A CRUZ É MINHA ALEGRIA

Carta do Prior Geral à Família Carmelita

Por Ocasião da Canonização do Carmelita Tito Brandsma

 

Estimados irmãos e irmãs da Família Carmelita:

Sua Santidade, o Papa Francisco, presidiu, na segunda-feira, 4 de março de 2022, ao consistório ordinário dos cardeais e aprovou, com grande alegria para toda a Família Carmelita, a canonização do Beato Tito Brandsma, O. Carm. Determinou também que a data em que será oficialmente inscrito no livro dos santos será 15 de maio de 2022. Aproveito esta oportunidade para me dirigir com entusiasmo a toda a Família Carme­lita.

O testemunho do Pe. Tito é inspirador e esclarecedor não só para a Ordem Carmelita, mas também para a nossa sociedade. Encontramos na sua pessoa, no meio destes dias abalados pelo espectro da guerra, um profeta da esperança e uma testemunha da paz. O nosso olhar contempla os milhões de pessoas que se veem obrigadas a dei­xar sua terra natal pela devastação da Ucrânia. Os acontecimentos atuais também nos convidam a olhar para as feridas dos conflitos bélicos – às vezes, com indiferença, esquecidos – que continuam a sangrar noutras partes do planeta. A Igreja, nestas cir­cunstâncias, tem a oportunidade de aterrar e tornar realidade a encíclica Fratelli tutti, apostando na esperança de um Deus que sonha e acredita na fraternidade universal dos seus filhos. Unimos a nossa voz à dos homens e mulheres de boa vontade que, diante do sofrimento dos inocentes, clamam pela paz, pela liberdade e pela defesa da dignidade de cada pessoa. Tito, perito na condição humana, ensinou-nos, com o seu sangue derramado por amor (cf. Mc 14,24), que ser discípulo de Cristo não é apenas admirá-lo ou saber muitas coisas sobre ele, mas estar disposto a partilhar o seu pró­prio destino de amor.

1. Testemunha da verdade.

O mundo e a própria Igreja pedem-nos um testemunho de vida claro e autêntico. "O nosso desejo é que as pessoas vejam o que os carmelitas são chamados a ser".[1]  "Como devemos ser?"[2] – perguntavam os nossos santos –. Quem sou eu? é, em su­ma, a pergunta espiritual por excelência. A vida intensa do beato Tito Brandsma aju­da-nos a descobrir que, quando a 'identidade' é entendida apenas como condição para a 'ação', corremos o risco de nos perder e nunca fazer nada. A identidade não é apenas mais uma condição para a missão. Identidade e missão estão intimamente ligadas. O carisma é vida, não especulação. Devemos assumir uma interação dinâmica entre identidade e missão, onde as nossas ações ajudam a definir a nossa identidade, e vice-versa.[3]

O Beato Tito recorda-nos que a nossa vida se converte em testemunho quando é acompanhada pelas obras. O carmelita holandês lembra aos seus frades: “É preferível ser um ignorante, mas cheio de fé, do que um sábio sem coragem... Porque só o ho­mem que age intimamente unido a Deus pode estar verdadeiramente unido ao pró­ximo. Só quem é alimentado por Deus pode dar testemunho de Deus com as suas obras”. Noutra ocasião, dirá: "O que embeleza a nossa vida comum não é tanto o di­reito e o dever, mas a ajuda e a misericórdia". A Igreja precisa dos santos de cada dia, daqueles que vivem a vida cotidiana com coerência, os “santos da casa ao lado”[4] – como o Papa Francisco gosta de os chamar –; mas, também, daqueles que têm a co­ragem de aceitar a graça de ser testemunhas até ao fim, até à morte. Todos eles – incluindo o nosso irmão Tito – são o sangue vivo da Igreja.

2. O Carmelo fascinou-me.

O Papa Francisco, na sua mensagem ao Capítulo Geral dos Frades de 2019, vinculou a autenticidade à fidelidade à vocação recebida. Citando o Beato Tito Brandsma no seu discurso capitular, disse: “É característico da Ordem do Carmo, embora seja uma Or­dem mendicante com vida ativa e viva no meio do povo, preservar uma grande esti­ma pela solidão e desapego do mundo, considerando a solidão e a contemplação co­mo a melhor parte de sua vida espiritual”. O padre Brandsma entrou no Carmelo atraído pelo carisma carmelita: “A espiritualidade do Carmelo, que é uma vida de oração e terna devoção a Maria, levou-me à feliz decisão de abraçar esta vida. O espí­rito do Carmelo fascinou-me”. O Pe. Tito não é um nostálgico do passado, mas recor­re ao passado do Carmelo, aos místicos e modelos de santidade, como figuras profé­ticas que têm muito a dizer no presente. De fato, fundou o 'Instituto da mística' na Universidade de Nijmegen, cujo testemunho seria recolhido, décadas depois, pelo Instituto que levaria seu nome.

Tito, amigo de Deus, destaca-se como um elo na "nuvem enorme de testemunhas" (cf. Hb 12,1) da rica tradição espiritual do Carmelo. Ele soube combinar a tradição e a modernidade de forma magistral e abrangente. O Beato Tito Brandsma foi um ho­mem aberto e flexível, com uma enorme capacidade de trabalho a que se entregava com generosidade e paixão. Viveu com equilíbrio e de forma harmoniosa o espírito contemplativo do Carmelo, sendo um homem orante, fraterno e profético no meio do povo. Talvez seja esta a chave para compreender a sua personalidade versátil na diversidade de tarefas a que se dedicou: reitor da Universidade Católica de Nijmegen, professor, conferencista, tradutor e estudioso, fundador de colégios, promotor do movimento ecuménico, jornalista profissional e delegado do episcopado holandês para a imprensa, além de uma intensa vida apostólica (cuidando de emigrantes italia­nos ou escrevendo as cartas de uma menina analfabeta à sua família). Destacou-se pelo espírito fraterno, humanidade cativante e ternura para com os que o rodeavam (alunos, colegas, amigos, etc.), fazendo do diálogo o novo nome da caridade. No Bea­to Tito – como nos recordava o Papa Francisco – a contemplação e a compaixão en­contraram-se naturalmente, sem reduzir “a espiritualidade ao pseudo-misticismo ou à solidariedade de fim de semana” ou cair na tentação de tornar invisíveis os pobres para que não nos questionem.

3. Místico na vida cotidiana.

Tito foi um místico, no sentido mais genuíno da palavra: o crente que vive a presença do amor de Deus no meio das circunstâncias da vida, das mais ordinárias às mais he­róicas em seu martírio. A sua profunda espiritualidade sobressai, não só teoricamen­te – reconhecido especialista na mística renano-flamenga, a devotio moderna, e grande conhecedor da obra e doutrina de Santa Teresa de Jesus, de quem se mani­festou fervoroso admirador – mas também experiencial. Tito considerava que os grandes feitos de Deus costumam ser silenciosos. Por isso era tão discreto ao falar da sua vida interior, embora, mais tarde, se tornasse visível nos momentos mais dramá­ticos, principalmente nos campos de concentração onde esteve confinado. A experi­ência mística – segundo ele – não é para uma elite ou um grupo seleto. Referindo-se ao místico carmelita francês do século XVII, o Venerável Juan de S. Sansón, numa con­ferência que proferiu nos Estados Unidos, afirmou: “[Juan de San Sansón] rejeitou categoricamente a ideia de que a vida mística – que não consiste essencialmente nem em visões nem aparições, nem em estigmas ou levitações, mas em ver Deus di­ante de nós e em nós – não seja para todos e cada um de nós”. Tito apreciou o tes­temunho daqueles que, na tradição carmelita, mergulharam na pessoa como "Deus por participação".[5]

O Pe. Tito sublinhou que o verdadeiro místico não é um ser isolado da realidade nem fechado numa bolha asséptica e insensível, mas a sua profunda relação pessoal com Deus (cf. 1 Rs 17,1) torna-o alguém aberto às necessidades, dramas e questões dos homens e mulheres do seu tempo. "A oração - segundo o nosso Carmelita - é vida, não um oásis no deserto da vida". Ele não será apenas um académico e professor de espiritualidade, mas conseguirá fazer da sua vida uma simbiose perfeita entre oração e trabalho. Mística, portanto, profundamente encarnada no mundo e em cada ser humano, que é imagem da presença de Deus (cf. Sl 8,5; Hb 2,7). Que viveu a vida mís­tica na vida cotidiana é ratificado, com grande sentido de humor, pelo famoso escri­tor holandês Godfried Bomans, que conhecia muito bem o seu espírito viajante e in­fatigável, quando afirmou: “Brandsma foi o único místico na Europa que teve um pas­se de transportes e viveu a sua santidade num vagão de comboio”.

4. “Bem-aventurados os que trabalham pela paz...” (Mt 5,9).

Tito destacou-se por ser um artífice da paz. Numa de suas conferências mais famosas (Deventer, 1931), enfatizou fortemente que trabalhar pela paz não é apenas tarefa de governantes ou políticos. Insistiu que somos todos corresponsáveis ​​e podemos fazer mais pela paz. O pensamento de Tito Brandsma está longe do pessimismo an­tropológico que se resigna a acreditar no ditado “si vis pacem, para bellum” (se que­res a paz, prepara-te para a guerra). Resistiu a pensar que uma guerra deve necessa­riamente ser seguida por outra. Nunca faltaram “arautos” que anunciaram e traba­lharam pela paz, na história da humanidade, sublinha Brandsma. Assumiu decidida­mente a sua referência a Cristo como “Rei da paz” e “mensageiro da paz”. O “sha­lom” bíblico – diz - não é apenas um pio desejo ou a ausência de dificuldades. A paz de Cristo ressuscitado não é um acordo frágil superficial, mas um profundo sentimen­to de reconciliação, mansidão, amor, longanimidade, paciência, confiança... que transforma as realidades sociais, políticas e económicas. Tito adverte corajosamente que, se não houver uma conversão verdadeira que ponha a paz no centro do coração de cada homem e mulher e, consequentemente, na alma das sociedades, a eclosão de uma nova guerra é apenas uma questão de tempo (como era, e, infelizmente, ain­da é).

Tito previu que uma espécie de "egoísmo coletivo" leva as nações a procurarem ape­nas o seu próprio bem, mesmo que para isso tenham que atropelar os direitos dos ou­tros. Cristo, por outro lado, não constrói muros nem estabelece fronteiras que divi­dem (cf. Ef 2,14-15). “A paz é possível” – insistirá – e rejeitará a ideia, facilmente ma­nipulável por certas ideologias, de que a guerra e a violência são inevitáveis porque são inerentes à condição humana. De fato, em várias ocasiões refletiu sobre a res­ponsabilidade da imprensa católica na sociedade moderna de promover a paz, de­nunciando a corrida ao armamento, a xenofobia ou a exaltação da nação ou raça. Não esqueçamos que Tito foi preso por defender a independência dos mídia católi­cos, opondo-se a que a imprensa católica publicasse propaganda nacional-socialista. Este é um testemunho maravilhoso na chamada 'era da pós-verdade', em que abun­dam as 'fake news' (notícias falsas) que manipulam a opinião pública. Tito resiste co­rajosamente a partilhar o pensamento daqueles que consideram que 'a primeira ví­tima de uma guerra é a ver­dade', e anunciará que só a verdade nos pode libertar (cf. Jo 8,31): “Depois das igre­jas, a imprensa é o melhor púlpito para pregar a verdade, e não só para responder a quem nos ataca, mas para proclamar a verdade dia após dia… A imprensa é a força da palavra contra a violência das armas… É a força da nossa luta pela verdade.”

Para Brandsma, a imprensa não é um instrumento de combate ao serviço de uma ideo­logia ou de um poder, mas um instrumento de encontro, de diálogo, de procura hones­ta e sincera da verdade. O jornalismo é uma tarefa que exige uma certa atitude inte­rior. O Papa João Paulo II soube captá-lo muito bem, quando, numa alocução aos repre­sentantes dos jornalistas da Itália e do estrangeiro, em fevereiro de 1986, insis­tiu neste aspecto místico e espiritual da figura de Tito Brandsma:

“O respeito pela verdade exige um compromisso sério, um esforço cuida­doso e es­crupuloso de busca, verificação e avaliação... Aqui surge espon­taneamente a figura heróica do padre carmelita Tito Brandsma, que tive a alegria de inscrever entre os Beatos. Jornalista corajoso, internado e morto num campo de extermínio pela sua incansável defesa da imprensa católi­ca, ele continua sendo o mártir da liberdade de expressão contra a tirania da ditadura…”

5. A força dos pequenos e de quem sabe amar.

Amar os amigos é típico de todos – escreveu Tertuliano[6] –, mas, amar os inimigos, ape­nas dos cristãos. Para o professor Brandsma, o perdão não era um sinal de fra­queza, mas um sinal heróico de pessoas com grandeza de espírito. Tito brilhou como um verdadeiro servidor da reconciliação. O verdadeiro perdão – adverte – é uma de­cisão sobrenatural que tem suas raízes no próprio Deus, não nas forças do homem. Não foi fácil viver esse espírito de reconciliação na Europa febril e convulsiva que ele viveu. O cristão – segundo Brandsma – não pode submeter-se ao fatalismo de excluir o perdão da vida política e das relações internacionais, marginalizando-o na esfera privada. Tito insistirá na força transformadora do perdão. Na sua famosa homilia, em 16 de julho de 1939, numa Eucaristia em honra de São Bonifácio e São Willibrord, ele levantou um verdadeiro cântico de amor ao inimigo. As suas palavras de denúncia da mentalidade belicista foram muito diretas: “Vivemos em um mundo que condena o amor como uma fraqueza que deve ser superada. Não é o amor - dizem alguns - que deve ser cultivado, mas a própria força: que cada um seja o mais forte possível, e que os fracos pereçam... Eles vêm com essa doutrina, e não faltam incautos que a aceitam de boa vontade…”.

Tito não pregou apenas o perdão; ele mesmo, com sua morte, foi, no final de seus dias, um 'sacramento de perdão'. Tizia (pseudónimo da enfermeira que lhe injetou ácido carbólico) relata que a mansidão e o olhar compassivo de Tito (cf. Is 53,7) a le­varam a sentir a misericórdia de Deus e a nascer de novo. O frade carmelita sabia que o ódio não é uma força criadora: só o amor o é. No processo de beatificação, Tizia tes­temunhou, afirmando: “[Tito] sentiu compaixão por mim…”. "O seu olhar não mostrava o menor ódio... Qualquer um que o visse podia sentir que havia algo de so­brenatural nele." “Deu-me a sua coroa do rosário para me ensinar a rezar. Respondi que não sa­bia e, portanto, não precisava. Ele disse-me que, mesmo não sabendo re­zar, podia ao menos recitar a segunda parte da Ave Maria: 'Rogai por nós, pecado­res'”. Com Tito, como com outros presos, fizeram-se experiências na enfermaria – conta Tizia – e ele estava ciente disso. Certa ocasião exclamou: “Faça-se a tua vonta­de, Senhor, e não a minha!”, o que impressionou a jovem enfermeira. Um colega de­le, e também profes­sor da Universidade de Nijmegen, Robert Regout, SJ, escreveu que “Brandsma morreu como viveu. Ele não morreu apenas. Brandsma estava unido a Cristo, imitando-o até o último suspiro". A vida de Tito Brandsma é um altifalante da re­conciliação. Já na prisão, no fim dos seus dias, e com letra trémula, escreveu uma mensagem emocionante e conciliadora: “Deus salve a Holanda! Deus salve a Alema­nha! Que Deus conceda que estes dois povos voltem a caminhar em paz e li­berdade e reconheçam sua Glória pelo bem destas duas nações tão próximas!

 6. “Tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Não há amor, dedicação e sacrifício que não carreguem a sua dose de cruz. Tito jun­tou-se aos que no Carmelo professaram uma íntima devoção à cruz (São João da Cruz, Santa Maria Madalena de Pazzi, Beato Ângelo Paoli, Santa Teresa Benedita da Cruz...). O místico descobre que, se alguma coisa caracteriza o ser humano, é a vulne­rabilidade, ou seja, a capacidade de ser ferido pelos outros. No sofrimento podemos perceber o quanto amamos e, também, o quanto somos amados. Tito foi um apaixo­nado de Deus e da humanidade. De fato, como Jesus, ele mesmo foi trespassado (cf. Jo 19,34), e o mis­tério da cruz prolongou-se na sua vida, sendo vítima da violência, do mal e da injustiça. Ele já antes o tinha ensinado nas salas de aula da universidade: "Há muitas pessoas que sonham com um misticismo adocicado, sem perceber que Deus, que busca a nossa união, empreendeu um caminho que incluiu a morte na cruz". “A ajuda de Deus é necessária – dirá noutra ocasião – porque diante do sofrimento não somos mais que pobres homens”. Às vezes questiona-se: “Pergunto-me se não são necessários no nosso tempo homens e mulheres que acei­tam carregar aos ombros o sofrimento do mundo”.

São marcantes a sua particular devoção à contemplação da paixão de Cristo e a defe­sa que fez da viacrucis (via sacra) do pintor expressionista belga Albert Servaes, onde Cristo foi representa­do como um homem débil, faminto e exausto. As autoridades ecle­siásticas ficaram escandalizadas com essas gravuras e proibiram a sua exibição. Tito, no meio da polémica, apoiou-o, afirmando que o corpo sofredor de Cristo se prolonga em cada pessoa ferida e espancada.

Mesmo na prisão de Scheveningen, o nosso Carmelita escreveu um comentário sobre as Estações da Via Sacra para o santuário de São Bonifácio em Dokkum, sua terra na­tal. Curiosamente, falta a última estação. Talvez o Pe. Tito não tenha tido tempo de o escrever, pois foi enviado para o campo de distribuição de Amersfoort e perdeu-se entre os papéis que foram devolvidos à família. Talvez que Brandsma, sem sa­ber, an­tecipasse o seu próprio destino: ele também não seria enterrado num túmulo; as su­as cinzas seriam misturadas com as de tantos prisioneiros e seriam espa­lhadas nos campos próximos ao Lager de Dachau. Partilhou, assim, o destino de tan­tos carboni­zados em Hiroshima e Nagasaki, o das vítimas dos Gulags, o das Torres Gê­meas de Nova York, o genocídio do Ruanda, Camboja, Bósnia-Herzegovina... ou o de tantas outras vítimas da barbárie nas suas várias formas no passado século, às quais, infe­lizmente, começam a somar-se as do século XXI.

A cruz revela, por um lado, a fragilidade humana, a existência do mal, a dor; por ou­tro, a força e a capacidade de amar, como reflexo do imenso amor de Deus pelo ho­mem. Amor e dor andam sempre juntos. O que significa carregar a cruz? Não se trata de ser masoquista e verificar até onde podemos suportar o sofrimento. Na cruz con­firmamos a nossa capacidade de amar gratuita e incondicionalmente e até que ponto estamos dispostos a partilhar, acompanhar e confortar o próximo. Nessas cir­cunstâncias extremas, o Beato Tito fez da misericórdia e da compaixão o centro de sua pregação.

7. Nunca tão feliz!

O mártir confessa a sua fé até às últimas consequências. Como indicou São João Pau­lo II na homilia de beatificação de Tito Brandsma: "Tal heroísmo não se improvisa", é fruto de uma vida interior rica. A prova de que a espiritualidade é verdadeira é que é selada com o próprio sangue. O mártir é livre diante do poder, do mundo, e livre para não amar tanto a sua vida a ponto de temer a morte (cf. Ap 12,11). O martírio não é o resultado do esforço humano, é um dom de Deus, que nos torna capazes de ofere­cer a própria vida por amor a Cristo e à Igreja e, portanto, ao mundo (cf. LG 42).

No campo de concentração de Scheveningen, Tito manteve a fé e, no meio do infer­no do Lager, escreveu o famoso poema 'Diante de uma imagem de Jesus':

Feliz na dor minha alma se sente;

a cruz é minha alegria, não minha pena;

É graça tua que a minha vida enche

e me une a ti, Senhor, estreitamente...

Fica meu Jesus! que, na minha desgraça,

nunca o coração chora a tua ausência:

que tudo torna fácil a tu presença

e tudo embelezas com a tua graça!

Mais tarde, em Amersfoort, na Sexta-feira Santa, empoleirado nm um caixote, pro­nunciou-se no barracão, diante de seus companheiros de cativeiro – como re­colhe um testemunho dos Sumários – o sermão mais sincero e autêntico da sua vi­da: “Fa­lou-nos da paixão de Cristo e comparou-a com os nossos sofrimentos. Disse-nos que nossa estadia no campo era análoga à estadia de Cristo no sepulcro, e que nós, como ele, um dia seríamos libertos das trevas”. Aquela assembleia meio moribunda que o ouvia (médicos, sindicalistas, monárquicos, comunistas, ju­deus, cristãos e protestan­tes...) era um tabernáculo vivo, onde, melhor do que em qualquer outro lugar, a pre­sença de Cristo era palpável.

*****

Nós Carmelitas, neste momento crucial de nossa história, em que a humanidade con­tinua a debater-se no meio de guerras, violências, desigualdades flagrantes e tantos outros ma­les, continuamos a confiar plenamente na misericórdia e graça de Deus. Denuncia­mos, com a força profética de Elias, tudo o que destrói o ser humano, os nossos irmãos e irmãs com quem partilhamos plenamente a peregrinação da vida, com as suas alegrias e esperanças, com as suas dores e angústias (cf. GS 1). Ao mes­mo tempo, queremos descobrir, contemplar e refletir os sinais belos – às vezes frá­geis e ocultos – da pre­sença de Deus nas nossas vidas. Com realismo, e também com o olhar da fé, encon­tramos a beleza que o Espírito de Deus derrama por toda parte.

Como primeira comunidade cristã, "junto com Maria, Mãe de Jesus" (At 1,14), que­remos ser também sinal de esperança e encorajamento para todos aqueles que en­tram em contato com a espiritualidade do Carmelo. Desejamos refletir, como fez o Pe. Tito Brandsma em situações muito dramáticas, a misericórdia e a ternura de Deus. Por isso, faço minha a bela invocação do Beato Tito num de seus exercícios es­piri­tuais:

“Como os apóstolos, queremos perseverar unidos na oração com Maria, a Mãe de Jesus, abrigando a confiança de que, por sua intercessão, o espíri­to de reno­vação descerá sobre nós, aquecendo nossos frios corações… Maria será a nossa guia!”.

Maria, nossa Mãe e Irmã, que aos pés da cruz (cf. Jo 19,25), te associaste à bondade do manso e humilde coração de Cristo (cf. Mt 11,29), nós te pedimos por todos os que sofrem por causa da sua fidelidade a Cristo e à sua Igreja. Tu que és Rainha dos mártires, ajuda-nos a ser testemunhas credíveis do Evangelho, respondendo ao mal e à injustiça com a força do perdão, da verdade e da caridade.

Pe. Míċeál O'Neill, O. Carm.,

Prior Geral

Roma, 1 de maio de 2022

 

[1] Plano Global do Conselho Geral dos Frades Carmelitas, 2019-2025.

[2] cfr. S. Teresa, C 4,1.

[3] cfr. Constituições dos Frades, 2019, n.º 177.

[4] Papa Francisco, Gaudete et exsultate, n.7.

[5] cfr. S. Giovanni della Croce, CB 39,4.

[6] Tertuliano, De Patientia 6.

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