775º aniversário da entrega do Escapulário a S. Simão Stock – 16 de julho


A Ordem Carmelita celebra no presente dia 16 de julho de 2026, o 775º aniversário da entrega do Escapulário por Nossa Senhora a S. Simão Stock.

Segundo reza a tradição carmelita, a Ordem do Carmo, nascida no monte Carmelo, na Terra Santa, em finais do s. XII e princípios do s. XIII, depois de ter recebido a sua Regra de S. Alberto, Patriarca de Jerusalém, ao chegar à Europa no primeiro quartel desse mesmo século, teve de enfrentar numerosas dificuldades para ser aceite e se afirmar.

Evocavam os seus opositores, o IV Concílio de Latrão, que em 1215 tinha proibido a fundação de novas Ordens religiosas, obrigando, aquelas que então surgissem, a adotar como norma estrutural uma das Regras já consagradas e aprovadas pela Igreja. Proibição que não atingia a Ordem Carmelita, uma vez que tinha surgido e recebido a sua Regra antes de 1215. Depois, soava a ridículo a tantos, senão mesmo a falso, dizer que não tinha fundador, declarando remontar a sua origem ao profeta Elias, que tinha habitado no monte Carmelo, junto a cuja fonte eles tinham fixado as suas celas. Estranhava a muitos a sua capa branca, barrada de castanho, que na Europa era o distintivo dos doentes mentais e, por fim, parecia desmesurada soberba intitularem-se a si mesmos “Irmãos de Santa Maria do Monte Carmelo”, estando, em consequência, não poucas Ordens, Universidades e Prelados empenhados em erradicar e suprimir de vez a mesma Ordem.

Quem a teve de guiar nesta hora tão conturbada do seu percurso inicial terá sido S. Simão Stock, o Prior Geral da Ordem Carmelita de nacionalidade inglesa, o qual, profundamente contristado com esta oposição, instantemente invocava Nossa Senhora, pedindo-lhe diariamente que manifestasse a sua proteção aos carmelitas e que não deixasse morrer a Ordem que nascera para a honrar e imitar, alcançasse de Deus a graça de ser reconhecida pela Igreja através de um privilégio (literalmente, “uma lei, um decreto exarado em favor de um particular”), que por todos fosse aceite, consagrando assim o seu direito à existência e reconhecendo a legitimidade do seu lugar próprio na Igreja. Estas súplicas teriam sido por ele fixadas na sequência Flos Carmeli (“Flor do Carmelo”), que ele compôs e que nós, carmelitas, ainda hoje cantamos todos os dias a Nossa Senhora.

O tempo foi passando e as súplicas, em vez de esmorecerem, tornaram-se cada vez mais insistentes. Até que um dia, há 755 anos, a 16 de julho de 1251, Nossa Senhora terá aparecido a S. Simão Stock, tomando nas suas mãos o mesmo escapulário que ele e todos os carmelitas já usavam como parte integrante do seu hábito, e entregando-lho, estendendo as suas mãos, com estas palavras: “Recebe, diletíssimo filho, este escapulário da tua Ordem como sinal da minha fraternidade e privilégio para ti e para todos os carmelitas: quem com ele morrer, não padecerá o fogo eterno. Ele é um sinal de salvação: salvação nos perigos, aliança de paz e pacto sempiterno”.

Desde então, o escapulário tem sido para os carmelitas sinal do peculiar amor materno de Nossa Senhora pela Ordem a ela consagrada.

Tudo nele tem um valor simbólico e um significado. Sabemos que as vestes na Bíblia simbolizam a emanação da vida e da energia, da força, que animam interiormente uma pessoa. Assim como através da capa branca os carmelitas se sentem herdeiros do Espírito que animou o profeta Elias, assim também, através do escapulário, concedido como um dom, uma graça de Maria, se sentem participantes do mesmo Espírito e da mesma graça que animaram a Virgem Maria, na sua relação com Deus Pai, que a elegeu desde toda a eternidade para ser a Mãe do seu Filho, em cuja Palavra acreditou e a cuja voz obedeceu; na sua relação com o seu Filho, Jesus Cristo, a quem amou com supremo amor de Mãe, com toda a ternura e piedade, vivendo com Ele em profunda e particular familiaridade; na sua relação com o Espírito Santo, a cujas moções sempre foi dócil; na sua relação com a Igreja, pela qual vela sempre com amor materno; e na sua relação com os homens, a que acolhe e por quem intercede com entranhas de misericórdia e compaixão.

O escapulário é também um avental, sinal de trabalho e de entrega ao serviço da obra da salvação.

O escapulário é entregue por Maria a S. Simão Stock, não como um dom meramente pessoal, mas como sendo “da tua Ordem”, ou seja, como dom feito a ele e a cada um em particular, mas também como sinal e privilégio da fraternidade de Maria para ele “e para todos os carmelitas”. O escapulário torna-se assim meio e sinal da agregação à Ordem Carmelita de todos aqueles que o recebem.

Na época de Jesus, as vestes que as pessoas usavam não se compravam em lojas, mas eram geralmente feitas em casa pela mulher, neste caso, pela mãe (cf. Pv 31,21s). Sendo assim, não só a carne que o Filho de Deus assumiu ao ser concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria como verdadeiro homem, íntegro na sua humanidade, é veste de Maria, no sentido que a recebeu da sua Mãe, mas também as roupas que Ele usou (cf. Mc 5,28; 6,56; Jo 19,23) eram vestes de Maria. Neste sentido, o escapulário é verdadeiro hábito de Maria, pois nos é dado como sinal do amor materno e especial predileção, permanentes e estáveis, que ela manifesta a todos aqueles que o usam, ou seja, “todos os carmelitas”, a quem Jesus chama seus “irmãos” e “irmãs” e que se sentem também “irmãos” e “irmãs” da Virgem Maria – ou seja, “mães” de Jesus – na linha do que Jesus afirma no Evangelho sobre os seus discípulos: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Pois aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,34-35).

O escapulário é, no entanto, composto por dois pedacinhos de pano, do mesmo tipo do hábito. Nossa Senhora manifesta assim, em tão pequena dádiva, que ele é um sinal, neste caso da oferta de um pobre, um pobre em espírito. Enquanto os ricos dão do que lhes sobra, os pobres, não tendo nada, partilham o pouco que têm e, não tendo mais nada para dar, dão a oferta incomparavelmente de maior valor que se pode dar: dão-se a si mesmos. Desta forma, ao dar aqueles dois pedacinhos de pano aos que recebem o escapulário, Nossa Senhora ensina-lhes praticamente o caminho da pobreza em espírito, tão necessária para entrar no Reino dos céus, ao mesmo tempo que, não tendo mais nenhuma coisa para dar, se dá a si mesma, com o seu Filho, que traz em seus braços, aos que a invocam como Mãe e nela confiam, tomando o seu Filho como sua principal riqueza. 

Enquanto sinal que é, tal como Nossa Senhora repete duas vezes a S. Simão Stock, o escapulário é sinal”, ou seja, “símbolo”, da fraternidade de Maria em relação a todos os carmelitas que o usam; e é “sinal de salvação”, aqui mais na aceção bíblica de “sinal”, ou seja, “portento”, manifestação soberana do poder", de salvação, da iniciativa e ação salvíficas divinas. Enquanto “sinal de salvação”, o escapulário e um sacramental, um meio, um instrumento poderoso de salvação para todo aquele que tem fé. "Salvação" diz-se em latim “salus”, palavra que em português se traduz também como “saúde”. Saúde, não apenas do corpo, mas igualmente – e sobretudo – do espírito e da alma.

Esta salvação é experimentada em todas as vertentes da nossa vida quotidiana: a) na nossa relação com os acontecimentos e com a realidade, como libertação, “salvação nos perigos” – daí a extraordinária devoção dos pescadores a Nossa Senhora do Carmo; b) na nossa relação uns com os outros, com Deus e com Maria, como “aliança de paz”, ou seja, como instrumento de profunda comunhão e íntima reconciliação; c) e na nossa relação com Deus e com o nosso destino eterno como sinal (“portento”) de salvação do fogo eterno e “pacto sempiterno”, ou seja, permanente união com Deus, que se jorra e se prolongará por toda a eternidade.

Deste modo, o escapulário, cujo 775º aniversário da sua entrega a S. Simão Stock por Nossa Senhora do Carmo como sinal da proximidade amorosa de Maria ao povo de Deus, do seu cuidado e intercessão materno e da sua fraternidade em relação àqueles que o usam como “irmãos” e “irmãs” de Maria – no sentido evangélico desta palavra na boca de Jesus – tornou-se sinal da consagração a Maria, meio de agregação dos fiéis à Ordem do Carmo e meio popular e eficaz de evangelização.

Enquanto "mini-hábito" carmelita, ele lembra àquele que o usa a necessidade de se revestir, cada dia de novo, de Cristo, para viver em seu obséquio, segundo o Evangelho, e a importância de imitar as virtudes de Maria, vivendo em contínua oração e união com Deus, colaborando estreitamente na obra da salvação, numa constante atitude de entrega e imolação a Deus, e de proximidade e incansável serviço ao próximo.

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