Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”
Dia 10: “Bem-aventurados sois, quando, por causa de mim, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa” (Mt 5,11-12)
Celebramos hoje a solenidade de Nossa Senhora do Carmo. Este ano, nesta novena e durante o tríduo, procurámos conhecer melhor Nossa Senhora do Carmo – a quem a Ordem Carmelita, desde as suas origens, venera como Imaculada na sua conceição e invoca como Virgem puríssima – a partir do seu Imaculado Coração, símbolo da admirável correspondência da humilde Mãe de Deus ao longo de toda a sua vida ao sublime dom da graça que lhe foi concedido, ou seja, ser imaculada na sua concepção.
Entrando na escola de Jesus e pondo-nos à escuta da sua palavra no Evangelho, vemos que os primeiros títulos que foram dados à Virgem Maria por um ser humano são os de Isabel, sua parente: “Bendita és tu entre todas as mulheres… Bem-aventurada aquela que acreditou” (Lc 1,40.45), tendo Maria confirmado logo a seguir a palavra de Isabel no seu cântico profético de ação de graças, o Magnificat, dizendo: “De hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações” (Lc 1,48). Sabendo que estas palavras foram pronunciadas por elas, mas na realidade, ditas pelo Espírito Santo, que nelas falou (cf. Mt 10,20; Mc 12,36), vemos nelas expressa a vontade de Deus, que quer que todas as gerações a proclamem bem-aventurada.
Para o fazer com verdade, é necessário que reconheçamos que, de facto, ela é bem-aventurada. Por isso, procuramos conhecer Maria a partir do seu Imaculado Coração à luz das bem-aventuranças, de modo a tomá-lo como refúgio e encontrar nele um caminho de santidade que nos conduza até Deus, tal como Nossa Senhora prometeu à Lúcia na Cova da Iria, a 13 de junho de 1917: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus” (Ir. Lúcia, Memórias 1, 175).
Assim, fomos contemplando o Coração Imaculado da Virgem Maria, percorrendo cada uma das bem-aventuranças. Hoje, solenidade de Nossa Senhora do Carmo, contemplamos o seu Imaculado Coração à luz da última bem-aventurança, a nona. Esta é o desdobramento da anterior e a síntese de todas as outras, que recapitula e coroa.
Diz o Senhor: “Bem-aventurados, sois, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós. Alegrai-vos e exultai porque é grande nos céus a vossa recompensa” (Mt 5,11-12).
O que a nona bem-aventurança, acrescentada às oito primeiras bem-aventuranças, tem de diferente é que nela Jesus passa da terceira pessoa do plural, “eles”, para a segunda pessoa do plural, “vós”. Jesus dirige-se diretamente aos seus discípulos, “vós”, indicando que todas as bem-aventuranças que proclamou lhes dizem particularmente respeito e que a sorte daqueles que são perseguidos por causa da justiça – e de quem é o Reino dos céus – também lhes tocará, de forma especial, apenas pela fé, pelo facto de terem acreditado nele e de o seguirem pelo caminho da verdadeira justiça, pelas sendas do Evangelho.
O tema das perseguições por causa da fé (e da justiça, no sentido do cumprimento da vontade de Deus) já estava presente no Antigo Testamento, aparecendo sobretudo na pessoa dos profetas, como o reafirmou o profeta Elias a Deus, no monte Sinai (1Rs 19,10.14). Mas este tipo de perseguições, que visava a morte do mensageiro de Deus, foi profetizado a todos os que se mantivessem fiéis a Deus e à sua Palavra, sobretudo no “tempo do fim”, ou seja, na era messiânica, que se caracterizaria não apenas pela efusão do Espírito Santo – o Espírito de adoção filial de que nos fala S. Paulo na segunda leitura de hoje (Gal 4,5-6) –, como também, pela perseguição dos justos e dos membros do povo de Deus que tinham sido ungidos pelo mesmo Espírito, sendo assim feitos profetas por Ele, como o tinha desejado Moisés (Nm 11,19) e anunciado Joel (Jl 3,1s).
Com esta bem-aventurança, Jesus declara, pois, que os tempos messiânicos, do cumprimento das promessas, já chegaram. Por isso, diz: “porque é grande nos céus a vossa recompensa”. Ou seja: Jesus afirma não só que “deles é o Reino dos céus” – indicando que o Reino dos céus já chegou! –, mas também que “é grande nos céus a vossa recompensa”, anunciando-lhes que já participam com Ele da bem-aventurança, da alegria e do júbilo de que Jesus goza no céu. E se isto acontece, é porque eles, participam do seu mesmo destino, sendo difamados, perseguidos e odiados por todos, mesmo pelos próprios familiares, por causa do Seu nome.
Num mundo construído e organizado a partir do egoísmo, do poder, da busca de vantagens pessoais, da luta de interesses por parte de fações e grupos influentes e organizados, aqueles que desejam viver coerentemente com o amor de Cristo, serão insultados, perseguidos, ridicularizados e difamados, podendo mesmo chegar a pagar com a própria vida o seu empenho pelo bem, a justiça e a paz, porque os opressores, dando-se conta de que a ação livre e desinteressada dos discípulos de Jesus ameaça a sua posição, desmascara as suas intenções e põe a descoberto as manobras, tudo farão para os silenciar, segregando-os, agredindo-os e eliminando-os.
Perante isto, Jesus convida os seus discípulos a alegrarem-se e a exultarem, indicando-lhe que os sofrimentos que irão ter e as perseguições que irão sofrer, não serão um castigo, uma derrota ou um desastre, mas o sinal do sucesso, sendo, por isso, motivo duma intensa alegria, a Sua própria alegria, porque atestam que eles fizeram a escolha certa, a que os põe do lado de Deus e os identifica com Jesus.
Os discípulos de Jesus são, desta forma, como os profetas que foram perseguidos, mas apesar disso continuaram a servir sempre a Deus da forma mais desinteressada, não estando à espera de vantagens ou de recompensas pessoais, mas apenas por amor a Ele e à Sua aliança, confiando sempre n’Ele e permanecendo junto do povo, sem nada mais querer, e em nada mais encontrando recompensa, do que a de fazer a vontade de Deus, promover a Sua glória e empenhar-se na salvação dos homens.
Foi o que Maria fez junto à cruz. Ela sofreu com o seu Filho a rejeição, a incompreensão, as dores, as humilhações e as perseguições. Mas no seu íntimo, no seu Imaculado Coração, nunca perdeu a fé, vacilou na esperança ou esmoreceu na caridade, mas, pelo contrário, como disse S. João da Cruz: “Põe amor onde não há amor e encontrarás amor” (Ep. 27).
Maria mostra que a última palavra não pertence ao sofrimento e à morte, mas à ressurreição e à vida; que o bem é mais forte do que o mal, a graça do que a injustiça, o perdão do que o pecado, o amor do que ódio.
Junto à cruz, o Coração Imaculado de Maria, apesar de provado – ou melhor, na medida e profundidade em que foi provado –, não se fechou, mas foi escavado, abriu-se, fortaleceu-se e alargou-se de tal forma que a alma de Maria, rasgada pela dor – que era a dor do Seu Filho –, pode abarcar em si toda a humanidade, sendo, por isso, feita Mãe da Igreja, Mãe de toda a humanidade, redimida pelo seu Filho e por Ele a ela confiada na pessoa do discípulo amado: “Mulher, eis o teu filho”. Discípulo amado, no qual também nos confiou a nós, carmelitas, a Ela, deixando-nos Ela em testamento, como Mãe, dizendo-nos, como ao discípulo amado: “Eis a tua Mãe”. Mãe, que nós recebemos como o mais precioso legado de Jesus Cristo a nós, para vivermos como filhos e filhas de Deus, animados pelo seu Espírito, continuando sobre esta terra o amor que Jesus nos teve e a Ela teve, cooperando na obra da salvação, segundo o mandamento novo do amor: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo 13,34).
Maria é, assim, a Mulher verdadeira, nova, querida por Deus, companheira do Homem novo na obra de salvação da humanidade. Maria é a nova Eva, junto do novo Adão, Jesus Cristo. “Eva” é a palavra hebraica para “vida”. Maria, sofrendo no seu puríssimo e Imaculado Coração as dores da gestação e do parto da nova humanidade, coopera doravante com a Igreja na geração e educação dos novos filhos e filhas de Deus, de quem se compadece, que acolhe e pelos quais intercede com amor de Mãe. Maria foi assim constituída Mãe dos vivos, de modo que se por Eva veio a morte, por Maria veio, para todo o género humano, a vida (LG 56).
Maria junto à cruz, com o seu Imaculado Coração traspassado de dor, demonstra-nos que vale a pena crer, esperar e acreditar no amor. Ela permaneceu fiel até ao fim, porque toda a sua vida foi uma entrega ao Amor e uma entrega de amor. Com ela pôde repetir S. Teresinha do Menino Jesus no seu leito de dor, na hora da morte: “Meu Deus, meu Deus, Vós sois bom! Bem o sei! Parece-me que nunca procurei nada, senão a verdade; sim, compreendi a humildade de coração… E não me arrependo de me ter entregado ao amor. Oh, não, não me arrependo. Pelo contrário!” (CA 30.09: Obras, 1259).
Revisão de vida. Perguntemo-nos: como reajo na hora do sofrimento e da dor? Continuo a encará-los como uma graça e dom da misericórdia de Deus? Entrego-me a Deus e renovo o meu amor a Ele e à Igreja, oferecendo também os meus sofrimentos e amor pela salvação dos pobres pecadores?
Ação. Entregar o nosso sofrimento a Jesus, por meio do Imaculado Coração de Maria e renovar a nossa própria consagração à Virgem Maria, Mãe e Esplendor do Carmelo.
Oração. Pai santo, que deste a Maria a graça de permanecer de pé, firme, junto à cruz do teu Filho, concede-nos a graça de permanecer fiéis a Ele, mesmo no meio da adversidade e do sofrimento. Que nunca nos envergonhemos de Cristo e do Evangelho, mas perseveremos unidos fé e no amor, na esperança da alegria que preparastes para os que permanecem fiéis ao teu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Amen.
Maria, Mãe das Dores, nova Eva, mulher do Coração novo, puro e imaculado no amor, tu permaneceste firme, junto à cruz, mesmo quando todos desanimaram; abriga-nos no teu Imaculado Coração e ajuda-nos quando formos provados pela incompreensão, pela oposição, pela doença ou pelo sofrimento por causa da nossa fidelidade a Cristo. Sustenta-nos com a tua presença materna e ensina-nos a cooperar cada vez mais na obra da salvação. Amen.
℣. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
℟. Roga por nós, ajuda-nos a seguir fielmente o teu Filho.