2º Domingo do Tempo comum, ano A – 18 de janeiro de 2025

Francisco de Zurbaran c. 1635 1640 San Diego Museum of Art

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. João (1,29-34) 

1,29No dia seguinte, João Batista vê Jesus a vir ter com Ele e diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. 30Este é Aquele de quem eu disse: ‘Após mim vem um homem que passou adiante de mim, porque era primeiro que eu’. 31E eu não O conhecia, mas foi para que fosse manifestado a Israel que eu vim batizar na água». 32E João deu testemunho, dizendo: «Vi o Espírito descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. 33E eu não O conhecia, mas foi Aquele que me enviou a batizar na água que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, é Ele que batiza no Espírito Santo’. 34E eu vi e dou testemunho que Ele é o Filho de Deus».

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

O texto de hoje faz parte da secção introdutória do Quarto Evangelho (1,19-3,36), onde o evangelista, através de diversas personagens, apresenta e diz quem é Jesus.

Na primeira parte desta secção (vv. 19-51), o evangelista desenvolve em cada um dos episódios que a compõem, uma declaração anterior sobre João Batista ou por ele feita:
1º) vv. 19-28: “eu não sou o Messias” (v. 20), cf. v. 8: “Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”;
2º) vv. 29-34: "era primeiro que eu (o presente texto), cf. v. 15: “era primeiro do que eu”;
3º) vv. 35-42, os dois discípulos que deixam João Batista para seguir Jesus, cf. v. 15: “O que vem após mim, passou adiante de mim”;
4º) vv. 43-51, o chamamento de Filipe e Natanael, cf. v. 7: “para que todos cressem por meio dele”; cf. v. 31: “para que Ele fosse manifestado a Israel”.

A perícope de hoje transmite-nos o testemunho central de João Batista sobre Jesus. Nela, narra-se o batismo de Jesus, não a partir do acontecimento, já suficientemente narrado pelos Sinópticos, mas do testemunho de João Batista. Desta forma, o evangelista, que escreve para cristãos que não tiveram acesso a Jesus, a não ser através do testemunho dos apóstolos, torna mais presente ao espírito dos seus leitores, através do testemunho de João Batista, o mistério central deste acontecimento, que não reside no batismo de Jesus na água pelo Precursor, mas na unção de Jesus pelo Espírito Santo após o seu batismo na água e na sua investidura messiânica por Deus, que O apresenta como seu Filho presente no meio dos homens.

A perícope divide-se em duas partes simétricas, dispostas de forma concêntrica, em quiasma, tendo como elemento central a visão do Espírito que desce sobre Jesus e n'Ele estabelece a sua morada permanente:

         1,29:          Proclamação da identidade e missão de Jesus
         1,30:          Citação de um dito passado
         1,31:          Confissão de ignorância: “Eu não O conhecia”

         1,32:          Visão do Espírito

         1,33a:        Confissão de ignorância: “Eu não O conhecia”
         1,33b:        Citação de um dito passado
         1,33c-34:   Proclamação da missão e identidade de Jesus.

O anúncio de João nesta passagem é um monólogo. Na primeira parte, João fala; na segunda, dá testemunho de Jesus. A repetição no v. 30 do testemunho de João apresentado no v. 15 põe o presente episódio em estreita relação com ele, como vimos.

  • v. 29. No dia seguinte, João Batista vê Jesus a vir ter com Ele e diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

    (vv. 29-34: Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21s). Estamos em Betânia (v. 28), mais precisamente em Bethabara (aram. “casa do vau” de passagem, em árabe Al-Maghtas, “o batismo”, "a imersão"), o lugar por onde Israel, guiado por Josué (gr. LXX: Iesoús, "Jesus"), tinha entrado na Terra Prometida (cf. Js 3,1-4,18), a zona onde o profeta Elias tinha sido arrebatado ao céu (cf. 2Rs 2,6-14).

    A expressão “no dia seguinte” liga estreitamente esta passagem com episódio com o anterior. O “dia seguinte” (vv. 35.43; cf. Nm 33,3; 1Cr 29,22) é o segundo dia da oitava inaugural de Jesus no Quarto Evangelho (1,19-2,12), oitava à qual corresponde a oitava conclusiva da ressurreição de Jesus (20,1.26), com a qual originalmente se encerrava o Evangelho (20,30s).

    Ao não explicitar o auditório a que se dirige João Batista e formular os verbos no presente do indicativo ("vê", "diz"), o evangelista indica que o testemunho do Precursor é perene, dirigindo-se às pessoas de todos os tempos, com eco permanente nas comunidades cristãs (cf. v. 15).

    João Batista “vê” profeticamente (9,39.41; cf. Is 6,9; Jr 5,21) “Jesus”: é a primeira vez que Jesus é mencionado pelo seu nome (v. 17: Jesus Cristo) na narrativa evangélica. “A vir ter com ele” (vv. 9.47; 1Sm 9,16s): esta expressão prepara a apresentação de Jesus como Ungido (he. Messias) do Senhor.

    João apresenta Jesus como o Messias, dando testemunho dele (completado em 3,22-36) com cinco afirmações profundamente teológicas: 1) Jesus é o Cordeiro de Deus 2) que tira o pecado do mundo; 3) Ele é o Messias 4) que batiza no Espírito Santo; 5)  em conclusão: Ele é o Filho de Deus.

    1) João começa por apresentar a missão de Jesus à luz de uma imagem surpreendente. Não O dá a conhecer logo, em primeiro lugar, como Messias, a fim de evitar qualquer confusão com a expectativa dos dirigentes e do povo judaico de um Messias guerreiro (11,49ss), rei triunfante (cf. v. 49; 6,15), um “leão” que extermina os inimigos e os pecadores (4Esd 12,31-34; cf. Gn 49,9; Nm 24,9; Mq 5,8; Is 11,6; 35,9; 65,25). Não O apresenta também à luz de algum personagem ou tema tradicionalmente aplicado ao Messias no AT, mas aponta-o como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

    Com esta expressão, João refere-se a dois temas do AT. Em primeiro lugar, ao cordeiro pascal que se imolava ao fim da tarde do dia 14 de nissan, na véspera da páscoa judaica: “O cordeiro será macho, sem defeito e de um ano. Vós o escolhereis entre os cordeiros ou entre os cabritos e o guardareis até ao décimo quarto dia desse mês; e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. Tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sobre as duas ombreiras e sobre o dintel da porta das casas em que o comerem” (Ex 12,5-7). Esta imagem apresenta logo desde o início a missão de Jesus em chave pascal, como um novo êxodo, ligando-a à sua morte, uma vez que Jesus será crucificado na hora em que os cordeiros pascais começavam a ser imolados no templo de Jerusalém (19,14.27-34). Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1Cor 5,7) cujo sangue salvará o homem, não da escravidão do Egito, mas da escravidão do pecado; não do flagelo que exterminou os primogénitos dos egípcios, poupando os primogénitos de Israel, mas da morte, que a todos atinge.

    Em segundo lugar, ao Servo Sofredor de Iavé (Is 53,7), que é levado à morte como manso cordeiro (Jr 11,19), carregando sobre si os pecados "de muitos" (ou seja, não apenas pelos pecados do seu povo) e oferecendo a sua vida em sacrifício expiatório por eles (cf. Ex 29,38; Nm 28,3; Lv 23,19), intercedendo pelos pecadores (cf. Is 53,10-12). É neste sentido que Jesus é "o Cordeiro de Deus", o Cordeiro dado por Deus (cf. Gn 22,13; jTaan 2, 4, 2-3), para expiar o pecado "de muitos". "De muitos" é o complemento que João Batista explica logo na expressão que se segue.

    “Que tira o pecado do mundo”. “Tirar” vem do verbo grego aírô que significa “levantar”, “tomar sobre si”, “carregar”, “levar embora”, “remover”. Como "Cordeiro de Deus", Jesus levanta e tira de cima da humanidade o fardo do pecado que sobre ela pesa, e carrega-o sobre si, expiando-o em propiciação pelo pecado (cf. 1Jo 2,2; 4,10; Rm 3,25), perdoando-o assim e removendo-o. Jesus não vem libertar o homem de um jugo exterior, mas do pecado, perdoando-o (20,23), algo que só Deus podia fazer.

    “Pecado” não está no plural, "pecados" (gr. anomía; he. avon, “iniquidade”), designando as faltas, os pecados cometidos, mas no singular: "o pecado" (gr. hamartía; he. hattah, lit. “falhar”, “errar o alvo”: Ex 34,7; Sl 51,4), referindo-se à fonte donde brotam os pecados.

    "O pecado", com artigo, no singular, é a raiz do mal. Nasce do juízo, nutre-se do orgulho (Gn 3,5ss; Rm 2,1; 7,8s; 1Cor 15,56), traduz-se na incredulidade e leva à rebelião, desobediência e inimizade com Deus (16,9). "O pecado" é a autossuficiência do homem que quer realizar-se e ser feliz, fazendo o bem e vivendo em paz com os outros, mas… por si mesmo, à margem dos outros, acreditando mais em si do que em Deus, pensando que só o conseguirá procurando satisfazer os seus apetites, fazendo a sua vontade, segundo a sua maneira de ver, usando os seus métodos e seguindo o seu caminho. Mas erra, acabando por entrar em conflito com os outros, por experimentar a morte e se tornar escravo daquilo que mais detesta: o mal.

    “Do mundo”: o pecado que Jesus tira de cima do homem, toma sobre si, carrega, perdoa, redime e liberta, bem como das suas consequências, é “o pecado do mundo” (gr. kósmos: 16,8; 1Jo 2,2), ou seja, o pecado de toda a humanidade, desde o primeiro homem, até ao último deles. João proclama a universalidade e a amplitude cósmica da salvação que Jesus levará a cabo através da sua paixão e morte de cruz, redimindo o homem da escravidão de Satanás, do pecado e da morte, com o seu próprio Sangue, um tema que será desenvolvido no NT (1Pd 1,19), em particular no Apocalipse (Ap, 27x: cf. Ap 5,6.12).

    O Messias que João irá indicar a seguir, apontando-o em Jesus, é um Messias diferente, que realizará a sua obra e levará a cabo a sua missão, não à maneira de um Messias terreno, impondo-se e triunfando sobre todos com força e violência, mas à maneira do Servo de Iavé, dando, por amor, com humildade e obediência, a sua vida pela salvação da humanidade.

    A nota de Joachim Jeremias (art. “amnós”, in: Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament  [ThWNT ] 1, Stuttgart 1933, 343.8-25) que a imagem usada por João Batista, se deveria ao facto de “cordeiro” em aramaico se dizer talya’, palavra que em aramaico significaria também “servo”, explicando assim como é que o Precursor teria identificado o Servo de Iavé com o cordeiro pascal de Deus, não é secundada pela exegese. Antes de mais, porque Talya’ não é uma palavra aramaica, mas um nome feminino hebraico que significa “orvalho de Deus”. Depois, porque a afirmação carece de fundamento, a começar pelo próprio autor, que não indica nenhuma passagem nem texto algum que comprove a sua tese. Em terceiro lugar, porque, ao invés de talya’ que nunca aparece no texto bíblico, ambos os termos aparecem em aramaico no texto bíblico, nada se assemelhando a talya’: “cordeiro” diz-se em aramaico ‘immar (Esd 6,9) e “servo” ‘abad (Esd 4,11). Talya’ também não é sinónimo – como alguns depois, sem fundamento, quiseram acrescentar – de “filho”, que em aramaico se diz bar (Sl 2,12; Pv 31,2), nem de “pão”, que em aramaico se diz lechem (Dn 5,1; 10,3). A designação com que João Batista apresenta Jesus, não obstante o seu profundo cariz bíblico, é original, inédita, não tendo paralelo nem na tradição judaica, nem na literatura extrabíblica. Trata-se de uma genuína revelação divina, feita ao Precursor e por ele anunciada.

  • v. 30. Este é Aquele de quem eu disse: ‘Após mim vem um homem que passou adiante de mim, porque era primeiro que eu’.

    Depois de apontar o Messias como o Servo de Iavé, o Cordeiro pascal dado por Deus ao homem, João identifica “o que vem após mim” por ele anunciado (v. 15), como sendo Jesus (v. 30).

    “Após mim vem um homem” (gr. opíso mou: Mt 4,19; Mc 1,17; Lc 9,23). João aponta inicialmente Jesus como continuador da sua missão (Mt 4,12.17; Mc 1,14). De facto, até João ter sido preso, Jesus limitar-se-á a agir discretamente, em segundo plano (3,22ss; 4,1s), como se fosse um dos discípulos do Precursor, sendo só a partir da prisão deste que começa a pregar e agir publicamente, de forma aberta (cf. Mc 1,14).

    “Que passou adiante de mim” (3,25s; Gn 45,5.7): Jesus passou adiante de João, "porque era primeiro que eu”, pois é Deus desde toda a eternidade, é o Logos divino que estava com o Pai e se fez carne (vv. 1-18), sendo, por isso, não só “primeiro” que João Batista, mas “o Primeiro” de tudo quanto existe (cf. v. 1), em sentido absoluto (gr. prótos), designação esta que, precedida do artigo, é proferida como um título divino (Is 44,6; 48,12; Ap 1,17; 2,8; 23,13).

  • v. 31. E eu não O conhecia, mas foi para que fosse manifestado a Israel que eu vim batizar na água».

    Como todos os cristãos, João, primeiro, antes de se encontrar com Jesus no seu batismo, não conhecia pessoalmente Jesus (v. 33). De facto, segundo a tradição, o Messias deveria permanecer oculto até ao dia em que fosse manifestado por Deus aos homens (v. 26; 7,27).

    "Mas foi para que fosse manifestado a Israel que eu vim batizar na água" (v. 31): João é apenas o enviado por Deus (vv. 6-7), no espírito de Elias, para preparar Israel para a chegada do Messias (v. 23) e O dar a conhecer ao seu povo.

  • v. 32. E João deu testemunho, dizendo: «Vi o Espírito descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele.

    3) Este é o ponto central do testemunho de João Batista: a visão que teve, para que pudesse atestar que Jesus é o Messias, porque foi ungido por Deus com o Espírito Santo.

    “Vi” (gr. theáomai: Ex 3,8; 24,16; 33,9; 34,5; Nm 11,17.25; Jz 14,19): João só conheceu Jesus a partir de uma “visão”, ou seja, de uma revelação sobrenatural, divina. Isso aconteceu nesta  teofania (“manifestação divina”), que lhe foi dada ver por ocasião do batismo de Jesus (que aqui não vem narrado, mas que se supõe), em que, pela primeira vez, se revelou a Trindade divina. O verbo “ver” está no perfeito do indicativo, sublinhando que este “ver” sobrenatural se prolonga no tempo, através da adesão da fé na palavra de Deus (v. 33).

    “O Espírito descer do céu”: para ungir Jesus, na sua humanidade, como Messias (At 10,37s). João não diz "o Espírito Santo", mas "o Espírito", a fim de O apresentar em pé de igualdade, como Pessoa divina, com o Pai e o Filho.

    “Em forma de pomba”. É uma alusão:

    a) ao Espírito criador de Deus que no princípio da criação adejava sobra as águas (Gn 1,2), simbolizado nalgumas tradições judaicas por uma pomba (bHag 15a). Em Jesus inaugura-se a nova criação (cf. Is 65,17; 66,22s);

    b) à pomba que no dilúvio voltou à arca, para vir ter com Noé, trazendo no bico um ramo de oliveira, anunciando o fim do dilúvio (cf. Gn 8,11). Jesus é o primogénito da nova humanidade, regenerada e salva pelas águas do batismo (cf. 3,3-5; 1Pd 3,20s);

    c) ao povo de Israel, desposado por Deus no Sinai (Ct 2,14; 5,2; 6,9; Sl 68,14; Os 11,11), simbolizado na tradição judaica pela pomba (Midr Ct 1,15; 2,14; 4,1; bSahn 95a; bBer 53b). Jesus é o Esposo, que desposará o novo povo de Deus, a nova humanidade, dando-lhe o Espírito Santo, que o unirá a Ele, a fim de participar na Sua vida com o Pai.

    “E permanecer sobre Ele” (gr. ep’autón): é uma alusão a Is 11,2; 42,1. Jesus é o ungido que recebe a plenitude do Espírito, para como Rei-Messias, que leva a cabo a sua missão com humildade, ao modo do Servo de Iavé, estabelecer a paz universal. A expressão ep’autón significa que alguém constrói/põe a sua morada sobre algo. No AT o Espírito Santo descia de forma pontual sobre as pessoas. As exceções são Moisés (cf. Nm 11,17.25), David (cf. 1Sm 16,13) e Elias (cf. 2Rs 2,9.15), que, no entanto, não possuíram a plenitude do Espírito Santo, nem o puderam comunicar. Jesus, o Verbo encarnado, é o novo Moisés, o Messias, filho de David, que na Sua humanidade recebe a plenitude do Espírito Santo, que, ao invés das outras personagens do AT, n’Ele estabelece a Sua morada definitiva e permanente, para Ele O poder dar em plenitude àqueles que Lho pedirem e n’Ele crerem (v. 33).

  • v. 33. E eu não O conhecia, mas foi Aquele que me enviou a batizar na água que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, é Ele que batiza no Espírito Santo’.

    João Batista reitera a sua confissão de ignorância, pronunciada na primeira parte (v. 31): “Eu não O conhecia”. De facto, Jesus não pode ser conhecido a partir de critérios nem por meios humanos (v. 10; cf. Mt 16,17), mas só à luz da fé, graças ao Espírito Santo (cf. 2Cor 5,16; 1Cor 1,21; 12,3). Na realidade, nunca se acabará de conhecer Jesus, nem na terra, nem na própria eternidade (17,26; Jr 16,21; Sr 24,28; Rm 11,33-36; Ef 3,19).

    “Mas para que Ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água” (v. 31): é após o batismo de Jesus, recebido de João “na água” do rio Jordão – facto que o evangelista omite, primeiro, porque já narrado nos Sinóticos, e depois, para não apresentar Jesus como inferior ao Batista a uma comunidade em que João Batista gozava de grande prestígio e para a qual escreve o seu Evangelho –, que o Espírito Santo desce sobre Jesus e o Pai O dá a conhecer como o Messias, Seu Filho unigénito. É o que João refere a seguir.

    4) A revelação do Pai (cf. Mt 3,17; Mc 1,11; Lc 3,22) completa o testemunho de João (vv. 33s). Esta revelação substitui no Quarto Evangelho a  bat kol ("a filha da voz"), através da qual o Pai apresenta o Seu Filho como Messias (cf. Mc 1,11p). Deus dá a conhecer a João Batista, através de uma revelação pessoal, que Jesus é o Messias. João ainda não designa aqui Deus "Pai" – coisa que no Quarto Evangelho só acontecerá depois de Jesus ter chamado a Deus “Pai (2,16; 3,16-17.35)–, mas "Aquele que me enviou a batizar na água".

    “Ver” indica uma revelação divina (v. 32; At 2,3); “batizar” significa “mergulhar” na água até ficar encharcado (2Rs 5,14).

    Deus mostra a João que Jesus não é apenas o Messias em cuja era Ele aspergiria com água pura o seu povo e infundiria nele o Espírito, conforme prometera (Ez 36,25s), mas é mais do que o Messias prometido, uma vez que “é Ele que batiza no Espírito Santo” (3,11; 28,19; Mc 1,8; Lc 3,16; At 1,5; 11,16; cf. At 10,47; 1Cor 12,13; Tt 3,5). Segundo o AT, só Deus poderia cumprir a promessa de “derramar” o seu Espírito sobre o homem (Jl 3,1s; Ez 39,29; Zc 12,10; Nm 11,29); mas aqui é Jesus que o fará, e de um modo tão abundante, que será um autêntico “batismo”, um mergulhar nas torrentes vivas do Espírito Santo (cf. Ez 47,1-12), para d’Ele renascer, n'Ele viver e d’Ele ficar repleto.

    A partir da correspondência com o v. 29, na estrutura quiástica desta perícope, precisa-se desta forma o objetivo da missão de Jesus: “batizar no Espírito Santo”, ou seja, dar o Espírito sem medida (3,34) a quem n’Ele crê (7,37s), mergulhando-o no amor de Deus, fazendo-o renascer como filho de Deus (1,12s) para a vida eterna (3,5-8), para que como tal viva (1Jo 3,1s; 4,16s), sendo um, em Cristo, com o Pai e com os irmãos (17,20-23).

    É assim que Jesus, o Cordeiro de Deus, tirará o pecado do mundo: infundindo o Espírito Santo naqueles que n'Ele creem. De facto, o Espírito Santo é a remissão dos pecados (cf. 20,22-23; Jr 31,33s; Ez 36,23-29), uma vez que, ao restabelecer a comunhão com Deus e com os homens que o pecado rompera, santifica aqueles em quem Se infunde para os tornar participantes da vida divina que Jesus glorificado goza junto do Pai, fazendo com que todos sejam um n'Ele e, com Ele, um com o Pai. Nisto consiste a salvação.

    Com esta nota, revela-se o significado da visão central do Espírito Santo a descer sobre Jesus: o Pai investe e dá a conhecer Jesus como o Messias, ungido pelo Espírito Santo, presente no meio dos homens, para levar a cabo a sua salvação. De facto, segundo as Escrituras e a tradição judaica, o Messias deveria ser sacerdote, profeta e rei (Sl 110,4; Lv 21,12; Dt 18,18; Is 45,1; 1QS 9,11). Mas desde a morte de Jeconias, o último rei de Judá, no cativeiro da Babilónia (d. 561 a.C.: 2Rs 25,30), nunca mais houve um rei da casa de David em Israel até hoje. Além disso, desde a nomeação de Jónatas Macabeu para Sumo-sacerdote pelo rei Alexandre Balas (1Ma 10,18-21), em 152 a.C., tinha acabado a sucessão hereditária legítima do Sumo-sacerdote, que vinha desde Sadoc (c. 1023 a.C.; 1Rs 2,35; 1Cr 29,22). E, por último, depois de Malaquias (c. 520 ou 420 a.C.) tinha deixado de haver profetas. De modo que não havia qualquer possibilidade, nem maneira, do ponto de vista humano, de vir o Messias e como tal poder ser reconhecido pelos homens. Assim, só Deus o poderia fazer, sendo Ele a enviar, investir, ungir e dar a conhecer o Messias. É o que acontece nesta revelação, que Deus faz primeiro a João (cf. v. 31), para depois ele dar a conhecer Jesus como tal aos homens (cf. vv. 26.34).

  • v. 34. E eu vi e dou testemunho que Ele é o Filho de Deus».

    5) João conclui o seu testemunho declarando que “viu” (gr. oráô) e “testemunha” (gr. martyréô). Ambos os verbos estão no perfeito do indicativo, indicando uma ação que se prolonga no tempo. E ambas as ações estão ligadas entre si (3,11.32s; 19,35; cf. 21,24; At 4,20; 1Jo 1,2): o “ver” da fé, nascido do encontro com Jesus e da descoberta dele como Messias, leva a  “testemunhá-lo”.

    “Que Ele é o Filho de Deus”. Este “ver Jesus” como “Filho de Deus” é dado por Deus. Na verdade, Jesus é o Filho unigénito, cujo mistério radica no Pai (1,18; 14,9): só o Pai O conhece (10,15; Mt 11,27) e O dá a conhecer (5,37; 6,44). Fá-lo, pela primeira vez, no batismo de Jesus, ao investi-lo como Messias, ungindo-O pelo Espírito Santo, que nele permanece, para que com Ele batize aqueles que nele crerem, revelando-O assim não só como Messias, mas também como o Seu Filho (cf. Is 43,10.12): não apenas como o Rei‑Messias, chamado “filho de Deus no AT em sentido metafórico (cf. v. 49; Sl 2,7; 2Sm 7,14; Sl 89,27), mas como “o Filho de Deus” – com artigo, em sentido próprio, absoluto e pessoal –, que Ele realmente é, gerado pelo Pai desde toda a eternidade e feito homem, por Ele consagrado e enviado ao mundo como Salvador universal (3,16ss.35s; 5,19.21ss.25.26; 6,40; 8,36; 10,36; cf. 1,4.27; 14,13; 17,1; 19,7; 20,31).

    O que mostra que Jesus é mais do que um simples Messias – ou seja, que Ele é o Filho de Deus – é que é Jesus quem batiza no Espírito Santo, sendo o Pai a enviá-l'O em nome de Jesus (14,26) e Jesus a enviar "de junto do Pai, o Espírito da Verdade que procede do Pai" (15,26), o mesmo Espírito que capacita João – e capacitará também os discípulos de Jesus – para dar testemunho de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (cf. 15,27; 20,31). Esta foi a missão de João Batista em relação a Jesus e esta será também a missão da Igreja, no seu todo e em cada um dos seus membros, os cristãos, que a poderão levar a cabo graças ao batismo no Espírito Santo, que Jesus conferirá após a sua ressurreição.

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha... e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • Onde procuro a felicidade: em Jesus, em pseudo-messias, ideologias, miragens de poder ou no amor, no gozo e no prazer egoístas?
  • A vida cristã é uma vida no Espírito. Abro-me a Cristo, vivo em comunhão com Ele, reservo tempo para escutar a Sua Palavra e falar com Ele? Já experimentei a sua vida? Isso leva-me a testemunhá-lo aos outros?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)

Salmo responsorial                                       Sl 40,2.4ab.7-11 (R. 8a.9a)

Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade. 

Esperei no Senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.      R.

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».     R.

«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».      R.

Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.      R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Deus todo-poderoso e eterno, que governais o céu e a terra, escutai misericordiosamente as súplicas do vosso povo e concedei a paz aos nossos dias. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.