Mensagem do Prior Geral, Fr. Desiderio García, para a solenidade de Nossa Senhora do Carmo 2026


Solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo
16 de julho de 2026

Mensagem do Prior Geral, Fr. Desiderio García Martínez, O.Carm.

“Todas as lágrimas chegam ao Céu”

Querida Família Carmelita: Feliz festa de Nossa Senhora do Carmo!

Aproxima-se uma vez mais a Solenidade de Nossa Senhora do Carmo. Este ano, recordamos que Bento XIII, a 24 de setembro de 1726, estendeu a celebração da festa de Nossa Senhora do Carmo a toda a cristandade. Damos graças a Deus por todas as bênçãos que a nossa Ordem recebeu durante estes oito séculos de história, especialmente por termos uma Mãe a quem podemos recorrer e que cuida de nós. Santa Teresinha do Menino Jesus, estupefacta, assim o reconhecia: “Eu tenho, Virgem bendita, duas mães a quem posso recorrer, uma na terra e outra no Céu, enquanto Tu não tens uma Mãe no Céu a quem amar, pois essa és Tu mesma”.

1. Maria reveste-nos de gratidão. Maria, em Belém, envolveu o seu Filho em panos (cf. Lc 2,12). Este gesto recorda-nos que Jesus, além de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, foi cuidado e amado desde o seu nascimento. Nas Sagradas Escrituras, “ser envolvido em faixas” é um sinal de proteção e afeto maternal: “Quando nasci […] a primeira coisa que fiz, como todos os outros, foi chorar. Fui nutrido com carinho e envolto em faixas…” (Sab 7,3-4). Em contrapartida, a nudez, “não ser envolvido em faixas”, indicia vulnerabilidade e abandono: “Ninguém cuidou dela […] Ninguém a banhou, nem a esfregou com sal, nem a envolveu em faixas […] abandonaram-na…” (cf. Ez 16,4-5). Só aquele que é capaz de reconhecer com gratidão a sua própria vida como um milagre e um dom imerecido é capaz de cuidar da vida dos outros! Kierkegaard salientou que a gratidão, além de ser o sentimento mais nobre que pode brotar do coração humano, é a “resposta espiritual mais profunda ao dom da sua própria existência”. A gratidão é, de facto, um bom barómetro para medir a nossa qualidade humana e espiritual. As pessoas agradecidas tornam tudo mais fácil e estão repletas de bênçãos; em vez de se queixarem do que lhes falta, valorizam o que têm; evitam a crítica fácil e os mexericos... Maria, nossa Mãe, ensina-nos a fazer da nossa vida um Magnificat, um cântico de ação de graças.

2. Maria reveste-nos de luz. O Carmelo nasceu na Terra Santa, em finais do século XII. Fomos obrigados, no meio de perigos, a emigrar para a Europa. A quem recorremos no meio da adversidade e da tribulação? À Mãe. Ela defendeu-nos. Celebramos com alegria o 775.º aniversário — segundo a tradição carmelita — da entrega do Santo Escapulário a São Simão Stock. Não se trata de um amuleto que nos assegura a salvação, mas de um sacramental que nos recorda a responsabilidade de trajar a veste batismal. Uma veste muito especial, feita de linho, que, segundo as Escrituras, representa as “boas obras” dos santos (cf. Ap 19,8). O linho é extraído duma planta que tem de ser batida repetidamente até amolecer e extrair a brancura das suas fibras. O Santo Escapulário é uma armadura que nos defende dos golpes (como o linho) que recebemos nas batalhas desta vida. Maria defende-nos e mostra-nos como perseverar fazendo sempre o bem… Como dizia um epitáfio hebraico: “Uma boa ação feita na terra faz nascer um fio de luz no céu. Muitas boas ações feitas na terra fazem nascer muitos fios de luz no céu. Para quê? Para tecer e coser uma veste. Uma veste de luz que dê glória ao Senhor das obras.” Maria ensina-nos solicitamente a revestirmo-nos desta “armadura” (cf. Regra 19), feita de muitos “fios de luz”: a misericórdia, a mansidão, a paz, a justiça, o perdão, a alegria, a esperança, o amor, etc.

3.º Maria reveste-nos de humanidade. A 25 de maio, o Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da dignidade da pessoa humana na era da inteligência artificial. Pediu a todos nós, Igreja, que a leiamos e meditemos. Perante a crescente ligação entre a tecnologia, o poder e a violência, propõe-nos como alternativa uma nova civilização do amor. O Papa Leão XIV convida-nos a invocar Maria, Mãe da Vida, que olha para nós com misericórdia. Muitos testemunhos poderiam ser citados que nos obrigariam a descalçar os pés perante o sofrimento dos inocentes: os que fazem malabarismos para encontrar um trabalho e chegar ao fim do mês; os que emigram dos seus países sem acesso à educação e à saúde; a guerra, a fome, o amor desfeito… Baste o exemplo duma figura importante da cultura francesa, Emmanuel Mounier, o filósofo crente, que sentiu o peso da doença irreversível da sua pequenina filha, que vivia estado vegetativo:

“Ao aproximar-me deste berço sem voz, sentia que me estava a aproximar dum altar, dum lugar sagrado onde Deus falava por meio dum sinal. Uma tristeza penetrante e profunda; profunda, mas leve leve e transfigurada. E, envolvendo-a, uma adoração… Não tenho outra palavra. Nunca soube tão intensamente o que é a oração como quando dizia coisas àquela fronte que não respondia nada, quando os meus olhos se aventuravam naquele olhar perdido que fitava o infinito atrás de mim. Um mistério… e só pode ser um mistério de bondade. É preciso ousar dizer: uma graça demasiado alta, uma hóstia viva entre nós, muda como a Hóstia, resplandecente como Ela… –  Mounier diz à sua mulher – : Durante quantos meses desejámos que ela morresse se fosse para continuar assim!” Mas… não é isto apenas um puro sentimentalismo burguês? O que significa para ela “ser infeliz”? Quem nos pode garantir que ela o seja? Quem sabe se não nos é pedido que guardemos e adoremos esta hóstia entre nós…? Minha pequena Françoise, para mim és a própria imagem da fé [Carta a Paulette Mounier, 1964, 671].

O seu testemunho é profundamente comovedor… Imploremos à Mãe e Formosura do Carmelo que nos ensine a ver a obra invisível de Deus e a contemplar o mundo desde baixo, a partir da perspetiva dos mais vulneráveis. Os “Hinos de alegria a Nossa Senhora do Carmo”, poemas populares que circularam a partir do século XVII, compostos sobretudo para honrar a Virgem Maria, recolhem histórias antigas da tradição carmelita. Recordo-me que, quando era criança, na minha cidade de Onda (Espanha), se cantava uma antífona mariana durante a novena a Nossa Senhora do Carmo: “Porque vós sois da nossa consolação, o meio mais poderoso. Sede o nosso amparo amoroso, Mãe de Deus do Carmelo.” O biblista Miguel Aiguani, O. Carm. (1320-1400) afirmou que Maria é um “castelo inexpugnável”, uma fortaleza segura onde nos podemos refugiar quando sentimos que a vida está a ser ameaçada pela morte. São João Crisóstomo insistia que “não há maternidade sem lágrimas”. As lágrimas hidratam a alma. Deus recolhe essas lágrimas, como diz o salmista, no seu “odre”. Nenhuma lágrima se perde; todas vão ter diretamente ao coração de Deus (cf. Sl 55). As lágrimas intercedem para que a missão da Igreja seja mais frutífera. Chorar pela dor do próximo ou pela rejeição que sofremos tem um poder santificador e reparador.

Que a Virgem Maria, a quem proclamamos Mãe e Formosura do Carmelo, nos proteja e obtenha, pela sua intercessão celeste, a força, a esperança e a alegria necessárias para refletirmos a bondade de Deus, servindo a humanidade.

Fraternalmente no Carmelo

Roma, 14 de junho de 2026
Santo Eliseu, profeta