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Da luta diária e das armas espirituais (2) (nnº 18-19) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da luta diária e das armas espirituais (2) (nn.º 18-19) -

18. Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perse­guição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, esprei­tando a quem devorar, procurem, com toda a diligência, revestir-se da arma­dura de Deus, para que possam resistir às embosca­das do inimigo.

19. Os rins devem ser cingidos com o cíngulo da castidade, o peito protegido por pensamentos santos, pois está escrito: O pensamento santo te guardará. A couraça da justiça deve ser usada como veste, a fim de que vocês amem o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e o próximo como a si mesmos. Sempre e em tudo deve ser empunhado o escudo da fé, com o qual possam apagar todas as flechas incendiárias do maligno, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. O capacete da salvação deve ser colocado sobre a cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salvador, pois é ele que libertará o seu povo dos pecados.

E que a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente em sua boca e em seus corações, e tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor.

Um pouco de história: sobre a situação difícil dos carmelitas no Monte Carmelo

Para entender todo o alcance deste capítulo sobre a luta e as armas, convém lembrar o contexto de luta do tempo das Cruzadas, séculos XII-XIII. Alberto e os primeiros carmelitas lá no Monte Carmelo viviam sob a ameaça constante de assalto e de perseguição por parte dos muçulmanos que tentavam reconquistar a Terra Santa. Naquele contexto de perigo e de luta, de ameaça e de violência, o texto sobre a luta espiritual tinha uma atualidade muito grande para eles.

De fato, a história informa que em 1292 os muçulmanos avançaram sobre o Monte Carmelo, invadiram o convento e o destruíram. Até hoje, as ruínas estão aí! A tradição acrescenta que isto aconteceu durante a recitação do completório, ao pôr do sol. Quando os soldados entraram na capela, os frades estavam cantando o Salve Regina. Começou o massacre! Um por um, os carmelitas foram degolados. Enquanto isso, os vivos continuavam o canto. Quando chegaram ao último frade, este terminava de cantar: Ó Clemens, Ó Pia, Ó Dulcis Virgo Maria! E foi massacrado! Assim terminou a história do primeiro mosteiro dos carmelitas no Monte Carmelo.

Há um outro aspecto que  ajuda a entender o alcance dos números 18 e 19 da Regra na vida dos primeiros carmelitas. Eles eram gente de luta, pessoas decididas e corajosas, pois eles tinham deixado a sua própria terra para vir em romaria à Terra Santa. Tinham abandonado tudo, terra, casa, família, futuro, para viver em obséquio não mais do senhor do feudo, mas sim de Jesus Cristo.

O combate espiritual: todas as armas da luta e a vitória prometida

Nos números 18 e 19 da Regra, há duas descrições paralelas:

  1. Uma primeira enumera as partes do corpo a serem protegidas pelas armas, a saber: rins, peito, cabeça, mãos e corpo. Esta enumeração lembra e evoca a fragilidade do nosso ser. Estamos expostos aos ataques de leões, assaltos, flechas incendiárias, calor do deserto.
  2. A outra descrição enumera as armas a serem usadas na luta: cinto, colete, couraça, escudo, capacete, espada. Esta enumeração lembra e evoca a ação de Deus que protege as partes frágeis do nosso ser. É só mesmo revestidos com a força de Deus, que poderemos vencer na luta.

A enumeração das armas que defendem as partes frágeis do nosso ser:

O cinto de castidade nos rins (Ef 6,14). Os rins sugerem os sentimentos mais profundos. Proteger os rins é para a pessoa não virar joguete de tendências e estímulos contraditórios. O cinto de castidade visa o controle dos senti­mentos.

O colete dos pensamentos santos para o peito (Prov 2,11). O peito indica o centro dos anseios e do pensamento. O colete do pensamento santo sugere a aquisição de uma consciência crítica frente à ideologia dominante. Não seguir qualquer vento que sopra.

A couraça da justiça para o corpo (Mt 22,37; Dt 6,5). A Regra usa a palavra justiça como sinónimo de amor a Deus e ao próximo. É a justiça do Reino de que fala Jesus: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça!" O amor a Deus deve ser total: de todo coração, de toda alma, com todas as forças.

O escudo de fé contra as flechas de fogo (Ef 6,6). O capítulo 11 da carta aos Hebreus dá uma ideia do que vem a ser o escudo protetor da fé. Ele descreve como, no passado, desde os tempos de Abraão e Sara, a fé foi a grande força que animou e guiou o povo, e o defendeu nas lutas. Pois, sem a fé é impossível agradar a Deus.

O capacete da salvação na cabeça (Ef 6,15). A Regra associa a esperança com a salvação (libertação). Ter o capacete de salvação na cabeça significa ter na cabeça a esperança de que só Jesus, como único salvador, pode trazer a libertação. Permitir que Cristo, em nós, nos liberte de nós mesmos e do pecado.

 A espada da Palavra na boca e no coração (Col 3,17). A espada é a única arma de ataque. As outras eram de defesa. A "espada do Espírito" é a Palavra de Deus que deve "habitar", isto é, morar, na boca e no coração. Morar significa sentir-se em casa. Familiaridade, liberdade e fidelidade, frente à Palavra de Deus!

A ação sustentada por estas armas. Todas estas armas de luta levam a uma verdadeira ascese a ser realizada em todos os setores da vida: pensamento, sentimento, para que Deus possa tomar conta através da fé, da esperança e do amor. E tudo que a pessoa fizer deve ser feito "na Palavra de Deus".

Resumindo. Conforme o que a Regra afirma nos números 18 e 19, a vitória prometida aos que entram com coragem nesta luta é a seguinte:

  • Resistência contra as manobras do adversário.
  • Ser conservado no pensamento santo e no temor de Deus.
  • Amar a Deus totalmente e radicalmente.
  • Amar o próximo como a si mesmo.
  • Apagar as flechas incendiárias do maligno.
  • Agradar a Deus pela fé.
  • Esperar de Cristo a salvação, a libertação.
  • Libertação pessoal dentro da libertação do povo.
  • Ser morada da Palavra de Deus na boca e no coração.
  • Fazer tudo à luz da Palavra de Deus.

Espiritualidade no conflito

Por "espiritualidade no conflito" entendemos a capacidade de transformar o próprio conflito, a cri­se, as tensões, a escuridão, a luta, em fonte de fé, esperança e amor. Seguem aqui algumas suges­tões, tiradas do projeto "Tua Palavra é Vida", que podem ajudar a criar em nós esta capacidade:

Saber harmonizar as duas lutas: a social e a pessoal. A grande luta em defesa da vida não existe solta no ar, mas sim encarnada nos muitos conflitos que vivemos no nosso dia-a-dia. O importante é viver o grande à luz do pequeno, e o pequeno à luz do grande. O perigo é separar os dois. Aí nos aliena­mos. O micro-mundo da pessoa tem a mesma estrutura do macro-mundo da sociedade. Nos dois existe opressor e oprimido. Um conflito pessoal bem vivido nunca é só pessoal. A vida pessoal deve ser uma amostra daquilo que a pessoa quer realizar para os outros.

Saber caminhar e lutar em comunidade. Ninguém aguenta o conflito sozinho! Os outros nos venceriam pelo cansaço. A solidão mata. As comunidades de base nos dão uma lição. Não deixam uma pessoa expor-se sozinha. A profecia é mais comunitária do que pessoal. A nucleação das pessoas em grupos e comunidades é um meio eficiente para neu­tralizar o processo de massificação ou atomização que está em andamento através dos meios de comunicação e que deixa as pessoas isoladas, sem consciência crítica.

Aprofundar as motivações para além da consciência crítica. Não basta ter consciência crítica para poder enfrentar o conflito. É necessário ter instrumentos concretos que a tornem operacional, nem que seja de maneira imperfeita. Do contrário, jogamos as pessoas no desespero. Pois o sistema em que vivemos está tão aperfeiçoado que já não tem medo da consciência crítica. Permite todas as informações possíveis.

Saber manter a firmeza sem perder a ternura. Sem firmeza não é possível conduzir a luta até ao fim. Firmeza, porém, não é sinónimo de dureza. Muitas ve­zes, a dureza é apenas um disfarce para esconder a falta de firmeza. A força bruta é a arma dos fracos e desespe­rados. Vence, mas não convence. Dentro da firmeza deve existir a ternura. A firmeza que nasce da força do amor e da gratuidade do bem-querer é maior e mais ampla do que a divergência que separa e divide.

Saber ter racionalidade e esperteza suficientes. Não ser ingénuo, mas saber des­mascarar os enganos da ideologia dominante. Sem uma racionalidade é impossível enfrentar os conflitos. A racionalidade nos permite tomar uma certa distância para perceber a situação com ob­jetividade. É importante que esta racionalidade ou consciência crítica seja partilhada em comunidade e acompanhada de uma prática, mesmo pequena. Do contrário, nos joga no desespero.

Saber situar o conflito atual no conjunto da caminhada. Muitas vezes, perdemos de vista o conjunto da caminhada e tomamos decisões imediatistas. Uma coisa é vencer a batalha, outra é vencer a guerra. Por falta de visão de conjunto, muita gente já se acomodou após ter alcançado a vitória numa batalha. Entrando no deserto, o povo hebreu desanimou e ficou com saudades da comida do Egito. O imediatismo já fez muitos estragos.

Saber relativizar sem perder a convicção. Ninguém é dono da luta, nem está no volante da história. O dogmatismo e a intole­rância, seja política, eclesiástica ou ideológica, impedem o diálogo, destroem a liberdade no outro, cegam a pessoa e impedem a descoberta da verdade que existe no outro.

Saber que esta nossa luta é a luta de Deus. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Esta certeza dá à pessoa um sentimento de vitória mesmo que ela fracasse e seja crucificada! É necessário aprofundar esta dimen­são mística da luta. Só ela é capaz de oferecer uma motivação suficientemente forte para atravessar os quarenta anos de deserto e chegar na terra prometida.

Saber que o amor de Deus é maior que a nossa fraqueza. É importante saber-se amado por um amor maior que a própria fraqueza. O amor de Deus nos faz sentir, a cada momento, que o retorno sempre é possível e que nunca podemos estar numa situação em que já não seja mais possível participar da luta com os outros. A Bí­blia lembra o caso de Pedro que conseguiu acreditar no amor, chorou, se arrependeu e recomeçou. Judas não conseguiu crer no amor e se perdeu. Perdeu o sentido da vida e da própria luta. Paulo diz: “Ele me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20). “Ele nos amou primeiro”(1 Jo 4,19).

Ter alguns critérios básicos. Há valores de que não podemos abrir mão e que nos orientam nas decisões:

  • A defesa da vida humana, criada por Deus. É o valor supremo.
  • A opção pelos pobres e excluídos. Esta opção marcou a vida e a atividade de Jesus.
  • Não querer se apossar da luta. Não somos donos da história, mas apenas servidores.
  • A defesa da Aliança e dos direitos dos pobres. Marcou a atividade de todos os profetas.
  • Não permitir que a imagem de Deus seja manipulada. Não transformar o Deus libertador num ídolo.

 Carlos Mesters, O. Carm.

 

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