Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Lucas (1,39-56)
1,39Por aqueles dias, Maria levantou-se e foi apressadamente para a região montanhosa, para uma cidade de Judá. 40Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. 41E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, Isabel ficou cheia de Espírito Santo 42e, erguendo a voz, com um forte brado, disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43De onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Pois quando chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino saltou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou que se há de cumprir o que lhe foi dito da parte do Senhor”. 46Maria disse, então: “A minha alma engrandece ao Senhor 47e o meu espírito alegrou-se em Deus, meu Salvador, 48porque pôs os olhos na humildade da sua escrava. Eis que, a partir de agora, me chamarão bem-aventurada todas as gerações, 49porque o Poderoso fez em mim grandes coisas. Santo é o seu Nome 50e a sua misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que o temem. 51Exerceu a força do seu braço e dispersou soberbos nos pensamentos dos seus corações; 52derrubou poderosos dos tronos, e exaltou humildes; 53a famintos encheu de bens e a ricos despediu vazios; 54socorreu a Israel, seu servo, recordando-se da misericórdia, 55como falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre”. 56Maria permaneceu com ela cerca de três meses e voltou para sua casa.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
O episódio de hoje, a visitação da Virgem Maria à sua parente Isabel, é exclusivo de Lucas. Até finais dos anos 70 dizia-se que este texto era um midrash haggádico (“história que conta”), pertencente aos “Evangelhos da infância”, acrescentados mais tarde para: 1) preencher as lacunas do texto primitivo e satisfazer a curiosidade dos fiéis mais piedosos sobre as origens de Jesus; 2) mostrar como as promessas do AT se cumpriram nele; 3) e encontrar já nas origens da existência de Jesus os motivos da confissão de fé cristã pós-pascal (homologuese).
Esta teoria, entretanto, foi abandonada, porque: 1) o género literário Evangelho não existia; foi sido criado por Marcos (1,1), tendo sido aplicado historicamente apenas aos quatro Evangelhos; 2) as duas únicas narrativas da infância de Jesus são a de Mateus (1,18-2,23) e a de Lucas (1,1-2,52). Porém, elas são tão diferentes entre si que não se pode falar dum género literário próprio, pois para tal é necessário que ele fosse homogéneo e se pudesse aplicar a diversos textos, o que não é o caso.
Trata-se, antes, de um “relato da origem dum personagem” insigne (cf. vv. 5-25; Gn 18,9-15; 21,1-21; Ex 2; Jz 13; 1Sm 1; 3; Mt 1,1), neste caso, de Jesus. Mais importante é perceber o que Lucas com ele quer dizer: quem acolhe o enviado de Deus e adere com fé à Boa Nova que Deus nele lhe traz, recebe Jesus que lhe comunica o Espírito Santo e nele cumpre a Palavra anunciada, fazendo irromper a salvação na sua vida, levando-o a louvar a Deus e a anunciar aos outros com alegria a Boa-nova da salvação.
- v. 39. Por aqueles dias, Maria levantou-se e foi apressadamente para a região montanhosa, para uma cidade de Judá.
A presente cena ocorre nos “dias” logo a seguir à anunciação do anjo Gabriel a Maria (v. 26), tendo decorrido apenas o tempo necessário para Maria acertar em casa a decisão com os seus, preparar a viagem e partir.
Porque o decide ela? Não para comprovar se era verdade o que o anjo lhe anunciara, porque nele já tinha acreditado (cf. v. 45), mas porque não tendo o anjo adiantado qualquer pormenor sobre o que estava a acontecer a Isabel, Maria quis escutar “a boa nova” (v. 20) diretamente da boca da sua parente, felicitá-la e alegrar-se com ela por “nela o Senhor ter engrandecido a sua misericórdia” (v. 58). E porque, tendo-se declarado “a escrava do Senhor” (he. ‘amah; gr. doulê: vv. 38.48), tal como Abigail (1Sm 25,3), “a viúva de Nabal” (1Sm 30,5; 2Sm 2,2) o fizera em relação a David, sabia que isso implicava não só estar disponível para se pôr ao serviço do seu Senhor, Deus, mas também para se pôr ao serviço dos seus servos (cf. 1Sm 25,41: “A tua escrava é serva para lavar os pés dos teus servos”).
Em ambos os casos, usa-se o verbo “levantar-se” (gr. anístêmi: 1Sm 25,41), um dos verbos técnicos da ressurreição (9,8.19; 18,33; 24,7.12. 46): a fé faz caminhar numa vida nova (5,25.28; 8,55; 15,18.20; 17,19; 24,33), levando o crente a pôr-se ao serviço do próximo (22,26s) e a partilhar com ele o que é e o que tem (At 2,44s). O verbo evoca Rebeca, que deixou tudo para ir ao encontro de Isaac, o filho da promessa (Gn 24,61); e a sogra de Simão que, curada por Jesus, logo se pôs a servi-lo (4,39).
Como Abigail, Maria “foi apressadamente” (gr. spoudê: 1Sm 25,18. 23.42) ao encontro de Isabel, movida por uma sincera caridade (2Cor 8,8), para ficar junto dela e a ajudar na última fase da gravidez dela, que era de risco, pois ela era de idade avançada (vv. 7.36). O amor, em caso de necessidade, não se compadece com demoras.
Maria “foi para a região montanhosa” (gr. oreinós: v. 65: Jt 5,19; Jr 33,13; Zc 7,7), próxima de Jerusalém, “em direção a uma cidade de Judá”, identificada pela tradição com Ein-Kerem (“fonte dos vinhedos”, 7 km a W de Jerusalém; não Hebron, a cidade dos sacerdotes, 40 km a SSW de Jerusalém: Js 21,13; 1Cr 6,57), fazendo uma difícil e perigosa viagem de 150 km (5 dias a pé). A cena evoca Is 52,7 (o mensageiro que anuncia boas-novas a Sião), e Ct 2,8 (a voz do Amado que vem a correr sobre os montes). Maria, evangelizada pelo anjo e grávida de Deus, é exemplo do discípulo que acredita na Boa nova e se torna, ele também, evangelizador.
- v. 40. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
Com Maria, entra em cena outra mulher, Isabel (he. Elisabeth: “juramento de Deus”). Ambas conceberam de forma miraculosa: a primeira, estéril, já passada a idade, vai ser mãe (vv. 7.13.24.36); a segunda, virgem, concebeu pelo Espírito Santo (v. 35). Ambas são mulheres de fé, que escutam a Palavra de Deus e aderem ao Seu plano, tornando-se dele participantes. E ambas são portadoras de um personagem oculto (João, o Precursor; e Jesus, o Messias) que, embora não fale, é o protagonista da cena. A graça supera a natureza.
Mal entra em casa de Isabel (cf. Mt 10,12), Maria saúda-a (he. shalom; gr. kairé: v. 28).
- v. 41. E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, Isabel ficou cheia de Espírito Santo.
A chegada de Maria, trazendo Jesus em si, e o encontro dela com Isabel, evocam a vinda da Arca da Aliança, trazida pelos montes de Judá, de Kiriath-Jearim para Jerusalém (“subiram a Arca do Senhor com júbilo e vozes”: 2Sm 6,15), a sua chegada ao meio do povo (“E aconteceu que, vindo a Arca da Aliança do Senhor…, todo o Israel gritou em alta voz”: 1Sm 4,5), e a sua estada de três meses em casa de Obededom (v. 56; 2Sm 6,9-12). Maria é a Arca da nova Aliança que traz em si Deus que vem habitar com o seu povo. O templo de Deus é agora a vida simples do seu povo; e o seu santuário, o coração de quem crê na Boa nova (17,21). Por isso, Zacarias, que não acreditou (v. 20), não aparece na cena.
O “salto” (pulo, "exultação") de João no ventre de Isabel evoca Gn 25,22 (cf. Rm 9,12): “o mais velho (Esaú) servirá o mais novo (Jacob)”. Neste caso João, concebido seis meses antes de Jesus, dá a primazia a Jesus. João, o Precursor, mostra Jesus, oculto no seio de Maria, já presente no meio dos homens, sinalizando que Ele é o Messias (vv. 17.76; 7,27), que o ungiu com o Espírito Santo. Realiza-se assim o que o anjo anunciara a Zacarias: “ele será cheio do Espírito Santo já desde o ventre da sua mãe” (v. 15). Começa a cumprir-se a promessa da efusão do Espírito sobre toda a carne (Jl 3,1), anunciada para a era messiânica. Onde Jesus chega, irrompe o Espírito Santo (3,16; At 2,33), que o dá a conhecer (2,25s; 3,22; 10,21s).
O Espírito Santo manifesta-se desde logo no louvor e na profecia (Nm 11,26ss; 1Sm 10,11s; At 2,4.11; 19,6). É a primeira vez desde Malaquias, após quatro séculos de silêncio profético (cf. Mq 5,2; Am 8,11; Sl 74,9), que a profecia irrompe, agora através de duas mulheres. Tendo o pecado entrado no mundo pela incredulidade e desobediência de uma mulher (1Tm 2,14), a salvação irrompe nele graças à fé e obediência de duas mulheres. Isabel profetiza primeiro porque é “anciã” (Jb 32,6) e representa o AT, que anuncia o Novo; só depois fala Maria, que é “jovem” e traz em si o NT. Segue-se assim a ordem de Jl 3,1: “Os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens visões”. Entrámos no regime da graça (vv. 13.28.30; Rm 5,15-20) que se dirige primeiro aos que estão menos preparados (1Cor 1,26-29) e dela menos dignos são, como diz Isabel (v. 43).
- v. 42. E, erguendo a voz, com um forte brado, disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.
A resposta de Isabel é um grito profético, que foi recolhido na Avé Maria. Abre-se com duas bênçãos (2,34): a primeira, “bendita és tu entre as mulheres” (11,27; cf. BarAp 54,10), evoca o cântico de Débora que celebra Jael, a mulher através da qual Deus salvou o seu povo (Jz 5,24); e a bênção de Uzias a Judite, por meio da qual Deus aniquilou o opressor (Jt 13, 18); a segunda, “bendito o fruto do teu ventre” (Dt 28,4), aplica a Jesus o termo “bendito” com o qual o judaísmo menciona Deus, de forma a evitar pronunciar o seu nome (v. 68; 13,35; 19,38; Mc 14,61).
- v. 43. De onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
A pergunta de Isabel “donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?” é uma palavra (profética) de conhecimento (1Cor 12,8), pela qual o Espírito Santo revela o que está oculto. Evoca as palavras de David, quando a Arca da Aliança vinha ao seu encontro (2Sm 6,9; 1Cr 24,14). Em Lucas, ocorre aqui pela décima vez o título “Senhor” (gr. Kyriós), que no AT substitui o Nome divino, sendo a primeira vez que ele é aplicado a Jesus numa confissão de fé (cf. Fl 2,11).
- v. 44. Pois quando chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino saltou de alegria no meu ventre.
Em inclusão com os vv. 40-41, Isabel confirma a fé de Maria (v. 36; cf. Ex 4,19; 1Sm 3,8; At 22,10), indicando-lhe a causa do seu grito, que Maria desconhece: o menino “saltou de alegria” (Sl 114,4.6) no seu ventre por ação do Espírito Santo (cf. 10,21) que lhe foi comunicado por Jesus, o Messias, presente no seio de Maria, cumprindo-se assim as promessas de Deus no AT, em particular através de Zacarias (!), de que Ele viria habitar no meio do seu povo (Zc 2,14s; Is 12,6s; Sf 3,16s; Ml 3,20).
- v. 45. Bem-aventurada aquela que acreditou que se há de cumprir o que lhe foi dito da parte do Senhor”.
A terminar, como chave da cena, Isabel proclama Maria “bem-aventurada” porque acreditou. É a primeira bem-aventurança do NT: a da fé.
A frase tem dois sentidos em grego, complementares:
1) ”Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento do que lhe foi dito da parte do Senhor”. Maria acreditou, sem ver, que Deus cumpre o que diz (Jo 20,29; 1Pd 1,8). Ela é mais feliz por ter acreditado do que por ser Mãe de Jesus (cf. 11,28);
2) “Bem-aventurada a que acreditou: há-de cumprir-se o que lhe foi dito da parte do Senhor”. Porque acreditou, Deus cumprirá em Maria o que lhe prometeu, enquanto Mãe de Jesus membro do Seu povo (vv. 54s). Mais: é graças à fé de Maria que Deus vai cumprir as suas promessas em Jesus em favor do seu povo e de toda a humanidade nos que acreditam no Evangelho e aceitam Jesus como seu Senhor, tal como Maria e Isabel.
- v. 46. Maria disse, então: “A minha alma engrandece ao Senhor.
”Maria disse então”. Lucas põe na boca de Maria (não de Isabel, como aparece em três cópias da Vetus latina, sem apoio de nenhum manuscrito grego), este cântico, o Magnificat (lat. “engrandece”), um hino de louvor que se inspira no cântico de Ana (1Sm 2,1-10) e se tece com numerosas passagens de salmos e passos do AT, aqui percorrido de forma transversal, sem nenhuma citação direta, e interpretado de forma original, no quadro de uma leitura surpreendentemente revolucionária da história (no sentido genuíno, não político, do termo), na linha do tema tão querido a Paulo e a Lucas da inversão das situações por intervenção divina.
“A minha alma engrandece ao Senhor” (cf. Sl 103,1; 104,1.24; 34,3). Maria responde aos encómios que Isabel lhe teceu e aceita-os, sem se fixar em si mesma, mas reconduzindo-os logo a Deus, fonte de toda a graça e misericórdia (cf. Sl 36,10; 86,15; 103,4; Jr 2,13; 17,13; Rm 1,7; 1Tm 1,2; 2Tm 1,2; 2Jo 1,3).
“Alma” (gr. psychê; he. nephesh: Gn 2,7) é sinónimo de “vida” (1Sm 26,24). Designa o princípio da vida anímica, sensível, a pessoa a partir daquilo que de mais íntimo existe nela, o que a anima e brota da raiz do seu ser.
Maria “engrandece” (gr. megalýnô) ao Senhor, não porque o torne maior, mas porque exalta o seu Nome (2Sm 7,22.26), proclamando as grandes coisas que Ele nela fez (cf. Gn 19,19; 1Sm 12,24) e assim começou a realizar na história dos homens por meio do seu Filho. O verbo “engrandecer” usado em relação a Abraão (Gn 12,2) e a David (2Sm 22,51) mostra que Maria liga as bênçãos que recebeu à fidelidade de Deus à aliança e às promessas que fez a Abraão e a David.
- v. 47. E o meu espírito alegrou-se em Deus, meu Salvador.
”E o meu espírito alegrou-se em Deus, meu Salvador” (cf. Sl 35,9; 70,5; Ha 3,18; Tb 13,9; cf. Lc 10,21; Sl 95,1; Is 25,9; 61,10): o “espírito” (gr. pneuma; he. ruah) é o princípio da vida espiritual, através do qual o homem se relaciona com Deus.
Maria alegra-se “em Deus” (gr. epi tô Theô: Sl 62,8; Mq 7,7) porque pela fé nele se firmou e confiou (Dn 13,35). Maria começa louvar a Deus, seu “Salvador” (Sf 3,17; Is 12,2; cf. Sr 51,1; 1Tm 1,1; Tt 1,3s; 2,10.13; 3,4; Jd 1,25) pela mudança que Ele fez na sua vida. Esta obra é uma “boa-nova” (cf. vv. 14.19) que assinala a irrupção da salvação entre os homens por meio do seu Filho, Jesus, salvação da qual ela é a primeira beneficiária.
- v. 48. Porque pôs os olhos na humildade da sua escrava. Eis que, a partir de agora, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
”Porque pôs os olhos na humildade da sua escrava” (cf. 1Sm 1,11; 9,16; Is 66,2; Gn 29,32). Maria designa-se a si mesma “escrava do Senhor” (he. ‘amah; gr. doulê: v. 38), não apenas por humildade, mas também em sentido esponsal (1Sm 25,3; Rt 3,9; 2,13), declarando a sua plena e incondicional submissão a Deus.
Deus “pôs os olhos” na sua “humildade” e humilhação (Sr 11,12; Est 4,8), humilhação esta que é também a do seu povo (Lm 1,3.7; Jt 6,19; 13,20). Maria inclui-se entre os “pobres de Iavé” (Is 11,4; Is 29,19; 61,1; Sf 2,3) que apenas podem contar com Deus, dele esperando a salvação e a justiça.
“A partir de agora me chamarão bem-aventurada todas as gerações”. Maria é “bem-aventurada porque acreditou” à semelhança de Abraão, em cuja descendência foram abençoadas todas as nações da terra (Gn 12,2s; 22,18; 26,4; Ml 3,12). Será declarada bem-aventurada por todas as gerações (cf. Gn 30,13), porque por Jesus, sua descendência, pessoas de todas elas, judaicas e de todas as nações da Terra serão chamadas à bem-aventurança eterna, a salvação, proclamando, por isso, Maria bem-aventurada, bem como o fruto do seu ventre (cf. v. 42; Sl 72,17 LXX), tal como Isabel o fez.
- v. 49. Porque o Poderoso fez em mim grandes coisas. Santo é o seu Nome.
“O Poderoso” é Deus (Sl 24,8; 89,9; Jr 32,18; Sf 3,17; cf. Lc 24,19), para quem “nada é impossível” (v. 37).
Ele realizou em Maria “grandes obras” de salvação (Dt 7,19; 10,21; 11,7; Ex 14,31; Jz 2,7; Jb 5,9; 9,10; 37,5; Sl 50,22; cf. Sl 106,21; Jo 5,20; 14,12), – a começar pela encarnação do Filho de Deus nela – e, através dela, por meio de Jesus, seu Filho, começou a levar a cabo a obra da salvação em favor do seu povo e de toda a humanidade.
“Santo é o seu Nome” (Sl 111,9; cf. 1Sm 2,2; Is 47,4; 57,15; Ez 39,7; Sl 99,3.9; Tb 3,11; 8,5). O “Nome” designa a pessoa e a sua missão. Deus revela a sua santidade, estando presente no meio do seu povo e operando a sua salvação, mostrando a sua misericórdia e fidelidade às promessas e à aliança que selou com “os pais” e com o seu povo.
- v. 50. E a sua misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que o temem.
”A sua misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que o temem” (Sl 103,17; cf. Sl 89,2; 100,5; Ex 34,7; Jr 32,18). Maria universaliza a sua experiência pessoal, transpondo-a para a ação de Deus no meio do seu povo, inscrevendo a obra que Deus nela fez na história da salvação de Deus com o seu povo, a qual se estenderá a toda a humanidade.
“A sua misericórdia”: o hebraico diz hesed, o amor fiel de Deus ao seu povo (Sl 117; 136; etc.), mas os LXX traduzem-no em grego por “misericórdia”, termo que Lucas prefere (Lc, 6x: vv. 54.58. 72.78; 10,37; gr. eleéô, “ter misericórdia”, Lc, 4x: 16,24; 17,13; 18,38s; total: 10x), mostrando que o amor de Deus para com o seu povo é totalmente gratuito, sendo fruto, não dos méritos do homem, mas da livre iniciativa da misericórdia divina (Rm 11,30ss; 15,9).
Maria remete toda a obra, palavra e ação de Deus em favor dela e do seu povo em primeiro lugar, não ao poder, mas à misericórdia de Deus (Sb 11,23). Esta é a chave que permite ver o mundo, ler a história, descobrir a presença, discernir a vontade e seguir o caminho de Deus no meio dos homens.
“Sobre aqueles que o temem”: Deus é sempre misericordioso para com todos (Sl 145,9), mas só recebem e experimentam a Sua misericórdia aqueles que “o temem”, isto é, aqueles que se convertem a Ele de todo o coração, obedecendo-lhe com fé e amor.
O Magnificat está centrado na relação de Deus com o seu povo, não tematizando ainda, embora sem a excluir (v. 48), a universalidade do amor e da salvação de Deus para com toda a humanidade, tema que só será explicitado em Lucas pela boca de Simeão em 2,32 (cf. 2,14).
- v. 51. Exerceu a força do seu braço e dispersou soberbos nos pensamentos dos seus corações.
”Exerceu a força do seu braço” (lit. fez força com seu braço: Sl 118,15s LXX; Is 52,10; cf. Is 40,10; 51,9; 53,1; Sb 11,21). Esta expressão refere a intervenção salvífica de Deus no meio dos homens, evocando a libertação de Israel no Êxodo.
Maria canta a fidelidade de Deus para com o seu povo e proclama a revolução, “as grandes obras” que “o braço do Senhor” (a sua força eficaz e omnipotente; cf. Ex 6,6; 15,16; Dt 4,34; 5,15; 7,19; etc.; “a sua direita”: Ex 15,6; Sl 98,1; 118,15s) foi operando ao longo da história da salvação, obras que continua e continuará a operar em favor daqueles que para o mundo não contam. Está em curso um novo êxodo em que o triunfo não está do lado dos grandes e dos poderosos que usam de violência, mas em que a vitória é de Deus e está do lado dos pequeninos, dos pobres e dos humildes que nele confiam (cf. 1Cor 1,27ss).
“Dispersou soberbos no pensamento dos seus corações” (cf. Pv 3,34; 1Pd 5,5; Jb 40,12; Sl 18,28; Is 2,11s; 13,11; Tg 4,6). Nos vv. 51-53 não se usa o artigo (“os soberbos/poderosos/humildes/famintos /ricos), mas só os adjetivos. Não se trata de ideologia política, mas de ações concretas de Deus. A presença do amor gratuito, da misericórdia de Deus manifestou-se e continua a fazê-lo (os seis verbos dos vv. 51-53 estão no aoristo, repetitivo) na sua ação em favor dos pequenos, ação que confunde os soberbos, os orgulhosos que pensam não ter necessidade de Deus e só em si confiam.
- v. 52. Derrubou poderosos dos tronos e exaltou humildes.
“Derrubou poderosos dos tronos” (Sr 10,14; Jb 12,19; Ez 17,24) “e exaltou humildes” (14,11; 18,14; Ez 21,31; Jb 5,11; Est 1,1j). Os “poderosos” são os arrogantes que recorrem à mentira e à força para levar a cabo os seus planos e vontade (cf. 22,25), calando, oprimindo, perseguindo e matando os “humildes”, os pequenos, excluídos, enfermos, cativos ou atribulados (cf. 4,18s; Sl 9,39; 34,19; 102,18).
- v. 53. A famintos encheu de bens e a ricos despediu vazios.
”A famintos encheu de bens e a ricos despediu vazios (6,20s. 24s; 1Sm 2,5; Sl 107,9; “despediu vazios”: cf. Jb 22,9; Sr 29,9). Maria refere a inversão de situações por ação do amor justo e misericordioso de Deus, já presente no cântico de Ana. Ser pobre e faminto (aqui também em sentido espiritual), é uma condição para buscar a salvação e receber a graça de Deus, mostrando a gratuidade absoluta da Sua salvação. Os ricos que nada querem repartir são mandados embora por Deus “vazios” (cf. 18,23; 12,21; 16,25; 18,14), porque já neste mundo têm a sua consolação (cf. 6,24-26).
- v. 54. Socorreu a Israel, seu servo, recordando-se da misericórdia.
v. 54: cf. v. 72; Sl 98,3.
“Socorreu a Israel, seu servo” (cf. Is 41,8s; 42,1; 49,26; 59,16; 9,6; Ez 20,5s; Jt 13,5) “recordando-se” (cf. Gn 8,1; 9,15s; Ex 2,24; 32,13; Lv 26,45; Dt 9,27) “da misericórdia” (he. rahemim: Sl 25,6; he. hesed: Sl 106,45; 136,23; 2Cr 6,42; hesed-rahemim: Is 63,7).
Por último, Maria lembra que tudo isto é expressão da misericórdia de Deus para com o seu povo, Israel.
Israel é aqui chamado “servo” (gr. pais; he. ‘ebed: cf. v. 69; 4,25), não só para sublinhar a grandeza e livre iniciativa do amor de Deus, bem como a gratuidade da sua misericórdia, salvando o seu povo desamparado e oprimido (Gn 48,17; 2Cr 28,15; Sl 18,36; 40,12; 68,30; 119,116; Is 59,16), mas também para lhe recordar a missão que tem de anunciar salvação de Deus até aos confins da terra (cf. Is 42,6; 49,6).
- v. 55. Como falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre”.
”Como falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (Mq 7,20; 2Sm 22,51; Gn 17,7; 22,16ss). É a primeira vez que aparece no evangelho este tema tão frequente em Lucas (v. 73; 3,8.34; 13,16.28; 16,22-25.29s; 19,9; 20,37; At 3,13.25; 7,2.16s.32; 13,26; cf. At 26,6; 28,20). Deus mostra que é fiel à sua aliança e às promessas que fez a Abraão e à sua descendência ao longo do AT, aliança que vai renovar e promessas que agora começou a cumprir e que só terão pleno cumprimento na eternidade, aquando a ressurreição final.
A Boa Nova (do dom da salvação) não vem como recompensa pela observância da Lei, mas como expressão do amor misericordioso de Deus ao seu povo e da sua fidelidade à aliança e às promessas que lhe fez.
- v. 56. Maria permaneceu com ela cerca de três meses e voltou para sua casa.
Maria fica junto de Isabel para a ajudar. Depois volta para sua casa, em Nazaré. Lucas, como é hábito, faz uma personagem sair de cena, antes de entrarem em cena os personagens do episódio seguinte (cf. v. 38b). Naturalmente, Maria terá ficado a ajudar Isabel pelo menos até ao final do parto, ou melhor, até à circuncisão de João Batista.
Os “três meses” que Maria permaneceu em casa de Isabel evocam a estada de três meses da arca da aliança em casa de Obededom, em Perez-Uzzá (2Sm 6,11). Maria é a Arca da nova aliança.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Sou capaz de perceber e experimentar a presença de Deus nas coisas simples e comuns da vida de cada dia?
- Maria e Isabel acreditaram, mas o marido de Isabel teve problemas em acreditar no que lhe disse o anjo. E eu?
- Estou atento aos outros, mostro-me disponível para os ajudar e servir quando precisam?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 45,10-12.16 (R. cf. 10b)
Refrão: À vossa direita, Senhor, está a Rainha do Céu.
Ao vosso encontro vêm filhas de reis,
à vossa direita está a rainha, ornada com ouro de Ofir.
Ouve, minha filha, vê e presta atenção,
esquece o teu povo e a casa de teu pai. R.
Da tua beleza se enamora o Rei;
Ele é o teu Senhor, presta-lhe homenagem.
Cheias de entusiasmo e alegria,
entram no palácio do Rei. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus todo-poderoso e eterno que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.