Carta do Prior Geral, Fr. Desiderio García, e recursos
para celebrar o 800º aniversário da aprovação da
Formula Vitae carmelita pelo Papa Honório III
Caríssimas Irmãs e Irmãos do Carmelo:
Celebramos este ano o 800º aniversário do reconhecimento papal da Formula Vitae carmelita: um momento crucial nas nossas origens e um acontecimento fundamental a celebrar.
Celebração dum momento crucial
Na sua reunião conjunta em março de 2026, ambos os Conselhos Gerais refletiram sobre a importância deste ano para a Família Carmelita e manifestaram o desejo de o comemorar de diversas formas. Por isso, promoverão nos próximos meses uma série de iniciativas.
Cremos que será muito proveitoso para toda a Família Carmelita refletir uma vez mais sobre a nossa Regra e assumi-la como um texto atual para os nossos tempos.
No princípio do ano, o Conselho Geral confiou ao P. Míceál O’Neill, O. Carm., a preparação de cinco momentos de oração e de reflexão para este aniversário. Por comodidade pedimos-lhe que tomasse como base para estas reflexões o texto definitivo da Regra.
Ao entrarmos nos meses finais deste Ano Jubilar, convidamos-vos a utilizar estas reflexões nas reuniões comunitárias dos frades, monjas, membros da Ordem Terceira e demais grupos da Ordem. Também vos in explorar citamos a outras formas de celebrar este aniversário nos vossos contextos locais.
Compreender o contexto
É importante compreender o contexto histórico do que aconteceu há 800 anos. A dada altura, os irmãos eremitas que viviam no Monte Carmelo decidiram munir-se duma organização mais formal. Pediram então a Santo Alberto de Jerusalém que codificasse o seu modo de vida a partir das diretrizes que já praticavam. Alberto redigiu a Formula Vitae nalguma data entre a sua chegada à Terra Santa em 1206 e a sua morte em 1214.
No entanto, surgiu um contratempo imprevisto. O IV Concílio de Latrão (1215), a fim de conter a proliferação de ordens religiosas, obrigou as novas fundações a adotar uma das regras já aprovadas. Isto provocou a fusão generalizada de algumas ordens religiosas. Assim, tomando como pretexto a legislação deste Concílio, negava-se frequentemente aos Carmelitas a permissão para pregar em lugares públicos. Apesar disso, os Carmelitas defenderam a sua posição, alegando que a sua Formula Vitae era anterior à proibição de 1215.
O Papa Honório III (Ut vivendi normam)
A seguir, os eremitas do Monte Carmelo recorreram à Santa Sé para obter o reconhecimento legal. A 30 de janeiro de 1226, a bula Ut vivendi normam do Papa Honório III, dirigida ao «prior e aos irmãos eremitas do Monte Carmelo», aceitou formalmente a alegação dos Carmelitas de que tinham recebido a sua «Fórmula de Vida» antes do IV Concílio de Latrão. O documento subscrevia a «Formula de Vida» de Alberto e concedia uma indulgência àqueles que adotassem este modo de vida de forma obrigatória.
A Ut vivendi normam (1226) pode ser considerada um reconhecimento ou uma aprovação implícita — não uma «confirmação» em sentido estrito — da «Fórmula de Vida». Embora não tenha outorgado formalmente aos Carmelitas o estatuto de religiosos no sentido estrito do termo, dava a entender que a observância constante da Norma de Alberto lhes conferia um estatuto canónico distinto do dos leigos comuns. De facto, se tivessem sido plenamente reconhecidos como religiosos nessa época, teriam sido obrigados a adotar «uma das regras aprovadas» pelo IV Concílio de Latrão.
Edificar a Família Carmelita
Nos séculos seguintes, os Carmelitas espalharam-se por todo o mundo. Hoje, a Ordem conta com dois ramos: a «Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo» (O.Carm.) e a Ordem dos Irmãos Descalços da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo (O.C.D.), fruto da reforma de Santa Teresa de Jesus. Juntos, formam uma “família de famílias” composta por milhares de frades e freiras, membros da Ordem Terceira, congregações afiliadas de irmãos e irmãs e muitas pessoas espiritualmente unidas ao Carmelo, de modo especial mediante o uso do Santo Escapulário.
Todos os membros desta família remetem a sua origem como carmelitas à Formula Vitae, escrita por Santo Alberto de Jerusalém. Esta recebeu o seu primeiro reconhecimento oficial há 800 anos pelo Papa Honório III, através da bula Ut vivendi normam, um marco fundamental no caminho do Carmelo: um caminho que ainda hoje continua.
Um momento crucial
Embora a bula Ut vivendi normam de 1226 não tenha resolvido definitivamente todos os problemas dos carmelitas — e o texto tenha sofrido posteriores modificações —, ela representou o primeiro reconhecimento pontifício da comunidade eremítica do Carmelo. Inocêncio IV aprovou definitivamente a Regra Carmelita em 1247.
Este acontecimento, por si só, constitui um marco histórico; contudo, adquire ainda maior significado à luz das dificuldades que os irmãos tiverem de enfrentar em sequência das resoluções do IV Concílio de Latrão.
Convidamos-vos a celebrar este aniversário memorável e a acolher a Regra como um texto de plena atualidade para o nosso tempo.
Fraternalmente no Carmelo,
Desidério García Martínez O. Carm.
Prior Geral
Fonte: https://www.ocarm.info/cgi-bin/dada/mail.cgi/archive/Citoc/20260901182215/