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Regra Carmelita
Do silêncio profético e do controle da língua (1) - nº 21 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do silêncio profético e do controle da língua (1) (n.º 21) -

 

21. O apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que é nele que se deve trabalhar. E como afirma o profeta: a justiça é cultivada pelo silêncio. E ainda: no silêncio e na esperança estará a força de vocês.

Por isso, determinamos que, depois da recitação das completas, guardem o silêncio até depois da Hora Primeira do dia seguinte. Fora desse tempo, embora a observância do silêncio não seja tão rigorosa, com tanto mais cuidado abstenham-se do muito falar, porque, conforme está escrito e não menos ensina a experiência: No muito falar não faltará o pecado; e: Quem fala sem refletir sentirá um mal-estar; e ainda: Quem fala em demasia prejudica a sua alma; e o Senhor no Evangelho: De toda palavra inútil que os homens disserem, dela terão que prestar conta no dia do juízo.

Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, como diz o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligência e prudência, em observar o silêncio pelo qual se cultiva a justiça.

Um pouco de história: sobre o silêncio no Monte Carmelo e na Regra do Carmo

Na solidão do Monte Carmelo, onde viviam os primeiros carmelitas, reinava um grande silêncio. Não havia barulho, a não ser os ruídos da própria natureza que convidam ao silêncio. Mesmo assim, a Regra recomenda com muita insistência o silêncio. Numa cidade barulhenta tem sentido insistir que se faça silêncio. Mas pedir que se faça silêncio naquela serra imensa do Carmelo, cheia de solidão, qual o sentido? Parece o mesmo que carregar água para o mar! Qual o silêncio que a Regra pede daqueles primeiros carmelitas do Monte Carmelo e, através deles, de todos nós da Família Carmelitana?

Comparando o texto escrito por Alberto em 1207 com o texto aprovado pelo Papa Inocêncio IV em 1247, a gente nota uma diferença. Alberto dizia que se devia observar um silêncio estrito desde a oração das Vésperas, no fim da tarde, até à Hora Terceira do dia seguinte. O texto definitivo, aprovado pelo Papa, encurtou o tempo do silêncio estrito. Agora é desde a oração do Completório, à noite, até à Hora Primeira do dia seguinte. O motivo deste abrandamento do silêncio estrito deve ter sido a atividade pastoral, o contato com o povo. Mas continua a pergunta: qual o silêncio que a Regra pede e recomenda?

Há muitos tipos de silêncio: o silêncio de uma sala de estudo ou de uma biblioteca; o silêncio que se pede num hospital; o silêncio da noite ou da madrugada; o silêncio da natureza, o silêncio da morte; o silêncio que precede a tempesta­de; o silêncio do medo; o silêncio do censurado e do povo silenciado e amordaçado; o silêncio do aluno que não sabe a resposta, o silêncio de.... Qual o silêncio que a Regra pede e recomenda? Vejamos:

O ponto de partida: o controle da língua que conduz ao silêncio profético

Como nos números anteriores sobre as armas espirituais (Rc 18 e 19) e sobre o trabalho (Rc 20), assim também aqui no número sobre o silêncio (Rc 21), a Regra sintetiza e canaliza o rio rico e caudaloso da tradição monástica e eremítica do passado e a faz passar pelo jardim do Carmelo situado nas perife­rias das cidades no meio dos "menores" (pobres), para que o irrigue e produza frutos de justiça, de fraternidade e de santidade a serviço da Igreja e do povo. O número 21 da Regra sobre o silêncio tem três partes: 1) Descreve o valor do silêncio; 2) Organiza o silêncio; 3) Recomenda a prática do silêncio.

O valor do silêncio

Na primeira parte, usando frases da Bíblia, a Regra começa lembrando a recomen­dação do apóstolo Paulo a respeito do trabalho em silêncio (Rc 20). Em seguida, para des­crever o valor do silêncio, ela cita por inteiro duas frases do profeta Isaías: "A justiça é cultiva­da pelo silêncio", e “É no silêncio e na esperança, que se encontrará a vossa força”. Isto significa que o silêncio recomendado pela Regra tem a ver com a Bíblia: a sua origem está nos profetas. É um silêncio profético! Trata-se de um silêncio que é muito mais do que só ausência de barulho ou de falatório. Conforme as duas frases do profeta Isaías, o silêncio tem a ver com a prática da justiça, com a esperança e a resistência (força). Para nós, carmelitas, o silêncio profético evoca imediatamente o profeta Elias.

Este silêncio profético tem dois aspectos, expressos nas duas frases de Isaías. A primeira frase diz que o cultivo do silêncio gera justiça. Isaías compara a prática do silêncio com o trabalho do agricultor que cultiva a sua roça para ter boa colheita. Esta primeira frase indica o nosso esforço ativo que visa atingir um determinado resultado. A segunda frase do profeta sugere o contrário. Em vez de esforço ativo em busca de um resultado, aqui a prática do silêncio é vista como a atitude de espera de algo que deve acontecer, mas que não depende do nosso esforço. Depende de Deus.

A institucionalização do silêncio

A segunda parte do número 21 da Regra descreve a organização do silêncio. Se o silêncio é um valor tão importante, ele deve ter a sua expressão na vida do Carmelo. Na Regra, a organi­zação ou institucionalização do silêncio é adaptada ao ritmo diferente do dia e da noite. A noite, ela por si mesma, é silenciosa. O silêncio da noite nos envolve e nos faz silenciar. Produz uma certa passividade. Acalma as pessoas. Acontece, independente de nós. O dia já é mais barulhento. Em vez de silêncio, produz distração. Agita as pessoas. Exige um esforço interior maior para fazer silêncio. Por isso, a Regra pede um tipo de silêncio mais estrito para a noite e um silêncio menos estrito para durante o dia. Insistindo para que o silêncio seja institucionalizado conforme o ritmo diferente do dia e da noite, a Regra, por assim dizer, cria canais concretos através dos quais o silêncio possa atingir as pessoas para gerar nelas a justiça, a esperança e a resistência (força) de que fala o profeta Isaías. Através da observância do ritmo do silêncio de dia e de noite, a pessoa vai assimilando dentro de si os valores do silêncio profético.

A recomendação do silêncio

A terceira parte consta de dois momentos. Num primeiro momento, a Regra descreve como a pessoa deve fazer para cultivar o silêncio que gera a justiça. Este cultivo consiste sobretudo no controle da língua. Citando frases da Bíblia, Alberto aponta os perigos do muito falatório. Ele diz: No muito falar não faltará o pecado; e quem fala sem refletir sentirá um mal-estar, e ainda quem fala muito prejudica sua alma. E o Senhor no Evangelho: de toda palavra inútil que as pessoas dis­serem, dela terão que prestar conta no dia do juízo.

Em seguida, num segundo momento, citando novamente frases da Bíblia, a Regra passa a recomendar o cultivo do silêncio ou o contro­le da língua, como sendo o caminho para se chegar ao silêncio mais profundo que é o silêncio profético. A Regra diz: Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, com o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligência e prudência, em observar o silêncio pelo qual se cultiva a justiça. De um lado, o pecado, a morte. Do outro lado, a justiça, a vida. O muito falatório conduz ao pecado e à morte. O controle da língua conduz à justiça e à vida.

Como se vê, no fim, a Regra retoma a frase inicial sobre a justiça que é fruto do silêncio e diz: Cada um procure diligentemente observar o silêncio, pelo qual se cultiva a justiça. No começo e no fim, a insistência na prática do silêncio como caminho para a justiça. É o silêncio profético!

Ponto de chegada: o silêncio profético que enfrenta a morte e conduz à vida

Hoje em dia, o fluxo de palavras, de imagens e de falatório que nos envolvem é tanto, que impede as pessoas de perceberem o que está acontecendo de fato. Envolve-nos de tal maneira, que acabamos achando normal aquilo que, na realidade, é uma situação de morte. Por exemplo, anos atrás, o povo se revoltava diante de assassinatos e diante da violência. Hoje em dia, a violência tornou-se uma coisa tão frequente e tão presente, que já nos acostumamos. A miséria crescente do povo, a injustiça impune, o sofrimento dos que nunca cometeram algum mal, o abandono, o desemprego, a exclusão, a doença, a solidão, o desamor...! Vivemos numa situação de morte, e já não nos da­mos conta. Além disso, muitas vezes, o consumismo mata qualquer esforço de consciência crítica

O primeiro passo do silêncio profético está expresso na primeira citação de Isaías que diz: A justiça é cultivada pelo silêncio. Este cultivo consiste num trabalho ativo nosso que faz silenciar tudo dentro de nós, para que a realidade possa aparecer do jeito que ela é em si mesma e não como aparece desfigurada através do muito falatório, do barulho da moda, do diz-que-diz, ou através dos meios de comunicação, da ideologia dominante. Este trabalho ativo da prática do silêncio produz, aos poucos, o desmantelo das falsas ideias, da ideologia dominante ou dos pre­conceitos que tínhamos na cabeça. Faz nascer a visão justa das coisas. Gera em nós a justiça.

Na hora em que se desmantela dentro da cabeça da gente o arcabouço ideológico que nos dava uma visão falsa e artificial da realidade, nesse momento é como se levássemos uma pancada forte. Como que de repente, despertamos do sono e somos confrontados com a situação de morte sem saída em que estamos vivendo e que grita por mudança e conversão. Nesse momento, tudo silencia dentro da gente. O falatório acabou, emudecemos. Perdemos os argumentos que nos sustentavam. É o momento da crise. Este momento do confronto com a situação de morte que faz silenciar, é o primeiro passo do silêncio profético, de que fala a Regra. É fruto do esforço ativo nosso de fazer silenciar o muito falatório da propaganda, da ingenuidade sem consciência crítica.

O silêncio profético coloca o dedo na ferida escondida. Ele denuncia os caminhos sem saída em que estávamos caminhando e dos quais achávamos que fossem caminhos de vida, quando, na realidade, nos conduziam para a morte. O profeta aponta a morte, não porque gosta da morte, mas sim para que a vida possa manifestar-se. Agindo assim, ele dá pancada, faz silenciar. Faz silêncio para que possamos escutar e experimentar a morte e, passando pela morte, reencontrar a vida. É a cami­nhada da Noite Escura, de que fala São João da Cruz. É uma exigência da vida que sejam apontados os falsos e ilusórios caminhos da morte, para que possam provocar mudança e conversão, tanto na vida pessoal como na convivência social, e, assim, gerar justiça.

O segundo passo do silêncio profético está expresso na segunda citação do profeta Isaías: No silêncio e na esperança está a força de vocês. O silêncio produzido em nós pelo confronto com a situação de morte, apesar de doloroso, é fonte de esperança e produz a força da resistência. Dá força para a gente aguentar a situação de morte, porque acreditamos que da morte do trigo caído na terra vai brotar vida nova. Faz cantar. Como diz o poeta: Faz escuro mas eu canto. Canta a Noite Escura do povo, porque dentro dela já se articula a madrugada da ressurreição.

Este segundo passo, fruto da ação de Deus, aparece em muitos lugares na Bíblia e de várias maneiras. Trata-se da experiência mística. Por exemplo:

  • Salmo 37,7 diz: Descansa em Javé e nele espera. Literalmente se diz: Esvazia-te diante de Ja­vé e aguenta firme. A palavra esperar (aguentar), sugere a atitude da mulher em dores de parto. Ela aguenta firme, porque sabe que vai nascer vida nova, apesar das muitas dores.
  • Lamentação 3,26 diz: É bom esperar em silêncio a salvação de Javé. É a mesma experiência da certeza que vem de Deus. Não sai de frente de Deus, porque sabe que vai ser atendido.
  • Este mesmo silêncio foi acontecendo na vida do profeta Elias na caminhada para o Monte Horeb (1Rs 19). Disto falaremos no subsídio do Círculo 18.
  • O mesmo silêncio aconteceu na vida de Maria e na vida dos Santos e Santas Carmelitas. Sobre isto meditaremos no subsídio do Círculo 19.

Resumindo. O silêncio profético recomendado pela Regra tem dois aspectos, expressos pelas duas frases de Isaías. O primeiro aspecto é fruto do esforço nosso, do cultivo, do trabalho. Exige disciplina e controle, estudo e reflexão, para que a gente possa perceber os mecanismos da opres­são e da ideologia, dos preconceitos e das propagandas. É fruto da partilha, da troca de expe­riências, do trabalho comunitário. O segundo aspecto do silêncio profético é fruto da ação do Espírito de Deus em nós. Desobstruído o acesso à fonte pelo esforço ativo nosso, a água brota de dentro de nós e inunda o nosso ser.

                                               Carlos Mesters, O. Carm.

 
Do trabalho e da ocupação do tempo (1) (nº 20) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do trabalho e da ocupação do tempo (1) (n.º 20) -

20. Vocês devem fazer algum trabalho, para que o diabo sempre os encontre ocupados e não consiga, através da ociosi­dade de vocês, encontrar alguma brecha para penetrar em suas almas.  Nisto vocês têm o ensinamento e o exemplo de São Paulo apóstolo, por cuja boca Cristo falava e que por Deus foi constituído e dado como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade. Se seguirem a ele, não poderão desviar-se.

Um pouco de história: sobre o trabalho na Vida Religiosa

O trabalho faz parte integrante da condição humana. Ele garante o sustento. A realidade dura da vida, marcada pelo trabalho, também faz parte integrante do caminho que conduz até Deus. Não há outro caminho. Por isso, o trabalho era um elemento básico e comum da vida monástica e eremítica. Os monges e os eremitas viviam do próprio trabalho. Era de dentro desta condição dura do trabalho, e não de fora dela, que os monges procuravam viver o ideal da busca de Deus. O trabalho era um aspecto da luta contra o mal. Era uma arma na luta contra o diabo. Neste ponto, a Regra do Carmo está em continuidade com a tradição antiga.

Como vimos anteriormente, a luta contra o diabo, contra o mal, era a motivação mais profunda que estava na origem da vida monástica. É esta mesma luta contra o diabo, que levou os primeiros carmelitas a assumir o trabalho como elemento básico da sua caminhada em direção a Deus. É o motivo que Alberto coloca em primeiro lugar neste número 20 da Regra sobre o trabalho. Ele diz: Vocês devem fazer algum tipo de trabalho, para que o diabo sempre os encontre ocupados e não consiga, através da ociosidade de vocês, encontrar alguma brecha para penetrar em suas almas.

Conforme a Regra, na porta da alma da gente deve está escrito Ocupada! Trabalhando! O trabalho impede a entrada de hóspedes indesejados, cria resistência no espírito contra a erosão e a desintegração interior. Faz também com que o relacionamento entre os membros da comunidade seja mais harmoniosa, pois impede que um seja peso inútil para os outros. Mantém o equilíbrio, cria harmonia através de uma boa e sábia distribuição dos trabalhos.

Além do sustento e da luta contra o diabo, a Regra enumera vários outros motivos: 1) Evitar a ociosidade. 2) Não pesar nas costas dos outros. 3) Imitar o exemplo de Paulo.

O sentido do trabalho no contexto mais amplo da Regra

O número 20 da Regra sobre o trabalho se esclarece e se aprofunda quando é visto no contexto mais amplo, em que ele se encontra dentro da Regra:

O contexto anterior

Nos números 18 e 19, a Regra tinha começado a falar da armadura de Deus. O trabalho faz parte desta armadura. Além da cintura, couraça, capacete, escudo, espada, o carmelita deve usar como arma o trabalho. A Regra não especifica qual seja o tipo de trabalho. Naquele tempo, podia ser um trabalho mais espiritual: meditação, leitura, estudo, copiar livros, ou um trabalho mais corporal: criação de animais, trabalho na roça, construção. Hoje em dia, será um outro tipo de trabalho.

O contexto posterior

No fim do capítulo sobre o trabalho, citando a carta de Paulo, a Regra conclui: Ordenamos e suplicamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhando em silêncio ganhem e comam seu próprio pão. Logo no início do capítulo seguinte sobre o silêncio (Rc 21), ela retoma o mesmo assunto dizendo: O apóstolo recomenda o silêncio quando manda que se trabalhe em silêncio. Para a Regra, o trabalho é o lado exterior de uma luta que deve atingir o interior através do silêncio.

Este duplo contexto, anterior e posterior, revela dois aspectos importantes do trabalho como instrumento de luta. De um lado, através do trabalho impedimos, como diz o texto da Regra sobre o trabalho (Rc 20), que o diabo entre de fora para dentro da gente. De outro lado, através do trabalho fazemos irradiar de dentro para fora a força que nasce e cresce em nós pela prática do silêncio. O carmelita, a carmelita, deve lutar para que o diabo não encontre acesso para dentro dele ou dela. Ao mesmo tempo, esta luta faz com que, a partir de dentro, através do silêncio, a sal­vação do Senhor e a bênção no Espírito Santo, desejadas a todos e todas no prólogo da Regra (Rc 1), sejam liberadas e se esparramem para fora sobre a comunidade e, através da comu­nidade, sobre a sociedade. Pois dentro da gente, no mais profundo de nós, na raíz do nosso ser, habita Deus. É lá naquela presença silenciosa de Deus em nós, que está a célula inicial da vitória.

O trabalho torna-se, assim, um caminho santo e bom, uma estrada de mão única: de dentro para fora. De fora para dentro, é mão proibida. Mas de dentro para fora, o trânsito é livre e corre a força da vida nova, gerada pelo silêncio e liberada pelo trabalho.

No fim, a Regra recomenda: Este caminho é santo e bom. É nele que vocês devem andar! O trabalho é apresentado como "caminho santo e bom". Resumindo, a gente poderia dizer que o número 20 da Regra apresenta o trabalho:

  • como instrumento eficaz de luta contra o mal, pois impede a entrada de coisa inútil dentro de nós;
  • como meio de inserção no meio dos "menores", pois, como o povo, o carmelita, a carmelita, vi­ve do próprio trabalho;
  • como elemento de testemunho, pois pelo silêncio deixa sair para fora a novidade da expe­riência de Deus.

O exemplo de Jesus: carpinteiro e lavrador

Jesus assumiu a condição humana lá onde ela pesa mais, isto é, no meio dos po­bres. "Sendo rico, se fez pobre" (2 Cor 8,9), "filho do carpinteiro" (Mt 13,55). "Sendo de condição divina, esva­ziou-se a si mesmo e assumiu a condição de empregado, um no meio de muitos" (Fl 2,6-7). "Ele foi provado como nós, em todas as coisas, menos no pe­cado" (Heb 4,15).

Jesus nasce leigo, po­bre, sem a proteção de uma classe ou de uma famí­lia poderosa. Muito provavelmente, a família de José era migrante, vinda de Belém da Judéia (Lc 2,4), foi para a Galiléia em busca de melhores condições de vida, co­mo acontece tan­to no Brasil. Jesus não teve opor­tu­nidade de estudar como o apóstolo Paulo (At 22,3). Teve que traba­lhar. Como todo judeu do interior, tra­balhava como agricul­tor. Além disso, aprendeu a pro­fissão de seu pai (Mt 13,55) e servia ao povo co­mo car­pin­teiro (Mc 6,3).

A escola de Jesus era, antes de tudo, essa vida em casa, na família, na comunidade. Foi lá que aprendeu a conviver, a rezar e a trabalhar. Na carpintaria e na roça. Aprendeu com São José. Trabalho duro para viver e sobreviver. Na Galiléia a terra não é ruim. Dá o suficiente para o povo viver. Mas os impostos eram altos e o controle rígido. Havia muitos cobradores de impos­tos (os publicanos) (Mc 2,14.15). O povo não tinha defesa contra o sistema que o explorava.

Jesus viveu em Nazaré, trabalhando na roça e na carpintaria. Camponês e operário. Trabalhador. Trinta dos trinta e três anos. É muito!

  • Isto significa que para ele, Jesus, o mais importante, o decisivo mesmo de uma vida hu­mana é saber viver essa vida de cada dia, vida de trabalho, aparentemente sem valor, sem nada de extraordiná­rio. Foi lá, nessa vida comum da grande maioria da humanidade, que ele aprendeu aquilo que en­sinou ao povo durante os três anos da sua atividade missionária. E bastaram três para ser pre­so, condenado e morto pelos ho­mens do poder!
  • Isto significa ainda que nessa vida comum de trabalho, aparentemente sem valor, está escondida uma se­mente que, quando desabrocha, incomoda os pode­rosos!

Durante o longo governo de Herodes Antipas na Galiléia (de 4 antes de Cristo a 39 depois de Cristo) cresce o latifúndio (ligado aos Saduceus) em prejuízo das propriedades comunitárias que eram a característica do sistema tradicional dos judeus. Os muitos impostos faziam diminuir a renda das pequenas propriedades. O Livro de Henoque, escrito nessa época, denuncia os poderosos donos das terras (Henoque 46,3-4; 48,8; 53,5; todo o capítulo 62) e exprime a esperança dos pequenos para o dia da vinda do Reino: “Então, os poderosos e os grandes já não serão mais os donos da terra!” (Hen 38,4). O ideal do futuro para os antigos era este: “Cada um debai­xo da sua vinha e da sua figueira, sem que haja quem lhes cause medo” (1Mac 14,12; Miq 4,4; Zac 3,10). Aos poucos, a política do governo de Herodes tornava impos­sí­vel a realização deste ideal. É como hoje. A situação está ficando tão ruim para o povo que já não é possível realizar o ideal dos tempos antigos: “Cada um no seu lote com casa própria e bom salário, sem medo de ser assal­tado!”

Tudo isto, Jesus o viveu e o experimentou, naqueles anos todos em Nazaré. Via os escri­bas se esforçando para ensinar ao povo as coisas da lei. Via os fariseus insistindo na obser­vân­cia da pureza. Via os sacerdotes preocupados com as coisas do culto no Templo. E quem esta­va preocupado com a vida do povo trabalhador? O povo era como um rebanho sem pastor, abandonado (Mt 9, 36-37; Mc 6,34). Queria entrar no Reino e não podia, porque os que tinham a chave não abriam a porta (Mt 23,13). E Jesus di­zia: “Tenho dó deste povo!”(Mc 8,2).

Este foi o povo com que Jesus conviveu durante trinta anos. Era esta a situação que ele experimentava e sofria diariamente. Era aqui, nesta escola do trabalho, que ele, através do longo silêncio de trinta anos, “crescia em sabedoria, graça e tamanho, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). A escola continua aí! As matrículas continuam abertas. E tem vaga!

Carlos Mesters, O. Carm.

 
Da luta diária e das armas espirituais (3) (nn.º 18-19) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da luta diária e das armas espirituais (3) (nn.º 18-19) -

18. Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perseguição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, esprei­tando a quem devorar, procurem, com toda a diligência, revestir-se da armadura de Deus, para que possam resistir às embosca­das do inimigo.

19. Os rins devem ser cingidos com o cíngulo da castidade, o peito protegido por pensamentos santos, pois está escrito: O pensamento santo te guardará. A couraça da justiça deve ser usada como veste, a fim de que vocês amem o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e o próximo como a si mesmos. Sempre e em tudo deve ser empunhado o escudo da fé, com o qual possam apagar todas as flechas incendiárias do maligno, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. O capacete da salvação deve ser colocado sobre a cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salvador, pois é ele que libertará o seu povo dos pecados.

E que a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente em sua boca e em seus corações, e tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor.

Um pouco de história: sobre a Lectio Divina ou Leitura Orante da Bíblia

A Lectio Divina é a leitura crente e orante da Palavra de Deus. Na sua origem, ela nada mais é que a leitura que os cristãos faziam da Bíblia para animar sua fé, esperança e amor. Ela é tão antiga quanto a própria Igreja, que vive da Palavra de Deus e dela depende como a água da sua fonte (Dei Verbum 7.10.21).

A Lectio Divina tornou-se a espinha dorsal da Vida Religiosa. Em torno da Palavra de Deus, ouvida, meditada e rezada, surgiu e se organizou o monaquismo do deserto. As sucessivas reformas e transformações da Vida Religiosa sempre retomavam a Lectio Divina como a sua marca registrada. As Regras de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento fizeram da leitura da Bíblia, junto com o trabalho manual e a liturgia, a tríplice base da Vida Religiosa.

A sistematização da Lectio Divina em quatro degraus como nós a conhecemos hoje em dia veio só no século XII. Por volta do ano 1150, Guigo, um monge cartuxo, escreveu um livrinho chamado “A Escada dos Monges”, onde introduz os quatro degraus: Leitura, Meditação, Oração e Contemplação. Na des­crição destes quatro degraus, Guigo sintetizou a tradição que vinha de longe e a trans­formou em instrumento didático de leitura para servir de instrução aos jovens que se iniciavam na vida monástica.

No século XIII, os Mendicantes criaram um novo tipo de Vida Religiosa, mais inserida no meio dos “menores”(pobres). Eles fizeram da Lectio Divina a fonte inspiradora do seu movimento reno­vador. A vida e os escritos dos primeiros Franciscanos, Dominicanos, Servitas e Carmelitas não deixam dúvida sobre este ponto. Na Regra de Santo Alberto transparece como os primeiros Car­melitas, fiéis a esta longa tradição, procuravam alimentar sua vida com a leitura e a meditação da Palavra de Deus.

A maneira como a Leitura Orante da Bíblia aparece na Regra

 As nove vezes que a Regra recomenda explicitamente a leitura da Bíblia

  • Nº 7 : Ouvir a Sagrada Escritura durante as refeições.
  • Nº 10: Meditar dia e noite a Lei do Senhor.
  • Nº 11: Rezar os Salmos (horas canónicas).
  • Nº 14: Participar diariamente da Eucaristia (toda feita de textos bíblicos).
  • Nº 19: Ter pensamento santo (que é fruto da Leitura Orante).
  • Nº 19: A Palavra deve habitar na boca e no coração.
  • Nº 19: Agir sempre de acordo com a Palavra de Deus.
  • Nº 20: Ler com frequência as cartas de Paulo.
  • Nº 22: Ter diante de si o exemplo de Jesus servidor como está nos evangelhos.

As duas portas que a Regra abre para a Palavra de Deus poder entrar na vida dos Carmelitas

A porta da leitura pessoal: meditação na cela (Rc 10), ruminação da Palavra que faz a Palavra descer da boca para o coração (Rc 19), produz pensamentos santos (Rc 19) e leva a agir em tudo conforme a Palavra de Deus (Rc 19).

A porta da leitura comunitária: ouvir juntos a Palavra no refeitório, durante as refei­ções (Rc 7), e na capela durante a celebração da Eucaristia (Rc 14). Não se sabe se naquele remoto início lá no Monte Carmelo o Ofício Divino era feito no mesmo espaço físico (Rc 11).

A pedagogia do método dos quatro degraus da Lectio Divina, que transparece na Regra

  • Lectio. Antes de mais nada, a Palavra deve ser ouvida ou lida: tanto em comum, no re­feitório (Rc 7), na Eucaristia (Rc 14), no Ofício Divino (Rc 11), como em particular, na cela (Rc 10). A Regra pede para ler muito as cartas de Paulo (Rc 20).
  • Meditatio. Em seguida, a Palavra lida e ouvida deve ser meditada e ruminada. Esta meditação deve ser feita dia e noite, sem cessar, sobretudo na cela (Rc 10). Por meio desta ruminação, a Palavra desce da boca para o coração (Rc 19) e produz pensamentos santos (Rc 19).
  • Oratio. A Palavra, uma vez ouvida e meditada, deve ser envolvida pela oração, deve tornar-se oração: tanto no Ofício Divino (Rc 11) e na Eucaristia (Rc 14), como na cela, onde o Carmelita deve vigiar em orações, dia e noite (Rc 10).
  • Contemplatio. Esta leitura produz o seguinte resultado: a Palavra de Deus invade o pen­samento (Rc 19), o coração (Rc 19) e a ação e, assim, tudo é feito na Palavra do Senhor (Rc 19).

A Regra recomenda uma leitura fiel à Tradição

A Lectio Divina marcava a vida dos primeiros Carmelitas, não como um exercício ascético de leitura, mas sim como uma atitude de vida pela qual se situavam dentro do grande rio da Tradição. A Regra se apresenta como uma norma de vida que prolonga a Bíblia (Rc 1) e tenta sistematizar o ensina­mento dos Santos Padres (Rc 2). Ela pede para que a leitura seja feita de acordo com as instruções dos Santos Padres e os costumes aprovados pela Igreja (Rc 11), pela tradição litúrgica (Rc 11) e pela prática secular da Lectio Divina.

Além disso, os primeiros Carmelitas procuravam assumir na sua vida o ideal da renovação da Igreja da época. O quadro de referências que está por baixo da parte central da Regra (Rc 10 a 15) reproduz e atualiza o mode­lo da comunidade dos Atos dos Apóstolos.

A Regra, ela mesma, é fonte e fruto da Leitura Orante da Bíblia

A Regra do Carmo não só recomenda a leitura da Bíblia, mas ela mesma também a pratica. A Regra é, ao mesmo tempo, fonte e fruto da Lectio Divina. É o que nos mostra a maneira como ela usa e lê a Bíblia:

  • Familiaridade, liberdade, fidelidade. O “Autor” da Regra conhecia a Bíblia de memória e a assimilou em sua vida a ponto de já não distinguir entre as suas próprias palavras e as palavras da Bíblia. Ele exprime o seu próprio pensamento com frases tiradas da Bíblia. É difícil saber exatamente quantas vezes a Regra usa a Bíblia para descrever a Norma de Vida dos primeiros Carmelitas. Alguns acham que é mais de cem vezes! O autor usa a Bíblia sem citar, cita sem verificar, junta e separa as frases como e quando quer, muda e adapta conforme lhe parece útil, como se fosse a sua própria palavra. Esta maneira de usar a Bíblia é fruto de longa e assídua leitura, marcada pela familiaridade, pela liberdade e pela fidelidade.
  • Continuação atualizada do Novo Testamento. A Regra de Santo Alberto se apresenta como uma norma de vida em continuidade com a Bíblia, sobretudo com o Novo Testamento. É como se fosse uma nova carta paulina ao lado das outras cartas que Paulo escreveu para as comunidades. Como se fosse uma releitura da carta aos Hebreus.
  • As figuras bíblicas de Elias e Maria. Embora, no número 15, ela manifeste uma certa preferência pelas cartas do Apóstolo Paulo, a Regra do Carmo usa, cita e evoca, sem distinção, tanto o Antigo como o Novo Testa­men­to. É curioso: a recomendação explícita de ler as cartas de Paulo não chegou a marcar a espiri­tuali­dade da Família Carmelitana. A sua espiritualidade continuou centrada em torno das figuras de Elias e Maria, ambas da Bíblia, unindo o Antigo e o Novo Testamento, o masculino e o feminino.
  • A Comunidade viva como quadro de referências. O quadro de referências dentro do qual a Regra lê a Bíblia é o desejo de imitar a comunidade ideal dos primeiros cristãos, que transparece ao longo dos números 10 a 15. Era este também o quadro de referências que, na­quele início do século XIII, animava a renovação da Igreja.
  • Viver em obséquio de Jesus Cristo. O objetivo, a partir do qual e em função do qual a Regra usa e lê a Bíblia é a preocupa­ção de viver em obséquio de Jesus Cristo, expressa no Prólogo. Esta preocupação percorre a Regra de ponta a ponta.

A maneira como Jesus lia e interpretava a Bíblia

A nova luz nos olhos que liberta o sentido pleno das palavras

Numa roda de amigos alguém mostrou uma fotografia, onde se via um homem de rosto severo, com o dedo levantado, quase agredindo o público. Todos ficaram com a ideia de se tratar de uma pessoa inflexível, antipática, que não permitia intimidade. Nesse momento, chegou um rapaz, viu a fotografia e exclamou: "É meu pai!" Os outros olharam para ele e, apontando a fotografia, comentaram: "Pai severo, hein!" Ele respondeu: "Não! Não é não! Ele é muito carinhoso. Meu pai é advogado. Aquela fotografia foi tirada no tribunal, na hora em que ele denunciava o crime de um latifundiário que queria despejar uma família pobre que estava morando num terreno baldio da prefeitura há vários anos! Meu pai ganhou a causa. Os pobres não foram despejados!” Todos olharam de novo e disseram: "Que fotografia simpática!” Como por um milagre, ela se iluminou e tomou um outro aspecto. Aquele rosto tão severo adquiriu os traços de uma grande ternura! As palavras do filho, mudaram tudo, sem mudar nada!

As palavras e gestos de Jesus, nascidas da sua experiência de filho, sem mudar uma letra ou vírgula sequer, mudaram todo o sentido do Antigo Testamento (Mt 5,17-18). O mesmo Deus, que parecia tão distante e severo, adquiriu os traços de um Pai bondoso de grande ternura! Jesus comunica este Espírito aos que nele crêem e, assim, os ajuda a captar o sentido pleno das suas palavras (Jo 14,25-26; 16,12-15).

Um exemplo concreto de como Jesus interpreta a Bíblia

Para orientar as Comunidades dos anos 80 na interpretação da Bíblia, Lucas apresenta Jesus que abre o sentido pleno da Escritura para os discípulos desanimados na estrada de Emaús (Lc 24,13-35). Nele ele descreve quais são os vários passos do processo da interpretação:

1º Passo: partir da realidade  (Lc 24,13-24): Jesus encontra os dois amigos numa situação de medo e dispersão, de descrença e desespero. Eles estavam fugindo. As forças de morte, a cruz, tinham matado neles a esperança. Jesus se aproxima e caminha com eles, escuta a conversa e pergunta: "De que estão falando?" A ideologia dominante impedia-os de enxergar e de ter consciência crítica. "Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas..." (Lc 24,21).

O primeiro passo é este: aproximar-se das pessoas, escutar a realidade, os problemas; ser capaz de fazer perguntas que ajudem a olhar a realidade com um olhar mais crítico.

2º Passo: usar o texto da Bíblia  (Lc 24,25-27): Jesus usa a Bíblia não para dar uma aula sobre a Bíblia, mas para iluminar o problema que fazia sofrer os dois amigos; para esclarecer a situação que eles estavam vivendo; para situá-los dentro do projeto de Deus, e mostrar que a história não tinha escapado da mão de Deus.

O segundo passo é este: com a ajuda da Bíblia, transformar a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Aquilo que impede de enxergar, torna-se luz e força na caminhada. Condição para se poder fazer este segundo passo é ter familiaridade com a Bíblia, o que vai exigir leitura diária.

3º Passo: celebrar e partilhar na comunidade  (Lc 24,28-32): A Bíblia, ela por si, não abre os olhos. Mas faz arder o coração! (Lc 24,32). O que abre os olhos e faz os dois amigos perceberem a presença de Jesus, é o partir do pão, o gesto comuni­tário da partilha, a celebração. No momento em que é reconhecido, Jesus desaparece. Pois eles mesmos experimentam, dentro de si, a ressurreição, renascem e caminham por si.

O terceiro passo é este: saber criar um ambiente orante de fé e de fraternidade, onde possa atuar o Espírito que nos faz entender o sentido das coisas que Jesus falou. É sobretudo neste ponto da celebração, que a prática dos pobres nos ajudou a reencontrar o antigo poço da Tradição para beber da sua água.

O objetivo: ressuscitar e voltar para Jerusalém (Lc 24,33-35): Tudo mudou. Eles mesmos ressuscitam! Os dois criam coragem e voltam para Jerusalém, onde continuavam ativas as forças de morte que mataram Jesus, mas onde também se manifestam as forças de vida na partilha da experiência de ressurreição. Coragem, em vez de medo. Retorno, em vez de fuga. Fé, em vez de descrença. Esperança, em vez de desespero. Consciência crítica, em vez de fatalismo frente ao poder. Liberdade, em vez de opressão. Numa palavra: vida, em vez de morte! Em vez da má noticia da morte de Jesus, a Boa Notícia da sua Ressurreição!

O objetivo da leitura orante da Bíblia é este: experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito, presente no meio de nós. É ele que abre os olhos sobre a Bíblia e sobre a Realidade e leva a partilhar a experiência de Ressurreição, como até hoje acontece nos nossos encontros comunitários.

Carlos Mesters, O. Carm.

 
Da luta diária e das armas espirituais (2) (nnº 18-19) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da luta diária e das armas espirituais (2) (nn.º 18-19) -

18. Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perse­guição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, esprei­tando a quem devorar, procurem, com toda a diligência, revestir-se da arma­dura de Deus, para que possam resistir às embosca­das do inimigo.

19. Os rins devem ser cingidos com o cíngulo da castidade, o peito protegido por pensamentos santos, pois está escrito: O pensamento santo te guardará. A couraça da justiça deve ser usada como veste, a fim de que vocês amem o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e o próximo como a si mesmos. Sempre e em tudo deve ser empunhado o escudo da fé, com o qual possam apagar todas as flechas incendiárias do maligno, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. O capacete da salvação deve ser colocado sobre a cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salvador, pois é ele que libertará o seu povo dos pecados.

E que a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente em sua boca e em seus corações, e tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor.

Um pouco de história: sobre a situação difícil dos carmelitas no Monte Carmelo

Para entender todo o alcance deste capítulo sobre a luta e as armas, convém lembrar o contexto de luta do tempo das Cruzadas, séculos XII-XIII. Alberto e os primeiros carmelitas lá no Monte Carmelo viviam sob a ameaça constante de assalto e de perseguição por parte dos muçulmanos que tentavam reconquistar a Terra Santa. Naquele contexto de perigo e de luta, de ameaça e de violência, o texto sobre a luta espiritual tinha uma atualidade muito grande para eles.

De fato, a história informa que em 1292 os muçulmanos avançaram sobre o Monte Carmelo, invadiram o convento e o destruíram. Até hoje, as ruínas estão aí! A tradição acrescenta que isto aconteceu durante a recitação do completório, ao pôr do sol. Quando os soldados entraram na capela, os frades estavam cantando o Salve Regina. Começou o massacre! Um por um, os carmelitas foram degolados. Enquanto isso, os vivos continuavam o canto. Quando chegaram ao último frade, este terminava de cantar: Ó Clemens, Ó Pia, Ó Dulcis Virgo Maria! E foi massacrado! Assim terminou a história do primeiro mosteiro dos carmelitas no Monte Carmelo.

Há um outro aspecto que  ajuda a entender o alcance dos números 18 e 19 da Regra na vida dos primeiros carmelitas. Eles eram gente de luta, pessoas decididas e corajosas, pois eles tinham deixado a sua própria terra para vir em romaria à Terra Santa. Tinham abandonado tudo, terra, casa, família, futuro, para viver em obséquio não mais do senhor do feudo, mas sim de Jesus Cristo.

O combate espiritual: todas as armas da luta e a vitória prometida

Nos números 18 e 19 da Regra, há duas descrições paralelas:

  1. Uma primeira enumera as partes do corpo a serem protegidas pelas armas, a saber: rins, peito, cabeça, mãos e corpo. Esta enumeração lembra e evoca a fragilidade do nosso ser. Estamos expostos aos ataques de leões, assaltos, flechas incendiárias, calor do deserto.
  2. A outra descrição enumera as armas a serem usadas na luta: cinto, colete, couraça, escudo, capacete, espada. Esta enumeração lembra e evoca a ação de Deus que protege as partes frágeis do nosso ser. É só mesmo revestidos com a força de Deus, que poderemos vencer na luta.

A enumeração das armas que defendem as partes frágeis do nosso ser:

O cinto de castidade nos rins (Ef 6,14). Os rins sugerem os sentimentos mais profundos. Proteger os rins é para a pessoa não virar joguete de tendências e estímulos contraditórios. O cinto de castidade visa o controle dos senti­mentos.

O colete dos pensamentos santos para o peito (Prov 2,11). O peito indica o centro dos anseios e do pensamento. O colete do pensamento santo sugere a aquisição de uma consciência crítica frente à ideologia dominante. Não seguir qualquer vento que sopra.

A couraça da justiça para o corpo (Mt 22,37; Dt 6,5). A Regra usa a palavra justiça como sinónimo de amor a Deus e ao próximo. É a justiça do Reino de que fala Jesus: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça!" O amor a Deus deve ser total: de todo coração, de toda alma, com todas as forças.

O escudo de fé contra as flechas de fogo (Ef 6,6). O capítulo 11 da carta aos Hebreus dá uma ideia do que vem a ser o escudo protetor da fé. Ele descreve como, no passado, desde os tempos de Abraão e Sara, a fé foi a grande força que animou e guiou o povo, e o defendeu nas lutas. Pois, sem a fé é impossível agradar a Deus.

O capacete da salvação na cabeça (Ef 6,15). A Regra associa a esperança com a salvação (libertação). Ter o capacete de salvação na cabeça significa ter na cabeça a esperança de que só Jesus, como único salvador, pode trazer a libertação. Permitir que Cristo, em nós, nos liberte de nós mesmos e do pecado.

 A espada da Palavra na boca e no coração (Col 3,17). A espada é a única arma de ataque. As outras eram de defesa. A "espada do Espírito" é a Palavra de Deus que deve "habitar", isto é, morar, na boca e no coração. Morar significa sentir-se em casa. Familiaridade, liberdade e fidelidade, frente à Palavra de Deus!

A ação sustentada por estas armas. Todas estas armas de luta levam a uma verdadeira ascese a ser realizada em todos os setores da vida: pensamento, sentimento, para que Deus possa tomar conta através da fé, da esperança e do amor. E tudo que a pessoa fizer deve ser feito "na Palavra de Deus".

Resumindo. Conforme o que a Regra afirma nos números 18 e 19, a vitória prometida aos que entram com coragem nesta luta é a seguinte:

  • Resistência contra as manobras do adversário.
  • Ser conservado no pensamento santo e no temor de Deus.
  • Amar a Deus totalmente e radicalmente.
  • Amar o próximo como a si mesmo.
  • Apagar as flechas incendiárias do maligno.
  • Agradar a Deus pela fé.
  • Esperar de Cristo a salvação, a libertação.
  • Libertação pessoal dentro da libertação do povo.
  • Ser morada da Palavra de Deus na boca e no coração.
  • Fazer tudo à luz da Palavra de Deus.

Espiritualidade no conflito

Por "espiritualidade no conflito" entendemos a capacidade de transformar o próprio conflito, a cri­se, as tensões, a escuridão, a luta, em fonte de fé, esperança e amor. Seguem aqui algumas suges­tões, tiradas do projeto "Tua Palavra é Vida", que podem ajudar a criar em nós esta capacidade:

Saber harmonizar as duas lutas: a social e a pessoal. A grande luta em defesa da vida não existe solta no ar, mas sim encarnada nos muitos conflitos que vivemos no nosso dia-a-dia. O importante é viver o grande à luz do pequeno, e o pequeno à luz do grande. O perigo é separar os dois. Aí nos aliena­mos. O micro-mundo da pessoa tem a mesma estrutura do macro-mundo da sociedade. Nos dois existe opressor e oprimido. Um conflito pessoal bem vivido nunca é só pessoal. A vida pessoal deve ser uma amostra daquilo que a pessoa quer realizar para os outros.

Saber caminhar e lutar em comunidade. Ninguém aguenta o conflito sozinho! Os outros nos venceriam pelo cansaço. A solidão mata. As comunidades de base nos dão uma lição. Não deixam uma pessoa expor-se sozinha. A profecia é mais comunitária do que pessoal. A nucleação das pessoas em grupos e comunidades é um meio eficiente para neu­tralizar o processo de massificação ou atomização que está em andamento através dos meios de comunicação e que deixa as pessoas isoladas, sem consciência crítica.

Aprofundar as motivações para além da consciência crítica. Não basta ter consciência crítica para poder enfrentar o conflito. É necessário ter instrumentos concretos que a tornem operacional, nem que seja de maneira imperfeita. Do contrário, jogamos as pessoas no desespero. Pois o sistema em que vivemos está tão aperfeiçoado que já não tem medo da consciência crítica. Permite todas as informações possíveis.

Saber manter a firmeza sem perder a ternura. Sem firmeza não é possível conduzir a luta até ao fim. Firmeza, porém, não é sinónimo de dureza. Muitas ve­zes, a dureza é apenas um disfarce para esconder a falta de firmeza. A força bruta é a arma dos fracos e desespe­rados. Vence, mas não convence. Dentro da firmeza deve existir a ternura. A firmeza que nasce da força do amor e da gratuidade do bem-querer é maior e mais ampla do que a divergência que separa e divide.

Saber ter racionalidade e esperteza suficientes. Não ser ingénuo, mas saber des­mascarar os enganos da ideologia dominante. Sem uma racionalidade é impossível enfrentar os conflitos. A racionalidade nos permite tomar uma certa distância para perceber a situação com ob­jetividade. É importante que esta racionalidade ou consciência crítica seja partilhada em comunidade e acompanhada de uma prática, mesmo pequena. Do contrário, nos joga no desespero.

Saber situar o conflito atual no conjunto da caminhada. Muitas vezes, perdemos de vista o conjunto da caminhada e tomamos decisões imediatistas. Uma coisa é vencer a batalha, outra é vencer a guerra. Por falta de visão de conjunto, muita gente já se acomodou após ter alcançado a vitória numa batalha. Entrando no deserto, o povo hebreu desanimou e ficou com saudades da comida do Egito. O imediatismo já fez muitos estragos.

Saber relativizar sem perder a convicção. Ninguém é dono da luta, nem está no volante da história. O dogmatismo e a intole­rância, seja política, eclesiástica ou ideológica, impedem o diálogo, destroem a liberdade no outro, cegam a pessoa e impedem a descoberta da verdade que existe no outro.

Saber que esta nossa luta é a luta de Deus. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Esta certeza dá à pessoa um sentimento de vitória mesmo que ela fracasse e seja crucificada! É necessário aprofundar esta dimen­são mística da luta. Só ela é capaz de oferecer uma motivação suficientemente forte para atravessar os quarenta anos de deserto e chegar na terra prometida.

Saber que o amor de Deus é maior que a nossa fraqueza. É importante saber-se amado por um amor maior que a própria fraqueza. O amor de Deus nos faz sentir, a cada momento, que o retorno sempre é possível e que nunca podemos estar numa situação em que já não seja mais possível participar da luta com os outros. A Bí­blia lembra o caso de Pedro que conseguiu acreditar no amor, chorou, se arrependeu e recomeçou. Judas não conseguiu crer no amor e se perdeu. Perdeu o sentido da vida e da própria luta. Paulo diz: “Ele me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20). “Ele nos amou primeiro”(1 Jo 4,19).

Ter alguns critérios básicos. Há valores de que não podemos abrir mão e que nos orientam nas decisões:

  • A defesa da vida humana, criada por Deus. É o valor supremo.
  • A opção pelos pobres e excluídos. Esta opção marcou a vida e a atividade de Jesus.
  • Não querer se apossar da luta. Não somos donos da história, mas apenas servidores.
  • A defesa da Aliança e dos direitos dos pobres. Marcou a atividade de todos os profetas.
  • Não permitir que a imagem de Deus seja manipulada. Não transformar o Deus libertador num ídolo.

 Carlos Mesters, O. Carm.

 
Da luta diária e das armas espirituais (1) (nnº 18-19) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da luta diária e das armas espirituais (1) (nn.º 18-19) -

18. Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perseguição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, espreitando a quem devorar, procurem, com toda a diligência, revestir-se da armadura de Deus, para que possam resistir às embosca­das do inimigo.

19. Os rins devem ser cingidos com o cíngulo da castidade, o peito protegido por pensamentos santos, pois está escrito: O pensamento santo te guardará. A couraça da justiça deve ser usada como veste, a fim de que vocês amem o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e o próximo como a si mesmos. Sempre e em tudo deve ser empunhado o escudo da fé, com o qual possam apagar todas as flechas incendiárias do maligno, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. O capacete da salvação deve ser colocado sobre a cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salvador, pois é ele que libertará o seu povo dos pecados. E que a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente em sua boca e em seus corações, e tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor.

Um pouco de história: a Tradição dos Santos Padres na Regra do Carmo

Se os números 10 a 15 são considerados o coração da Regra, então os números 18 a 21 devem ser vistos como o sangue da Regra. Eles tratam de três assuntos muito importantes e atuais: 1) A luta e as armas espirituas (Rc 18 e 19), 2) o trabalho e o sustento (Rc 20), 3) o silêncio e o esvaziamento para Deus (Rc 21). Estes três assuntos ocupam praticamente uma terça parte da Regra.

É sobretudo nestes números de 18 a 21 que está condensada e concentrada a riqueza da tradição eremítica e monacal. Neles temos a confluência de dois rios: o rio antigo da tradição e o rio novo da vida religiosa mendicante. Ou melhor, nestes números, a água da mais pura tradição eremítica passa a correr dentro do novo leito da Vida Religiosa Mendicante, e, assim, é colocada a serviço da Igreja que se renovava buscando servir aos "menores" (pobres).

Nestes números 18 e 19 há dois aspectos da tradição que merecem uma atenção maior: o uso da Bíblia e a retomada de um elemento importante das origens do monaquismo:

O uso da Bíblia

Os números 18 a 21 são uma colcha de retalhos de textos bíblicos, do começo ao fim. Sobre o uso da Bíblia na Regra do Carmo já refletimos no Subsídio do 6º Círculo, e ainda iremos refletir mais detalhadamente no Subsídio do 14º Círculo.

Importante é notar que os números 18 e 19, emprestando a frase de Paulo aos Efésios, colocam toda a vida carmelitana em termos de luta e de combate sem trégua. Isto nos leva ao segundo aspecto da Tradição.

A retomada das origens do monaquismo

Conforme a tradição antiga, a vida religiosa nasceu do desejo de lutar contra o poder do mal, contra as forças da morte, contra satanás.  No seu livro sobre a vida de Santo Antão, o pri­meiro monge, Santo Atanásio (século IV) diz que o motivo que levou Antão a abandonar tudo e fazer-se monge foi o desejo de lutar contra o diabo.

Ele conta que Antão abandonou a cidade, onde, conforme se pensava, o evangelho já tinha penetrado, e foi para o de­serto, onde, como se dizia, o domínio do poder do mal, do demónio, ainda perdurava. E lá no deserto, ele foi morar num antigo sepulcro, o lugar da morte. Pois era na morte que o diabo manifestava todo o seu poder. É lá que Antão decide enfrentá-lo e vencê-lo, apoiado na graça que lhe vem da sua inserção no processo da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Esta tradição antiga da luta contra o poder do mal, vinda desde a mais remota origem da vida religiosa, desemboca aqui na Regra do Carmo, onde se fala da luta a ser travada contra o satanás (Rc 18), contra o poder do mal. Revestido com a armadura de Deus, o carmelita, a carmelita, poderá vencê-lo.

A dimensão da luta que nos é proposta

Nos números 18 e 19, articulam-se três partes:

  1. A condição humana como tentação, perseguição e assalto, que exige luta da nossa parte (Rc 18).
  2. A primeira fase da luta, que visa o controle do sentimento e do pensamento (Rc 19).
  3. A fase decisiva da luta, em que as armas nos são dadas por Deus: fé, esperança e amor (Rc 19).

Para descrever a situação de tentação, de perseguição e de assalto, a Regra usa frases tira­das da Bíblia ou nela inspiradas:

  • A vida humana sobre a terra como tentação, luta ou provação: vem do livro de Job na tradução latina da vulgata (Job 7,1).
  • Todos os que querem viver piedosamente em Cristo sofrem perseguição: vem da segunda carta de Paulo a Timóteo (2Tm 3,12).
  • O diabo como um leão que nos rodeia querendo assaltar: vem da primeira carta de Pedro (1Pd 5,8).

Tentação, perseguição, assalto! É um crescendo. A tentação se transforma em perseguição, e a perseguição em assalto! Na medida em que se leva a sério o compromisso com o evangelho, as dificul­dades aparecem e crescem, tanto as de fora, como as de dentro.

Em seguida, a Regra traz a recomendação para o carmelita revestir-se com a armadura de Deus. Ela diz: Por isso, com todo cuidado procurem revestir-se da armadura de Deus, para que possam resistir às emboscadas do inimigo.  Esta frase é uma citação abreviada de um trecho da carta de São Paulo aos Efésios, onde Paulo coloca a luta em termos bem mais amplos. O texto de Paulo ajuda a entender melhor todo o alcance daquilo que a Regra entende por tentação, perseguição e assalto do diabo. Paulo diz: Vocês devem vestir a armadura de Deus para poderem resistir às manobras do diabo. A nossa luta, de fato, não é contra homens de carne e osso, mas contra os Principados e as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do mal, que habitam as regiões celestes (Ef 6,11-12).

Nesta frase, Paulo alude à situação concreta do mundo e do sistema, em que ele, Paulo, e as comuni­dades da época estavam vivendo. Era o mundo do império romano com seus ídolos, a sua ideologia, que dominavam todos os aspectos da vida humana (cf. Ap 13,15-17). Não se trata, portanto, de uma luta só individual em vista da santificação pessoal. A santificação pessoal, a luta interior pessoal, é uma parte da luta mais ampla contra as forças malignas que atentam contra a vida humana; forças que perseguem e assaltam, dividem e matam. Paulo não espiritualiza a luta, mas procura situá-la no concreto da história. A dimensão da luta que nos é proposta na Regra é a mais ampla possível. 

Vivendo aqui na América Latina, devemos reler tudo isto à luz do que acontece hoje neste nosso Continente. A Regra une luta pessoal e luta coletiva, luta interior e luta exterior. A santificação pessoal não pode ser separada da vida do povo e da Igreja. No passado, tudo isto foi muito espiritualizado, reduzido ao tamanho do esforço individual de santificação, sem levar em conta o sistema iníquo que nos envolve e condiciona. Entrando em contato com a realidade concreta do povo pobre de hoje, reencontramos o ângulo a partir do qual foi escrita a Regra. Reencontramos o chão para poder reler a Regra e entendê-la do jeito que foi entendida e rascunhada pelos primeiros carmelitas, formulada e escrita por Alberto, atualizada e aprovada por Inocêncio IV.

É importante saber harmonizar as duas lutas: interior e exterior, pessoal e social. Às vezes, as pessoas se desintegram, porque não dão atenção suficiente ao que se passa ao seu redor. Outras vezes, porque não dão atenção suficiente ao que se passa dentro delas mesmas. Não chegam a uma entrega madura, porque não se possuem a si mesmos. A primeira luta a ser enfrentada é aceitar-se a si mesmo com todas as limitações, por mais dolorosas que sejam. Do contrário, a pessoa pode fracassar na luta e ser causa do fracasso de muitos outros. A história tem exemplos disso (cf 2Sm 11,2-24). Um conflito pessoal bem vivido nunca é só pessoal. O profeta Elias viveu um conflito pessoal muito grande (1Rs 19,1-11). Viveu na própria pele o conflito do seu povo. Quando encontrou a solução para si, encontrou-a também para o povo. A vida pessoal deve ser uma amostra daquilo que a pessoa quer realizar para os outros.

A condição humana e as armas da luta 

Conforme a Regra, são três as características da condição humana que motivam a luta:

  • A vida na terra é uma tentação; 
  • A vida em Cristo traz perseguição;
  • Cêrco e assalto a partir do diabo que é como um leão que devora.

Tentação - A vida humana, pelo fato de ser vida, é ameaçada de morte. Por dentro e por fora, a vida é tentada a entrar por caminhos que levam à "não-vida", a se des-humanizar. Pelo fato de você termos vida sofremos a tentação da não-vida. São muitos e variados os atenta­dos contra a dignidade da vida. A morte nos espreita de muitas maneiras, sobretudo hoje, aqui na América Latina. Jesus também foi tentado, mas ele lutou, usando a Palavra de Deus, a fim de não cair na tentação (Mt 4,1-11). Ele venceu e nos diz: "Coragem! Eu venci o mundo!" (Jo 16,33)

Perseguição - Quem assume viver conforme Jesus viveu, não só será tentado, mas, como Jesus, também será perseguido (2 Tim 3,12). A perseguição é uma consequência normal da vivên­cia do Evangelho, pois as trevas se defendem contra a luz (Jo 3,19-21). Uma pessoa honesta, pelo simples fato de ser honesta, incomoda o desonesto e será por ele perseguida (Sab 2,12-14). Jesus também foi perseguido, e ele predisse o mesmo destino para os seus discípulos (Jo 15,18-21; 16,2-4).

Assalto - A Regra vê os fatos com os olhos da época. Tudo que é mal ou maldade, as más inclinações e as tentações, tudo é visto como ataque ou assalto do adversário que é o diabo. A palavra diabo vem do grego dia-ballo. Significa dividir. São as forças que causam divisão e, assim, desarticulam a ação que se faz em defesa do bem e da vida. Este adversário usa de "manobras", usa "flechas incendiárias" e é "nequíssimo". Não se pode confiar nele. O demônio perseguiu o próprio Jesus de muitas maneiras. (Lc 4,1-13; 22,3.53; Jo 13,2-27).

As armas da primeira fase da luta são duas: cinto e colete. Elas dizem respeito à purificação dos sentimentos e dos pensamentos. Na espiritualidade carmelitana, se fala da Noite Escura dos sentidos, pela qual deve­mos passar para poder chegar à intimidade com Deus e, assim, contribuir para a construção do Reino:

Cinto de castidade nos rins (Ef 6,14) - Visa a purificação e o controle dos sentimentos mais profundos e mais íntimos (rins). É para não virar joguete de estímulos e tendências contraditórias que surgem dentro de nós. Ajuda a adquirir um auto-domínio e um equilíbrio interior.

Colete do pensamento santo para o peito (Prov 2,11) - Na época de Alberto, se dizia que o pensamento santo nasce da leitura do Livro Santo, isto é, da Sagrada Escritura. O colete do pensamento santo a ser usado para fortalecer o peito é a leitura orante diária da Bíblia. O peito indica o centro dos anseios e dos pensamentos. O pensamento santo te conservará. Visa o controle da mente e do pensamento no sentido de ajudar a adquirir uma visão crítica do que acontece no mundo e de não seguir qualquer vento.

Tudo isto suscita sérias perguntas. Como se concretiza para nós, aqui no Brasil, no século XXI, a tentação, a perseguição e o assalto que devora? Como nós carmelitas participamos da luta do povo que enfrenta, diariamente, a tentação, a perseguição e o assalto? Será que não vivemos demasiadamente afastados da realidade do dia-a-dia do povo? Será que não nos fechamos dentro de uma luta espiritualista e intimista? Será que não valeria a pena olhar mais de perto o testemunho do grupo fundador da nossa família carmelitana? Aquilo que eles fizeram no seu tempo, é fonte de inspiração para nós hoje! Não foi sem motivo que Alberto usou as palavras tentação, perseguição e assalto para caracterizar a condição humana.

Carlos Mesters, O. Carm.

 
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