
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (4,1-11)
4,1Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. 2Tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim, sentiu fome. 3Aproximando-se, o tentador disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pães». 4Jesus, porém, respondeu: «Está escrito: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». 5Então o diabo leva‑o consigo à Cidade Santa, colocou-o no pináculo do Templo 6e diz-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: “Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito e levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra”». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”». 8De novo o diabo leva-o consigo a um monte muito alto, mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares». 10Responde-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”». 11Então o diabo deixa-o e eis que anjos se aproximaram e o serviam.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
O presente texto, as tentações de Jesus no deserto, compõe-se de cinco partes: a introdução (vv. 1-2), as três tentações de Jesus (1ª: vv. 3-4; 2ª: 5-7; 3ª: 8-10) e a conclusão (v. 11). As tentações seguem o mesmo esquema: a) o cenário inicial; b) a tentação de Satanás; c) e a resposta de Jesus, a qual consiste fundamentalmente na citação de uma passagem da Sagrada Escritura, por Ele introduzida com a fórmula: “Está escrito” (gr. gégraptai: vv. 4.7.10; Mt, 9x). O paralelismo sintético das tentações é quebrado em dois pontos: na citação da Sagrada Escritura, introduzida pelo diabo na segunda tentação (v. 6); e na substituição da oração subordinada condicional, “Se és Filho de Deus”, pela proposta do diabo: “se, prostrado, me adorares”, na terceira tentação, onde, além disso, a oração principal não é um imperativo, mas uma promessa (v. 9).
- v. 1. Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo.
(vv. 1-11: Mc 1,12s; Lc 4,1-13). “Então”: Mateus prefere usar o advérbio tóte, onde Marcos usa habitualmente o advérbio euthús ("logo", “imediatamente”). Logo após a sua unção pelo Espírito Santo, durante a qual foi investido messianicamente e proclamado “Filho amado” pelo Pai, após o seu batismo no rio Jordão por João (3,16s), Jesus é “conduzido” (gr. anagô): este verbo evoca a peregrinação de Israel através do deserto rumo à Terra Prometida após o êxodo do Egito (Gn 50,24; Ex 33,12; Nm 20,4s; Js 24,17; Sl 78,52; Os 13,4; Jr 2,6cf. Dt 8,15). Está na voz passiva, na qual é usado na navegação com o sentido de “navegar” impelido pelo vento (At 13,13; 16,11), neste caso, “pelo Espírito” (sem o adjetivo: 12,18.31), ou seja, o Espírito Santo (3,11) de Deus (3,16), tema este que também remete ao êxodo (Is 63,11.14; cf. Rm 8,14; Gl 5,18). Mateus indica-nos que, tal como a conceção de Jesus (1,18.20), também a vida e ministério de Jesus são conduzidos pelo Espírito Santo, que habita nele e soberanamente o dirige, falando (cf. 10,20) e agindo através dele (12,18.28.31-32).
“Ao deserto”: no AT, o deserto é o lugar da tentação e da prova, para onde Deus conduziu o seu povo após a saída do Egito (Dt 8,2.16; cf. Ex 15,25; 16,4). É para aí que também Jesus é conduzido pelo Espírito logo depois de ter sido ungido por Ele após o seu batismo no rio Jordão. Ora, o batismo é um tema que também evoca o êxodo (cf. 1Cor 10,2: “[Todos os nossos pais] foram batizados com Moisés na nuvem e no mar [Vermelho]).
O tema do “deserto” introduz também o do novo êxodo que será inaugurado pelo Messias: “até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto; então, o deserto tornar-se-á num campo fértil [he. Karmel] e o campo fértil será reputado como um bosque” (Is 32,15). É no deserto que se inaugurará um novo caminho (Is 35,1.6-10; 43,19), tendo sidoi aí que João Batista começou a pregar (3,1.3), cumprindo-se desta forma a promessa de Deus: “Uma voz grita no deserto: preparai o caminho do Senhor” (Is 40,3). Deserto este que seria transformado por Deus num Éden, e a estepe no jardim do Senhor (Is 51,3), tema este que remete para o primitivo estado de comunhão do homem com Deus (Gn 2,8), que o Messias deveria restaurar (cf. Is 11,6-9).
O deserto é ainda o lugar do encontro de Deus com o seu povo e do seu noivado com ele (Os 11,1-4; Jr 2,2.6; Dt 1,31; 2,7), É para aí que o Espírito conduz Jesus, o novo Israel, para Deus lhe falar ao coração (Os 2,16; “Eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração”).
Jesus vai assim para o deserto, conduzido pelo Espírito, “para ser tentado” como novo Israel para, obedecendo, recapitular a história do Israel segundo a carne que, desobedecendo, “no deserto tentou” a Deus “dez vezes” (Nm 14,22).
“Pelo diabo”: o diabo (gr. diábolos, “o que separa”, “o que divide”: Mt, 6x: 4x aqui; 13,39; 25,41) é a tradução habitual em grego do nome Satanás nos LXX (cf. v. 10) O diabo é o tentador (v. 3), o anjo mau (cf. 2Pd 2,4; Jd 1,6) que tentou o homem no paraíso (Sb 2,24), levando-o a desconfiar de Deus, a não acreditar na sua Palavra e a desobedecer ao seu mandamento, pecando. Jesus é “tentado” pelo diabo, que põe à prova a autenticidade da sua obediência filial, provando pela sua vitória sobre o maligno que ama a Deus, confia n'Ele e segue o seu caminho, na obediência à sua Palavra (cf. Dt 13,3-4; Jz 2,22), recapitulando também, deste modo, como novo Adão, a história do primeiro “Adão, filho de Deus” (Lc 3,38) – ou seja, a história da humanidade desde os seus começos – o qual, logo no princípio, pecou.
- v. 2. Tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim, sentiu fome.
Jesus jejuou “durante quarenta dias e quarenta noites”. “Quarenta” (daí o nome Quaresma, vindo do latim quadragesima [die], "quadragésimo [dia]") designa no AT uma geração (Sl 95,10), ou seja, a vida humana, tempo de prova e de conversão (cf. Jb 7,1; Jn 3,4). Evoca o tempo que, “sem comer pão, nem beber água”, Moisés passou por duas vezes no Sinai (primeiro para receber a Lei: Ex 24,18; Dt 9,9; depois para interceder pelo povo e renovar a Aliança: Ex 34,28) e Elias caminhou no deserto até ao Horeb (o monte Sinai: 1Rs 19,8), simbolizando “cada dia um ano” (Nm 14,34; Ez 4,6) dos que Israel caminhou pelo deserto e foi “tentado” para saber o que tinha no seu coração (cf. Dt 8,2). O número "quarenta" é, pois, simbólico, indicando que as tentações de Jesus não foram algo que Ele só teve aqui, nesta ocasião, no deserto, mas foram as tentações que o acompanharam ao longo de toda a sua existência e ministério (cf. 16,1-4).
Diz-se “quarenta dias e quarenta noites” porque normalmente o jejum fazia-se apenas durante o dia, desde manhã até à noite (cf. Jz 20,26; 1Sm 14,24; 2Sm 1,12; Is 58,5). Neste caso, indica-se que o jejum de Jesus foi ininterrupto.
“Por fim, sentiu fome”. De Moisés e Elias não se tinha dito que após os quarenta dias e as quarenta noites, sem comer nem beber, tivessem sentido sede ou fome, mas de Jesus: 1) não se diz que não tenha bebido, embora se subentenda, porque o jejum era normalmente de comida e de bebida (cf. Jn 3,5.7); e 2) acrescenta-se que “sentiu fome”. Sublinha-se, desta forma, que Jesus, o Filho de Deus, assumiu a nossa condição humana para nela experimentar a nossa fraqueza e ser "tentado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado” (Hb 4,15), a fim de na nossa fraqueza – mais debilitada ainda pelo facto de 1) Jesus estar a ser tentado no deserto (um lugar “terrível”: cf. Dt 1,19; 2,7 LXX; 8,15; Is 21,1) e não no paraíso, como o nosso primeiro pai, 2) no término de um jejum tão prolongado –, vencer, pela graça de Deus, o diabo (2Cor 12,9) e assim poder socorrer aqueles que são tentados como Ele (Hb 2,14-18), de modo que, n'Ele, possam vencer a tentação (cf. 6,13, o Pai-nosso: "e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Maligno").
As tentações de Jesus são, pois, as tentações fundamentais de cada ser humano. Atesta-o o facto de cada tentação de Jesus incidir sobre uma das três coordenadas fundamentais da vida do ser humano e sobre cada uma das três formas com que o homem pode pecar contra o primeiro mandamento, tal como o interpretavam os rabinos: “Amarás o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, isto é, com as tuas duas inclinações, a boa e a má; de toda a tua alma, quer dizer, também quando te tiram a vida; com todas as tuas forças, quer dizer, com todas as tuas riquezas” (mBer 9,5), seguindo as tentações aqui, em Mateus, a ordem do primeiro mandamento: “coração”, “alma” (gr. psyché, “vida”) e “forças” (Dt 6,4-5).
- v. 3. Aproximando-se, o tentador disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pães».
A primeira tentação, a do pão, é a mais básica do ser humano (cf. Ex 16,3). Refere-se à relação do homem com a realidade, que ele quer possuir e manipular a seu gosto para satisfazer os seus apetites, ignorando o grito e as necessidades dos pobres. A designação “o tentador” (1Ts 3,5) remete para o princípio, para a serpente que tentou o primeiro homem e o induziu a pecar (cf. Gn 3,1-5).
“Se és Filho de Deus”: por ser um anjo decaído, o diabo não pode vez a Deus. Mas como tinha ouvido a voz do Pai no batismo de Jesus a declarar: “Este é o meu Filho amado” (3,17), “aproxima-se” de Jesus (16,1; 19,3) e tenta minar a sua confiança em Deus, dizendo-lhe que se é verdade que é “Filho de Deus” (26,63; 27,40.43), não precisa de passar por privações, mas deve demonstrar que é o Messias, o “Filho de Deus”, capaz de saciar o seu povo com as riquezas das nações (cf. Is 60,5-61,6) e de salvar a humanidade, satisfazendo as suas necessidades materiais, simbolizadas pelo pão (cf. Jo 6,15), fazendo um milagre: transformar aquelas pedras em pães.
“Filho de Deus” não indica necessariamente aqui a filiação divina natural de Jesus. “Filho de Deus” era um título com que no AT eram designados os anjos (Jb 1,6), o povo eleito (Ex 4,22; Os 11,1; Sb 18,13), os israelitas (Dt 14,1; Os 2,1), os seus juízes (Sl 82,6), o rei (1Cr 28,6), o justo (Sb 2,16.18) e de modo muito particular o Messias (2Sm 7,14; 1Cr 17,13; Sl 2,7; 89,27). É nesta qualidade que o interpela (daí o diabo ter ousado fazer a terceira tentação).
“Pedras” e “pães” estão no plural, indicando que Jesus que não precisa de passar fome, mas que deve comer e pode fartar-se à vontade.
- v. 4. Jesus, porém, respondeu: «Está escrito: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”».
Jesus responde com Dt 8,3, afirmando que o verdadeiro alimento do homem é fazer a vontade do Pai (Jo 4,34), que se manifesta em “toda a Palavra” que sai da Sua boca. “Palavra” (he. dabar) no AT significa também “realidade”, “acontecimento”. Jesus apresenta assim o programa da sua vida: fazer a vontade do Pai, pondo em prática e realizando a sua Palavra. Palavra que Deus transmite não apenas através da Bíblia, mas também das pessoas, da realidade, dos acontecimentos e da história. Jesus mostra que Deus é o único capaz de saciar o coração humano: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e tudo vos será dado por acréscimo” (6,33).
- v. 5. Então o diabo leva‑o consigo à Cidade Santa, colocou-o no pináculo do Templo.
A segunda tentação, a dos milagres (ou “sinais”), é a principal tentação de Israel (12,38; 16,1; 1Cor 1,22; Nm 14,22). Incide sobre a relação do homem com Deus.
Nesta tentação muda-se subitamente de cenário: já não estamos no deserto, mas na “Cidade Santa”, Jerusalém (no NT, fora Ap 11,2, esta designação, aplicada à Jerusalém terrena, só aparece em Mt, 2x: 27,43; cf. Ne 11,1; Is 48,2; 52,1) para onde o diabo leva Jesus, colocando-o sobre o pináculo do Templo, o ponto mais alto das muralhas do Templo, no extremo SE do átrio dos gentios. Subentende-se que isto se passa numa visão (cf. At 10,10-16), em que a possibilidade de Jesus pôr em perigo, por iniciativa pessoal, a sua própria vida – presuntamente, como insinua o diabo, “por Deus” –, é testada de forma real.
- v. 6. E diz-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: “Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito e levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra”».
Aí, sobre o pináculo do Templo, o diabo cita a Jesus o Sl 91,11-12 e diz-lhe que se é Filho de Deus, deve tomar a iniciativa de se atirar dali abaixo, para que Deus demonstre assim que é seu Pai e que é fiel à sua palavra (cf. 5,18), cumprindo-a em seu favor (o verbo “dar” está no futuro), pondo-se ao seu serviço , libertando-o de todos os obstáculos e sofrimentos e assegurando-lhe o êxito da sua missão através de sinais portentosos (cf. 27,40.42), que mostrem a todos que Ele é o Messias, capaz de resolver todos os problemas da humanidade, mesmo os provocados pela irresponsabilidade pessoal de cada um.
- v. 7. Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”».
“Também está escrito”: a vontade de Deus, expressa na Sagrada Escritura, não se resume a uma só passagem, mas deve ser deduzida do conjunto de tudo aquilo que Deus disse e revelou acerca dela. Jesus completa, pois, o texto que o diabo citou, contrapondo à promessa do Sl 91, o mandamento de Dt 6,16, afirmando que a fé não consiste em pôr Deus ao serviço do homem, mas em o homem se pôr ao serviço de Deus, entregando-se a Ele e deixando-se conduzir por Ele na fé e na obediência à sua vontade, que se exprime também através da realidade, não sendo Jesus a impor o seu caminho a Deus, que nada mais deveria fazer senão garantir que tudo se passasse segundo os planos e maneira de ver humanos de Jesus, mas sendo Jesus a submeter-se, confiada e filialmente, ao desígnio do Pai, que passa pelos acontecimentos e se reflete na história (cf. 26,53-54).
- v. 8. De novo o diabo leva-o consigo a um monte muito alto, mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória.
A terceira tentação, a das riquezas e do poder – uma constante do ser humano e das nações de todo o mundo ao longo dos tempos –, incide sobre a relação do homem com os outros. Desta vez o diabo não apela à condição filial de Jesus; pelo contrário: incita-o a realizar-se à margem de Deus, sobrepondo-se a todos, de modo chegar ao topo deste mundo, pondo os outros ao seu serviço. O diabo “leva-o consigo a um monte muito alto”, ou seja, leva-o numa visão (Ez 40,2: “Nas visões de Deus, [o anjo] levou-me à terra de Israel e pôs-me sobre um monte muito alto”) – donde se podia avistar toda a terra (2Bar 76,3) e “mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória”, designando aqui "glória" as riquezas desses reinos (Is 66,12; Dn 7,14 LXX).
- v. 9. E disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares».
Insinuando-se perfidamente como o “dono disto tudo”, senhor de todos os reinos e riquezas deste mundo (cf. Jo 12,31; Ap 12,9; 13,7s; LvRab 18,3,118a), numa paródia do único e verdadeiro Senhor e dominador do universo, Deus (Dt 10,14; Gn 14,19; Ex 19,5; Sl 24,1; Ne 9,6; cf. Jr 27,5), o diabo muda de tática e não começa por apelar a Jesus o facto de Ele ser Filho de Deus. Porquê? Porque quer que Jesus ponha de lado e esqueça a sua filiação divina de um Deus que, afinal, não o liberta da miséria, não o exalta aos olhos de todos, nem lhe assegurou o poder sobre tudo logo desde o princípio, aquando a sua investidura messiânica após o seu batismo no rio Jordão, como prometia o Sl 2,7-8: “Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. Pede-me e dar-te-ei as nações por herança e os confins da terra para tua possessão” – promessa esta que só se realizará, segundo a vontade do Pai, como depois se verá (cf. 16,21; 17,22-23; 20,18-19), de uma forma que o diabo, nem ninguém, podia saber ou imaginar, ou seja, através da paixão, morte e ressurreição de Jesus (28,18; At 13,32-33).
No fundo, o que o diabo sugere a Jesus é que Ele não perca tempo e faça já o que o primeiro homem fez logo no princípio, quando, seduzido pela serpente, caiu em tentação e pecou: acreditar mais nele, o diabo, do que em Deus e fazer a sua vontade, em vez da de Deus, pretendendo com isso, tornar-se igual a Deus (Gn 3,5), usurpando o seu lugar (cf. Gn 11,4; Fl 2,6).
Só que desta vez quem pretende usurpar o lugar do Deus único, vivo e verdadeiro, é o diabo, prometendo a Jesus que lhe dará todo o poder e riquezas terrenas, se Ele, prostrado, fizer em relação a ele aquilo que os magos, representando todos os gentios, tinham feito a Jesus, logo após o seu nascimento: prostrar-se diante dele e adorá-lo (2,11). Prometendo o diabo dar-lhe tudo, se Ele o fizer. Ou seja: se Jesus é o Messias deve garantir e alcançar o seu poder, domínio e triunfo sobre todos os homens, povos e nações em toda a toda a terra, pondo-os ao seu serviço e exigindo deles o culto idolátrico da sua pessoa, como faziam os monarcas da Antiguidade (cf. Jdt 3,8; Ez 28,2; Dn 3,5), culto esse que o diabo, como interessado final, reclama – também de Jesus – para si (cf. Is 14,13s; 2Ts 2,4). Desta forma, Jesus alcançaria o que lhe era devido, fazendo a sua vontade, sem ter que se sujeitar à vontade de um Deus que o conduz por caminhos impensáveis e demora tanto a responder – resposta que só dará a Jesus, apesar de ser seu Filho, após a sua paixão e morte na cruz (cf. Hb 5,7-9).
É a máxima pragmática política de “o fim justifica os meios” (exitus acta probat: Ovídio [†17 d.C.], Heroides 2, 85), tão oposta aos princípios evangélicos (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1759). Uma tentação que será também feita aos cristãos pelos poderes políticos ao longo dos tempos (como o Império Romano e outros), de lhes poupar o sofrimento, as torturas e a vida, prometendo-lhes até riquezas, desde que reneguem a sua fé e rejeitem o seu nome de cristãos, filhos de Deus, prestando-lhes culto a eles (o Imperador ou o rei) e aos seus ídolos, obedecendo à sua vontade e abraçando a sua ideologia (cf. Dn 3,6; 2Ma 7,24).
- v. 10. Responde-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”».
Jesus rejeita todas as propostas de vida e de realização pessoal à margem do Pai e da sua vontade, apelidando de diabólicas todas as tentativas de querer dominar o mundo, comandar sobre os homens e se apropriar das suas riquezas, e invetiva o diabo, designando-o pelo seu nome original hebraico, “Satanás” (“o adversário”: 12,26; 1Cr 21,1; Jb 1,6-12; 2,1-7; Zc 3,1-2; Ap 12,9; 20,212,26), e dando-lhe, pela primeira vez, uma ordem: “Vai-te, Satanás” (gr. hýpage), manifestando deste modo a sua vitória e a sua autoridade sobre ele. Uma invetiva semelhante terá de ouvir Simão Pedro, quando pretender desviar Jesus do desígnio e da vontade do Pai (embora, neste caso, Jesus chame Simão Pedro a retomar de novo o caminho do discipulado e do seguimento dele: “Vai-te para trás de mim, Satanás” (16,23; cf. 4,19).
Ao mesmo tempo, Jesus contrapõe a Satanás Dt 6,13; 10,20, acrescentando-lhe, porém, no início, o mandamento, enunciado aqui pela primeira vez de forma positiva, de “adorar a Deus” (cf. Jo 4,24; Ap 14,7), e não meramente negativa – ou seja, como até então, no AT, como interdição de prestar culto a outros deuses (Ex 20,5; 23,24; Dt 5,9; Sl 81,10).
Jesus não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pelos homens (cf. 20,25-28), libertando-os do jugo de Satanás e reconduzindo-os ao verdadeiro culto e conhecimento de Deus, na comunhão com Ele. Recusa assim o ídolo do dinheiro (Cl 3,5), raiz de todos os males (1Tm 6,10), pois “ninguém pode servir a dois senhores, Deus e Mamon” (6,24). Só a Deus, o único Deus vivo e verdadeiro, o Senhor de tudo – e a mais nenhum deus ou senhor terreno – se deve adorar e prestar culto, “pois Ele é a tua vida” (Dt 30,20).
Todas as citações que Jesus faz da Sagrada Escritura são do livro do Deuteronómio – o último livro da Lei, que define a relação entre Deus e o homem como amor –, dos capítulos 6-8, onde se fala do culto apenas a Deus e das tentações de Israel no deserto e, depois, na Terra prometida. Jesus mostra assim que o homem nunca poderá realizar-se fora do amor e da vontade do Pai, o único Deus, vivo e verdadeiro.
Jesus vence as tentações do diabo com a força da Palavra de Deus, graças à oração e ao jejum (17,21), ensinando também os seus discípulos a vencer as tentações n'Ele, do mesmo modo que Ele o fez. Para isso, fortificados por elas, é necessário que se deixem conduzir pelo Espírito, sejam humildes (cf. Mq 6,8) e obedeçam com fé, confiança e amor à vontade do Pai, que passa pela história e a realidade, certos de que Ele cuidará de tudo, tudo dispondo sabiamente, com suavidade (cf. Sb 8,1), e fazendo concorrer para o bem daqueles que o amam e seguem (cf. Rm 8,28).
- v. 11. Então o diabo deixa-o e eis que anjos se aproximaram e o serviam.
Jesus é o único ser humano que venceu a prova e a tentação, correspondendo plenamente à vontade do Pai, obedecendo-lhe e amando-o de todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças. Por isso, se o primeiro Adão foi colocado no paraíso, onde, segundo escritos apócrifos da época, era servido por anjos e foi tentado por Satanás (Vida de Adão e Eva 4,8-9; 8,1-2; TNeft 8,4.6), com muito mais razão Jesus, tendo vencido o diabo, recapitulando em si a história do seu povo e a da humanidade, mostrando ao homem o caminho de regresso ao Pai, abrindo-lhe as portas do paraíso e reconduzindo-o à comunhão e familiaridade com Deus, goza da intimidade e união com o Pai, "aproximando-se dele os anjos" para estarem na sua presença "e o servirem" como novo Adão e verdadeiro Filho de Deus (26,53; Hb 1,6; Sl 97,7; Dt 32,43 LXX; cf. 25,31; Dn 7,10).
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Qual é o plano de Deus para mim? Confio nele, acredito no seu amor? Ou prefiro os meus projetos e desejos pessoais?
- Olho apenas para o meu próprio conforto, êxito e poder ou também para os outros? Como posso imitar Jesus e seguir o seu caminho?
- Nesta Quaresma, de que vou jejuar (cf. 1ª tentação), que vou partilhar com os outros (cf. 2ª tentação) e que tempo vou dedicar à oração (cf. 3ª tentação)?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 51,3-6.12-13 (R. cf. 3a)
Refrão: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas. R.
Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos. R.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso Espírito Santo. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Concedei-nos, Deus todo-poderoso, que, pelas práticas anuais do sacramento quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e demos testemunho dele com uma vida digna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.