
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus tem?)
Leitura do Evangelho segundo S. João (3,16-18)
Naquele tempo disse Jesus a Nicodemos: 3,16«De tal modo Deus amou o mundo que deu o seu Filho Unigénito, para que todo aquele que acredita nele não pereça, mas tenha vida eterna. 17Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele. 18Quem acredita nele não é julgado, mas quem não acredita já está julgado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
O texto de hoje, exclusivo de João, pertence à secção introdutória do Quarto Evangelho (1,19-3,36), onde João apresenta Jesus e a sua missão. Faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (gr. “vitória do povo”), um “chefe dos judeus” (v. 1; 7,45.48.50s; 19,39). Ele vai ter com Jesus “de noite”, porque não se quer comprometer publicamente com o rabbi (v. 2), arriscando a posição social de que gozava. Nicodemos representa aqueles que, fascinados por Jesus, querem aproximar-se dele, mas não o fazem abertamente, porque, movidos apenas por uma fé racional, humana, continuam presos aos seus próprios receios, dúvidas e convenções.
O diálogo entre Jesus e Nicodemos decorre em três etapas. Na primeira (vv. 1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus a partir das suas obras. Mas isso não é suficiente, pois é necessário acreditar que Jesus é o Filho enviado do Pai. Na segunda (vv. 4-8), Jesus declara-lhe que para ver o Reino de Deus é necessário “nascer do alto”, “da água e do Espírito”. Na terceira (vv. 9-21), revela-lhe o plano divino de salvação que se consumará na sua morte. É aqui, na terceira etapa, que se insere o nosso texto.
Depois de ter dito que “é necessário que o Filho do homem seja elevado” (vv. 14-15), referindo-se à sua morte na cruz, Jesus explica a Nicodemos em três passos como é que isso se insere no plano de Deus.
- v. 16. «De tal modo Deus amou o mundo que deu o seu Filho Unigénito, para que todo aquele que acredita nele não pereça, mas tenha vida eterna.
No primeiro passo, Jesus revela o sentido da cruz. Fá-lo condensando nesta pequena frase o ponto central do querigma NT, dando-nos assim a síntese do Quarto Evangelho e a chave fundamental de interpretação da Sagrada Escritura. A entrega de Jesus na cruz é a máxima “ex-pressão” do amor de Deus (gr. agápe), que dá sempre o primeiro passo e toma a iniciativa de ir ao encontro do homem para o salvar (1Jo 4,9-10.19).
“De tal modo” (gr. outôs: 1Jo 4,11) enfatiza o extremo a que chegou o amor de Deus.
“Deus” designa o Pai (15,9).
“Amou” (gr. egápesen: Dt 23,6; 2Sm 12,24; Sl 47,5; 77,68; Ef 2,4-5; 1Jo 4,10s.19): o amor de que Jesus fala – e que é a causa da sua vinda ao mundo e da sua entrega na cruz – é a agápê (gr. “caro”; lat. caritas), o amor por excelência, o amor gratuito, altruísta, benevolente e dedicado, que se dá a si mesmo e de tal modo quer e procura o bem e a felicidade daquele que ama, que tudo faz para que isso seja alcançado, estando disposto a pagar em primeira pessoa "o preço" que isso possa custar, nisso encontrando o seu próprio bem e felicidade. É este amor (que Deus é: 1Jo 4,8.16!) que Jesus revela (15,9) e dá plenamente a conhecer no supremo e inimaginável ato de amor que se consumou na sua morte na cruz.
“O mundo que “deu” (4,10; 13,3; cf. Rm 5,8; 8,32) o seu Filho (1Jo 4,9s). “O mundo” designa a humanidade e neste caso também, por arrastamento, o cosmos, toda a criação. A obra de salvação de Deus levada a cabo por Jesus não se destina apenas ao povo eleito de Deus, a Israel, mas a toda a humanidade, tendo um alcance cósmico (v. 17).
“Deu” (gr. edôken) aparece pela primeira vez no AT no episódio do pecado original: desobedecendo a Deus, a mulher “deu” o fruto proibido ao homem, que o comeu (Gn 3,6.12), introduzindo assim, num aparente gesto de partilha e de amor, o pecado no mundo e, com ele, a morte. É ainda a mesma forma verbal das palavras da instituição da Eucaristia (6,31; Mc 14,22sp). A morte de Jesus por obediência na cruz é o antídoto do pecado: por meio dela Deus dá ao mundo a vida por antonomásia, a vida eterna. Tal é a finalidade do plano salvífico de Deus, da obra de Jesus… e da criação do universo.
“Unigénito” significa “filho único” (Jz 11,34; Tb 3,15; Sl 22,21 LXX; Lc 7,12; 8,42; 9,38; Hb 11,17). Só João no NT aplica este título a Jesus (v. 18; 1,14.18; 1Jo 4,9). Como a expressão “filho de Deus” não tinha sentido transcendente no AT, podendo designar o povo de Deus (Jr 3,19; 31,9; Os 2,1), o seu rei (Sl 2,7; 2Sm 7,14), o justo (Sb 2,18) ou até os juízes (Sl 82,6; cf. Jo 10,34ss), ele aplica este título a Jesus para evitar equívocos: Jesus é o Filho único de Deus, porque é “o único gerado” pelo Pai desde toda a eternidade, sendo da mesma natureza que o Pai e, por isso, Deus (20,28).
A expressão “Filho unigénito” evoca o sacrifício de Isaac (Hb 11,27; cf. Gn 22,16). Deus faz como Abraão, que foi capaz de se desprender do seu único filho para o oferecer. Mas enquanto Deus não deixou que Abraão sacrificasse Isaac, Ele deu o seu Filho, que dá a sua vida para salvar o homem.
“Acreditar em” (gr. pisteuô eis: v. 18) significa entregar-se plena e confiadamente a Jesus como Senhor, para viver unido a Ele, segundo a Sua Palavra, apoiado nela (Mt 14,28s; Lc 5,5). Quem acredita no “Filho unigénito” – ou seja, que Jesus é o Filho de Deus – não perece (6,39; 10,10.28), isto é, não se perde (17,12Mt 15,24; Lc 13,3.5; Jd 1,5), caindo na morte, na condenação eterna (Mt 10,28), mas tem a vida eterna (v. 36; 5,24; 6,47; 1Jo 5,13), que está em Jesus (1,4; 5,26; 1Jo 5,11s), que Ele dá e só Ele pode dar (10,28).
Deus amou o mundo, não apenas (1) enviando-lhe o Seu Filho único, que se fez homem (1,14), (2) mas entregando-o à morte por ele, (3) a fim de lhe dar a vida eterna. Este é o terceiro grande e impensável dom do amor de Deus: “a vida eterna”. A “vida eterna” (Dn 12,2) não é a imortalidade da alma, já conhecida dos gregos (Sr 17,30; Sb 3,4), mas a própria vida divina (Dt 32,40), que Jesus dá àqueles que nele acreditam, pondo a sua morada no homem (1,14; 14,23) através do Espírito Santo (14,17), para que o homem possa viver em Deus e Deus viva nele (14,20; 17,3.26), tornando-o participante da sua vida divina, trinitária.
- v. 17. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele.
No segundo passo, Jesus sublinha a finalidade da Sua vinda ao mundo. O motivo desta não é negativo (cf. 1Sm 16,4; 1Rs 2,13), mas salvífico. Se Deus enviou “o Filho” (com artigo, em sentido absoluto: vv. 35s; 5,19-23.26; 6,40; 8,36; 14,13; 17,1) ao mundo (10,36), é porque ama os homens e os quer salvar. O que determina a ação de Deus é o seu amor e o seu desejo é a salvação do homem.
O objetivo da vinda de Jesus ao mundo como Messias não é, como então se esperava (cf. Is 11,3; 66,16; Jr 25,31; Ml 3,5; 4,3), “para julgar” o homem (12,47; 8,15), condenando-o (8,11; cf. Jn 3,10; 4,2s.11), mas para o salvar (5,34; Lc 19,10), oferecendo a todos, sem exceção (“o mundo”, o kósmos: 1Jo 2,2), a salvação, a vida plena e verdadeira (10,10), a vida eterna. Jesus não veio para salvar apenas o seu povo (11,50ss), mas todos os homens, vivos ou mortos (desde o princípio até ao fim do mundo), bem como toda a criação (Gn 2,1; Rm 8,20s; 2Cor 5,19; Cl 1,20). Tal é a vontade de Deus (12,50). - v. 18. Quem acredita nele não é julgado, mas quem não acredita já está julgado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».
Perante a oferta de salvação de Deus, o homem tem de optar. É o terceiro passo. Há duas opções: escolher o caminho da vida, a salvação, ou o caminho da morte, a condenação. Ambos se decidem desde já, a partir de agora, deixando ao homem a liberdade da escolha, na fé.
Quem aceita o dom de Deus e a Ele adere pela fé, acreditando em Jesus e na sua Palavra, recebe pelo Espírito Santo uma vida nova, a vida eterna, e é salvo (5,24; Rm 8,1).
Quem não acredita e prefere continuar escravo do egoísmo e da autossuficiência, exclui-se da salvação. “Não acreditou” está no perfeito, indicando uma ação consciente e continuada. Quem vive assim, “já está julgado” (Mc 16,16), pois vive segundo a lógica do primeiro homem, que rejeitou Deus e dele fugiu, incorrendo na condenação: a morte (Gn 2,17; 3,3.19.22).
“Nome” é sinónimo da pessoa que designa e identifica. Na Sagrada Escritura, o nome dado por Deus a alguém designa não apenas a pessoa, mas indica a sua missão. O nome "Jesus" é a tradução grega do nome hebraico do sucessor de Moisés, Josué (he. Ieoshua, que significa “Deus salva”. Em aramaico, a língua materna de Jesus, Josué diz-se Ieshuá, o nome original de Jesus, que tem o mesmo significado de Josué, "Deus salva". Entretanto, o nome aramaico Ieshuá corresponde exatamente à palavra hebraica homógrafa “salvação”. Desta forma, o nome "Jesus" significa simultaneamente "Deus salva" e "salvação".
Em João, "nome" com artigo é uma alusão à revelação do nome de Deus a Moisés do meio da sarça ardente, no monte Sinai (1,12; Ex 3,15; 34,5ss). Jesus é o novo Moisés, mais do que isso, Deus em pessoa, que vem levar a cabo a obra da salvação não apenas do seu povo, mas de toda a humanidade, resgatando-a da escravidão do pecado e do jugo de Satanás, para dela fazer o seu povo, a quem conduz ao longo do êxodo desta vida, fazendo-a entrar e dando-lhe a posse da terra prometida que é a vida eterna, a própria vida divina, tornando-a participante da comunhão trinitária
"Acreditar no nome" significa acreditar que Jesus é Deus e invocar o seu Nome é garantia de salvação (Jl 3,5: At 2,21; Rm 10,13; Gn 16,13; Zc 13,9).
Sendo Jesus a salvação, quem o rejeita, rejeita a salvação, permanecendo no pecado e na morte. A salvação e a condenação não são um prémio ou um castigo dado por Deus ao homem no fim da sua vida, mas o resultado da escolha livre que este vai fazendo já sobre a terra, face ao dom pleno e definitivo do amor de Deus em Jesus. A responsabilidade pela vida ou pela morte eterna de cada um não é de Deus, mas do homem, que a Ele adere ou não pela fé.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Quais são as manifestações da recusa do amor de Deus que observo na minha vida, na vida da minha comunidade e no mundo de hoje?
- A minha vida e a vida da nossa comunidade cristã são expressão do amor trinitário manifestado em Jesus? Que posso/que podemos fazer para ser/sermos sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Dn 3,52-56 (R. 52b)
Refrão: Digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito o vosso nome glorioso e santo:
digno de louvor e de glória para sempre. R.
Bendito sejais no templo santo da vossa glória:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito sejais no trono da vossa realeza:
digno de louvor e de glória para sempre. R.
Bendito sejais, Vós que sondais os abismos
\ e estais sobre os Querubins:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito sejais no firmamento do céu:
digno de louvor e de glória para sempre. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus Pai, que revelastes aos homens o vosso admirável mistério, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade, concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé, reconheçamos a glória da eterna Trindade e adoremos a Unidade na sua omnipotência. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.