XVI Domingo do Tempo Comum - Ano B

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B)

19 de Julho de 2012

 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 6, 30-34)

30Naquele tempo os Apóstolos reuniram-se a Jesus e contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado. 31Disse-lhes, então: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.» Porque eram tantos os que iam e vinham, que nem tinham tempo para comer. 32Foram, pois, no barco, para um lugar isolado, sem mais ninguém. 33Ao vê-los afastar, muitos perceberam para onde iam; e de todas as cidades acorreram, a pé, àquele lugar, e chegaram primeiro que eles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas.

Chave de leitura

O texto que meditamos neste 16º Domingo do Tempo Comum é pequeno. É constituído por cinco versículos. À primeira vista, estas poucas linhas parecem ser uma introdução ao milagre da multiplicação dos pães no deserto (Mc 6, 34-44). Mas se a liturgia deste Domingo separou-o do resto e realçou estes cinco versículos, quer dizer que têm algo de muito importante que talvez não se notasse se servissem unicamente de introdução ao milagre da multiplicação dos pães.

Estes cinco versículos mostram uma característica de Jesus que sempre chamou a atenção e continua a chamar: a sua preocupação pela saúde e formação dos discípulos, a sua humanidade acolhedora em relação ao povo pobre da Galileia, a sua ternura para com as pessoas. Se a Igreja, por intermédio da liturgia do Domingo, nos convida a reflectir sobre estes aspectos das actividades de Jesus é para nos animar a continuar esta mesma conduta na nossa relação com os outros. Durante a sua leitura prestaremos atenção aos mínimos pormenores do comportamento de Jesus para com os outros.

O contexto que ilumina o texto

O capítulo 6º de Marcos mostra um grande contraste. Por um lado, Marcos fala do banquete da morte, promovido por Herodes com os poderosos da Galileia, no palácio da capital, durante o qual João Baptista será assassinado (Mc 6, 17-29). Por outro, o banquete da vida, promovido por Jesus para as pessoas da Galileia, mortas de fome no deserto, para que não perecessem no caminho (Mc 6, 35-44). Os cinco versículos da leitura deste Domingo (Mc 6, 30-34) estão colocados exactamente entre estes dois banquetes. Estes cinco versículos põem em relevo duas coisas: dão um retrato de Jesus formador dos discípulos e indicam que anunciar a Boa Nova de Jesus não é só uma questão de doutrina, mas sobretudo de acolhimento, bondade, ternura, disponibilidade, revelação do amor de Deus.

Comentário do texto

Marcos 6, 30-34: O acolhimento dado aos discípulos. Estes versículos indicam que Jesus formava novos leaders. Comprometia os discípulos na missão e costumava levá-los imediatamente para um lugar mais tranquilo para poderem descansar e fazer uma revisão (Lc 10, 17-20). Preocupava-se com a sua alimentação e com o seu descanso, porque o trabalho da missão era tal que nem tinham tempo para comer (cf. Jo 21, 9-13).

Marcos 6, 33-34: Movido pela compaixão Jesus altera o seu plano e acolhe o povo. As pessoas deram-se conta de que Jesus fora para a outra margem do lago e seguiram-no. Quando Jesus, ao descer da barca, viu aquela multidão, renunciou ao descanso e começou a ensinar. Aqui aparece o abandono das pessoas. Jesus fica comovido “porque eram como ovelhas sem pastor”. Quem ler estas palavras recordará o salmo do Bom Pastor (Sl 123). Quando Jesus se dá conta de que as pessoas não têm pastor, começa ele a sê-lo. Guia a multidão no deserto da vida e a multidão podia cantar assim: “O Senhor é o meu Pastor! Nada me falta!”.

Um retrato de Jesus formador

“Seguir” era o termo que fazia parte do sistema educativo da época. Usava-se para indicar a relação entre o discípulo e o mestre. A relação mestre-discípulo é diferente da de professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre determinada matéria. Os discípulos “seguem” o mestre e vivem com ele. É precisamente nesta “convivência” de três anos com Jesus que os discípulos receberam a sua formação.

Jesus, o Mestre, é o eixo, o centro e o modelo da formação. Nos seus comportamentos é uma prova do Reino, encarna e revela o amor de Deus (Mc 6, 1; Mt 10, 30-31; Lc 15, 11-32). Muitos pequenos gestos reflectem este testemunho de vida com que Jesus indicava a sua presença na vida dos seus discípulos, preparando-os para a vida e para a missão. Era o seu modo de dar uma forma humana à experiência que ele mesmo tinha do Pai:

  • compromete-os na missão (Mc 6, 7; Lc 9, 1-2; 10, 1);
  • por sua vez, revê esta missão com eles (Lc 10, 17-20);
  • corrige-os quando erram ou quando querem ser os primeiros (Mt 10, 13-15; Lc 9, 46-48);
  • espera o momento oportuno para os corrigir (Mc 9, 33-35);
  • ajuda-os a discernir (Mc 9, 28-29);
  • interpela-os quando são lentos (Mc 4, 13; 8, 14-21);
  • prepara-os para o conflito (Jo 16, 33; Mt 10, 17-25);
  • manda-os observar e analisar a realidade (Mc 8, 27-29; Jo 4, 35; Mt 16, 1-3);
  • reflecte com eles sobre questões do momento (Lc 13, 1-5);
  • coloca diante dos seus olhos as necessidades da multidão (Jo 6, 5);
  • corrige a mentalidade de vingança (Lc 9, 54-55);
  • ensina que as necessidades das pessoas estão acima das prescrições rituais (Mt 12, 7.12);
  • luta contra a mentalidade que considera a enfermidade como um castigo de Deus (Jo 9, 2-3);
  • passa o tempo a sós com eles para os instruir (Mc 4, 34; 7, 17; 9, 30-31; 10, 10; 13, 3);
  • sabe escutar mesmo quando o diálogo é difícil (Jo 4, 7-42);
  • ajuda-os a aceitarem-se (Lc 22, 32);
  • é exigente e pede-lhes que deixem tudo por Ele (Mc 10, 17-31);
  • é severo com a hipocrisia (Lc 11, 37-53);
  • dá mais perguntas do que respostas (Mc 8, 17-21);
  • é seguro e não se deixa desviar do caminho (Mc 8, 33; Lc 9, 54-55).

Eis aqui um retrato de Jesus formador. A formação do “seguimento de Jesus” não era em primeiro lugar a transmissão de verdades para serem aprendidas de memória, mas a comunicação da nova experiência de Deus e da vida que irradiava de Jesus para os discípulos. A comunidade que se formava à volta de Jesus era a expressão desta nova experiência. A formação levava as pessoas a terem outros olhos, outras atitudes. Fazia nascer uma nova consciência relativamente à missão e a eles próprios. Agia de modo que os colocava ao lado dos marginalizados. Produzia em alguns a “conversão” por terem aceitado a Boa Nova (Mc 1, 15).

Como Jesus anuncia a Boa Nova à multidão

O facto da prisão de João Baptista obriga Jesus a regressar e a começar o anúncio da Boa Nova. Foi um começo explosivo e criativo! Jesus percorre toda a Galileia: aldeias, povoações e cidades (Mc 1, 39). Visita as comunidades. Inclusivamente muda de residência e vai viver para Cafarnaúm (Mc 1, 21; 2, 1), cidade situada na encruzilhada de vários caminhos, o que lhe facilita a divulgação da mensagem. Quase nunca pára, está sempre em caminho. Os discípulos, com muito entusiasmo, vão com Ele para onde quer que vá: nos campos, ao longo dos caminhos, na montanha, no deserto, na barca, na sinagoga, nas casas.

Jesus ajuda as pessoas servindo-as de muitas maneiras: expulsa os espíritos imundos (Mc 1, 39), cura os enfermos e os que são maltratados (Mc 11, 34), purifica os marginalizados por causa da impureza (Mc 1, 40-45), acolhe os marginalizados e confraterniza com eles (Mc 2, 15). Anuncia, chama e convoca. Atrai, consola e ajuda. Onde encontra pessoas que o escutam, fala e transmite a Boa Nova, qualquer que seja o lugar.

Em Jesus tudo é revelação que sai de dentro! Ele é a prova, a testemunha viva do Reino. N'Ele aparece o que sucede quando uma pessoa deixa reinar Deus, deixa que Deus guie a sua vida. Na sua maneira de viver e agir, Jesus revela o que Deus tinha em mente quando chamou Abraão e Moisés. Jesus transformou a nostalgia em esperança! De imediato as pessoas entenderam: “Isto é o que Deus queria para o seu povo”!

Este foi o começo do anúncio da Boa Nova do Reino que se divulgava rapidamente pelas aldeias da Galileia, de uma forma pequena, como uma semente, que depois cresce e se converte numa grande árvore, onde as pessoas podem descansar debaixo dela (Mc 4, 31-32). E as pessoas encarregavam-se de difundir a notícia.

As pessoas da Galileia ficavam impressionadas com o modo de ensinar de Jesus: “Eis um novo ensinamento e feito com tal autoridade... diferente do dos escribas” (Mc 1, 22.27). O que Jesus mais fazia era ensinar (Mc 2, 13; 4, 1-2; 6, 34). Era o que costumava fazer (Mc 10, 1). O evangelho de Marcos diz mais de quinze vezes que Jesus ensinava. Mas Marcos quase nunca diz o que ensinava. Talvez não lhe interessasse o conteúdo? Depende o que entendemos por conteúdo. Ensinar não quer dizer somente ensinar verdades novas de modo que as pessoas as aprendam de memória. O conteúdo que Jesus oferece não só se vê nas palavras mas também nos gestos e no modo de se relacionar com as pessoas. O conteúdo nunca está separado da pessoa que o comunica. Jesus era uma pessoa acolhedora (Mc 6, 34). Amava as pessoas. A bondade e o amor que transpareciam nas suas palavras faziam parte do conteúdo. São o seu temperamento. Um conteúdo bom mas sem bondade é como um líquido derramado. Marcos define o conteúdo do ensino de Jesus como “Boa Nova de Deus” (Mc 1, 14). A Boa Nova que Jesus proclama vem de Deus e revela algo sobre Deus. Em tudo o que Jesus diz e faz reflecte-se os traços do rosto de Deus. Reflecte a experiência que Ele mesmo tem de Deus, a experiência do Pai. Revelar Deus como Pai é a fonte, o conteúdo e o fim da Boa Nova de Deus.