Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”
Dia 1 – “O puríssimo Coração de Maria, escola e caminho de santidade”
Do Evangelho segundo S. Mateus (5,1-2): Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os seus discípulos aproximaram-se dele e Ele, abrindo a boca, ensinava-os.
Meditação. Iniciamos hoje, dia 7 de julho, a novena de Nossa Senhora do Carmo, Mãe e Padroeira da Ordem carmelita. Ao longo destes nove dias queremos preparar-nos mais intensamente para a festa de Nossa Senhora do Carmo. É um tempo de oração, de escuta da Palavra de Deus e de encontro com o Senhor, por intermédio de Maria. Nele, queremos perceber melhor quais são os apelos que o Senhor nos dirige, pessoal e comunitariamente, que pontos da nossa vida cristã precisam de ser melhorados, agradecer-lhe as graças recebidas e apresentar-lhe os nossos pedidos. Tudo isto em ordem a um seguimento cada vez mais próximo de Jesus Cristo, numa vida cristã renovada, à imitação da Virgem Maria.
O presente ano está repleto de efemérides carmelitas:
- celebramos os 800 anos da aprovação da Regra primitiva do Carmelo – a fórmula de vida de Santo Alberto –, por parte do Papa Honório e com ela a primeira aprovação oficial da Ordem Carmelita pela Santa Sé.
- recordamos os 775 anos da entrega do Escapulário por Nossa Senhora do Carmo a S. Simão Stock.
- celebramos o 3º centenário do alargamento da festa de Nossa Senhora do Carmo à Igreja universal pelo Papa Bento XIII.
- evocamos o 4º centenário da beatificação de S. Maria Madalena de Pazzi;
- celebramos o 3º centenário da canonização de S. João da Cruz
- e o Centenário da sua proclamação como Doutor da Igreja;
- evocamos 40 anos da designação de Nossa Senhora do Carmo como Padroeira da GNR pelo Papa S. João Paulo II, em 1986.
- De particular importância para para nós, portugueses, celebramos o centenário das aparições da Virgem Maria e do Menino Jesus a Lúcia de Jesus, em Pontevedra (10 de dezembro de 1925 e 15 de fevereiro de 1926)[1], a pedir a difusão da devoção ao Imaculado Coração de Maria e a insituição da comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados.
Como a temática carmelita do presente ano pastoral tem sido “Caminhar em santidade e justiça na presença do Senhor” e a veneração ao Imaculado Coração de Maria está profundamente enraizada na espiritualidade carmelita desde as suas origens, o tema da novena deste ano será: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”. Fazemos assim eco à promessa que Nossa Senhora fez à Ir. Lúcia na sua segunda aparição em Fátima, no dia 13 de junho de 1917: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.[2]
O especialíssimo amor dos carmelitas ao mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria é tão antigo quanto a Ordem. Tendo no princípio do s. XII os primeiros carmelitas construído uma Igreja no meio das celas, como lhes mandara a Regra de Santo Alberto, logo a dedicaram a Nossa Senhora, que solenemente celebravam no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição. Foi esta a primeira festa mariana da Ordem carmelita até finais do s. XIV. E foi este amor à Imaculada Virgem Maria que levou os carmelitas, em 1281 a fazerem da capa barrada, que até então usavam, uma capa totalmente branca.
Maria passou então a ser venerada pelos carmelitas como "fonte da divina graça", como diz o Cântico dos Cânticos: “És um jardim fechado, uma fonte lacrada” (Ct 4,12), Maria, no mistério da tua conceção e perpétua virgindade, simbolizado pela vida cenobítica e contemplativa dos frades do monte Carmelo; “és fonte de jardim, nascente de água viva que jorra desde o Líbano” (Ct 4,15) pela brancura imaculada da tua pureza, acolhida pelos carmelitas com manancial sempre renovador da sua vida e missão cristãs. De facto, o nome “Líbano” significa “brancura”.
Maria aparece assim no Carmelo como obra da superabundante graça de Deus, a nova Eva, a primeira a reproduzir perfeitamente a semelhança com Deus, ou seja, a santidade de Deus, e a agradar-lhe plenamente.
Sabemos, porém, que a santidade e a grandeza de Maria não são obra exclusiva da graça divina: elas são também fruto da correspondência de Maria a este dom de Deus. Se é verdade que Maria foi preservada do pecado desde a sua conceção, também é verdade que ela correspondeu fielmente a este dom ao longo de toda a sua vida, recebendo-o e cooperando com ele. E esta não foi uma graça menor do que a sua imaculada conceição, na qual ela não teve parte nenhuma. Pelo contrário: foi uma graça bem maior, a graça de uma fidelidade quotidiana, secundada e reafirmada por Maria na fé, na esperança e na caridade, em cada um dos dias, momentos, gestos, palavras, atitudes e obras, com que se foi tecendo, o seu quotidiano. Desde o momento em que nasceu, até ao momento em que partiu desta vida mortal.
É contemplando este dom da graça divina e da correspondência de Maria a ele, que nós, carmelitas, a veneramos com o título de “Virgem puríssima”. Disso fala o Senhor no Evangelho: “Quem é a minha Mãe, quem são os meus irmãos? Estes são a minha mãe e os meus irmãos: todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49-50). Sim, só quem faz a vontade do Pai é verdadeiro cristão, verdadeiro carmelita: irmão de Jesus e irmão da bem-aventurada Virgem Maria, a qual correspondeu em tudo à vontade de Deus.
É precisamente isto que se sublinha a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Porque é que ela é assim tão importante, tão necessária, porque é que faz tanta falta ao mundo, que Nossa Senhora teve de advertir em Fátima: “Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz”?[3] Será mesmo necessário falar do Imaculado Coração de Maria? Não basta celebrarmos a festa da Imaculada Conceição?
Não. Porque se é verdade que a festa da Imaculada Conceição é tão importante, ela, no entanto, fixa-se sobretudo no puro dom gratuito da graça de Deus concedido à Virgem Maria sem qualquer intervenção da parte dela. Já o tema do puríssimo, do Imaculado Coração de Maria, destaca a correspondência e a fidelidade de Maria a este dom graça de Deus. De facto, como Maria também nós recebemos a graça de Deus, também nós fomos justificados por Cristo e regenerados pelo Espírito Santo, também nós nos tornamos morada de Deus, tendo recebido de Deus tudo o que é necessário para sermos santos. Mas falta a nossa parte: a correspondência diária à graça divina recebida, permeando cada um dos aspetos e dimensões da nossa vida.
Sabemos que a santidade consiste em imitar Jesus. Ora foi de Maria que Jesus aprendeu em primeiro lugar a caminhar em santidade e justiça na presença de Deus. Foi do seu Imaculado Coração que Ele recebeu a nota da a imensa compaixão que marcou toda a sua vida, como diz o Evangelho: “Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão, porque andavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). Imitemos, pois, Jesus, aprendendo do Imaculado Coração de Maria a corresponder à graça de Deus, a fazer a Sua vontade de Deus. Desta forma o seu Imaculado Coração torna-se para nós escola e caminho de santidade. Se é escola, há que o conhecer e aprender dele; se é caminho, é para o imitar.
Para isso, não existe meio melhor do que as bem-aventuranças. Elas são o espelho perfeitíssimo das virtudes que refulgiram no Imaculado Coração de Maria e se manifestaram plenamente no Coração de Jesus. Sejam também elas a ensinar-nos a imitar Maria, de modo a vivermos com ela em obséquio de Jesus Cristo.
Revisão de vida: comecemos, no início desta novena, por nos perguntar que graças Deus nos tem concedido por Jesus, através de Nossa Senhora do Carmo. Vejamos depois como lhes temos correspondido. E finalmente perguntemo-nos onde é que nos falta corresponder-lhes melhor.
Ação. Comecemos já hoje a imitar Maria. Invoquemo-la, ao longo do dia, como Jesus o fez tantas vezes no seio da Sagrada Família e peçamos-lhe a graça de estar atentos a Deus e às que pessoas que nos rodeiam. E tenhamos algum gesto de simpatia, de compaixão, de gratidão e de amor para com algum dos nossos próximos, procurando ser para ele um espelho do amor de Jesus e de Maria.
Oração: Pai santo, damos-te graças por nos teres chamado ao Reino do teu amado Filho e nos teres dado a Sua Mãe, como nossa Mãe. Torna-nos, ao longo desta novena, cada vez mais semelhantes a ela, para sermos cada vez mais semelhantes ao teu Divino Filho. Por Cristo, nosso Senhor. Amen.
Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe e Esplendor do Carmelo, tu foste a criatura que mais de perto seguiu o teu Filho e melhor o imitou. Ensina-nos a seguir os seus passos e acolhe-nos no teu Imaculado Coração; que ele seja o nosso refúgio e o caminho que nos conduz a Deus.
V. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
R. Roga por nós, para que sigamos fielmente o teu Filho.
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[1] Ir. Lúcia de Jesus Santos, Memórias 1, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima 200612, 192-194.
[2] Depois de lhe ter dito: “E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei” (ibid. 175).
[3] Na terceira aparição, dia 13 de julho de 1917: ibid. 177.