"Os que me comem terão mais fome e os que bebem de mim terão mais sede" (Sir 24,21)

Novena de Nossa Senhora do Carmo 2026 – 5º dia, 11 de julho


Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”

Dia 5 – "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6)

Estamos a meio da novena de Nossa Senhora do Carmo, durante a qual nos propusemos conhecer melhor a Virgem puríssima, através do seu Imaculado Coração, partindo para isso, das bem-aventuranças a fim de, conduzidos por ela, progredirmos cada vez mais no caminho da santidade, seguindo mais de perto Jesus Cristo, seu Filho.

Na bem-aventurança de hoje, a quarta, “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”, Jesus não fala tanto da justiça humana, a justiça retributiva do do ut des (“dou para que tu me dês”), sobre a qual se funda o pacto social; nem da justiça legal (suum cuique tribuere: “dar a cada um o que é seu”), justiça esta que leva à falta de pão e de paz, de modo que, enquanto poucos têm muito, a que chamam “seu”, a muitos falta mesmo o necessário para viver – as quais, por certo, têm sempre de existir, sendo necessário salvaguardar ambas para promover a justiça, mas que também precisam de ser purificadas e integradas num nível superior, a fim  de promover a verdadeira justiça: a justiça de Deus.

A justiça de Deus tem por fonte e norma o próprio Deus. Deus é justo não porque retribui a cada um conforme os seus méritos ou de acordo com o que ele merece – nesse caso, estaríamos todos perdidos, já não haveria mais seres humanos sobre a terra –, mas porque, antes de mais, vê o sofrimento do pobre e vem em seu auxílio, não querendo que ninguém passe necessidade. Na Bíblia, justiça de Deus é sinónimo de vontade de Deus. Deus é justo porque, no seu amor, “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 1,6). Por isso, Ele estende a todos – a bons e a maus, a justos e a injustos, gratos e ingratos – o seu amor e os seus benefícios, sem fazer aceção de pessoas.

No seu amor, Deus vai, porém, mais longe, vai até ao extremo: Ele vem em socorro de todos os homens, enviando o seu próprio Filho para os salvar, justificando, tornando justos, os pecadores, que nele acreditam e por Ele são regenerados. Com efeito, Deus não quer que alguém fique privado do seu amor, mas deseja antes que todos possam encontrar-se com Ele, conhecer o seu amor e experimentar a sua salvação. Este é o vinho novo de que nos fala o episódio das bodas de Caná. Para isso, como diz a primeira leitura da festa de S. Bento, Deus “dá a sabedoria, protege os caminhos da justiça e guarda os passos dos seus fiéis” (Pv 2,6.8). “O Senhor é bom para com todos, compassivo com todas as suas criaturas… O Senhor ampara todos os que caem e endireita todos os encurvados… Abres a tua mão e sacias o desejo de todo o ser vivo… O Senhor é justo em todos os seus caminhos e fiel em todas as suas obras” (Sl 145,9.14.16-17). É nisto que consiste a justiça de Deus.

Para o homem, praticar a justiça é sinónimo de fazer a vontade de Deus. E tal é a vontade de Deus: dar a cada um o que é Seu. Ele Deus quer que todos tenham vida, voz, valor e vez, beneficiando-os não só com o que é Seu, os Seus bens, os bens por Ele criados – sem marginalizar, excluir e oprimir ninguém –, mas chamando-os a participar do que é realmente Seu, ou seja, a sua vida divina! A sua generosidade, na ordem da criação, é apenas um pequeno sinal da sua prodigalidade na ordem da graça. Deus fez-se homem, para tornar o homem Deus no seu próprio Filho, pelo dom do Espírito Santo, no seio da Igreja.

S. João da Cruz disse-o de forma muito bela no seu romance No princípio era o Verbo, falando do momento crucial em que o Filho aceitou ser enviado pelo Pai para salvar a humanidade: “– Já vês, Filho, que a tua Esposa à tua imagem feito havia, e no que a ti se parece contigo coincidia… Pois nos amores perfeitos esta lei se requeria, que se torne semelhante o amante a quem queria … – Minha vontade é a tua – o Filho lhe respondia – e a glória que tenho é a tua vontade ser a minha; a mim agrada-me, Pai, o que tua Alteza dizia…; ver-se-á teu gran’ poder, justiça e sabedoria… Irei buscar a minha esposa e sobre mim tomaria as suas fadigas e dores em que tanto padecia; e para que tenha vida, Eu por ela morreria, e tirando-a das profundezas, a ti a devolveria” (P 3,3,7).

É desta justiça redentora, desta graça divinizante que têm fome e sede os que realmente são justos, como S. Bento: a fome e a sede de serem regenerados por Deus, de se tornarem semelhantes a Ele em tudo, na santidade, na justiça e no amor, fazendo a sua santíssima vontade a partir do mais íntimo do seu ser. Mas isso só é possível se ficarem repletos dele. Para que tal aconteça é necessário que se esvaziem dos seus próprios modos e de si mesmos. Por isso Jesus fala de “sede” e de “fome”, para sublinhar o esvaziamento de si mesmos que procuram aqueles que realmente O buscam e O amam de todo o coração.

“A fome e a sede são experiências muito intensas, porque correspondem às necessidades primárias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. Há pessoas que, com esta mesma intensidade, aspiram pela justiça e a buscam com um desejo tão forte” (AE 77).

São estes últimos que têm fome e sede de justiça. É isto que Jesus quer: que busquemos e desejemos a justiça de Deus, não de uma forma genérica, mas com um desejo tão intenso, uma necessidade tão verdadeira, que sejam uma exigência tão vital e diária para nós como a fome e a sede. Fome de quê? De ouvirmos a Palavra de Deus, para O conhecermos e “cumprirmox a sua justiça”, ou seja, para fazermos a sua vontade, o único alimento que pode satisfazer o coração humano. “E sede”. Sede de quê? Sede do seu Espírito, para ficarmos repletos d’Ele, sermos novas criaturas e procedermos como filhos e filhas de Deus, fazendo a Sua vontade, d’Ele recebendo a força para a pôr em prática na nossa vida. Como diz Amós: “Eis que virão dias, em que enviarei fome à terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a palavra do Senhor” (Am 8,11). E Jesus acrescenta: “‘Se alguém tem sede, venha a mim e beba aquele que crê em mim! Como diz a Escritura: Do seu seio jorrarão rios de água viva”. Jesus falava do Espírito que deviam receber os que nele creram” (Jo 7,37-39).

A promessa de Jesus é que os que tiverem fome e sede de justiça “serão saciados”. Como será isso possível: se têm fome e sede, como podem estar saciados? E se estão saciados, como poderão ter fome e sede? É que a água e o alimento que o Senhor nos dá, é uma água e um alimento, que, quanto mais dessedentam, mais sede dão e quanto mais alimentam, tanta mais fome suscitam. Dessedentam com uma sede saciante e alimentam com uma fome nutriente E quanto maiores forem esta sede e esta fome, tanto mais dessedentam e alimentam; e quanto mais dessedentam e alimentam, tanta mais sede e fome suscitam. Não se trata, porém, duma sede que faz definhar a vida, nem duma fome que mata as forças do corpo e da alma, mas antes duma sede e duma fome que enchem, fortalecem, renovam e transformam o crente em verdadeira imagem de Jesus Cristo. Como afirma S. Maria Madalena de Pazzi: "Do rio do lado de Cristo saía uma água que produzia três efeitos: purificava, unia e nutria... De modo que estando a alma purificada e limpa, sem nenhum obstáculo ou impedimento, une-se e transforma-se totalmente em Deus, de modo que se torna um outro Deus por participação. O terceiro efeito que esta água produz é o de nutrir. No entanto, estando a alma assim unida a Deus e transformada n’Ele, não pode saborear outra coisa senão o próprio Deus, em Deus e por Deus. E, por isso, ela nutre-se, sacia-se e alimenta-se inteiramente de Deus e em Deus. E eu compreendia que a alma, assim nutrida e saciada, tinha sempre o desejo de se saciar ainda mais e estava sempre saciada. E quanto mais ela desejava saciar-se, tanto mais saciada ficava; e quanto mais saciada ficava, tanto mais o desejava" (QG 217-218).

Maria teve sempre fome e sede desta justiça unitiva e transformante de Deus, que é o seu amor: ela foi regenerada e revestida dela logo desde o primeiro instante da sua conceção e a ela aderiu ao longo de toda a sua vida, cumprindo sempre a vontade de Deus.

Maria é a nova Eva, a mulher do coração novo, que em tudo caminha em santidade e justiça na presença de Deus. Ela conhece muito bem não só a realidade humana, com as suas pobrezas materiais e morais, os seus problemas e as suas coisas boas, mas também os desejos de Deus para a humanidade. Foi o que ela demonstrou nas bodas de Caná. Por isso, como Mãe, ela deseja ardentemente que as desigualdades sociais sejam resolvidas em harmonia, em comunhão e participação e em fraternidade. E acima de tudo quer que todos os homens sejam salvos, que participem plenamente da vida divina e em tudo se assemelhem ao seu Divino Filho, pois são filhos dela. Este é o desejo mais profundo e puro do seu Imaculado Coração, nada mais sendo que o desejo mais profundo do próprio Deus nela.

"Buscar com fome e sede a justiça do Reino dos céus: isto é santidade" (AE 79).

Revisão de vida. Perguntemo-nos: qual é a minha fome e sede de justiça: é a mesma de Deus? Desejo o bem a todos? Sou justo nas minhas relações com o próximo? Ajudo os pobres e necessitados? Sou capaz de partilhar o meu tempo, bens, dons e qualidades com os outros? Ajudo os outros a fazer o mesmo?

Ação. Fazer uma obra de justiça ou de caridade, procurando que aquele a quem a faço possa experimentar através dela o amor de Deus.

Oração. Pai sabes quão tímidos e incertos são os nossos pensamentos. Por intercessão da Mãe do teu Filho e nossa Mãe, concede-nos o Teu Espírito, para que conheçamos o que te é agradável e o ponhamos em prática, com o mesmo amor que ela o fez. Por Cristo, nosso Senhor.

Maria, tal como nas bodas de Caná, tu estás sempre atenta às necessidades dos homens e do teu povo. No teu Imaculado Coração acolhes a todos, a todos fazes o bem e a todos queres que se faça o bem, intercedendo pela salvação da humanidade. Ajuda-nos a ter um coração como o teu, faminto e sedento da verdadeira justiça, a do amor de Deus que a todos quer salvar, dando atenção ao pobre, ajudando o necessitado, reconduzindo o transviado, acolhendo o pecador, tudo fazendo para que todos os seres humanos sejam seus filhos e filhos teus, à imagem do Teu Divino Filho, Jesus Cristo. Amen.

℣. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
℟. Roga por nós, ajuda-nos a seguir fielmente o teu Filho.