Mater mitis, sed viri nescia, carmelitis esto propitia. Stella maris!

Novena de Nossa Senhora do Carmo 2026 – 4º dia, 10 de julho


Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”

Dia 4 "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra"
 (Mt 5,5)

Continuamos a contemplar o puríssimo e Imaculado Coração de Maria à luz das bem-aventuranças, para o conhecermos como ele realmente é, dele aprendermos a ser discípulos de Jesus e o tomarmos como refúgio e caminho de santidade, como Nossa Senhora prometeu à Ir. Lúcia na Cova da Iria, no dia 13 de junho de 1917: "O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus" (Memórias 1, 175). Ele não é o caminho que leva a Deus: esse é só Jesus, "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6); mas é o caminho que nos conduz até Deus, ou seja, aquele que nos vai chamando, orientando, guiando e incitando por palavras, exemplos e moções, a melhor e mais de perto seguirmos Jesus, vivendo em seu perene obséquio, segundo o Evangelho, imbuídos da espiritualidade carmelita. S. Paulo instruía Timóteo: "Toma como modelo as sãs palavras que de mim ouviste, juntamente com fé e com o amor que está em Cristo Jesus" (2Tm 1,13). E exortava os filipenses: "O que aprendestes e herdastes, o que ouvistes e observastes em mim, isso praticai" (Fl 4,9). É a isso que nós somos exortados a fazer em relação à Virgem Maria. Melhor exemplo e modelo não podemos ter, certos de que se o fizermos, não erramos. Não foi o que Jesus fez até deixar a sua casa de Nazaré? Se isso foi tão agradável a Deus e por Ele querido (cf. Ex 20,12; Lc 2,51), tão bom, agradável, necessário e útil a Jesus (cf. Lc 2,51), que assim "cresceu em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens" (Lc 2,52), quanto mais não o será para nós, pobres pecadores, tão ignorantes, fracos e inconstantes em tudo o que se refere a seguir o caminho de Deus?.

A terceira bem-aventurança, "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (Mt 5,5), é um desdobramento das duas primeiras: o que é a pobreza em espírito, a humildade de coração, em relação a Deus, é-o a mansidão em relação ao próximo e a si mesmo; a consolação que recebem de Deus os que choram, para com ela consolar os que são atribulados, só se transforma em verdadeira consolação, para si mesmos e para os outros, através da mansidão.

"Bem-aventurados os mansos"! Quem são mansos? Manso significa literalmente brando, dócil, meigo, benigno, sereno, humilde, gentil, sem violência. Mansos são aqueles que são intimamente brandoshumildes, verdadeiros, em relação a si mesmos (Sir 10,28) e humildes, brandos, verdadeiros, em relação ao próximo, aos outros (Sir 3,17; 4,8; 1Pd 3,4s). A este propósito afirma S. João da Cruz: “manso é o que sabe suportar o próximo e suportar-se a si mesmo” (D 173).

Onde aparece a mansidão? Explica o Papa Francisco: "A mansidão manifesta-se em momentos de conflito, vê-se pela forma como se reage a uma situação hostil. Qualquer um pode parecer manso quando tudo está calmo, mas como reage “sob pressão” se for atacado, ofendido, agredido?"[1]

É aí, nessas ocasiões, que se conhece quem é realmente manso e se aprende a verdadeira mansidão, aquela de que Jesus fala. Mansos são, assim, os oprimidos que, embora sem se resignar, suportam a injustiça sem se deixar levar pela ira, por sentimentos de ódio, nem por desejos de vingança. São aqueles que não pagam o mal com o mal, não alimentam o rancor, nem guardam ressentimento, mas constroem a paz, porque se refugiam no Senhor e só d'Ele esperam a salvação (Sf 3,12).

A mansidão é fruto do Espírito Santo e nasce do amor (1Cor 4,21; Gl 5,23). Diz S. João da Cruz: “a alma enamorada é alma branda, mansa, humilde e paciente” (D 28).

Juntamente com a humildade, a mansidão é o traço mais característico do Coração de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e Eu vos darei descanso. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,28-29). É a mansidão que Jesus quer que nós dele aprendamos, todos os dias, até ao fim da nossa vida sobre a terra; é a mansidão que Ele quer todos possam encontrar nos seus discípulos, como Ele próprio recomenda aos apóstolos ao enviá-los em missão: “Eis que vos envio como ovelhas entre lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16).

Como é importante a mansidão! Ela é a porta que nos leva ao coração de Cristo, como nos lembra S. João da Cruz: “a Cristo só se vai pela mansidão e pela humildade” (D 174). Ela é também a única força que tem o poder de abrir a porta dos corações dos que se fazem nossos inimigos, dos que nos odeiam, dos perseguidores.

Demonstrou-o bem S. Tito Bransdma que, estando prisioneio no campo de concentração de Dachau, em 1942, depois de múltiplos sofrimentos, entre eles o de de ter servido como cobaia para experiências "médicas" e químicas, disse à enfermeira que lhe veio dar na veia a injeção letal de fenol: "Que se passa consigo hoje? Pobre moça, vou rezar muito por si". E, depois, pegando no seu terço, a única coisa que possuía, ofereceu-lho, dizendo: "É para rezar". A mulher disse-lhe então que não sabia rezar. Ele respondeu-lhe: “Mesmo que não saiba rezar, poderá dizer pelo menos a última parte: rogai por nós, pecadores”. A mulher ficou tão impressionada, que mais tarde se converteu e quis estar presente na beatificação do Fr. Tito Brandsma, dia 3 de novembro de 1985, tendo dado por escrito o seu extenso e comovente testemunho.

Este exemplo, ilustra como é verdadeira a promessa de Jesus: "Eles herdarão a terra", ou seja: não conquistarão a terra, os homens, com a guerra, a força ou a violência, mas recebê-la-ão, possui-los-ão como um dom, que a todos liberta e devolve a verdadeira dignidade. Neste sentido, esta bem-aventurança, a terceira, está em íntima conexão com a sétima: "Bem-aventurados os artífices da paz, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9).

O puríssimo Coração de Maria, banhado e santificado pelo Espírito Santo desde a sua Imaculada Conceição, é o coração mais semelhante ao Coração manso e humilde de Jesus. Por isso, a Igreja a designa no hino Ave, Maris Stella, e o Carmelo a invoca na sequência Flos Carmeli, como Mater mitis, “Mãe mansa”.

Maria foi mansa, quando apareceu grávida diante de José, que pensava repudiá-la secretamente. Foi mansa quando se dirigiu para Belém, obedecendo ao ímpio mandato de Quirino, que provocou revoltas e mortes na Galileia (cf. At 5,37). Foi mansa em Belém, quando lá chegou e não encontrou pousada, tendo de dar à luz o seu Filho, o Salvador do mundo, numa manjedoura. Foi mansa quando teve de fugir para o Egito, quando dele voltou após a morte de Herodos e quando depois teve de regressar a Nazaré, com receio de Herodes Arquelau. Foi mansa em Nazaré, onde as pessoas a desprezavam por ter ficado grávida antes do tempo, como mostra o facto de, quando Jesus lá ter voltado no início do seu ministério, nem sequer terem pronunciado o nome dele – acrescentando, como era habitual, o apelido, o nome do seu pai, chamando-o, neste caso: "Jesus, filho de José" (aram. Ieshuah bar-Ioseph) –, mas designaram-no, em tom de desprezo, mencionando apenas o nome da mãe – uma forma subtil de os injuriar, a Ele e à Mãe –: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria?" (Mc 6,3). De forma heróica e singular, Maria foi mansa, tal como o seu Filho, na hora da paixão, quando permaneceu de pé, junto à cruz, como mansa cordeira, que não abriu a boca (cf. Is 53,7; Jr 11,19), unindo-se à oblação do seu Filho, que a Si mesmo se oferecia como o imaculado Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

O Papa Francisco, citando S. João da Cruz, revela-nos a fonte desta mansidão: "O santo não gasta as suas energias a lamentar-se dos erros alheios, é capaz de guardar silêncio sobre os defeitos dos seus irmãos e evita a violência verbal que destrói e maltrata, porque não se julga digno de ser duro com os outros, pois os considera superiores a si mesmo (cf. Flp 2, 3). Não nos faz bem olhar com altivez, assumir o papel de juízes sem piedade, considerar os outros como indignos e pretender continuamente dar lições. Esta é uma forma subtil de violência.[2] São João da Cruz propunha outra coisa: «mostra-te sempre mais propenso a ser ensinado por todos do que a querer ensinar quem é inferior a todos» (Caut. 13). E acrescentava um conselho para afastar o demónio: «alegrando-te com o bem dos outros como se fosse teu e procurando sinceramente que estes sejam preferidos a ti em todas as coisas, assim vencerás o mal com o bem, afastarás o demónio para longe e alegrarás o coração. Procura exercitá-lo sobretudo com aqueles que te são menos simpáticos. E sabe que, se não te exercitares neste campo, não chegarás à verdadeira caridade nem tirarás proveito dela» (Caut. 13)" (AE 116-117). Repare-se bem no que o Papa diz: sem a mansidão é impossível chegar à verdadeira caridade, sem ela é impossível tirar proveito da caridade. Tão importante é a mansidão!

De facto, mansidão é o outro nome da caridade e da humildade, o modo como elas se traduzem, a forma como se manifestam no relacionamento do discípulo de Cristo consigo mesmo e com o próximo. Como diz S. Teresinha, a mansidão, marca da caridade perfeita, “consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se surpreender com as suas fraquezas e em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que os vemos praticar” (MC 12r: Obras 257).

“Reagir com humilde mansidão: isto é santidade” (AE 74).

Revisão de vida. Interroguemo-nos: como reajo eu às palavras desa­gradáveis ou aos gestos inesperados com que os outros me ofendem? Com mansidão e humildade, ou com brusquidão e aspereza?

Ação. Maria ensina-nos a vencer os conflitos pela caridade. Procuremos cada dia responder, pelo menos uma vez, com uma palavra ou um gesto benigno, agradável, a quem se dirige a mim de uma forma ofensiva e desagradável.

Oração. Pai, nós te glorificamos pela beleza inefável que resplan­dece na Bem-aventurada Virgem Maria, mansa cordeira, humilde escrava tua. Que com ela e santo Elias o nosso coração se abra ao sopro inefável do teu Espírito e seja dócil à tua santa vontade. Por Cristo, nosso Senhor.

Maria, desde o início, a tua impensável e inesperada maternidade foi incómoda para muitos, mas tu nunca te queixaste. Com o teu silêncio e bondade ultrapassaste todos os obstáculos e compreen­deste o olhar dos pequeninos e dos humildes. Ajuda-nos a ser mansos como tu, humildes como Jesus Cristo, teu Filho.

℣. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
℟. Roga por nós, ajuda-nos a seguir fielmente o teu Filho.

______________________________

[1] Papa Francisco, Catequeses sobre as bem-aventuranças, 4: Audiência geral de 19.02.2020.

[2] Acrescenta o Papa: “Há muitas formas de bulismo [ bullying] que, embora pareçam elegantes ou respeitosas e até mesmo muito espirituais, provocam muito sofrimento na autoestima dos outros". Bulismo que encontramos não só na escola, mas também na família, em grupos, comunidades, em relações sociais, não só nacionais (partidos políticos, sindicados, meios de comunicação social, movimentos, associações), como também internacionais.