem no início, na época de Alberto, os primeiros carmelitas do Monte Carmelo não eram clérigos, mas leigos, dos quais alguns sabiam ler e outros não. Mais tarde, no texto aprovado por Inocêncio IV, "saber ler" tornou-se sinônimo de "clérigo", e "não saber ler" torna-se sinônimo de "não clérigo". O motivo desta mudança, hoje às vezes lamentada, era para tornar a Ordem mais apta para a nova situação da Igreja naquela sociedade em mudança. Ao longo dos séculos, isto levou à infeliz distinção entre sacerdotes e irmãos leigos. Hoje em dia, a situação de mudança em que nós nos encontramos, exige que voltemos ao espírito original da Regra, dando direitos iguais a todos.

O costume aprovado da Igreja, de que fala a Regra, refere-se ao Rito próprio da Igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém, que era, por assim dizer, a igreja Catedral de Alberto, o patriarca de Jerusalém. Havia lá um rito centrado em torno da celebração da Ressurreição de Jesus. Sobre este Rito, que os carmelitas receberam junto com a Regra, falaremos mais adiante nos círculos 9 e 11.

A oração do Ofício Divino: unir nossa voz aos que no mundo não têm voz

Oração não é só um meio para alcançar um fim. Oração tem finalidade em si mesma. Era tarefa dos apóstolos dedicar-se à Palavra e à Oração (At 6,2-4). Oração é um ato de louvor ao Criador: reconhece Deus como Senhor supremo do tempo, vive a gratuidade e a doação, reconhece nossa total dependência, reconhece nossa falta e pecado. Oração é a respiração mais profunda da alma. Vigiar em ora­ção e meditar a Lei do Senhor é como fluxo e refluxo, sístole e diástole. Oração é a resposta à Palavra, é a fonte que acorda dentro de nós.

O número 11 da Regra retoma em comum o que, antes, o número 10 tinha recomendado para cada carmelita em particular, a saber: meditar dia e noite na Lei do Senhor e vigiar em orações. A vida de oração contínua é um fator muito importante na vida fraterna dos Carmelitas. Ela deve ter uma expressão comunitária: é o Ofício Divino que se espalha pelas horas ao longo do dia.

A vigília noturna, o louvor matinal, as horas do dia, a prece vespertina, a oração da noite formam juntos um ritmo que envolve as horas do dia e da noite. É o ritmo da criação, que existe no nosso corpo e na natureza. Rezando o Ofício, entramos neste ritmo, e ele entra em nós. O ritmo do dia e da noite organiza os dias, as semanas, os meses, o ano, distribuindo neles as festas que lembram a vida e as obras de Jesus. O que importa é entrar neste ritmo orante que abrange as horas do dia, as semanas, os meses, os anos. A forma das orações é relativa. Pode ser o Ofício Divino, pode ser a reza dos Pai Nosso (e das Ave-Maria), distribuídas pelas horas do dia e da noite. É um ritmo antigo, que vem desde os tempos de Jesus. Durante os 33 anos, sua vida era marcada pelo ritmo diário da oração em casa, na família: de manhã, ao meio dia e à noite; pelo ritmo semanal em comunidade, na sinagoga; pelo ritmo anual de acordo com as romarias das grandes festas, no Templo de Jerusalém.

Depois da reforma litúrgica do Vaticano II, o novo breviário concentrou os sete mo­mentos da oração em três ou quatro. Porém, o que importa, é cada comunidade ter os seus momentos de oração comunitária. Importante é manter sobretudo os dois momentos principais: de manhã, para o louvor da aurora; à tardezinha, para o louvor do fim do dia.

Rezando os Salmos do Ofício ou os Pai Nosso (e as Ave-Maria), nós nos unimos à Igreja, não na sua organização, mas na sua oração: à oração humilde dos pobres da América Latina; à oração silenciosa e suplicante dos doentes abandonados; à oração angustiada dos sem-terra e sem-teto, dos estrangeiros, dos presos, dos desempregados; à oração esperançosa dos romeiros que acendem uma vela em Aparecida do Norte; à oração do pobre que não tem ninguém que escuta o seu grito; à oração dos que buscam sem saber em que direção devem procurar; à oração dos que rezam sem saber que estão rezando!

Esta oração com a Igreja, sobretudo com os pobres, nos tira de nós mesmos, do nosso pequeno mundo, e nos abre para o mundo do outro, dos pobres. O ritmo da oração vai ritmando nossa vida. Assim, se realiza em nós o que a Regra afirma mais adiante: a palavra de Deus habitará abundantemente em nossa boca e vai descendo ao coração, desce até os pés e faz com que tudo que fazemos se faça na palavra de Deus (Rc 19). A oração nos vai plasmando, configurando a Jesus, em cujo obséquio queremos viver.

Breve comentário do Pai Nosso

A Regra privilegia a oração do Pai Nosso. Pede que ela seja rezada, ao todo, setenta e cinco vezes por dia, em cem vezes em dias de festa. Por isso, vale a pena dar um pouco de atenção a esta oração que é o salmo que Jesus nos deixou. Segue aqui um breve comentário.

  • Pai Nosso. Exprime o novo relacionamento com Deus (Pai). É o fundamento da fraternidade (Nosso Pai). A origem desta novidade é a experiência que Jesus teve de Deus como Pai.
  • Santificar o Nome. O nome é JAVÉ. Significa Estou com você! Deus conosco. Neste NOME Deus se deu a conhecer (Ex 3,11-15). O Nome de Deus é santificado quando é usado com fé e não com magia; quando é usado conforme o seu verdadeiro objetivo, isto é, não para a opressão, mas sim para a libertação do povo e para a construção do Reino.
  • Vinda do Reino. O único Dono e Rei da vida humana é Deus (Is 45,21; 46,9). A vinda do Reino é a realização de todas as esperanças e promessas. É a vida plena, a superação das frustrações sofridas com os reis e os governos hu­manos. Este Reino acontecerá, quando a vontade de Deus for plenamente realizada.
  • Fazer a Vontade. A vontade de Deus se expressa na sua Lei. Que a sua vontade se faça na terra assim como no céu. No céu o sol e as estrelas obedecem às leis de suas órbitas e criam, assim, a ordem do universo (Is 48,12-13). Assim, a observância da lei Deus será fonte de ordem e de bem-estar para a vida humana.
  • Pão de cada dia. No êxodo, cada dia, o povo recebia o maná no deserto (Ex 16,35). A Providência Divina passava pela organização fraterna, pela partilha. Jesus nos convida para realizar um novo êxodo, uma nova maneira de convivência fraterna que garante o pão para todos (Mt 6,34-44; Jo 6,48-51).
  • Perdão das dívidas. Cada 50 anos, o Ano Jubilar obrigava todos a perdoar as dívidas. Era um novo começo (Lev 25,8-55). Jesus anuncia um novo Ano Jubilar, "um ano da graça da parte do Senhor" (Lc 4,19). O Evangelho quer recomeçar tudo de novo! Hoje, a dívida externa não é perdoada!
  • Não cair na Tentação- No êxodo, o povo foi tentado e caiu (Dt 9,6-12). Murmurou e quis voltar atrás (Ex 16,3; 17,3). No novo êxodo, a tentação será superada pela força que o povo recebe de Deus (1Cor 10,12-13).
  • Libertação do Maligno. O Maligno é o Satanás. Ele afasta de Deus e é motivo de escândalo. Chegou a entrar em Pedro (Mt 16,23) e tentou Jesus no deserto. Jesus o venceu (Mt 4,1-11). Ele nos diz: "Coragem! Eu venci o mundo!" (Jo 16,33)
  • Amem. Aprova os pedidos e diz estar de acordo com este programa.

Carlos Mesters, Ao redor da fonte

 
Da permanência nas celas e da oração contínua (n.º 10) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da permanência nas celas e da oração contínua (n.º 10) -

10. Permaneça cada um em sua cela ou na proximidade dela, meditando dia e noite na Lei do Senhor e vigiando em orações, a não ser que esteja ocupado em outros justificados afazeres.

Um pouco de história: sobre a permanência na cela e a oração contínua

O número 10 da Regra teve muito peso e influência na história da Ordem. Por causa dele o Carmelo tornou-se sinônimo de lugar de oração. Oração e meditação não são uma atividade ao lado das outras, mas são a própria vida do Carmelo. Não são um ladrilho ao lado dos outros, mas são a parede que sustenta todos os ladrilhos. Este número 10 tem quatro pontos que merecem a nossa atenção: 1) permanecer na cela ou junto dela; 2) meditar na Lei do Senhor e vigiar em orações; 3) dia e noite; 4) a não ser que estejam ocupados em outros justificados afazeres.

A permanência nas celas - No início, tratava-se de grutas separadas, espalhadas pelas encostas do Monte Carmelo, como o atestam as antigas pinturas e os relatos dos peregrinos daquela época. Até hoje, lá no Monte Carmelo, ao redor das ruínas da primeira capela, perto da fonte de Elias, ainda existem algumas destas antigas grutas. Mais tarde, depois do retorno para a Europa em 1238, as celas eram os quartos dos conventos. A cela ou o quarto oferece o espaço físico da solidão. É o elemento eremítico, sempre retomado na tradição carmelitana. A cela é símbolo também da "cela inte­rior", para a qual deve ser recolhida a mente dispersa. A solidão material sem esta solidão interior não vale e não tem sentido. A cela interior deve ser criada e alimentada através da permanência na cela material.

Meditar na Lei do Senhor e vigiar em orações - Originalmente, na Bíblia, a Lei do Senhor era o Pentateuco, os primeiros cinco livros do AT, também chamados os cinco livros de Moisés. Aqui na Regra, o seu sentido é mais amplo e indica a Bíblia inteira, lida a partir do Evangelho. O Senhor é Jesus. A Lei de Jesus é o Evangelho. Vigiar em orações é estar atento, com a mente sempre voltada para Deus. Meditando na Lei do Senhor, escutamos a Palavra que Deus nos tem a dizer. Vigiando em orações, damos a Ele a nos­sa resposta. Assim imitamos os apóstolos, cuja vida se resumia numa "dedicação total à oração e ao serviço da palavra" (At 6,4). Assim, pouco a pouco, se começa a ver tudo à luz de Deus.

Dia e noite - Isto é, sempre, mesmo quando não se está na cela. Aqui não há nenhuma ressalva. Ninguém nos pode dispensar desta atividade básica. Quando as outras atividades cessam, é ela, a meditação da Palavra e a oração, que permanece e reaparece como que naturalmente. É a vida na solidão, enchida pela presença da Palavra do Senhor. Dia e noite indica também o ritmo do tempo e da natureza, reflexo da Palavra criadora de Deus. O carmelita, a carmelita, é chamada a abrir-se para a ação da Palavra criadora e recriadora de Deus e deixar-se marcar pelo seu ritmo, como sístole e diástole do ritmo do coração.

A não ser que deva ocupar-se em outros justi­ficados afazeres - Esta ressalva refere-se, não à meditação e à oração, mas sim à permanência nas celas. Naquele tempo, os justificados afazeres eram, por exemplo, as romarias, o trabalho na roça, tratar dos animais, as saídas para a evangelização. Hoje, os justificados afazeres que permitem ou obrigam sair da cela são outros. No dia 15 de fevereiro de 1432, o papa Eugênio IV ajudou a entender a expressão justificados afazeres. Ele abrandou o sentido e disse: “Vocês podem, em horas convenientes, licita e livremente permanecer nas suas igrejas, nos seus claustros e âmbitos, e por aí locomover-se”.

Tudo isto que Alberto pede no número 10 da Regra vem da grande tradi­ção monacal que aqui se prolonga. Quando na família carmelitana há ameaça de se esquecer este elemento eremítico, então, de dentro da Ordem, de onde menos se espera, surge sempre a reação, exigindo uma volta para esta solidão.

Meditação e vigilância

Dentro de nós existe uma fonte que jorra para a vida eterna (Jo 4,14). É o dom do Espírito Santo que reza e atua em nós (Jo 7,37-39), querendo colocar-nos a serviço de Deus e dos irmãos. Esta fonte ficou encoberta por muitas camadas de sujeira: distrações, apegos, acomodação, alienação, auto-satisfação, etc. São João da Cruz descreve estes enganos e desenganos com perfeição na "Subida do Monte Carmelo" e na "Noite Escura". O esforço constante deve ser: "recolher-se na cela", reco­lher-se da distração e da alienação em que costumamos viver, desapegar do apego, incomodar o acomodado ou, como diz Jesus, perder a vida para poder possuí-la. Assim, aos poucos, o acesso à fonte vai ser desobstruído e a água poderá inundar livremente a vida. É a graça da oração que nos ajuda a fazer a Subida do Monte Carmelo,

Elias se escondeu na torrente Karit. O carmelita, a carmelita, se esconde na cela, não para fugir do mundo ou porque tem medo, mas para estar no mundo sem ser do mundo (Jo 17,14-16). Vivendo junto dos córregos da Palavra de Deus, esta Palavra se torna a nossa morada, a nossa cela, na qual devemos permanecer dia e noite. Ruminando e meditando a Lei do Senhor, a Palavra entra em nós, como a água entra na árvore plantada junto dos córregos (Sl 1,3; Jr 17,8). Aos poucos, nasce em nós uma nova maneira de ver e de julgar. O próprio Jesus vai abrindo nossos olhos e nos revela a sua presença no pequeno, no marginalizado, lá onde ninguém o procura.

Maria meditava e ruminava todas as coisas no seu coração e, assim, ia descobrindo a presença da Palavra de Deus em tudo o que acontecia. Melhor do que qualquer outro, ela compreendeu que a Lei do Senhor, a Lei suprema, é o amor. Deixando-se invadir pelo amor, pôde reconhecer, acolher e encarnar a Palavra em sua vida e tornar-se a sua servidora. Ela vigiava em oração para guardar e fazer irradiar o que tinha descoberto na ruminação.

Na história do Brasil, os grileiros foram ocupando as terras dos posseiros, formando o latifúndio, impedindo que grande parte da população tenha acesso aos bens necessários para poder levar uma vida digna de gente. O mesmo acontece na história pessoal. Dentro de cada um de nós existe um falso eu, o ego, o eu grileiro, que tenta tomar conta de tudo e procura manter o domínio, oprimindo e marginalizando o posseiro, o eu verdadeiro. A meditação da Palavra, dia e noite, contribui para expulsar o grileiro que ocupou todo o espaço dentro de mim, e libertar o posseiro que vive escondido e marginalizado dentro de mim. O eu verdadeiro é onde Deus se revela à consciência das pessoas.

O objetivo da meditação da Lei do Senhor é para, aos poucos, ir mudando a visão que nós temos das coisas, das pessoas, da vida, e receber a visão de Deus que faz enxergar diferente, agir diferente, e ajuda a criar alternativas concretas. Meditação e vigília fazem com que dentro de nós morra o "velho homem"; fazem com que o pensamento dominante da sociedade seja criticado e anulado, e renasça em nós uma nova visão da vida. Condição para isto é que se esteja do lado dos "menores", ou como hoje ensina a Igreja: que se faça seriamente a opção pelos pobres.

O uso da Bíblia na descrição do ideal do Carmelo

A expressão "meditar dia e noite na Lei do Senhor" vem do Salmo (Sl 1,2). Vem ainda do livro de Josué (Js 1,8). A expressão "vigiar em ora­ções" vem de Lucas 21,36. A mesma recomendação ocorre várias vezes nas cartas de Paulo (Ef 6,18; Col 4,2) e de Pedro (1 Pd 4,7). Para quem conhece a Bíblia de memória, cada texto traz consigo o seu contexto. Quem evoca um texto, evoca também o contexto, em que este texto está situado. Vejamos de perto o contexto:

Meditar dia e noite na lei do Senhor - Salmo 1,2 menciona a meditação na lei do Senhor para descrever o modelo da pessoa justa. É meditando dia e noite na lei do Senhor, que tal pessoa se torna como uma árvore, plantada junto dos córregos, que dá fruto no tempo devido; suas folhas nunca murcham e tudo que faz será bem sucedido.

Josué recebe a ordem de Moisés para meditar dia e noite na lei do Senhor (Js 1,8). É para ele poder ser "forte e corajoso" (Js 1,9) e ser bem sucedido na sua missão de introduzir o povo na terra prometida e garantir, assim, a liberdade conquistada na saída do Egito.

Vigiar em orações - No seu último discurso, Jesus recomendou aos discípulos que vigiassem sempre em oração (Lc 21,36). Um pouco mais tarde, ele mesmo, o próprio Jesus, lá no Horto das Oliveiras, mostrou o que significa "vigiar em oração". Rezou e vigiou até o seu suor transformar-se em sangue (Lc 22,39-44). A carta aos Hebreus comenta e explica: "Nos dias da sua vida terrestre, Jesus apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua obediência!" (Hb 5,7).

Paulo pede que as comunidades vigiem em oração e orem também por ele, Paulo, para que possa anunciar bem a Boa Nova (Ef 6,18-20; Col 4,2-4). E Pedro pede para a comunidade levar uma vida de autodomínio e de sobriedade, dedicada à oração, pois o fim está próximo (1Pd 4,7).

Assim, quanto mais uma pessoa conhecer a Bíblia, tanto mais perceberá o contexto que é evocado pelas citações e evocações da Bíblia na Regra. A leitura orante diária da Bíblia, ajudará a perceber melhor todo o sentido e alcance da Regra para a vida, e fará perceber que a própria Regra é fruto de uma leitura assídua e constante da Bíblia. Com efeito, a Regra usa a Bíblia livremente. Por exemplo, neste número 10, formou uma única frase com um texto do AT e outro do NT para expressar o pensamento não da Bíblia, mas sim de Alberto e dos primeiros carmelitas. A Palavra de Deus estava na boca e no coração, e tudo que diziam e escreviam era feito na Palavra do Senhor (Rc 19).

O autor da Regra conhecia a Bíblia de memória e a assimilou em sua vida a ponto de já não distinguir entre as suas próprias palavras e as da Bíblia. Ele exprime o seu próprio pensamento com frases ti­radas da Bíblia. Quando dizemos Autor da Regra, pensamos tanto em Santo Alberto como nos pri­mei­ros carmelitas. Foi Alberto que assinou a Regra e assumiu a sua autoria. Mas ele mesmo diz que o seu texto é fruto da proposta que lhe foi apresentada pelos carmelitas (Rc 3). Assim, no uso que a Regra faz da Bíblia transparece como os nossos primeiros irmãos carmelitas usavam a Bíblia.

O ensinamento que a Regra nos dá não está só naquilo que ela ensina sobre a leitura da Bíblia, mas também na maneira como ela mesma usa a Bíblia. A Regra do Carmo não só recomenda a leitura da Bíblia, mas também a pratica e dela é o resultado. Ela soube encarnar a Palavra de Deus a ponto de assumí-la como sua. Parafraseando a expressão do apóstolo Paulo (Gal 2,20) os primeiros carmelitas poderiam dizer a todos nós: "Nós falamos pela Regra a vocês, mas já não somos nós, é a própria Palavra de Deus que fala por nós!" Sobre o uso da Bíblia na Regra falaremos longamente no subsídio do círculo 14.

Carlos Mesters, Ao redor da fonte

 
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