Primeiro Domingo da Quaresma - Ano C - 09. Março. 2025

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen. 

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?) 

Leitura do Evangelho segundo S. Lucas (4,1-13) 

4,1Jesus, cheio do Espírito Santo, regressou do Jordão e era conduzido pelo Espírito no deserto 2durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo. Não comeu nada nesses dias e, quando estes terminaram, sentiu fome. 3Disse-lhe, então, o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão viverá o homem». 5Então, levando-o para o alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do mundo habitado 6e disse-lhe: «Dar-Te-ei toda esta autoridade e a sua glória, porque me foi entregue, e dou-a a quem quiser. 7Por isso, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo será teu». 8Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás ea Ele prestarás culto». 9Conduziu-o então a Jerusalém, pô-lo sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, 10porque está escrito: Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito, para que te guardem; 11e ainda: levar-te-ão nas mãos para que o teu pé não tropece em alguma pedra”». 12Jesus respondeu-lhe: «Está dito: Não tentarás o Senhor, teu Deus». 13Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, afastou-se dele até a um momento oportuno.

      Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações: 

  • v. 1 (vv. 1-13: Mt 4,1-11; Mc 1,12s).  As tentações de Jesus são postas pelos Sinóticos início da sua atividade, logo após o seu batismo no rio Jordão (3,21s). “Cheio do Espírito Santo” (At 6,5; 7,55; 11,24), Jesus é por Ele levado e conduzido ao deserto. O deserto é o lugar do encontro (cf. Ex 3,1; Os 2,16) e do noivado de Deus com o seu povo (cf. Jr 2,2), que Ele guia e do qual se ocupa com amor de Pai (cf. Os 11,1-4; Dt 1,31; 2,7). É para aí que Jesus vai, a fim de se preparar, pela oração e pelo jejum (cf. At 13,3), para a sua missão.
  • v. 2. O deserto, morada dos espíritos impuros (cf. 8,29; 11,24; Lv 16,10), também é o lugar da prova e da tentação. Simboliza a fraqueza e a desolação do homem. Por isso, este episódio vem logo a seguir à menção de Jesus como “filho de Adão, filho de Deus” (3,38). Tal como o primeiro homem, Adão, foi tentado pela serpente (cf. Gn 3,6), e Israel, “o filho primogénito” de Deus (Ex 4,22; Dt 14,1; Jr 31,9; Os 2,1; 11,1; Sb 18,13; 2Cor 6,18), foi posto à prova no deserto “para saber o que estava no seu coração” (Dt 8,2; cf. Jz 2,22; 3,1.4; Sl 25,2; Sr 4,17), também Jesus foi tentado “em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado” (Hb 4,15), para experimentar a nossa fraqueza, nos ensinar a reconhecer as ciladas do diabo e nos ajudar a vencer n’Ele “toda a espécie de tentação”.
  • Jesus esteve no deserto “quarenta dias”. “Quarenta” tem no AT um valor simbólico: a) 40 dias é o tempo necessário para levar a cabo uma tarefa (Nm 13,25; Jn 3,4; At 1,3); b) 40 dias passou Moisés duas vezes no Sinai (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,9.18); c) 40 dias durou a caminhada de Elias no deserto até chegar ao Horeb, o Sinai (1Rs 19,8); d) 40 anos (uma geração) foi o tempo que Israel, saído do Egito, passou no deserto (Ex 16,35; Dt 2,7; Sl 95,10). Mas, ao invés de Moisés e Elias que aí passaram respetivamente duas quarentenas (Dt 9,9.18) e uma (1Rs 19,8), sem nada comer ou beber e sem terem tido fome ou sede, de Jesus, ao invés, diz-se só que não “comeu nada… e … sentiu fome”.
  • Jesus vai ao deserto para recapitular a história do homem e do povo de Deus, inaugurando o novo êxodo (9,31) em que instaurará a nova Aliança (22,20) revelando o verdadeiro rosto de Deus aos homens e a sua nova e definitiva forma de estar no meio deles.
  • No deserto, Jesus é “tentado pelo diabo”. “Tentar” é “pôr à prova” para apurar a realidade que está sob as aparências. “Diabo” (gr. diabolos) é o que “divide”. É sinónimo de “Satanás” (he. “adversário”), o “tentador” (Ap 12,9; 20,2) que procura separar o homem de Deus e dos irmãos, fazendo-o duvidar da bondade e do amor de Deus (aproveitando-se dos escândalos, provas e sofrimentos da vida), a fim de o levar a crer que só será livre e feliz se se realizar por si mesmo, sobrepondo-se a Deus e aos outros, fazendo a sua própria vontade. Por isso, cada uma das tentações toca um dos três eixos da existência do homem, na sua relação: 1) com a realidade, 2) com os outros 3) e com Deus.
  • v. 3. A primeira tentação, a do pão, é a mais imediata, centrando-se na relação do homem com a realidade, que ele quer possuir, moldar e sujeitar à sua vontade, erigindo-se como medida, centro e senhor de tudo, esquecendo os outros e não se aceitando como criatura. É a tentação primordial do homem: fazer-se igual a Deus (cf. Gn 3,5).
  • Como o diabo não vê a Deus, não sabe que Jesus é Deus, limitando-se a aplicar-lhe o título messiânico que ouviu no batismo: “se és Filho de Deus” (cf. 3,22; 1,35; 8,28; 2Sm 7,14; 1Cr 17,13; 22,10; Sl 89,27; Sb 2,18). Se Jesus é o Messias de Deus, porque há de sofrer? Mande, à margem de Deus (cf. Ex 16,8.12!), que aquela pedra se transforme em pão para satisfazer as suas necessidades materiais, simbolizadas pelo pão (cf. Sl 78,18).
  • v. 4. Jesus, porém, rejeita o caminho da autossuficiência (cf. Fl 2,6ss) e responde com Dt 8,3, onde se afirma que a vida do homem não está no pão, mas na obediência à vontade de Deus, da qual depende cada ser. Há, que reconhecer-se criatura e pôr o Pai, fonte da vida, o único que pode saciar o coração do homem, em primeiro lugar, abandonando-se a Ele com toda a confiança (cf. 12,29ss).
  • v. 5. A segunda tentação é a mais sedutora; incide na relação com os outros: subir na vida, ter riquezas, sucesso, afirmar-se, dominar sobre os outros e submetê-los ao seu poder, dispondo da sua vida, como se fosse seu “deus” (2Ts 2,4). É o caminho dos grandes deste mundo (cf. 22,25; Gn 11,4). Mas quem busca a glória deste mundo, acaba por cair na idolatria do dinheiro (cf. Cl 3,5), tornando-se escravo de Satanás (cf. Jo 14,30; 16,11; Ef 2,2).
  • O diabo procura seduzir Jesus, “levando-o para o alto”, e mostrando-lhe todos os reinos da terra. Mostra-o “num instante” para não o deixar ver como é que o mundo conquista tal “autoridade” (força opressora) e “glória” (riquezas) e como as mantém: quanta mentira, guerras, sofrimento, mortes, opressão, miséria, corrupção e traições custam.
  • v 6. É assim que Satanás exerce o seu poder no mundo, do qual se orgulha falsamente de ser o dono (cf. Ex 19,5; mas Jesus vencê-lo-á: 10,18; Jo 12,31; Mt 28,18). 
  • v. 7. Se Jesus, prostrado diante dele, o adorar, tudo será dele. É o desejo do primeiro lugar, a tentação da idolatria e do poder.
  • v. 8. Jesus contrapõe-lhe a Palavra de Deus: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto” (Dt 6,13; cf. Ex 20,5; Dt 5,9). Jesus não quer realizar-se à margem do Pai, pondo-se acima dos outros, mas na obediência a Ele, no amor e serviço ao homem, a começar pelos pobres.
  • v. 9. A terceira tentação, a mais subtil, é a da história, a da relação com Deus. Ao invés de Mateus, Lucas põe esta tentação em último lugar, fazendo convergir toda a existência de Jesus para o templo de Jerusalém, um tema que lhe é caro e com o qual abre e fecha o Evangelho (1,9; 24,51s). O diabo leva Jesus até ao paredão mais alto do Templo, o pináculo, e incita-o a atirar-se dali abaixo, dando a todos um sinal espetacular da sua messianidade.
  • vv. 10-11. Para o convencer, o diabo “imita” Jesus, citando a Escritura, mas para o enganar (cf. 2Cor 11,14). Cita o Sl 91,11s, que lê em chave messiânica de um triunfalismo milagreiro. É a tentação de usar a religião, servindo-se de Deus, em vez de O servir, a tentação de Lhe exigir “sinais” para acreditar (cf. 1,18; 11,16.29; 23,8; Ex 17,7; Nm 14,22).
  • v. 12. Jesus responde com a Escritura, recusando todo o triunfalismo: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt 6,16). Há que aprender a ser filho, a percorrer o caminho da obediência e da confiança filial, o caminho da Aliança, através do qual Ele revelará o verdadeiro rosto de Deus como Pai e o dará a conhecer, glorificando-o como seu Filho (cf. Fl 2,7; Hb 5,8). 
  • Jesus vence todas as tentações apoiado na Palavra de Deus (Ef 6,17), onde vê expressa a vontade e o caminho do Pai a seu respeito. Todas as citações são do Deuteronómio, o livro que define a relação do homem com Deus como amor. O homem nunca poderá realizar-se sozinho, à margem do amor de Deus, mas só vivendo como filho obediente ao Pai, pondo n’Ele toda a confiança e deixando ser Ele a guiar e dispor da sua vida e não o contrário. 
  • v. 13. As tentações de Jesus não foram apenas dele, nem duraram só 40 dias, mas são as de todas as pessoas, durante toda a vida. Por isso, Jesus foi tentado como Adão. Mas enquanto o primeiro, tentado no paraíso, caiu, Jesus, no deserto, venceu. E se a desobediência do primeiro levou o homem à queda, a obediência de Jesus resultou na queda de Satanás (cf. 10,18). Entretanto, o diabo, que nunca se dá por vencido, “afastou-se” de Jesus “até um momento oportuno” (cf. 22,3.31) em que levará avante o seu intuito assassino de “ferir” Jesus não só “na carne e nos ossos”, como a Job (Jb 2,4s), mas também na própria vida. 

Ler o texto segunda vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo... 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

      a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio… d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou/vamos pôr em prática? 

  • Que plano tem Deus para mim? Confio nele e acredito no Seu amor? Que é mais decisivo para mim: a sua Palavra ou os meus projetos?
  • Olho apenas para o meu próprio conforto, êxito, poder e vontade? Como poderei imitar o exemplo de Jesus e seguir o seu caminho?

 

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que inflame o coração)

Salmo responsorial                                                    Sl 91,1-2.10-15 (R. cf. 15b)

Refrão: Estai comigo, Senhor, no meio da adversidade. 

Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo
e moras à sombra do Omnipotente,
diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela:
meu Deus, em Vós confio».     R.

Nenhum mal te acontecerá,
nem a desgraça se aproximará da tua tenda,
porque Ele mandará aos seus Anjos
que te guardem em todos os teus caminhos.     R.

Porque em Mim confiou, hei de salvá-lo;
hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.
Quando Me invocar, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,
hei de libertá-lo e dar-lhe glória.     R.

Pai-nosso… 

Oração conclusiva: 

Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pelas práticas anuais do sacramento quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e demos testemunho dele com uma vida digna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na própria vida)

Fr. Pedro Bravo, oc