
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Lucas (2,1-14)
2,1Naqueles dias saiu um decreto de César Augusto para ser recenseado todo o mundo habitado. 2Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino era governador da Síria. 3E todos iam recensear-se, cada um à sua própria cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da linhagem de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida. 6E aconteceu que, enquanto ali se encontravam, se completaram os dias de ela dar à luz. 7E deu à luz o seu Filho primogénito. Envolveu-o em panos e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que pernoitavam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. 9Um anjo do Senhor apresentou-se a eles e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e tiveram grande medo. 10Disse-lhes o anjo: «Não tenhais medo. Eis que vos evangelizo uma grande alegria, que será para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12E este será para vós o sinal: encontrareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade».
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
- v. 1. Naqueles dias saiu um decreto de César Augusto para ser recenseado todo o mundo habitado.
vv. 1-7: Mt 1,18-25. Lucas narra nesta passagem o nascimento de Jesus (2,1-20). O texto divide-se em três partes: a) o nascimento de Jesus (vv. 1-7); b) a boa nova transmitida por um anjo aos pastores (vv. 8-14); c) a constatação do anúncio do anjo (vv. 15-20; lê-se na Missa de Natal da aurora).
O nascimento de Jesus é situado por Lucas no tempo e no espaço. Dá-se no reinado de “Herodes, rei da Judeia” (1,9; 37-4 a.C.). Herodes I, o Magno, não era judeu: era idumeu, filho do idumeu Herodes Antípatro e da nabateia Cipros. Era um rei cliente de Roma. Em Roma, reinava Otaviano, o primeiro monarca romano a intitular-se Imperator, Caesar, Divi filius, Augustus (27 a.C.–14 d.C.): Imperator, “comandante vitorioso”; Caesar, o cognome de Júlio César, usado doravante como título imperial; Divi filius, “filho do divino”, e Augusto, “majestoso, exaltado”, um título honorífico reservado aos deuses e conferido a primeira vez pelo Senado a Júlio César (†44 a.C.), na sua apoteose (42 a.C.). Lucas põe em contraste o Imperador, que se auto mitificou como “filho do divino”, “benfeitor”, “artífice da paz” e “salva dor”, e Jesus, o único e real Senhor a quem estes por direito verdadeiramente se podem aplicar.
- v. 2. Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino era governador da Síria.
Não existe nenhuma outra notícia além desta, de Lucas, sobre um “decreto” (At 17,7) de Otaviano ordenando um recenseamento em “todo o mundo habitado” (gr. oikouméne: 24,47; At 1,8; 2,9ss; cf. Dn 2,38; Sl 96,13; 97,4; 98,7; 1Esd 2,2), ou seja, no Império Romano. Isso não obsta a que não se possa ter feito um recenseamento local, em Israel, para efeitos de cobrança de impostos (não, porém, de recrutamento militar, do qual os judeus estavam isentos: Fl.Jos. Ant. 14,10,12). Públio Sulpício Quirino foi governador da Síria de 6 a 12 d.C., tendo ordenado logo no início um recenseamento (Fl.Jos. Ant. 18,1,1). Ora, um recenseamento era considerado um pecado em Israel (2Sm 24,2.10p), o que levou Judas, o Galileu, a chefiar uma revolta, que veio a ser esmagada. Dado que Lucas dela estava informado (At 5,37), é provável que este “primeiro” recenseamento tenha sido feito antes da morte de Herodes Magno, quando o seu reino ainda não estava dividido, ou seja, por volta do ano 7-6 a.C. (a data provável do nascimento de Jesus segundo Mt 2,1.16), tendo tido efeitos práticos apenas em Israel. Lucas terá generalizado e transposto este acontecimento local para todo o Império, pretendendo assim mostrar que o nascimento de Jesus foi um acontecimento inserido na história, com impacto não apenas local (como o nascimento de João Batista: 1,9), mas universal.
A história da salvação decorre no seio da história humana e universal. Embora os grandes deste mundo reinem sobre a terra (cf. Dn 2,38; Est 3,13b), quem rege os acontecimentos e o destino dos homens é Deus (cf. Is 37,16; 1Esd 2,2).
A data do nascimento de Jesus em 1 d.C. deve-se a um erro de cálculo do monge Dionísio, o Exíguo, em 525 d.C., que a fixou no ano 753 da fundação de Roma, em vez de o fazer no ano de 746 ou 747.
- v. 3. E todos iam recensear-se, cada um à sua própria cidade.
Cada um vai “recensear-se à sua própria cidade”. Sendo Nazaré um lugarejo até então desconhecido, quer no AT, quer em Israel e no Império Romano, e sendo a família concebida pelo direito romano como uma só coisa com o pater familas, o único que gozava de capacidade legal e dela dispunha com total poder, eles são obrigados a deslocar-se à cidade de José.
- v. 4. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da linhagem de David.
José, por ser “da casa e da linhagem de David”, ou seja, da descendência de David (cf. 1Sm 17,12; 20,6), vai até à “cidade (natal) de David, chamada Belém” (“casa do pão”: 1Sm 16,1.13). Lucas acrescenta "chamada Belém", porque "a cidade de David" era considerada no AT como sendo Jerusalém, mais especificamente, a colina de Sião (cf. 2Sm 5,7.9).
- v. 5. A fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida.
José vai com Maria, com quem estava desposado (1,27; Mt 1,18), até Belém, para se recensear. Maria está grávida (1,31.42), achando-se já no nono mês de gravidez (cf. v. 6). A viagem, de cerca de 130 km, terá durado cerca de cinco dias.
- v. 6. E aconteceu que, enquanto ali se encontravam, se completaram os dias de ela dar à luz.
Achando-se eles em Belém “completam-se os dias” (vv. 21s; 1,23; cf. 9,51; At 2,1) da gravidez de Maria (1,57; Gn 25,24 LXX) e ela “dá à luz” Jesus, acontecimento que Lucas narra, vendo nele "o cumprimento" de Mq 5,1-5 e de Is 7,14; 9,1-6. Apesar da prepotência dos grandes e do pecado dos homens (representado pelo recenseamento: v. 2), Deus cumpre as suas promessas e Jesus, filho de David (vv. 4.11; 18,38s;1,27.32.69; 20,41; Gn 49,10; 2 Sm 7,11-29), nasce em Belém, tal como tinha sido profetizado por Mq 5,1 (↗Mt 2,5s).
- v. 7. E deu à luz o seu Filho primogénito. Envolveu-o em panos e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Jesus é chamado “o filho de Maria” (At 1,14) e “o Primogénito” (ambos com artigo). O título “o Primogénito”, de sabor cristológico (Sl 89,29; Zc 12,10 Rm 8,29; Cl 1,15.18; Hb 1,6; Ap 1,5), não significa que Maria tenha tido outros filhos; destina-se apenas a afirmar que Jesus goza dos direitos e deveres da primogenitura (Dt 21,17; Gn 27,29.40; 49,10ss).
Lucas compraz-se sempre em destacar a humildade, simplicidade e pobreza, neste caso, as da família e do nascimento de Jesus. Ao invés de Isabel, que conta com a ajuda de Maria e dá à luz em casa (1,56ss), Maria não encontra hospedagem e não tem junto de si nenhuma figura feminina que a assista no parto e a ajude a prestar os primeiros cuidados a Jesus: teve de ser José a fazer tudo o que ela não podia fazer sozinha.
Após o parto, lavava-se o bebé, esfregava-se com um pouco de sal dissolvido em água e “envolvia-se em panos” (Ez 16,4) o recém-nascido – que assim permanecia durante os primeiros meses – de modo a ficar apertado, lhe serem mantidos os membros direitos, o proteger do frio, o sossegar, lhe dar um sono tranquilo e manter a sua pele seca e limpa. Uma vez que um recém-nascido molha as suas fraldas seis a oito vezes por dia (podendo até ser mais), era necessário que a Sagrada Família estivesse bem provida de panos para conservar limpo o corpo do Menino Jesus. Dada a proximidade do parto, quando partiu de Nazaré, terá sido Maria a trazê-los consigo de lá na bagagem que arranjou, juntamente com tudo o mais que era necessário.
Jesus não nasce numa casa, mas numa “manjedoura” (gr. fátên; lat. praesepium, 3x: vv. 12.16; Is 1,3), palavra que designa quer o estábulo dos animais (2Cr 32,28; Ha 3,17), quer a manjedoura (13,15). A manjedoura podia ser talhada em pedra, em forma de cesta. Maria pôs palha na manjedoura e aí deitou o Menino, cuidadosamente envolto em panos, de barriga para cima, para evitar que ele se virasse enquanto dormia e sufocasse (cf. 1Rs 3,19).
Deus assume plenamente a pequenez, a dependência e fragilidade humanas dum ser que se suja, precisando dos cuidados de Maria e de José. Num sentido mais profundo ainda, Jesus nasce em Belém (he. “casa do pão”) e aí é deitado numa manjedoura, de pedra talhada (como o altar da Eucaristia), para que todos dele se possam aproximar e o homem se venha a alimentar dele, o Pão da vida, descido do céu, para dar a vida ao mundo (Jo 6,51; cf. Lc 11,3).
O casal foi obrigado a ir para um estábulo “porque não havia lugar para eles na hospedaria” (gr. katályma, “sala de jantar”: 22,11; Mc 14,14; 1Sm 9,22; “hospedaria”: Ex 4,24; 15,13; 2Sm 7,6; Jr 14,8; 32,38; 40,12; Sr 14,25; mas não “estalagem”, gr. pandocheión: 10,34). Uma vez que, segundo a Lei, tanto o bebé como a mãe ficavam impuros durante uma semana após o parto (por causa do sangue: Lv 12,1-4; Ez 16,6), eles geralmente ocupavam um espaço separado. Não havendo em Belém muitas casas (a maioria das quais só tinha duas divisões: uma para a família e outra para os animais), não foi fácil encontrar um lugar para a parturiente, nem sequer na hospedaria, que estava cheia. Sendo pobres (2,24; Lv 12,8), José e Maria procuraram um lugar reservado, onde pudessem estar à vontade.
O único lugar disponível foi um curral, um estábulo livre, situado, segundo uma tradição local, atestada já no séc. II, numa das grutas de Belém (S. Justino, Diál. 78; Orígenes, Contra Celso, 1,51; Pseudo-Mateus, 13; Proto-Tiago, 17-19; Ev. da Infância, 2-4). Foi aí que, num ambiente de tocante pobreza e simplicidade, Jesus nasceu. Sem nada possuir e nada reclamar, tendo por única casa o universo que criara, Deus vem ao mundo, mostrando, desde logo, no início, o seu nascimento, que vem para dar e não para receber: nele tudo é graça, tudo é dom do seu amor misericordioso.
Uma tradição do séc. VI (Pseudo-Mateus 14,1) põe na gruta um boi e um jumento. Isso não é referido pelo Evangelho. Trata-se de uma evocação de Is 1,3: “O boi conhece o seu proprietário e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não conhece, o meu povo não entende”; e de Hab 3,2 LXX: “dá a conhecer a tua obra entre dois animais” (he. “no meio dos anos”).
- v. 8. Havia naquela região uns pastores que pernoitavam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite.
Belém é ainda hoje uma região de pastoreio, situada a uns 10 km de Jerusalém. Foi num dos campos ao redor de Belém, que David foi chamado para voltar a casa de seu pai, Jessé, para ser ungido rei por Samuel (1Sm 16,11s). É aí, nesses mesmos campos, que estão uns pastores que “durante as vigílias da noite” (toda a noite) “guardavam o seu rebanho” (no singular). Trata-se de pastores nómadas que certamente não eram dali e iam percorrendo a região com o seu rebanho, não guardando por isso as ovelhas nos estábulos de Belém. Segundo a tradição, o “Campo dos pastores” (onde se acha a “Gruta dos pastores”), fica em Beit Sahour (“Casa do sentinela da noite”), a 2,5 km de Belém (cerca de 1h a pé, com o rebanho).
Os pastores eram a classe social mais baixa, gente humilde, da qual nada se esperava. Eram tidos pelos rabinos como “ladrões” (bKid 4,14,82a), porque apascentavam o rebanho em propriedades privadas; “mentirosos”, porque o negavam, sendo, por isso, incapazes de prestar juramento; e “impuros”, porque lidavam com animais, não efetuando os rituais de purificação. Mas é a eles que Deus mostra a sua preferência (cf. Gn 4,2ss), dirigindo-lhes em primeiro lugar o Evangelho (cf. 4,18; 6,20).
Tudo se passa durante “a noite”, a primeira parte do dia para os judeus. Com a sua ausência de formas e limites, a noite é a matriz das obras de Deus. Símbolo da eternidade, porque anterior ao despontar da luz da criação (Gn 1,1; Sl 110,3), nela refulgem as estrelas, imagem da fidelidade de Deus (Sl 19,2ss; 89,2). Tempo de silêncio, repouso, recolhimento e paz, é nela que mais facilmente se escuta a Palavra de Deus (Sb 18,14s) e se partilha o amor e a intimidade (Ct 5,1; 7,12). Símbolo do pecado e da morte (Jo 13,30), é nela que refulgem mais claramente o amor e a misericórdia de Deus (Is 9,1; Lc 1,79), que os dissipa com o fulgor da sua luz, Jesus Cristo, seu Filho (2,32; Jo 1,5).
- v. 9. Um anjo do Senhor apresentou-se a eles e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e tiveram grande medo.
O “anjo do Senhor” (1,20) é um “mensageiro” de Deus, enviado aos homens para lhes revelar a sua presença e lhes transmitir a sua palavra (Gn 16,11; 22,11.15; Ex 3,2). Ele apresenta-se aos pastores “em pé” (24,4; At 12,7), enquanto a glória de Deus (Lc, 3 x: v. 14; 19,38) os envolve de luz (At 26,13), infundindo neles um temor sagrado, a reação do homem perante a irrupção do sobrenatural (v. 9; 1,13.30; 5,10; 8,25.35; 9,34.45).
A “glória do Senhor” indica o esplendor da divindade que manifesta a grandeza, o poder, o amor, a misericórdia e a fidelidade de Deus na obra da salvação (Ex 33,18; 34,6s). A presença dos anjos neste quadro serve para definir duas esferas: a divina, onde habitam os anjos; e a terrena, humana. Os destinatários da mensagem do anjo não são assim apenas os pastores, mas neles toda a humanidade (v. 14), que carece da glória de Deus e da luz da salvação (Tt 2,11ss).
- v. 10. Disse-lhes o anjo: «Não tenhais medo. Eis que vos evangelizo uma grande alegria, que será para todo o povo.
“Não tenhais medo” (Lc, 8x: 1,13.30; 5,10; 8,50; 12,4.7.32): a exortação, inicialmente dirigida aos pastores, destina-se, de facto, a toda a humanidade, em especial aos grandes, aos governantes e aos detentores do poder, que, como Herodes, sem razão persistem em se sentir ameaçados pela notícia e a presença deste inocente, tão pequeno, inócuo e desprovido de riquezas e de força, que é o Menino Jesus (cf. Mt 2,16).
O anjo anuncia-lhes uma boa-nova, literalmente: “evangeliza-os” (gr. evangelizo, Lc, 10x: 1,19; 3,18; 4,18.43; 7,22; 8,1; 9,6; 16,16; 20,1), levando-lhes a boa nova do nascimento (Jr 20,15) de Jesus. Esta boa nova fará brotar uma "grande alegria" (Mt 2,10!), a alegria messiânica, prometida por Deus (1,28; 13,17; Is 9,3; 49,13; 61,3; 66,10; Jr 31,13; Jl 2,21; Sf 3,14; Zc 9,9; Gl 5,22; Rm 14,17), que se destina não só a “muitos” (como foi no caso do nascimento de João Batista: 1,14), mas a “todo o povo” (At 15,3), ou seja, a toda a humanidade (Is 9,1.8).
- v. 11. Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor.
O anjo transmite então o querigma cristão. Feito a membros do povo de Deus, é necessariamente introduzido pelo argumento rabínico do cumprimento das Escrituras. É em Jesus que se cumprem as promessas divinas, aqui evocadas por cada uma das palavras ditas pelo anjo: 1) “nasceu-vos” (Is 9,5s; a vós, homens: v. 14). “Hoje” (Lc, primeira de 8x: 4,21; 5,26; 13,32. 33; 19,5.9; 23,43), não tem apenas sentido cronológico (12,28, 22,34.61), mas também o sentido teológico do “dia da salvação e da graça” (2Cor 6,2), em que se cumprem as promessas de Deus na vida daqueles que acreditam na Palavra; 2) “na cidade de David”, Belém (cf. v. 4), o Messias, seu descendente (v. 6; cf. Mq 5,2; 2Sm 7,12s.16; Sl 89,20-29).
O anjo apresenta em seguida, com um toque de universalidade (cf. Jo 19,20), a pessoa e a missão de Jesus através dos seus três principais títulos:
a) no mundo romano, “Salvador” (Jo 4,42; 1Jo 4,14; indicado no nome de Jesus, “Deus salva”, em Lucas só aqui, em 1,47; At 5,31; 13,23, mas presente no acróstico cristão ΙΧΘΥΣ, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador), título dado a Deus no AT (Sl 24,5; 27,1.9; 62,3.7; 65,6; 78,9; 95,1; Is 12,2; 17,10; 45,15.21; 62,11; Mq 7,7; Ha 3,18; Zc 9,9; Sr 51,1; 1 Mc 4,30), aqui também com um sentido humano e universalista (Jdt 9,11; 1 Sm 10,19; Br 4,22; Sb 16,7);
b) no mundo judaico: “Cristo”, o Messias (“Ungido”; Lm 4,20) prometido por Deus nas Escrituras;
c) “Senhor” (he. Adonai), o título reservado no AT para substituir o nome divino IHWH e o mais usado pelos cristãos para Cristo a partir da Sua ressurreição (24,34; At 2,36; Jo 20,18.25.28).
- v. 12. E este será para vós o sinal: encontrareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura».
Os pastores devem dirigir-se a Belém. Na Sagrada Escritura “sinal” (v. 34) designa algum portento ou ação sobrenatural realizada por Deus, manifestando aos homens a Sua presença, ação e poder (cf. 1Sm 10,1; Is 38,7; cf. Is 7,14; 11,12). Neste caso, surpreendentemente "o sinal" dado aos pastores para poderem identificar Cristo não é o fausto e o esplendor de uma corte real, nem um milagre impressionante, uma irrefutável manifestação sobrenatural (11,29; 23,8), mas o sinal desconcertante da pobreza, inocência, humildade e simplicidade deste Menino, Deus feito homem, frágil e necessitado de cuidados maternos e de amor (v. 7), “envolto em panos" para se manter limpo e quente, "e deitado numa manjedoura”, para dormir sossegado, sem se voltar, evitando o perigo de morrer sufocado (cf. v. 7).
- v. 13. E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo.
“De repente” (indicação atemporal, típica das teofanias: At 9,3; 22,6), junta-se ao anjo “uma multidão do exército celeste” (cf. Sl 68,12), Segundo um apócrifo do tempo, A Vida de Adão e Eva (4,8; 8,1), o primeiro homem no paraíso via os anjos a louvar a Deus no céu. Em Jesus unem-se o céu e a terra (cf. Jo 1,51; Ef 1,10) e o homem é reconduzido ao paraíso da comunhão com Deus (cf. 23,43), que tinha sido rompida pelo pecado.
A “multidão do exército celeste” são os anjos e os espíritos puros (1Rs 22,19; Ne 9,6; Sl 103,20; Mt 26,53), que “louvam” (v. 20; 19,37; At 2,47; 3,8; Sl 148,2; Br 3,6; Jb 38,7!) o Deus vivo e verdadeiro, Criador dos céus e da terra. O “exército celeste” dos anjos contrasta aqui com “o exército” das estrelas, adorado pelos homens (Sf 1,5; Jr 8,2; 19,13; At 7,42), e com o “exército” dos romanos (cf. 1Mc 2,266; 2Mc 15,20), que oprimia o povo de Israel e por ele não só era temido, mas também maioritariamente odiado. - v. 14. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade».
Ao invés da mudez e do vazio degradante do “exército celeste” dos ídolos (Jr 7,18; 8,2; 19,13; Sf 1,5; 2 Cr 33,3.5; At 7,42), o exército dos anjos anuncia a missão e a obra do Messias: glorificar a Deus “nas alturas” (19,38; cf. Hb 1,6) e trazer aos homens a verdadeira paz, bem diferente da deste mundo (Jo 14,27), a paz messiânica, plenitude dos bens prometidos por Deus, que traz a salvação (19,42). Paz que se traduz na comunhão com Deus e com os irmãos por meio de Cristo (v. 29; 1,79; 10,5; 19,38; Is 57,19; Ef 6,15; Mq 5,5; Is 9,5s; 11,1-12,6; 52,7; 53,5; 66,12; Cl 1,20).
Paz que, em Cristo, Deus estenderá a todos os homens, manifestando-lhes o seu favor (gr. eudokías, “favor”, “complacência”: Sl 51,20; Sr 1,27; 11,17; 32,14), ou seja, o seu amor, usando de bondade para com eles (cf. Tt 3,4-9). Mas só a recebem “os homens de boa vontade” (Sr 15,15; Fl 1,15; Rm 10,1), que, com humildade (10,21; Mt 11,26), procuram agradar a Deus, correspondendo ao Seu amor (Sr 2,16; 33,13; 35,3.16), manifestado em seu Filho, Jesus Cristo (3,22; 9,35; Mt 3,17; 17,5; Mc 1,11), amando os outros e vivendo em paz e comunhão com eles (Rm 12,18), a começar com os mais pequenos e necessitados.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Com que olhos e coração abordo este mundo: com a lógica e o coração de Deus ou com os dos homens?
- Sinto-me livre ou estou demasiado ocupado com coisas supérfluas, esquecendo o essencial, que é levar a Boa Nova aos pobres?
- Jesus já nasceu efetivamente na minha vida, na minha família, na minha comunidade religiosa, grupo ou comunidade cristã? Quer fazer, para que isso aconteça?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 96,1-2a.2b-3.11-12.13
Refrão: Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira,
cantai ao Senhor, bendizei o seu nome. R.
Anunciai dia a dia a sua salvação,
publicai entre as nações a sua glória,
em todos os povos as suas maravilhas. R.
Alegrem-se os céus, exulte a terra,
ressoe o mar e tudo o que ele contém,
exultem os campos e quanto neles existe,
alegrem-se as árvores das florestas. R.
Diante do Senhor que vem,
que vem para julgar a terra:
julgará o mundo com justiça
e os povos com fidelidade. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer esta santíssima noite com o nascimento de Cristo, verdadeira luz do mundo, concedei-nos que, tendo conhecido na terra o mistério desta luz, possamos gozar no céu o esplendor da sua glória. Ele que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.