Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (18,21-35)
18,21Então, aproximando-se Pedro de Jesus, disse-lhe: «Senhor, quantas vezes pecará o meu irmão contra mim e lhe perdoarei? Até sete vezes?» 22Diz-lhe Jesus: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que quis acertar contas com os seus servos. 24Ao começar a acertá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. 25Como ele não tinha com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto tinha para que assim fosse paga a dívida. 26Então o servo, caindo, prostrou-se diante dele, dizendo: ‘Tem paciência comigo e tudo te pagarei’. 27Enchendo-se de compaixão, o senhor daquele servo deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida. 28Mas, ao sair, aquele servo encontrou um outro servo, seu companheiro, que lhe devia cem denários. Agarrando-o, começou a estrangulá-lo, dizendo: ‘Paga o que deves’. 29Então o companheiro, caindo, suplicava-lhe, dizendo: ‘Tem paciência comigo e pagar-te-ei’. 30Mas ele não queria; foi antes lançá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31Ora, os seus companheiros, vendo o que acontecera, ficaram muito contristados e foram contar ao seu senhor tudo o que acontecera. 32Então, o senhor dele, chamando-o a si, diz-lhe: ‘Servo mau, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. 33Não era necessário também tu teres misericórdia do outro servo, teu companheiro, como eu tive misericórdia de ti?’ 34E, indignado, o senhor dele entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que devia. 35Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão, dos vossos corações».
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
- v. 21. Então, aproximando-se Pedro de Jesus, disse-lhe: «Senhor, quantas vezes pecará o meu irmão contra mim e lhe perdoarei? Até sete vezes?»
A passagem de hoje, exclusiva de Mateus, é a quinta e última secção do “discurso eclesial” (cap. 18), o quarto discurso de Jesus neste Evangelho, onde se recolhem ensinamentos seus sobre a vida comunitária.
Como em qualquer grupo humano, também nas comunidades cristãs, surgem conflitos, tensões, mal-entendidos, ofensas pessoais. É neste contexto que Jesus fala da necessidade do perdão (v. 32).
Achando-se Pedro, como os discípulos então, a distância do Mestre, “aproxima-se de Jesus” e, na sua qualidade de porta-voz da comunidade, interroga-o sobre os limites do perdão. O mandamento do perdão não era novo. Os rabinos ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido alguma falta (Sr 27,33-28,9). Mas defendiam 1) que a obrigação de perdoar só existia em relação aos membros do Povo de Deus e 2) que não se devia perdoar sempre, no máximo até três vezes (bYoma 86b.10 bar; cf. Am 1,3.6.9.11.13; 2,1.4.6).
Pedro, no entanto, sabe que Jesus neste campo tem ideias radicais (6,14s) e pergunta-lhe se deve perdoar “até sete vezes?” (Lc 17,4), sendo “sete” o número da “perfeição”.
- v. 22. Diz-lhe Jesus: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Jesus responde a Pedro que não basta perdoar sempre (“sete vezes”), mas há que o fazer sempre, de forma plena: “setenta vezes sete” (gr. hebdomekontákis heptá). Embora o número pareça exagerado, a ponto de alguns lerem “setenta e sete vezes”, o texto é claro (Str-B 1,797): ao invés de Lamek, que não deixava passar a mínima ofensa e prometia a máxima vingança (“setenta e sete vezes”: Gn 4,23s), o perdão cristão vai muito além, cobrindo todas as ofensas e superando toda a vingança.
Jesus é realista. O perdão é um dom, um ato livre da vontade (cf. v. 30: “não queria”), mas, embora se perdoe, não raro a ofensa deixa marcas que não são fáceis de esquecer, acabando a pessoa por a “re-cordar”. Sinal de que a ferida precisa de ser curada pela graça. Daí a importância da paciência e da oração (v. 26): há que renovar o ato de perdão até ser capaz de olhar para o outro e o ver e amar como irmão (v. 35), perdoando-o tal como Jesus nos perdoou (cf. Lc 23,34.43).
- v. 23. Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que quis acertar contas com os seus servos.
É neste contexto que Jesus conta a parábola do devedor implacável (vv. 23-35). Compara o “reino dos céus” (Deus), “a um homem rei” (lit. 22,2; Jr 38,24), ou seja, a um rei “de carne e sangue” (para o distinguir de Deus, o Rei dos reis (Sl 84,4; Is 44,6; Dn 2,47; Ap 19,16). Este vai “acertar contas” com os seus servos, uma imagem do juízo particular (25,19; Rm 14,12; Hb 4,13; 1Pd 4,5).
O rei é “o senhor dele” (3x: vv. 32.34) e de todos (gr. kyrios, 7x aqui; cf. Rm 14,8), sendo todos os homens, em relação a ele, “servos” (gr. doulos, 5x: vv. 26.27.28.32) e, em relação uns aos outros, “companheiros de servidão” (gr. syndoulos, “conservo”, 4x: vv. 28.29.31.33; cf. Cl 1,7; 4,7; Ap 6,11; 19,10; 22,9), ou seja, “irmãos” (vv. 21.35; 23,8).
- v. 24. Ao começar a acertá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.
Logo no início trazem-lhe um servo com uma dívida astronómica: 10.000 talentos. Um talento (he. kikkar) pesava cerca de 35 kg, equivalendo um talento de prata a 6.000 denários. Sendo um denário o valor da jorna diária (20,2), dez mil talentos de prata (350 toneladas: 1Cr 29,7.4; 22,14) equivaliam a 60 milhões de jornas, uns 204 mil anos de trabalho. Sendo a época em que Jesus fala entre os anos 3787-3790 após a criação do mundo, segundo a contagem judaica (27-30 d.C.), a quantia representa uma dívida cujo valor se estendia por um período 53 vezes superior ao da criação do ser humano sobre a terra.
Claro que Jesus fala de “dívidas” (6,12), ou seja, não só pecados, mas também de faltas. A quantia simboliza assim a “dívida” da humanidade pecadora para com Deus, “dívida” que nenhum ser humano por si só é capaz de pagar (cf. Sl 49,7s) e da qual só Deus o pode resgatar (cf. Sl 130,7s; Is 41,14).
- v. 25. Como ele não tinha com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto tinha para que assim fosse paga a dívida.
“Não tendo com que pagar”, “o senhor”, que era rei (v. 23), sentenciou que aquele servo fosse vendido com toda a sua família e todos os seus bens “para que assim fosse paga a dívida”. Na Antiguidade as dívidas pagavam-se através da venda dos bens e da escravidão (cf. Ex 22,2; Lv 25,10.39; Jz 10,7; Is 50,1; Fl.Jos. Ant. 16,1,1). Mas o valor recebido, apesar de incluir o servo, toda a sua família e bens, fica ainda muito aquém da dívida.
- v. 26. Então o servo, caindo, prostrou-se diante dele, dizendo: ‘Tem paciência comigo e tudo te pagarei’.
O servo, então, prostrado (como que em oração: 2,2.8.11; 8,2; 9,13; 14,33; 15,25; 20,20; 28,9.17), implora ao “seu senhor” que tenha paciência e promete-lhe fazer o que todos logo sabem ser impossível: “pagar tudo”.
- v. 27. Enchendo-se de compaixão, o senhor daquele servo deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida.
Surpreendentemente, “o senhor daquele servo” (24,50) “encheu-se de compaixão” (gr. splanknízômai: 9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Lc 15,20) e sem nada exigir, nem nada ter recebido do servo (cf. Is 45,13), além da sua súplica mal alinhavada, perdoa-lhe tudo e deixa-o ir em liberdade (Sl 103,3; Sb 12,16.; Lc 7,42). O exagero da dívida serve para pôr em relevo a imensidão da misericórdia deste rei “humano” e “senhor”, imagem de Deus (Sb 12,18-19), que quer perdoar à humanidade o seu pecado, perdão este que se traduz no perdão a cada um dos homens.
- v. 28. Mas, ao sair, aquele servo encontrou um outro servo, seu companheiro, que lhe devia cem denários. Agarrando-o, começou a estrangulá-lo, dizendo: ‘Paga o que deves’.
Ao ato do senhor, contrapõe-se a atitude do servo, que, tendo experimentado a infinita misericórdia daquele, se recusa, mal sai em liberdade, a perdoar “a um outro servo, seu companheiro” (gr. syndoulos: “conservo”: 24,49; Rm 13,7) que lhe devia 100 denários (uns três meses e meio de ordenado), quantia 600.000 vezes inferior à sua dívida. Agarra-o e começa a esganá-lo, exigindo o pagamento imediato da dívida (cf. Rm 13,7).
- v. 29. Então o companheiro, caindo, suplicava-lhe, dizendo: ‘Tem paciência comigo e pagar-te-ei’.
Apesar do pedido do seu colega, semelhante ao seu, mas muito mais verdadeiro e realista (v. 26), de ter paciência e aguardar um pouco, pois logo lhe pagará (não diz “tudo” de uma vez)…
- v. 30. Mas ele não queria; foi antes lançá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.
…o servo não acede e quase lhe tira a hipótese de o fazer, mandando-o prender.
- v. 31. Ora, os seus companheiros, vendo o que acontecera, ficaram muito contristados e foram contar ao seu senhor tudo o que acontecera.
Perante isto, os seus companheiros ficam profundamente contristados (gr. lypéô, Mt, 6x: cf. Rm 14,15; 2Cor 7,9; Ef 4,30) e vão contar “ao seu senhor”.
- v. 32, Então, o senhor dele, chamando-o a si, diz-lhe: ‘Servo mau, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste.
“O senhor” manda chamar aquele servo e repreende-o.
- v. 33. Não era necessário também tu teres misericórdia do outro servo, teu companheiro, como eu tive misericórdia de ti?’
"O senhor" dá então a chave da parábola: “não era necessário também tu teres misericórdia do teu companheiro, como eu tive misericórdia de ti?” “Ser necessário” (gr. deî, Mt, 8x) é um verbo que noutros contextos aponta uma necessidade teológica, a vontade de Deus expressa na Escritura (16,21; 26,54) ou seja, ter misericórdia do irmão e perdoar sempre, como Deus o faz (5,7; 1Jo 4,11).
- v. 34. E, indignado, o senhor dele entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que devia.
“Indignado” (22,7), “o senhor” mostra que quem não perdoar como o primeiro “servo mau” (v. 32), ficará na prisão (do não-perdão), atormentado por “verdugos” (sofrimentos), até ter pago (perdoado) tudo (5,25s).
- v. 35. Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão, dos vossos corações».
v. 35: cf. 6,14s; 7,2p; Mc 11,26.
A parábola desperta-nos para a misericórdia de Deus que, embora seja infinita, depende de quem a recebe. O perdão de Deus é gratuito, infinito, total; mas para o receber, aquele que recebeu a remissão dos pecados, deve por sua vez perdoar o próximo tal como Deus o perdoou (6,12; Cl 3,13). Existe uma relação entre o perdão que se dá e o perdão que se recebe: Deus perdoa sempre, mas só recebe o seu perdão quem se dispõe a perdoar ao seu próximo como Ele o faz.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Perante uma falha dum irmão (por pouco importante que seja), sinto-me ofendido e indignada, assumo a postura da vítima injustiçada, lesada e magoada? Ganho-lhe ódio, tomo atitudes de vingança ou de desforra para com ele? Julgo-o, falo mal dele e difamo-o? Ou perdoo-o como Cristo?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 103,1-4.9-12 (R. cf. 8)
Refrão: O Senhor é clemente e compassivo, cheio de misericórdia para com todos.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios. R.
Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia. R.
Não está sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas. R.
Como a distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus, Criador e guia de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)
PB (para sugestões, perguntas ou correções, p.f. contactar: