V - A minha crise

V - A MINHA CRISE

Quem diria que havia de cair tão depressa, depois de tantas mercês de Deus, de ter Sua Divina Majestade começado a dar-me virtudes – que as mesmas me despertavam a servi-l’O – e de me ter visto quase morta e em tão grande perigo de ser condenada, depois de me ter ressuscitado a alma e o corpo, que todos os que me viam se espantavam de me ver viva! Que é isto, Senhor meu? Em tão perigosa vida havemos de viver?

Ao escrever isto parece-me que, com o Vosso favor e por misericórdia Vossa, poderia dizer como São Paulo – embora não com essa perfeição – Já não vivo eu, senão Vós, Criador meu, viveis em mim. Há alguns anos que, segundo posso entender, me tendes da Vossa mão e me vejo com desejos e determinações, e de algum modo tinha provado por experiência em muitas coisas de não fazer nada contra a Vossa vontade, por pequena que fosse, ainda que deva fazer bastas ofensas a Vossa Divina Majestade, sem o entender. Também me parece que não se me oferecerá coisa por Vosso amor que, com grande determinação eu deixe de acometer; em algumas me tendes ajudado para as levar a cabo. Não quero mundo nem coisa dele, nem me parece algo me contente afora de Vós; tudo o mais é para mim pesada cruz (Vida, 6, 9).

Comecei pois assim, de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade, de ocasião em ocasião, a meter-me tanto em mui grandes devaneios e a andar a minha alma tão estragada em vaidades, que já tinha vergonha, em tão particular amizade como é tratar de oração, de me tornar a chegar a Deus. Ajudou a isto que, ao crescerem os pecados, me começou a faltar o gosto e a alegria nas coisas de virtude. Via muito claramente, Senhor meu, que isto me faltava a mim por Vos faltar a Vós.

Este foi o maior engano que o demónio me podia fazer sob aparência de humildade: comecei a temer fazer oração por me ver tão perdida; parecia-me melhor andar como os demais – pois no ser ruim era dos piores – e rezar o que estava obrigada e vocalmente e não ter oração mental e tanto trato com Deus a que merecia estar com os demónios e enganava as gentes, porque, no exterior, tinha boas aparências.

Assim, não é de culpar a casa onde estava, porque eu, com a minha manha, procurava que me tivessem em boa opinião. Embora não com advertência, fingindo cristandade; porque nisto de hipocrisia e vanglória, glória seja dada a Deus, jamais me recordo de O ter ofendido, ao que possa entender. Em me vindo um primeiro movimento dava-me tanta pena, que o demónio se ia com perda e eu ficava com lucro; e assim, nisto muito pouco me tem tentado. Oh! Senhor da minha alma! Como poderei encarecer as mercês que nestes anos me fizestes? E como, no tempo em que mais Vos ofendia, em breve me dispúnheis com grandíssimo arrependimento para que gostasse dos Vossos regalos e mercês! Na verdade, escolhíeis, Rei meu, o mais delicado e penoso castigo que para mim podia haver, como quem bem sabia o que me havia de ser mais penoso; com grandes contentamentos castigáveis meus delitos.

Era tão mais penoso para o meu modo de ser receber mercês quando tinha caído em graves culpas, que receber castigos; uma só dessas mercês – parece me podê-lo dizer com certeza – me desfazia e confundia mais e fatigava de que muitas enfermidades com outros grandes trabalhos juntos. Porque isto via que o merecia e parecia-me que pagava algo dos meus pecados (embora tudo era pouco, porquanto eles eram muitos), mas ver-me a receber de novo mercês pagando tão mal as recebidas, é um género de tormento para mim terrível, e creio que para todos os que tiverem algum conhecimento do amor de Deus, e isto até por um natural virtuoso o podemos inferir. Estas eram as minhas lágrimas e tristeza ao ver o que sentia, vendo que estava em vésperas de tornar a cair, embora minhas as determinações e desejos então – por aquele momento, digo – estivessem firmes.

Grande mal é uma alma achar-se sozinha entre tantos perigos. Parece-me a mim que, se tivera tido com quem tratar tudo isto, ajudar-me-ia a não tornar a cair, sequer por vergonha, já que não a tinha de Deus.

Por isso aconselharia aos que têm oração – em especial ao princípio – que procurem amizade e trato com outras pessoas que tratem do mesmo. É coisa importantíssima, ainda que não seja senão ajudarem-se uns aos outros com suas orações, quanto mais que há muitos mais lucros. E pois que nas conversações e amizades humanas, mesmo não sendo muito boas, se procuram amigos com quem descansar e para mais gozar ao contar aqueles prazeres vãos, não sei por que não se há-de permitir a quem começar deveras a amar a Deus e a servi-l’O, o tratar com algumas pessoas seus prazeres e trabalhos: que de tudo têm os que têm oração. Porque, se é verdadeira a amizade que quer ter com Sua Majestade, não haja medo de vanglória (Vida, 7, 1. 19-20).

Quisera eu saber descrever o cativeiro em que, nestes tempos, trazia a minha alma. Bem entendia eu que estava cativa, mas não acabava de entender em quê... Suplicava ao Senhor que me ajudasse, mas devia faltar – ao que agora me parece – o não pôr de todo a confiança em Sua Majestade nem perder de todo a que punha em mim. Buscava remédio, fazia diligências; mas não devia compreender que tudo aproveita pouco se, perdida totalmente a confiança em nós mesmos, não a pomos em Deus.

Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, antes pelejava com uma sombra de morte e não havia quem me desse vida nem a podia eu tomar. E Quem ma podia dar tinha razão de não me socorrer, pois tantas vezes me havia chamado a Si e eu O havia deixado (Vida, 8, 11-12).