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Regra Carmelita
Da cela do prior na entrada do lugar de moradia (n.º 9) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da cela do prior na entrada do lugar de moradia (n.º 9) -

 

9. A cela do prior deve localizar-se junto da entrada do lugar, para que ele seja o primeiro a ir ao encontro dos que vierem a esse lugar; e, depois, todas as coisas que devem ser feitas aconteçam de acordo com o seu critério e a sua disposição.

Um pouco de história: sobre a cela do prior na entrada do lugar de moradia

O número 9 da Regra recomenda: a cela do prior deve ficar junto da entrada do lugar de moradia, de modo que seja ele o primeiro a acolher os que vierem a esse lugar e, de acordo com a sua decisão e disposição, se façam depois todas as coisas que devem ser feitas. Por de trás desta recomendação há três coisas que ajudam a entender melhor o seu significado e a sua atualidade para nós hoje:

  • Refere-se à situação geográfica do Monte Carmelo - As celas dos frades se espalhavam pela encosta da montanha, às vezes, bem distantes, uma da outra. Por isso, os que vinham visitar os frades deviam apresentar-se, primeiro, ao prior. Ele orientava as pessoas, informava sobre onde morava tal e tal frade, e indicava o caminho. Era para impedir enganos, mal-entendidos, perda de tempo e cansaço inútil, subindo e descendo a­queles caminhos estreitos e difíceis do Monte Carmelo. Favorecia o acolhimento e a hospitalidade.
  • Refere-se à aceitação de novos candidatos - A expressão os que vierem a esse lugar pode referir-se também às pessoas que vinham ao lugar não como visitantes, mas como candidatos com o desejo de serem membros da comunidade. Antes, na vida eremítica tradicional, os candidatos eram atraídos pela fama de santidade deste ou daquele eremita. Agora, no novo tipo de vida religiosa assumido pelos carmelitas, a aceitação de novos membros tornava-se uma tarefa, não deste ou daquele frade, mas sim da comunidade. Os que vinham ao lugar já não procuravam um determinado fulano, mas sim o Carmelo, a fraternidade. Procuravam o ideal de vida, expresso e vivido pela comunidade. Por isso, os novos candidatos, que chegassem ao lugar, deviam apresentar-se ao representante da comunidade que era o prior. Em nome da comunidade, o prior decidia o que devia ser feito para encaminhar os candidatos. Esta determinação impedia o retorno para a vida eremítica antiga e mantinha o grupo no novo rumo das fraternidades a serviço dos "menores" (pobres).
  • Refere-se à visita de peregrinos que andam pela vida em busca de Deus - O peregrino que busca a Deus deve poder encontrar uma resposta para a sua busca nas pessoas que vivem em obséquio de Jesus Cristo. Por isso, a comu­nidade, enquanto comunidade, deve ter um rosto definido que responde à busca destes peregrinos, e alguém da comunidade, no caso o prior, deve representar e apresentar este rosto. E não só. O peregrino ao visitar a comunidade lembra aos frades que eles mesmos também são e devem ser eternos peregrinos em busca do Absoluto de Deus. Os peregrinos visitantes nos ajudam, para que não nos instalemos ou nos acomodemos em ritos e observâncias que, talvez, dêem um sentimento de segurança humana, mas que, no fundo, interrompem a peregrinação em direção de Deus.

Resumindo. Antes, o centro de atração era a fama de santidade do eremita. A ele os outros acorriam para ouvir a sua doutrina e aprender dele como viver em obséquio de Jesus Cristo. Cada um procurava o seu mestre. Agora, quando alguém chega no assentamento dos carmelitas do Monte Carmelo, mesmo sendo atraído pela fama deste ou daquele frade, ele encontra não um fulano, mas sim uma comunidade. O que vale já não é a fama de um ou outro frade, mas sim o tipo de vida que se leva na comunidade de acordo com a nova forma de vida, rascunhada pelos primeiros carmelitas, redigida por Alberto e aprovada pelo Papa Inocêncio IV.

Observações sobre os números 4 a 9 da Regra

Os números 4 a 9 contêm as determinações que oferecem os critérios de como deve ser organizada a infraestrutura da vida no Carmelo, a saber: a fraternidade deve ser coordenada por um prior, a quem os outros prometem obediência (Rc 4); o prior junto com os frades deve zelar para que se faça a escolha do lugar correto para a moradia (Rc 5); deve cuidar para que os frades tenham cada qual sua cela separada (Rc 6), não fiquem mudando de comunidade (Rc 8), nem continuem comendo no próprio quarto (Rc 7); o prior ainda deve saber encaminhar a aceitação de novos membros (Rc 9). São determina­ções simples e concretas, apropriadas para a situação do começo do século XIII. Elas asseguravam a base material para a realização do ideal de fraternidade da vida carmelitana que vai ser descrito nos números 10 a 15.

Comparadas com a situação das nossas comunidades no século XXI, estas determinações aparecem como normas curiosas de uma cultura que já não existe. Mas o que importa não é a letra da lei, mas sim o espírito, pois a letra mata, mas é o espírito que comunica vida (2Cor 3,6). Como pudemos verificar, o espírito destas determinações revela a preocupação do legislador em garantir, através da observância destas normas, a fidelidade ao novo estilo de Vida Religiosa, esco­lhido e assumido pelo grupo que foi falar com Alberto. Era um estilo diferente, que combinava a vida de oração contínua dos antigos eremitas com as novas formas de Vida Religiosa que, naquele tempo, estavam aparecendo na Europa e que, aos poucos foram recebendo o nome de mendicante.

Ora, para que o grupo dos carmelitas pudesse firmar-se no novo estilo de Vida Religiosa, diferente do que tinha sido o costume deles até àquele momento, não bastava só a boa vontade. Era necessário encontrar estruturas que canalizassem as coisas e juntassem esses dois tipos de Vida Religiosa (oração a Deus e serviço ao povo) numa unidade. Era este o objetivo dos números 4 a 9 da Regra: firmar os frades no novo rumo. Foi a obediência a estas normas que, no fim daquele século XIII, salvou a Ordem de perder sua identidade.

O perigo era duplo. Alguns, levados pelo medo de perder-se no mundo urbano das cidades da Europa, poderiam querer voltar para o estilo antigo da vida eremítica errante ou para a vida monacal nos grandes mosteiros, distante dos pobres. De fato, anos depois, na segunda metade do século XIII, a tensão interna da Ordem foi tanta, que houve um superior geral, Nicola o francês, que convidou os confrades a voltar ao antigo estilo de vida lá no Monte Carmelo. Outros, levados por um desejo exagerado de atualização e de adaptação à nova realidade da Europa, tão diferente da vida no Monte Carmelo, querendo desfazer-se de observâncias obsoletas, poderiam correr o perigo de perder de vista o ideal carmelitano.

Mas a obediência à Regra foi mais forte e ajudou a superar a crise e a evitar o perigo, pois a Regra ajudou a criar uma infra-estrutura de vida que impediu o retorno ao passado e afastou a dis­persão no presente. Ela obrigava os carmelitas a se manterem no rumo da vida religiosa renovada, fiel à sua origem e fiel à realidade do povo, dos menores, e às exigências da Igreja que se renovava.

Fidelidade ao espírito da Regra e não à letra

A partir da aprovação oficial da Regra em 1247, a história recomeçava. Um caminho sem retorno se abria para o futuro. Mas as tensões internas continuavam, pois elas não se resolvem por decreto. Desde o seu início, a Família Carmelitana carrega dentro de si esta dupla tendência: o desejo de soli­dão, de oração, de Deus, do absoluto; e o desejo de servir, de seguir a Igreja que se renova, de es­tar do lado dos pobres, de ser mendicante. Integrar na unidade esta dupla tendência, aparentemente contraditória, é a forma de ela ser fiel a si mesma.

No século XIII, a Ordem veio do Oriente para a Europa, passou da solidão no deserto para a mendicância na cidade, da vida só de oração e de trabalho manual para o apostolado nos ambientes mais diversos. No século XX aconteceu algo semelhante. Os carmelitas vieram da Europa para a América Latina, do Oriente para o Ociden­te. Vale a pena lembrar alguns critérios que nortearam a adaptação dos primeiros carmelitas no novo contexto de vida na Europa do século XIII, pois eles conservam uma grande atualidade: 1. Realismo que soube relativizar o secundário, mas não abria mão do essencial; 2. Vontade de estar do lado dos menores, dos pobres da Europa; 3. Von­tade de viver em fraternidade numa forma renovada de vida religiosa; 4. Fidelidade à oração e à mística. Foi uma verdadeira re-fundação, fidelidade criativa, de que tanto se fala hoje em dia.

Vários outros pontos chamam a nossa atenção na atuação deste grupo fundador da Família Carmelitana:

  • A extrema rapidez da difusão dos carmelitas no século XIII, nos vários países da Europa - Em pouco mais de 60 anos, desde 1238 até o ano 1300, eles fundaram mais de 160 conventos e se espalharam por praticamente todos os países da Europa. Na mesma época nasciam e cresciam os Franciscanos, os Dominicanos, os Servitas e tantas outras Ordens novas. No meio deste mundo em mudança, os carmelitas souberam apresentar o ideal do Carmelo de uma forma que fosse uma resposta aos anseios da juventude da época. Do contrário, não se explica este rápido cresci­mento. Eles souberam apresentar o ideal carmelitano para os Menores do seu tempo. Estamos na América Latina desde a segunda metade do século XVI. A restauração de algumas províncias começou no começo do século XX; de outras, depois da guerra de 1940-1945. Será que tivemos o mesmo ardor e idealismo?
  • A fidelidade à origem e a coragem de viver na tensão entre a dupla exigência - Viver na contemplação e viver a serviço dos Menores. Esta tensão se expressa na história dos primeiros quarenta anos entre 1207 e 1247 e se reflete na história que seguiu depois, durante a segunda metade do século XIII. A tensão encontrou a sua expressão histórica na coragem de Simão Stock (1251) que assumiu a nova caminhada, e na decisão de Nicola o Francês (1266) de convidar todos os confrades para voltar para o Monte Carmelo. Ambos eram Superiores Gerais da Ordem.
  • A criatividade de reencontrar o deserto do Carmelo entre os "Menores" da Europa - Não se deve considerar a adoção da forma de vida dos Mendicantes como um abandono parcial do ideal primitivo, mas sim como uma releitura radical (raíz) deste mesmo ideal dentro da nova situação na Europa. A decisão de adotar a vida mendicante é a resposta de fidelidade ao que Deus estava pedindo. Os nossos primeiros confrades deixaram-se questionar pela Tradição e pelos Pobres, e procuraram ser fiéis a ambos. Souberam re-encontrar o deserto do Carmelo na pobreza das periferias da época.
  • A sabedoria do patriarca Alberto - A Regra é feita de tal maneira que ela conserva os valores eremíticos de sempre, mas os coloca a serviço da Igreja que se renova. Os Carmelitas tinham a missão de trazer a tradição mística do passado para dentro do novo mundo que estava surgindo naqueles séculos XII e XIII. Sempre que, ao longo da nossa história, a dimensão eremítica é esquecida ou mal acentuada, surgem, de dentro da Ordem, pessoas ou movimentos que chamam a atenção para esta dimensão da nossa vida. Graças a Deus!

É evidente o significado de tudo isto para nós carmelitas, hoje, na América Latina. Os nossos primeiros confrades que foram falar com Alberto, nos provocam e incomodam. Eles são realmente os fundadores que até hoje nos desafiam a encarnar com a mesma criatividade o mesmo carisma na nossa realidade. A Família Carmelitana como um todo permaneceu no rumo indicado pela Regra de Alberto. Permaneceu fiel não só à tradição do passado, mas também à realidade nova do pobre, dos menores, e da Igreja que se renovava. Pois sempre reapareceram e continuam aparecendo frades que voltam à vida eremítica. São lembretes do Espírito, apelos à consciência de todos nós, para que não esqueçamos nossa origem, nem percamos nossa identidade e missão dentro da Igreja.

Carlos Mesters, O. Carm.

 
Da refeição em comum e da convivência estável (nn.º 7-8) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da refeição em comum e da convivência estável (nn.º 7-8) -

(6. Levando em consideração o conjunto do lugar que vocês se propuseram como moradia, cada um de vocês tenha uma cela individual e separada, que lhe será indicada por disposição do próprio prior e com o consen­timento dos outros irmãos ou da parte mais madura.)

7. De tal modo, porém, que, num refeitório comum, tomem o alimento que lhes for doado, ouvindo juntos alguma leitura da Sagrada Escritura, onde isto puder ser feito sem dificuldade.

8. A nenhum irmão será permitido, a não ser com a licença do prior em exercício, mudar-se do lugar que lhe foi indicado ou trocá-lo com outro.

Um pouco de história: sobre a refeição em comum e a proibição de mudar de lugar

O número 7 sobre o refeitório em comum foi acrescentado pelo Papa Inocêncio IV, em 1247. Este número reforça a dimensão fraterna da vida carmelitana e procura impedir o retorno para a vida puramente eremítica. Quatro pontos merecem atenção: (1) num refeitório comum, (2) comer o alimento que for doado, (3) ouvindo uma leitura da Bíblia, (4) onde comodamente puder ser observado.

O refeitorio comum - Lá no Monte Carmelo, os frades viviam espalhados pelas ladeiras da montanha. Cada um vivia sozinho, cozinhava sua comida e fazia as refeições na sua cela. O retorno para a Europa modifi­cou este jeito de morar, pois eles começaram a viver em conventos, onde todos moravam no mesmo prédio, em quartos ou celas separadas. Alguns queriam continuar como no Monte Carmelo: fazer sua comida no próprio quarto ou exigir que a comida preparada na cozinha lhes fosse levada para o quarto. A nova situação, porém, obrigou-os a ter uma cozinha única e um refeitório comum.

O alimento doado - A Regra diz: comam o alimento que lhes for doado. Esta afirmação revela que a comida era doa­da pelo povo. Ou seja, como os mendicantes, eles já viviam de esmolas. Naquele tempo, os men­dicantes andavam pelas cidades e anunciavam o evangelho aos "menores" (pobres). Em troca, o povo dava-lhes um pouco de comida. Alguns carmelitas, talvez sob o pretexto de fidelidade ao estilo de vida que tinham levado no Monte Carmelo, comiam o alimento doado no quarto e, portanto, não colocavam tudo em comum. Deste modo co­locavam em risco a fraternidade. Impondo o refeitório comum, o papa Inocêncio IV for­talece a vida em fraternidade e impede a volta para a vida eremítica afastada dos "menores".

Leitura da Bíblia durante a refeição - A novidade do refeitório em comum é acompanhada com a recomendação de ouvir uma leitura em comum da Sagrada Escritura. Pois, não só de pão vive o ser humano (Lc 4,4). Este conselho está em continuidade com a inspiração fundamental da Regra. Como ainda veremos mais adiante nos subsídios dos Círculos 6 e14, a Regra do Carmo insiste várias vezes na leitura e na meditação da Palavra de Deus. É o eixo do ideal da Vida Carmelitana.

Onde comodamente puder ser observado - Este tipo de ressalva aparece muitas vezes na Regra. Voltaremos a falar sobre isto no Círculo 22. Por ora, basta dizer o seguinte: a Regra tem um realismo impressionante que sabe relativizar o secundário, mas não abre mão do essencial.

O número 8 visa a convivência estável na comunidade. Aqui também tem vários pontos que pedem uma breve explicação:

Mudar de cela ou de lugar?  - O título que, em épocas mais recentes, tinha sido dado a este número 8, dizia: Sobre o não mudar nem trocar de cela. Pensava-se que este número proibisse aos frades mudar de cela ou de quar­to, dentro do convento, sem licença do prior. Mas a Regra não fala em cela, mas sim em lugar. Em latim se diz locus (lugar). Ora, a palavra locus não indicava a cela, o quarto, mas sim o convento, o lugar de moradia. Não se trata, portanto, da proibição de trocar de cela ou de quarto, mas sim da proibição de trocar de convento. Qual o sentido e o porquê desta proibição?

O costume antigo dos eremitas ambulantes - Escrevendo para o grupo dos primeiros carmelitas que moravam no Monte Carmelo, Alberto já previa que, no futuro, eles fossem fundar comunidades em outros lugares. Dizendo que não po­diam mudar de lugar de moradia sem licença do prior, ele tomava posição contra um costume dos eremitas antigos. (Na Regra, os carmelitas são chamados de eremitas). Na Palestina, desde muitos sé­culos, o costume dos antigos eremitas era de cada um estabelecer sua moradia no lugar, onde ele mesmo queria. Se em algum lugar houvesse um eremita conhecido de grande santidade, ele atraía muitos discípulos. Estes iam e vinham livremente, como e quando queriam, de acordo com o que cada um combinava com o mestre. Os eremitas antigos não criavam vínculo com a comunidade, mas só com o mestre ou guru a quem seguiam.

O compromisso do carmelita é com a comunidade - Os carmelitas do Monte Carmelo que foram falar com Alberto eram eremitas diferentes. Viviam em fraternidade. Eles tinham assumido um tipo de vida eremítica mais parecido com os mendicantes. Para impedir a volta ao eremitismo antigo, a Regra estabelece: Não é permitido a nenhum irmão, a não ser com licença do prior em exercício, mudar-se de lugar de moradia que lhe foi indicado ou trocá-lo com outro. Ou seja, não é permitido sair de uma comunidade e ir para outra, ou trocar com um frade de outra comunidade, sem licença do prior. O eremita carmelita devia renunciar à itinerância sem controle e submeter sua vida ao julgamento da comunidade, isto é, do coordenador e dos irmãos. O Prior devia zelar pela vida fraterna que poderia ser destruída por esse costume itinerante da vida eremítica.

Mendicantes e eremitas

Nos séculos XI e XII, a sociedade passava por uma crise profunda. As riquezas do feudalismo, funda­mentadas na posse de terra, começavam a ser superadas por uma nova riqueza feita de navios, comboios, comércio, capital. Surgia uma nova economia, mais urbana. O centro de gravidade se deslocava dos feudos e castelos dos senhores para os burgos e cidades dos novos ricos. A nova classe das corporações surgia como terceira classe social ao lado das duas já existentes. Havia os Maiores (a elite, proprietária das terras), e os Menores (o povo agregado, os pobres). A nova classe dos burgos (burguesia) era chamada de Medíocres (classe média). Quem mais sofria com a mudança social eram os Menores. Eles ficavam à deriva, abandonados, sem apoio.

No sistema do feudalismo, a Igreja era uma pedra fundamental no edifício social. Sociedade e Igreja eram como corpo e alma. A organização da Igreja, isto é, as dioceses e os mosteiros, imitava o modelo da sociedade envolvente. A vida religiosa estava concentrada nas grandes ordens monásticas. Os religiosos viviam nos seus mosteiros, que eram um mundo em si, autónomo e independente. Desta vida re­ligiosa não saía muito estímulo para a vivência do Evangelho.

Muitos leigos, em nome da fidelidade ao evangelho, procuravam novos caminhos para viver o evangelho na simplicidade. O povo buscava um contato mais direto com Deus e a sua Palavra. Esta reação começou a concretizar-se numa espécie de êxodo ou saída para o deserto, para a solidão. O que os animava era viver em obséquio de Jesus pobre na verdadeira pobreza e nudez. Eles rompiam com os senhores das terras. Já não serviam ao sistema. Exprimiam assim a sua vontade de dessolidarizar-se dos Maiores e de ficar ao lado dos Menores.

Desta mistura de fé, religião popular, política e cultura, surge um novo ideal polarizador: ir em peregrinação para a Terra Santa, recriar por lá em toda a sua pureza o Evangelho e, assim, imitar bem de perto, na própria terra de Jesus, a vida dos apóstolos. Francisco de Assis, António de Lisboa e muitos outros foram filhos do seu tempo, andando como peregrinos pobres em direção a Jerusalém. Tudo isto recebia o nome de "viver em obséquio de Jesus Cristo". Não queriam mais "viver em obséquio do senhor do castelo".

Surgia, assim, o fenómeno dos eremitas itinerantes ou romeiros, sem terra fixa, que viviam das esmolas recebidas do povo e em troca anunciavam o Evangelho. Eles interiorizavam o valor do abandono total a Deus, da vida pobre e marginalizada. Rompiam com o sistema da época e assumiam viver como e com os Menores. É dentro deste contexto social que surgiam os mendicantes, os "frades menores", as novas ordens religiosas, cuja espiritualidade acentuava a fraternidade e a itinerância. A fraternidade incluía a partilha dos bens e a vivência em comum do Evangelho. A itinerância incluía o testemunho e a pregação do evangelho. Uma destas novas Ordens vai ser a Ordem do Carmo.

Os primeiros Carmelitas, nossos confrades fundadores lá do Monte Carmelo, eram leigos. Como tantos outros, tinham vin­do da Europa para viver o Evangelho de maneira radical na Terra de Jesus. Eram romei­ros. Gente que se desinstalou, que não tinha nem queria ter terra fixa. Gente que tinha vendido tudo para poder com­prar o tesouro. É possível que alguns deles tenham sido ex-combatentes. Em oposição ao lu­xo e à aco­modação do clero e dos mosteiros, procuravam imitar Jesus pobre, numa vida de austeri­dade. Eram eremitas. Gente que dedicava grande parte do seu tempo à oração e à ruminação da Pala­vra de Deus. Dentro da sociedade eles se situavam não do lado dos grandes senhores, nem do lado dos mosteiros, mas sim do lado dos pobres, dos "menores". Muitos deles, antes de chegar ao Monte Car­melo, devem ter vivido da mendicância, pobres com o pobres. Expressavam assim o ideal comum de recriar um no­vo tipo de fraternidade. Nas suas andanças e romarias, eles anunciavam o Evangelho, recebendo em troca algo para comer e sobreviver. Apesar de serem chamados de eremitas, eles vi­viam em comu­nidade, pois, conforme informa Alberto na Regra, prometiam obediência ao irmão B. (Rc 1).

As características mendicantes dos primeiros carmelitas

Na época em que nasce, cresce e se organiza a Ordem do Carmo, os Mendicantes ainda não eram grupos bem organizados. Parecia mais um movimento em formação, mais ou menos como os novos instrumentos de pastoral de hoje. Desde o Vaticano II e sobretudo desde Medellin e Puebla, ocorreu uma evolução importante na Igreja Católica. Diante da situação dramática dos índios, criou-se o CIMI. Diante da situa­ção cada vez pior dos agricultores, criou-se a CPT. Diante da situação dos operários, criou-se a CPO. Diante da situação dos pescadores, criou-se a CPP. São in­strumentos novos de pastoral que ajudam estas classes e grupos de pes­soas a defender melhor sua vida, sua terra, seus direitos, sua identidade. Eles têm em comum o seguinte: surgiram por causa da fé renovada em Jesus e, como Jesus, defen­dem a vida, são ecuménicos, incomodam a sociedade estabelecida, provocam polémica. Algo semelhante acontecia no Século XII e XIII. Diante da situação dramática dos menores (pobres), surgiram os mendicantes como um Sinal dos Tempos. Procuravam ajudar os pobres a redescobrir a sua dignidade através do anúncio da Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe.

Os carmelitas, desde a sua mais remota origem, desde a carta de Alberto, escrita em 1207, possuem características que os colocam dentro deste movimento renovador que soprava na Igreja e que, aos poucos, ia desembocar na vida dos mendicantes. Eis a lista das principais características, das quais algumas já foram analisadas e outras ainda serão examinadas nos próximos círculos:

  1. Não ter abade, mas sim um prior a ser escolhido periodicamente entre os confrades (Rc 4).
  2. Não ter propriedade, mas possuir tudo em comum como os primeiros cristãos (Rc 12)
  3. Não mudar de lugar, como os eremitas andarilhos, mas comprometer-se com a comunidade (Rc 8).
  4. Novos candidatos devem ser acolhidos pelo prior através da comunidade (Rc 9)
  5. Todos são responsáveis pelo todo e pelo bem-estar de cada um (Rc 15)

Tudo isto revela a sabedoria de Alberto. Ele não só situa o grupo dos primeiros carmelitas dentro da grande tradição da Vida Religiosa que já vinha desde os Santos Padres dos primeiros séculos da Igreja, mas também os situa dentro do movimento renovador da Vida Religiosa da sua época, distinto tanto dos mosteiros tradicionais, como dos eremitas andarilhos, e que, aos poucos, ia sendo caracterizado como mendicante.

 
Do lugar da moradia e da cela dos irmãos (nn.º 5-6) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do lugar da moradia e da cela dos irmãos (nn.º 5-6) -

5. No que se refere a lugares de moradia, vocês pode­rão tê-los em localidades solitárias ou onde lhes forem doados, desde que sejam apropriados e adequadas à opção de sua vida religiosa, de acordo com o que o prior e os irmãos, mediante discerni­mento, decidirem.

6. Além disso, levando em consideração o conjunto do lugar que vocês se propuseram como moradia, cada um de vocês tenha uma cela individual e separada, que lhe será indicada por disposição do próprio prior e com o consen­timento dos outros irmãos ou da parte mais madura.

Um pouco de história: sobre o lugar de moradia e a cela dos frades

O número 5 da Regra, que traz normas em torno da escolha do lugar de moradia, não é de Alberto, mas foi acrescentado pelo Papa Inocêncio IV, em 1247, em vista da adaptação da Ordem à nova realidade na Europa. O número 6, que fala sobre a cela dos frades, é do texto original de Alberto de 1207.

Comentando o número 5 sobre a escolha do lugar de moradia:

  • Os eremitas, para os quais Alberto tinha escrito a Forma de Vida (Rc 3), moravam na solidão do Carmelo, solidão que marcou sua vida para sempre. Por isso, depois de terem chegado na Europa em 1238, eles continuavam a procurar lugares solitá­rios para morar. Era para poder levar o mesmo tipo de vida que tinham levado na solidão do Carmelo. Aos poucos, porém, foram recebendo lugares de moradia também nas cidades. O que fazer? Podiam aceitá-los? Pois nas cidades não havia aquela solidão. A maioria dos frades era de opinião que se devia aceitá-los. Achavam que devia ser possível viver o ideal do Carmelo não só na solidão do Monte Carmelo, mas também nas cidades barulhen­tas da Europa. Mas nem todos pensavam assim. Outros opina­vam que se devia manter a vida na solidão, fora das cidades.
  • Assim, todos queriam manter a solidão do Carmelo, mas nem todos o queriam do mesmo jeito. Discutiram o problema no primeiro Capítulo Geral de 1246, onde venceu a opinião da maioria. Decidiram então pedir ao Papa que adaptasse e atualizasse a Regra à nova situação. O Papa acolheu o pedido e aprovou a adaptação da Regra à nova situação, mandando acrescentar este número 5 sobre a escolha do lugar de moradia.
  • A preocupação que motivou o acréscimo do número 5 era dupla: (1) Evitar que os carmelitas fossem vencidos pela tentação de voltar ao tipo de vida dos eremitas antigos ou de querer uma vida afastada do povo nos grandes mosteiros, o que os levaria a abandonar o novo tipo de vida religiosa dos mendicantes que estava começando a nascer naquela época. Por isso, o Papa acrescentou: não só em regiões desertas, mas também em outro canto onde lhes forem doadas, isto é, nas cidades. (2) Evitar que a vida como mendicantes os levasse a perder o "deserto interior" do Carmelo, pois o ideal da Regra tem as suas exigências que devem ser levadas em conta na escolha do lugar de moradia. Por isso, o Papa acrescentou: desde que seja adequado e conveniente com a observância da vida religiosa de vocês.
  • A decisão de Inocêncio IV em resposta ao pedido dos frades completava a adaptação da vida dos carmelitas ao novo contexto da Europa e os ajudava na assimilação da nova identidade de frades eremitas e mendicantes, ao mesmo tempo.

Comentando o número 6 sobre a cela dos frades:

  • - O número 6 da Regra pede que, "de acordo com a posição do lugar de moradia, cada frade tenha a sua cela separada". Até hoje, lá no Monte Carmelo, se vêem as grutas ou celas, onde viviam os frades. No Monte Carmelo, o terreno era acidentado e as celas eram espeluncas, cavadas na montanha. Antigas pinturas mostram os frades espalhados em grutas pela encosta do Monte Carmelo.
  • - Tais grutas podiam ter tudo, menos comodidade. Era vida árdua, dura. Talvez tivessem uma pequena horta ao redor, onde cultivavam alguma verdura. Cada um vivia na sua cela. Para o sustento fazia cestos ou trabalhava a terra. Preparava sua pró­pria comida. Trabalhava, rezava, reunia com os outros nos atos comuns na capela. Nestas celas, eles "meditavam dia e noite na lei do Senhor e vigiavam em orações", como num pequeno oratório pessoal (Rc 10).
  • - Mesmo morando em cidades, os carmelitas não podiam esquecer esta sua origem eremítica que era (e continua sendo) a solidão do "deserto" do Monte Carmelo, fonte da sua identidade, lugar do encontro ou reencontro com Deus. Por isso, a Regra insiste em dizer que cada um deve ter a sua própria cela separada. Para a vida carmelitana esta disposição é muito importante. Não se trata de comodismo do fulano que não quer ser molestado. Ter cela própria é para cada um, cada uma, poder realizar de verdade, na prática, (operis veritate) a "vida em obséquio de Jesus Cristo" conforme o rumo e o ideal da Regra do Carmo.

Entre os dois desejos: o deserto e a cidade

Os primeiros carmelitas, aqueles que foram falar com Alberto, viviam na solidão ou no deserto do Carmelo. Aos poucos, ao longo dos anos, este deserto do Carmelo entrou para dentro deles. O Carmelo já não era só um lugar físico. Tornou-se um ideal de vida, uma experiência do encontro com Deus, tão bem expresso por São João da Cruz na Subida do Monte Carmelo. A experiência do deserto marcou para sempre a vida daqueles primeiros eremitas do Monte Carmelo. Quando em 1238 foram morar nas cidades da Europa, abando­naram a solidão física do deserto lá da Palestina, mas levaram consigo a experiência interior do encontro com Deus no deserto do Carmelo. Como manter vivo em nós o deserto do Carmelo? Esta pergunta sempre acompa­nhou os carmelitas ao longo dos séculos. É a preocupação de não perder a origem, a identidade!

Ora, a grande novidade é esta: chegando na Europa, após alguma hesitação inicial, orientados pelo bom senso e pela decisão do Papa Inocêncio IV, os carmelitas, aos poucos, foram reencontrar o deserto do Carmelo, não na vida dos grandes mosteiros independentes e auto-suficientes, longe das cidades e do povo, mas sim na vida pobre dos Mendicantes, optando pela solidão da margem e do abandono, em que viviam os "menores", os pobres, da época. Foi uma verdadeira re-fundação, uma fidelidade criativa! Reencontraram o deserto da sua origem no deserto das periferias!

Não foi uma opção fácil. Eles viviam entre os dois desejos: o deserto e a cidade, a saudade e a realidade, o grande mosteiro afastado e a pequena fraternidade no meio dos "menores", a vida eremítica antiga e a vida eremítica mendicante. Queriam ser fiéis a ambos. Para ajudá-los a manter o equilíbrio entre os dois desejos, Alberto redigiu os números 4 a 9 da Regra e o Papa Inocêncio IV introduziu aquelas mudanças, de que falamos anteriormente. Os mesmos dois polos nos desafiam até hoje: nossa tradição e os pobres da América Latina.

O texto da Regra diz que cada um deve ter a sua cela, deve viver separado na solidão para ficar só diante de Deus. Na solidão, caem as máscaras, e você se descobre a si mesmo diante dele. Na solidão, você desacostuma de se comparar com os outros. Comparar-se com os outros é uma tentação tão comum, que a gente quase nem se dá conta. Na solidão, você se compara só com Deus, o único que me pode devolver a minha identidade e, assim, tornar-me apto para poder viver em frater­nidade. Pois, sem solidão é difícil ter solidariedade. O verdadeiro solitário é sempre um grande solidário, e vice-versa!

Mas não basta a cela separada na solidão material do deserto. O carmelita, a carmelita, deve construir dentro de si a "cela interior" como o diz tão bem o canto do namorado para a sua namorada: "A solidão que tu me deste de presente, eu a cultivo como uma flor". (La solitudine che tu me hai regalato, io la coltivo come un fiore!) Estando assim diante de Deus, desarmados, na solidão do deserto, criamos em nós a receptividade e podemos receber e encarnar em nós a Palavra de Deus, como faziam os primeiros carmelitas, desde aquela mais remota origem no Monte Carmelo, imitando o profeta Elias, Pai e Guia do Carmelo, e Maria, mãe e irmã dos Carmelitas.

Elias e Maria: o encontro com Deus no deserto e em casa

Elias viveu na solidão de vários desertos que marcaram sua vida: de Carit (1Rs 17,5), de Beersheba (1Rs 19, 4), de Horeb (1Rs 19,8). Deserto, não só como lugar geográfico, mas também como experiência interior. Elias teve momentos de não saber, de estar perdido, de ter me­do, de achar que tudo estava terminado, de querer fugir e morrer, de pensar só em comer e dormir (1Rs 19,1-5). No deserto, Elias experimentou os seus próprios limites. Não chegou a perder a fé, mas já não sabia como usar a fé antiga para enfrentar a situação nova. O deserto era também o lugar da origem do povo, da volta às fontes em época de crise, onde se recuperavam a memória e a identidade; o lugar para onde o povo escapou para a liberdade, onde morreram os restos da ideologia do faraó, e onde o povo se reorganizou; o lugar da longa caminhada, quarenta anos, onde morreu uma geração inteira; o lugar do murmúrio, da luta, da tentação e da queda; o lugar do namoro, do noiva­do, da experiência de Deus, da oração. O deserto fez Elias se re-aproximar da origem do povo. Os 40 dias de caminhada no deserto (1Rs 19,7-8) lembram os 40 anos que o povo passou no deserto. O deserto lhe deu condições de perceber o engano da monarquia que manipulava a religião. Solidão não significa isolamento nem individualismo. Pelo contrário. Solidão bem vivida nos abre e nos une com todos os que foram marginalizados e isolados. Tantos! A solidão leva à solidariedade.

De Maria a Bíblia fala muito pouco, e ela mesma fala menos ainda. Maria aparece como a mulher que escuta e descobre, medita e rumina a Palavra nos acontecimentos da vida (Lc 2,19.51). Ela estava dentro da sua casa (cela), quando recebeu a visita do anjo (Lc 1,28). Depois de ter acolhido a Pala­vra e tê-la encarnado em sua vida (Lc 11,27-28), ela sai de casa para servir: a Isabel, sua prima, grávida de seis meses (Lc 1,39.56); ao casal pobre de Caná na festa do casamento (Jo 2,1-5); a Jesus pendurado na cruz (Jo 19,25-27); aos apóstolos reunidos no cenáculo (At 1,14). Ela canta a Deus, quando reconhece a presença da palavra nos fatos da vida (Lc 2,46-55).

Carlos Mesters, Ao redor da fonte

 
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A Regra do Carmo

- Da escolha do prior e dos três votos -

 

4. Determinamos, em primeiro lugar, que tenham um de vocês como prior, que seja eleito para este serviço através do consenso unânime de todos ou da parte mais numerosa e mais madura. A ele cada um dos outros prometa obediência e se empenhe em cumprir na verdade da prática o que prometeu, juntamente com a castidade e a renúncia à propriedade.

Um pouco de história: de Alberto a Inocêncio, a longa gestação (1207 a 1247)

A Regra do Carmo foi escrita para frades que viviam em lugares afastados na solidão do Monte Carmelo no começo do século XIII (1207). As primeiras normas da Regra (Rc 4 a 9) trazem determina­ções muito concretas em vista da organização da infra-estrutura da vida comunitária daqueles frades naquele lugar. Elas informam, por exemplo, como deviam ser: o governo (Rc 4), o lugar de moradia (Rc 5), as refeições em comum (Rc 7), a cela (Rc 6), a acolhida (Rc 9). Aparentemente, tratam de coisas já ultrapassadas, pois hoje, no começo do século XXI, nós não vivemos em grutas na solidão do Monte Carmelo, mas em casas ou em conventos no meio de ci­dades muito povoadas aqui na América Latina. A diferença é muito grande! Mas vamos ver qual era o objectivo daquelas normas. Sabendo por que foram dadas, descobre-se melhor o seu alcance para nós hoje.

Alberto escreveu a Regra em 1207. Quando, em 1238, os carmelitas voltaram para Europa e foram morar em cidades, perceberam que a Regra, escrita para a solidão do Monte Carmelo, devia ser revista e actualizada. Algumas das normas dadas em 1207 já não estavam de acordo com a nova realidade que eles estavam vivendo no meio dos menores (pobres) nas cidades da Europa. Caso eles fossem observar aquelas normas ao pé da letra, seriam infiéis ao objectivo que Alberto tinha em mente. A fidelidade à letra tornaria impossível a fidelidade ao espírito do ideal do Carmelo (2Cor 3,6).

Além disso, havia uma outra dificuldade. Como vimos na Introdução, no Concílio de Lateranense de 1215, tinha sido decidido que, daquela data em diante, já não seria possível escrever novas regras monásticas. As novas Ordens e Congregações que surgissem deviam assumir uma das regras já existentes. Ora, os carmelitas tinham vindo para Europa só no ano 1238, isto é, 23 anos depois daquele Concílio. Muitos teólogos e bispos diziam aos carmelitas: "Vocês nasceram depois do Concílio! Vocês não podem ter uma Regra própria, mas devem seguir uma das regras já existentes!" Foi um momento de grande crise.

Por isso, num Capítulo Geral, realizado em 1246, os carmelitas discutiram o problema e resolveram enviar dois delegados a Roma, os frades Pedro e Reginaldo, a fim de pedir ao Papa Inocêncio IV duas coisas: a revisão de alguns pontos desactualizados da Forma de Vida dada por Alberto e a sua aprovação como verdadeira Regra de Vida Religiosa. O Papa entregou o texto de Alberto a dois frades dominicanos, o cardeal Hugo e o bispo Guilherme, para que fizessem a revisão. Algumas pequenas modificações bem precisas foram introduzidas, a fim de que o ideal do Carmelo pudesse ser vivido também no novo contexto das cidades da Europa. E assim, no dia 1 de Outubro de 1247, este texto modificado foi aprovado como Regra única e definitiva para toda a família carmelita. Foi uma longa gestação que durou 40 anos! O povo de Deus também ficou 40 anos no deserto até tornar-se parceiro adulto de Deus.

Na Introdução já assinalamos as principais modificações introduzidas na Regra a pedido do Papa Inocêncio IV. Ao longo dos Círculos iremos indicando o significado e o alcance destas poucas modificações que influíram profundamente no estilo de vida que os carmelitas levavam.

A primeira norma da Regra: "tenham um de vocês como prior"

No Prólogo (Rc 3), Alberto fala de uma proposta que os primeiros carmelitas lhe tinham feito. Eles queriam que Alberto lhes redigisse uma Forma de Vida, segundo a qual haveriam de viver de agora em diante (Rc 3). Ora, a primeira determinação desta Forma de Vida (Regra) trata, não da oração, nem da leitura orante da Bíblia, mas sim da escolha do Prior ou do coordenador, ao qual todos devem prometer obediência, juntamente com a castidade e a renúncia à propriedade. Se Alberto colocou esta norma em primeiro lugar, antes de todas as outras, é porque, para ele, se tratava de um valor muito importante para a vivência do ideal carmelita.

Por que esta determinação sobre a escolha do Prior é tão importante? É que, naquele tempo, a escolha de um Prior para uma comunidade religiosa era uma novidade. Nos outros mosteiros, o superior era um Abade. Um abade era eleito para ser superior pelo resto da sua vida; ad vitam, como diziam. Às vezes, ele era nomeado pelo bispo. Ora, entre os carmelitas, o superior não é um abade, nem é nomeado, mas é um prior, um do meio deles, igual aos outros, eleito pelos outros, não para sempre mas só por alguns poucos anos. A Regra diz claramente, "um do meio de vocês seja eleito" (Rc 4). Era por rodízio (Rc 22).

A palavra prior vem do latim. É uma forma gramatical comparativa. Literalmente, indica alguém um pouco mais na frente dos outros, o primeiro entre iguais (primus inter pares). A instituição do prior modifica o relacionamento do poder no interior da comunidade. Introduz um elemento democrá­tico na organização da vida comunitária e contrasta com a vida monacal, onde o Abade era superior até à morte. A nova instituição impede que o superior ou a superiora assimile o poder como propriedade pessoal. Quem é eleito por três ou seis anos sabe que é "um no meio de vocês" (Rc 4) e que, depois de alguns anos, voltará a ser novamente um súdito, igual aos outros. A institui­ção do prior é a expressão da opção dos carmelitas pela vida fraterna.

A obediência prometida ao prior não significa que ele pode fazer o que bem entende. Não! Como todos os outros, também o prior deve obediência à Regra. Ele é eleito para servir (Rc 22) e coordenar o esforço comum de todos para viver em obséquio de Jesus Cristo. Ele representa a comunidade. Os irmãos prometem a ele obediên­cia, castidade e pobreza, como se fosse a Cristo (Rc 23). Na Regra o prior recebe as seguintes atribuições:

Deve ser eleito por todos ou pela maioria dos irmãos e deles recebe a obediência (Rc 4 e 23)

  • Junto com os irmãos decide sobre o lugar de moradia (Rc 5)
  • Junto com os irmãos cuida para que cada frade tenha a sua cela (Rc 6)
  • Dar licença com relação à mudança de lugar de moradia (Rc 8)
  • Receber as pessoas na entrada do lugar de moradia e encaminhá-las (Rc 9)
  • Através de um irmão por ele designado, cuidar da distribuição dos bens conforme as necessidades das pessoas (Rc 12)

O que chama a atenção nas funções que o prior recebe na Regra é que, no exercício do seu poder de servir, ele quase nunca aparece sozinho, mas sempre junto com os irmãos: unanimidade, maioria, junto com os irmãos, através de um dos irmãos. Ou seja, trata-se de uma maneira participativa e mais democrática de exercer o poder.

Resumindo. Dizendo que devem ter um Prior e não um Abade, como era o costume nos mosteiros da época, Alberto introduz ou confirma duas coisas: 1. O poder é relativizado e não dura para sempre. Acentua-se a dimensão do serviço. 2. O relacionamento entre superior e súdito é horizontalizado e reduzido a "iguais". Somos irmãos!

Os três votos: redefinir a vida em todas as suas dimensões

A expressão com castidade e abdicação de propriedade foi acrescentada pelo Papa Inocêncio IV em 1247. No texto de Alberto de 1207, só se mencionava a obediência. O acréscimo do Papa explicita o que já estava implícito no ideal proposto pela Regra, e situa o grupo dos carmelitas dentro do conjunto da Vida Religiosa que se caracterizava pela observância dos três conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade.

A Obediência é prometida ao Prior como representante de Cristo e da Comunidade. Refere-se, antes de tudo, ao compromisso de "viver em obséquio de Jesus Cristo" de acordo com o rumo indicado pela Regra. Implica que o carmelita, a carmelita, deve viver o ideal da Regra em comunidade. Obediência não significa que a pessoa deva perder ou abdicar a sua vontade. Significa, ao contrário, activar a própria vontade ao máximo, até ela estar em conformidade total com a vontade de Deus. Deste modo, a pessoa imita a Jesus que disse: "Nada faço por mim mesmo, mas falo como me ensinou o Pai... Faço sempre o que lhe agrada" (Jo 8,28-29; cf Jo 3,11; 8,38). "Quem me vê, vê o Pai!" (Jo 14,9).

A Castidade é vivida de maneira diferente de acordo com o estado de vida que a pessoa tiver escolhido: casada ou solteira. Para os que optaram pela vida religiosa, ela significa não casar por causa do Reino. Para todos significa viver o amor em plenitude. A vivência da castidade ajuda a pessoa a estar disponível para Deus e para os irmãos e as irmãs e, assim, ser um sinal do futuro que Deus oferece a todos. Não significa que a pessoa não casada deva viver frustrada ou complexada, como se não fosse plenamente humana. Pelo contrário! Significa activar a amizade e o amor ao máximo, a ponto de poder irradiar o amor de Deus para todos com que convive. Deste modo, a pessoa imita a Jesus que disse: "Não chamo vocês de empregados, porque o empregado não sabe o que faz o seu patrão; mas eu chamo vocês de amigos, porque tudo que ouvi do meu Pai dei a conhecer a vocês!" (Jo 15,15).

A Pobreza é não considerar-se proprietário ou proprietária das coisas de que se dispõe, mas possuir tudo em regime de comunhão de bens. É viver como pobre do próprio trabalho ou da esmola recebida como retribuição pelo anúncio do evangelho. É viver junto com os "menores" (pobres) e, assim, contestar a desigualdade social. É ser profeta e assumir a luta pelo Reino. Pobreza não significa que a pessoa deva ser relaxada ou viver na miséria. Pelo contrário! Significa que se deve ter o máximo cuidado com os bens que Deus nos concede; apreciá-los como dons recebidos que Deus quer para todos e não só para uns poucos. É ser semente e amostra da nova convivência que o evangelho nos propõe. Deste modo, a pessoa imita a Jesus que viveu pobre com os pobres, partilhava com eles o que possuía, e denunciava a riqueza injusta (Lc 6,20.25; 12,22-34; 16,19-31).

  • A obediência conserta e purifica o relacionamento com Deus.
  • A castidade conserta e purifica o relacionamento interpessoal.
  • A pobreza conserta e purifica o relacionamento social.

Carlos Mesters, Ao redor da fonte

 
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A Regra do Carmo

- O Prólogo -

  1. Alberto, pela graça de Deus, chamado a ser Patriarca da Igreja de Jerusalém, aos amados filhos em Cristo B. e demais eremitas que, sob a sua obediência, vivem junto à Fonte no Monte Carmelo, a Salvação no Senhor e a Bênção do Espírito Santo.
  2. Muitas vezes e de muitas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou qualquer que seja o modo de vida religiosa que tenha escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena.
  3. No entanto, como vocês nos pedem que, de acordo com o seu projecto, lhes demos uma forma de vida à qual, de agora em diante, devem manter-se fiéis:

Um chave de leitura para o Prólogo da Regra

Numa pintura antiga do século XIII, conservada num dos nossos conventos da Itália, apare­ce Santo Alberto entregando a Regra aos Carmelitas, lá no Monte Carmelo. De um lado, se vê Alberto rodeado por um grupo de pessoas. Do outro lado, o prior dos carmelitas rodea­do pela comunidade dos primeiros frades. No centro da pintura, se vê como a Regra passa da mão de Alberto para a mão do prior. No prólogo da Regra, Alberto se dirige a esse prior, mas não cita por extenso o nome dele. Escreve apenas a letra B. Não sabemos o motivo desta omissão do nome. Talvez seja para que cada carmelita, irmão ou irmã, colo­que o seu próprio nome. Pois, no momento em que nós, aqui e agora, fazemos a leitura da Regra, acontece connosco a mesma coisa que aconteceu lá no Monte Carmelo: a Regra passa da mão de Alberto para a nossa mão. A Regra é para nós que vivemos hoje! Por isso, convém fazer uma leitura bem solene.

O prólogo nos faz saber qual o rumo que a Regra indica para as nossas vidas como carmelitas. Ele consta de apenas três frases. Cada uma delas indica um aspecto do rumo que devemos seguir. “Qual o rumo que cada uma destas três frases indica para nós, irmãos e irmãs carmelitas?”.

Um pouco de história: os primeiros Carmelitas e o Patriarca Alberto

De acordo com as informações do próprio prólogo, os primeiros carmelitas já viviam em comunidade sob a obediência de B., perto de uma fonte, lá no Monte Carmelo. Eles tinham encontrado uma nova maneira de viver o Evangelho e queriam que ela tivesse a aprovação da Igreja. Por isso, redigiram uma "proposta" e foram falar com Alberto, Patriarca de Jerusalém. Esta pro­posta é o rascunho da futura Regra do Carmo, pois, como o próprio Alberto afirma no prólogo (Rc 3), ele aceitou a proposta e, com a sua autoridade, transformou-a em Forma de Vida, não só para aquele primeiro grupo de carmelitas, mas também para todos nós que viemos depois.

Tudo isto aconteceu entre 1206 e 1214, os anos em que Alberto foi Patriarca de Jerusalém. Não sabemos o ano certo. Alguns dizem que foi no ano 1209. É possível. Mas por causa do valor simbólico do número 40, achamos melhor dizer que foi no ano 1207. É que exactamente 40 anos depois, no dia 1º de Outubro de 1247, a Forma de Vida, dada por Alberto, foi oficialmente aprovada pelo Papa Inocêncio IV como Regra da Ordem do Carmo. O povo de Deus passou 40 anos no deserto, entre a saída do Egipto e a tomada de posse da Terra Prometida. O profeta Elias andou 40 dias pelo deserto até chegar na Montanha de Deus. Jesus jejuou 40 dias no deserto para preparar-se para a sua missão.

Nas poucas frases do prólogo Alberto tem a preocupação de situar os Carmeli­tas dentro da tradição do Povo de Deus. Imitando o jeito com que o apóstolo Paulo costumava começar suas cartas (Rm 1,1; 1Cor 1,1; 2Cor 1,1), Alberto apresenta a própria Regra como sendo o prolongamento e a actualização do Novo Testamento para os Carmelitas. Além disso, citando a carta aos Hebreus (Hb 1,1), ele faz saber que a vida dos carmelitas está em continuidade com a tradição dos Santos Padres da Igreja. Ele diz: Muitas vezes e de muitas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou a forma de vida religiosa que tiver escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena. Naquele tempo, como hoje, havia muitas formas de se "viver em obséquio de Jesus Cristo". Havia os eremitas, os romeiros, os monges, os templários, os mendicantes. Havia as Regras de Santo Agostinho, São Basílio, São Bento, São Francisco. Havia muitas Ordens e Congregações. Mas Alberto reconhece que aquele grupo de carmelitas do Monte Carmelo tinha um caminho diferente, uma proposta nova. Apesar de serem chamados de eremitas como os antigos monges, os primeiros carmelitas tinham elementos novos e diferentes na sua maneira de viver o Evangelho. Nenhuma das Regras existentes correspondia à vida que eles queriam levar. Eles precisavam de algo novo.

A novidade deste caminho, próprio dos carmelitas, vai ser descrita na Forma de Vida que será a Regra do Carmo. É a Regra mais curta de todas que existem na Igreja! Cada carmelita, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou o modo de vida religiosa que tiver escolhido, procura viver esta Regra dentro do seu próprio estado de vida: homem ou mulher; casado ou solteiro; frade ou sacerdote; irmã de clausura ou de congregação; leigo, leiga ou membro do clero; ordem primeira, segunda ou terceira; membro de movimentos ou de associações que se inspiram na Regra do Carmo, ... Até hoje, todos nós nos reunimos ao redor desta mesma fonte para beber da sua água que brota para a vida eterna.

O rumo que a Regra do Carmo nos propõe

O rumo que a Regra do Carmo propõe é o rumo de todo cristão: Viver em obséquio de Jesus Cristo. A Regra descreve a maneira como os membros da família carmelita devem seguir por este rumo. A expressão "em obséquio de Jesus Cristo" vem de 2Cor 10,5. Na Idade Média, esta mesma expressão era usada para designar o novo tipo de Vida Religiosa que os mendicantes procura­vam levar. Naquele tempo, os empregados das grandes fazendas diziam: "Vivemos em obséquio de fulano de tal, senhor desta terra". Os carmelitas, como tantos outros romeiros e cruzadas, tinham saído desse mundo dos senhores da terra para ir em romaria até à Terra Santa. a terra de Jesus. Eles diziam: Nós vivemos em obséquio de Jesus Cristo, o Senhor da Terra Santa.

A expressão viver em obséquio de Jesus Cristo retoma a riqueza e a densidade da expressão Seguir Jesus dos evangelhos, onde se destacam três aspectos:

Imitar o exemplo do Mestre

No tempo de Jesus, quem seguia a um mestre tinha nele um modelo de vida, um exemplo a ser imitado. A convivência diária do discípulo com o mestre permitia um confronto perma­nente. Assim, quem seguia a Jesus tinha nele um modelo a ser reproduzido em sua própria vida (Jo 13,13-15). Nesta "escola de Jesus" só se ensinava uma única matéria: Jesus, ele mesmo! Hoje, isto exige de nós uma leitura constante e orante dos evangelhos (Rc 10) para que possamos conhecer Jesus, o modelo a ser imitado.

Participar do destino do Mestre

No tempo de Jesus, quem seguia a um mestre devia andar com ele em todo o canto, mesmo quando fosse difícil ou exigisse sacrifício. Assim, quem seguia a Jesus devia comprometer-se com ele e "estar com ele nas tentações" (Lc 22,28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25), e na morte (Jo 11,16). Hoje isto exige de nós um compromisso sério com aquilo que a Igreja pede de nós, a saber, a opção pelos pobres (Puebla), sem medo das consequências que possam seguir.

Ter a vida de Jesus dentro de si

Depois da Páscoa, à luz da ressurreição, acrescentou-se uma terceira dimensão. É a dimen­são mística, fruto da acção do Espírito Santo. É o que São Paulo define com a seguinte frase: "Vivo, mas não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). É o que o mesmo Paulo descreve na carta aos Filipenses, no texto que acabamos de ler: morrer com Cristo a serviço dos irmãos para poder viver com ele na Ressurreição (Fil 3,7-12). Hoje, isto exige de nós um exercício contínuo da presença de Deus. Meditar dia e noite na Lei do Senhor (Rc 10).

Somos chamados a viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena. A expressão coração puro e consciência serena vem de 1Tm 1,5. É vivendo dentro do rumo indicado pela Regra, que o coração se purifica e a consciência encontra a sereni­dade e a paz.

Coração puro

"Felizes os puros de coração, porque verão a Deus", disse Jesus (Mt 5,8). A "pureza de coração" é o ponto de chegada de uma longa caminhada. Ela indica a constância espiritual e a paz interior que permite fazer o discernimento dos espíritos. Ela percebe o que é de Deus e o que não é de Deus. Hoje, neste nosso mundo de TV e de supermercados, de propaganda política e de movimentos da moda, não é fácil para a pessoa discernir o que é de Deus e o que não é de Deus. A purificação do coração de que fala a Regra é muito actual e mais necessária do que nunca. É ver as coisas não com os olhos do mundo, mas com os olhos de Deus (Jo 17,11.19). É ter uma visão mais verdadeira de nós mesmos, da sociedade, da realidade, e uma consciên­cia mais crítica frente ao sistema neo-liberal que tomou conta de tudo e se apresenta a todos por todos os meios como sendo a única verdade.

Consciência serena

Alguns traduzem recta consciência. Preferimos traduzir consciência serena. Em português, a expressão "recta consciência" acentua a dimensão moral: uma consciência moralmente correcta. Sem excluir a rectidão moral, o acento da Regra é outro. É ter uma consciência fundamentada na humildade, no chão da realidade tal como ela é. O coração puro vai gerando em nós a consciência serena. É a consciência de quem, para além do seu próprio ego, encontrou em Deus a raiz do seu ser, a fonte da sua paz e da sua identidade. "Vivo, sim, mas já não sou eu. É Cristo que vive em mim!" (Gl 2,20).

Elias e Maria e o rumo da vida Carmelita

A Regra do Carmo alude ao Monte Carmelo e à fonte que lá existia, mas não fala do profeta Elias, nem de Maria. Não menciona os seus nomes. As duas figuras, que, desde o começo, marcaram e continuam marcando até hoje a espiritualidade do Carmelo, estão ausentes da Regra. Porquê? É que o único pedacinho de terra que eu não posso ver nunca é aquele que está debaixo dos meus pés. É o que me sustenta e me dá firmeza.

A fonte de que fala a Regra é a fonte do profeta Elias que, até hoje, existe no Monte Carmelo. A capela que construíram por ordem de Alberto era dedicada a Santa Maria do Monte Carmelo. Elias e Maria! O rumo que os carmelitas descobrem no profeta Elias é este: "Vivo é o Senhor em cuja presença estou!" (1Rs 17,1). O rumo que Maria indica para nós é: "Fazei tudo que Ele vos disser!" (Jo 2, 5). Este duplo rumo de Elias e Maria estava debaixo dos pés dos primeiros carmelitas e estava expresso na proposta ou rascunho que eles levaram para Alberto. Seguindo por este rumo, podemos viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena.

A Regra do Carmo não deve ser vista como um conjunto de normas para medir a perfeição da nossa observância, mas sim como uma porta que oferece um novo acesso até à fonte que é Jesus. Entrando por esta porta e seguindo por este caminho, o coração se purifica, a consciência encontra a serenidade (Rc 2) e a presença de Deus se manifesta. Vivendo a Regra, realiza-se em nós o que aconteceu com o profeta Elias no Karit: beberemos da fonte e seremos alimentados por Deus (1Rs 17,1-6). Realiza-se o que aconteceu com Maria em Nazaré: receberemos a Palavra de Deus e ela se encarnará em nossas vidas (Lc 1,38).

Carlos Mesters, Ao redor da fonte

 
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