Ivan Aivazovsky, Caminhando na água, c.1890. Coleção particular

19º domingo do Tempo Comum, ano A – 9 de agosto de 2026


Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (14,22-33)

Naquele tempo, depois de ter saciado a fome à multidão, 14,22Jesus obrigou logo os discípulos a entrar no barco e a ir à sua frente para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23Depois de ter despedido as multidões, subiu ao monte a sós, para orar. Ao cair da tarde, estava ali, só.
24Entretanto, o barco já se encontrava a muitos estádios da terra, fustigado pelas ondas, pois o vento era contrário.
25Na quarta vigília da noite, Jesus veio ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Mas os discípulos, ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram muito perturbados, dizendo: “É um fantasma”. E gritaram com medo. 27Jesus falou-lhes logo, dizendo: «Coragem. Eu Sou. Não tenhais medo».
28Pedro, respondeu-lhe, dizendo: «Senhor, se és Tu, manda-me vir ter contigo sobre as águas». 29Ele disse: «Vem!». E, descendo do barco, Pedro caminhou sobre as águas e veio ter com Jesus. 30Vendo, porém, a força do vento teve medo, começou a afundar-se e gritou, dizendo: «Senhor, salva-me!» 31Jesus estendeu-lhe logo a mão, agarrou-o e diz-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 32E depois de eles terem subido para o barco, o vento amainou.
33E os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: «És verdadeiramente Filho de Deus».

     Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

  • v. 22. Jesus obrigou logo os discípulos a entrar no barco e a ir à sua frente para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões.

    vv. 22-33: Mc 6,45-52; Jo 6,16-21; cf. 8,23-27.

    O episódio de hoje, "Jesus caminha sobre as águas", segue-se em Mateus, tal como em Mc e Jo, à multiplicação dos pães (vv. 13-21). Insere-se na secção narrativa (13,53-17,27) da quarta parte deste Evangelho, “A Igreja, primícias do Reino dos céus” (13,53-18,35), na qual Jesus se concentra de forma particular na formação dos seus discípulos.

    A perícope pode ser assim esquematizada: (1) a partida dos discípulos e a despedida da multidão (vv. 22-23a); (2) Jesus reza sozinho no monte (v. 23bc); (3) o vento forte no mar (v. 24); (4) o aparecimento de Jesus e o medo dos discípulos (vv. 25-26); (5) a auto revelação de Jesus e a mensagem de conforto (v. 27); (6) o pedido de Pedro e a sua caminhada sobre as águas (vv. 28-29); (7) a vacilação de Pedro e o seu grito de socorro (v. 30); (8) o salvamento e a repreensão de Pedro (v. 31); (9) a cessação do vento (v. 32); (10) a confissão de fé dos discípulos (v. 33). (5) ocorre no centro da narrativa: a auto revelação de Jesus aos seus discípulos, à qual vai corresponder a confissão de fé dos mesmos.

    Estamos na Galileia, no lago de Genesaré ou Mar da Galileia (c x l: 19 km x 13 km). Tal como para os antigos, o mar era visto na Bíblia como um lugar habitado por monstros, demónios e forças malignas (cf. Ap 13,1), e considerado domínio das forças da morte (cf. 8,31s; Jn 2,3s; Sl 69,1s.14s; 42,8; 88,6; Lm 3,54), sendo, por isso, símbolo das tribulações (Sl 18,17; 32,6; 88,18) e das perseguições (Sl 58,8; 69,15; 124,4; 144,7). Quando entrava nas águas e por elas era investido, o homem ficava completamente à mercê delas, só podendo Deus salvá-lo.

    A seguir à multiplicação dos pães, Jesus “obrigou logo os discípulos a entrar no barco” (cf. 8,23p) “e a ir à sua frente para a outra margem” (8,18.28; 16,5), “enquanto Ele despedia as multidões” (vv. 15.23). Nos Evangelhos, “o barco” (40x) é uma cifra da Igreja em missão.

    A pressa de Jesus em obrigar logo os discípulos a embarcar, explica-se, não só porque Ele quer acalmar o entusiasmo excessivo dos discípulos, ao ver milagre tão extraordinário, mas sobretudo porque Ele se quer afastar quanto antes das multidões, que o pretendem fazer rei (Jo 6,15). Ao mesmo tempo, aproveita para os formar, mostrando que tal como a Eucaristia, simbolizada na multiplicação dos pães, nasce da missão, também leva à missão.

  • v. 23. Depois de ter despedido as multidões, subiu ao monte a sós, para orar. Ao cair da tarde, estava ali, só.

    Tendo despedido as multidões (15,39p), Jesus sobe “a um monte”, o da oração, o quarto dos oito montes referidos neste Evangelho (4,8; 5,1.14; 15,29; 17,1; 21,1; 28,16). “A sós, para orar” (Lc 9,28). Mt só refere duas vezes a oração de Jesus, aqui e no Getsémani (26,36.39.42.44): em ambos os casos, ela precede um momento de prova para os discípulos.

  • v. 24. Entretanto, o barco já se encontrava a muitos estádios da terra, fustigado pelas ondas, pois o vento era contrário.

    v. 24: 8,24p.

    Enquanto Jesus ora, em íntimo diálogo e profunda união com o Pai, os discípulos estão sós, a navegar no lago, “a muitos estádios da terra”. O “estádio” era uma medida de comprimento equivalente a 185 metros. Correspondendo uma milha romana (1480 m) a oito estádios, o barco devia estar afastado duas a três milhas da terra. Entretanto, a pequena viagem que pensavam fazer, transforma-se numa luta de vida e de morte. É noite e o barco, fustigado pelas ondas (cf. 8,24; 2Sm 22,5) e por ventos contrários, apesar do esforço dos discípulos, em vez de se aproximar, afasta-se de terra. Os discípulos temem o pior e logo neste momento tão perigoso Jesus não está com eles.

    Este quadro alude a situações pelas quais as comunidades cristãs podem passar: a “noite” representa as trevas; a escuridão, a insegurança; o “mar”, o desconhecido; as “ondas”, a hostilidade do mundo, as dificuldades e as perseguições; os “ventos contrários”, a resistência e a oposição do mundo a Jesus. Quantas vezes, ao longo da história, os discípulos de Jesus não se sentiram sozinhos, perdidos, incapazes de enfrentar as tempestades que contra eles se levantavam?

  • v. 25. Na quarta vigília da noite, Jesus veio ter com eles, caminhando sobre o mar.

    É precisamente então que Jesus manifesta a sua presença. “Pela quarta vigília da noite”: os romanos dividiam a noite não em horas, mas em quatro vigílias, correspondendo assim a quarta vigília à última quarta parte da noite, o período que vai mais ou menos das 3h às 6 h da madrugada.

    Jesus vai ao encontro dos discípulos “caminhando sobre o mar”. No AT, só Deus “caminha sobre o mar” (Jb 9,8; 38,16; Sl 78,20; Is 43,16) e só Ele pode acalmar as ondas e as tempestades (cf. Sl 107,25-30). Jesus é, pois, Deus; Ele vela pelo seu povo e não deixa que as forças do mal e da morte destruam ou impeçam a caminhada dos seus discípulos.

  • v. 26. Mas os discípulos, ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram muito perturbados, dizendo: “É um fantasma”. E gritaram com medo.

    Os discípulos, pensam que é um “fantasma” (palavra que na Sagrada Escritura só aparece aqui, na passagem paralela de Mc 6,49 e em Sb 17,14), ou seja, um espetro do outro mundo que vem para os arrastar consigo para o reino dos mortos (o Sheol), e gritam, cheios de medo (cf. Lc 24,37).

  • v. 27. Jesus falou-lhes logo, dizendo: «Coragem. Eu Sou. Não tenhais medo».

    Mas Jesus diz-lhes imediatamente: “Coragem” (9,2.22). É um incitamento à fé e à confiança em Deus salvador (Ex 14,13; 20,20; Jl 2,21; Ag 2,5; Zc 8,13.15; Jo 16,33; At 23,11).

    A fundamentar esta exortação à confiança, chega o momento central da narração, em que Jesus se dá a conhecer, revelando a sua verdadeira identidade aos seus discípulos (v. 33). Para isso, apresenta-se a si mesmo, nesta teofania, repetindo o Nome divino, revelado por Deus a Moisés no Sinai, a única vez que isto acontece neste Evangelho: “Eu Sou” (22,32; Ex 3,14; Is 43,10; 51,12). Jesus é Iavé salvador (v. 30; 1,21; 8,25) que dá aos seus discípulos a certeza que nada têm a temer, porque Ele é o Emanuel, que está com eles, o Senhor da natureza,  dos acontecimentos e da história, que os acompanha na sua caminhada ao longo desta vida.

  • v. 28. Pedro, respondeu-lhe, dizendo: «Senhor, se és Tu, manda-me vir ter contigo sobre as águas».

    Em seguida, Mateus acrescenta uma cena empolgante, exclusivamente sua: o diálogo entre Jesus e Pedro (vv. 28-31). Pedro desempenha um papel de grande importância no Evangelho de Mateus (cf. 15,15; 16,16-19; 17,24-27; 18,21; 19,27). Tudo começa com o pedido de Pedro, no meio da noite, no seio da tempestade, sobrepondo-se ao medo que a todos tolhia: “Senhor, se és Tu, manda-me vir ter contigo sobre as águas”. Pedro invoca o nome divino, interpelando Jesus como “Senhor” (he. Adonai, gr. Kyrios), o título divino que no AT substitui o tetragrama sagrado (cf. v. 30).

  • v. 29. Ele disse: «Vem!». E, descendo do barco, Pedro caminhou sobre as águas e veio ter com Jesus.

    Jesus responde-lhe: “Vem”. Ao ouvir o chamamento de Jesus, Pedro põe de lado o medo, esquece tudo, deixa todas as suas seguranças (19,27), desce do barco, de noite, às escuras, no meio da tempestade, e vai ter com Jesus, caminhando sobre as águas, apoiado apenas na palavra do Mestre (cf. Lc 5,5).

  • v. 30. Vendo, porém, a força do vento teve medo, começou a afundar-se e gritou, dizendo: «Senhor, salva-me!»

    Ao sentir a força do vento (cf. Qo 11,4), que é contrário, Pedro olha para si, repara no que está a fazer, apercebe-se da sua fraqueza (cf. Rm 4,19s) e vacila na fé, começando então a afundar-se. Perante isto, não desanima, mas reage, dando o salto da fé e, embora saiba nadar (Jo 21,7), recusa apoiar-se em si mesmo, não tenta salvar-se por si mesmo, mas renova toda a sua confiança em Jesus, pedindo-lhe que o salve nesse momento, invocando o nome divino: “Senhor, salva-me” (8,25!; Sl 69,2.15; Jo 12,27; Jl 3,5; At 2,21; cf. 2Rs 19,19; Is 37,20; Jr 17,14).

  • v. 31. Jesus estendeu-lhe logo a mão, agarrou-o e diz-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?»

    Jesus atende-o de imediato “e estendeu-lhe logo a mão” (8,3p) e agarra-o, num gesto salvador (cf. Ex 3,20; 7,5; 14,16.21; Sl 138,7). Entretanto, censura-lhe a “pouca fé” (6,30; 8,26; 16,8), dizendo-lhe que é uma fé de curta duração.

    “Porque duvidaste?” O verbo grego distázo, “estar indeciso”, significa literalmente “ser de duas mentes”. É um verbo que, na Bíblia, só aparece aqui e em 28,17. A fé de Pedro em Jesus ainda não é de mente e de coração inteiros: ele tem de deixar de olhar para si, para olhar só para Jesus e se entregar a Ele, apoiado apenas na força da sua palavra, mais firme do que a rocha, mais pujante do que a força do vento, mais poderosa do que a impetuosidade das águas.

    Pedro representa nesta cena a Igreja (da qual é o porta-voz), simbolizada no barco onde os discípulos de Jesus estão. Ele reflete a generosidade e a fragilidade da fé dos discípulos: no princípio deixaram tudo, confiados apenas na palavra de Jesus, decididos a segui-lo até ao fim. Mas, passado o fervor inicial, ao chegarem os sofrimentos, as dificuldades e as perseguições, ao aperceberem-se da violência dos homens e da força do Império romano, pensando que tudo lhes seria sempre adverso e as perseguições nunca mais acabariam, começaram a afundar-se, deixando-se invadir pelo desânimo e o medo. Nesse caso, há que voltar ao “primeiro amor” (Ap 2,4s), à confiança, simplicidade e generosidade iniciais da sua fé (Hb 3,14), quando conheceram o Senhor, buscando-o na oração, não se fiando nas suas próprias forças, mas abandonando-se a Ele, apoiados somente na Sua Palavra, certos que Ele estará sempre com eles, dando-lhes a mão, salvando-os e conduzindo-os.

    Santa Teresa de Jesus alude a este episódio, a fim de incitar os principiantes na vida espiritual à confiança: "Pensava muitas vezes que São Pedro não tinha perdido nada em se ter atirado ao mar, embora depois tenha ficado com medo" (Vida 13,3).

  • v. 32. E depois de eles terem subido para o barco, o vento amainou.

    Mal Jesus e Pedro sobem para o barco, logo o vento amaina, sem que Jesus precise de dizer nada (cf. 8,26; Sl 107,29) porque a fé já entrou aqui em ação.

  • v. 33. E os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: «És verdadeiramente Filho de Deus».

    De imediato, a desconfiança inicial dos discípulos transforma-se em fé. Em vez de perguntarem quem é Jesus, como em 8,27, eles “prostram-se” em adoração diante de Jesus (28,9.17; 2,11; cf. 8,2; 9,18; 15,25) e confessam: “És verdadeiramente Filho de Deus”. É a mesma confissão de fé do centurião perante a morte de Jesus na cruz (27,54). É também a primeira vez que os seus discípulos o confessam como “Filho de Deus” (16,16; Mt, 14x: 4,3.6.9; 8,29; 11,27; 17,5; 26,63; 27,40.43; 20,20).

    Jesus é Deus, o Senhor da natureza, do mundo, da história e da vida, que vence o mal, acompanha os seus e nunca os abandona, ajudando-os a vencer as perseguições, dificuldades e adversidades por que terão de passar, estendendo-lhes a mão sempre que estão desanimados ou em perigo, salvando-os, conduzindo-os e levando-os ao porto desejado.

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

    a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
    d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • Estou disposto a embarcar na aventura de deixar todas as seguranças e caminhar com Jesus, apoiado apenas na sua Palavra?

  • Como reajo perante as dificuldades? A Palavra é a luz que me guia e a oração a força que nutre a minha caminhada diária?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me inflame o coração)

Salmo responsorial                                                       Sl  85,9-14 (R. 8)

Refrão:  Mostrai-nos o vosso amor, dai-nos a vossa salvação.

Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis
e a quantos de coração a Ele se convertem.
A sua salvação está perto dos que O temem
e a sua glória habitará na nossa terra.     R.

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,
abraçaram-se a paz e a justiça.
A fidelidade vai germinar da terra
e a justiça descerá do Céu.     R.

O Senhor dará ainda o que é bom
e a nossa terra produzirá os seus frutos.
A justiça caminhará à sua frente
e a paz seguirá os seus passos.     R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Deus todo-poderoso e eterno, a quem o Espírito Santo nos ensina  a chamar confiadamente nosso Pai, fazei crescer o espírito filial em nossos corações para merecermos entrar um dia na posse da herança prometida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.

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Liturgia do dia

  • Quinta-feira da semana XVIII
    Transfiguração do Senhor – FESTA Branco – Ofício da festa. Te Deum. Missa própria, Glória, pf. próprio. L 1: Dn 7, 9-10. 13-14 ou 2Pd 1, 16-19; Sl 96 (97), 1-2. 5-6. 9 e 12 Ev: Mt 17, 1-9 * Proibidas as Missas de defuntos, exceto a exequial. * Na Diocese de Angra – Transfiguração do Senhor, Titular da Igreja Catedral sob o nome de São Salvador. Na Sé – SOLENIDADE; nas outras igrejas da Diocese – FESTA