4º Domingo do Tempo comum, ano A – 1 de fevereiro de 2026

Jesus prega as bem aventuranças Kiko Argüello

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
 

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (5,1-12)

Naquele tempo, 5,1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os seus discípulos aproximaram-se dele 2e Ele, abrindo a boca, ensinava-os, dizendo: 3”Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sois, quando, por causa de mim, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós. 12Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

Mateus apresenta-nos Jesus como o Filho de Deus que recapitula em si a história da salvação, cumprindo as promessas, figuras e gestas do AT e levando-as à plenitude, da qual tornará participante o novo Povo de Deus (cf. 21,43), formado por pessoas de todas as nações (cf. 10,18; 12,18.21; 24,14; 28,19).

Com o texto de hoje, as bem-aventuranças, Mateus, que já antes tinha dito que Jesus ensinava e pregava (4,17.23), passa a transmitir o conteúdo do Seu ensinamento, abrindo com elas o primeiro dos cinco discursos de Jesus em que o condensa, o chamado “Sermão da Montanha” (cc. 5-7: Lc 6,20-49), a magna charta do “Reino” (4,23) e, sem dúvida alguma, o texto religioso mais sublime da humanidade.

O presente texto compõe-se de duas partes: a) a introdução (vv. 1-2); b) as Bem-aventuranças (vv. 3-12).

  • v. 1. Ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os seus discípulos aproximaram-se dele.

    v. 1: Lc 6,17. Antes de apresentar o Sermão da montanha, Mateus introdu-lo, enquadrando-o no cenário em que o quer situar.

    “Ao ver” (gr. idôn: lit. "vendo") é uma alusão a Deus que no Sinai, ao revelar-se a Moisés, lhe diz: “Vendo, vi, a aflição do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor, … conheço os seus sofrimentos" (Ex 3,7). Jesus “vê” com o olhar e as entranhas de Deus “as multidões”, compostas aqui por judeus e gentios (4,25!; cf. 8,1.18; 9,36; 14,15. 19.22.23; 15,29ss.39), por pessoas que “jaziam nas trevas e na região e na sombra da morte (4,16), que O seguem (4,25) e “vêm a Ele”, representando todos os povos, a quem se destina o Evangelho (cf. 28,18ss). Desde o início, o Evangelho traz em si o cunho de uma boa nova de alcance universal.

    Jesus “subiu ao monte” (14,23; 15,29; do qual “desceu” no final do sermão: 8,1; cf. Lc 6,17: Jesus desceu a uma planície para pronunciar este discurso), não para se pôr acima dos outros, mas para a todos poder ver e por todos poder ser visto (cf. 4,8). “O monte”, em Mateus, tem um valor simbólico, aparecendo nele a palavra “monte” (gr. óros) 16 vezes, designando os oito montes que refere no seu Evangelho: (i) o monte da tentação: 4,8; (ii) o m. da pregação: 5,1=8,1; (iii) o m. da cidade (a Igreja): 5,14; (iv) o m. da oração: 14,23; (v) o m. da multiplicação dos pães 15,29; (vi) o m. da transfiguração: 17,1.9; 17,20 = 21,21; (vii) o m. das Oliveiras 21,1 = 24,3; 26,30; (viii) e o m. da aparição do ressuscitado e do grande mandato: 28,16. Nele, tal como no AT, o monte é o lugar da revelação e do encontro com Deus (cf. Gn 22,2; Ex 3,1; 19,2-6; 1Rs 19,8; Sf 3,11; Is 52,7), onde todos os povos da terra acorrerão para escutar a Palavra de Deus, conhecer a Sua vontade e aprender a seguir os Seus caminhos (cf. Is 2,3p).

    A confluência nos vv. 1-2 dos termos “Galileia”, “monte”, “ensinar”, “discípulos” e “aproximar-se” repete-se novamente na conclusão do Evangelho (28,16.19s), formando uma inclusão com ele: o ensinamento que os discípulos irão transmitir a todas as nações é o mesmo de Jesus: “ensinando-as a guardar todas as coisas que vos mandei” (28,20).

    A menção de Jesus “subir ao monte” destina-se a apresentar Jesus como o novo Moisés que “subiu ao monte” Sinai, por duas vezes, para receber a Lei de Deus e a dar ao povo, em Seu nome (i: Ex 19,3; 24,15.18; ii: Ex 34,4). Ao acrescentar que “os seus discípulos vieram ter com Ele”, Mateus não se tanto à primeira vez que Moisés subiu ao monte Sinai, para receber de Deus a palavra da Aliança e a transmitir ao povo – embora a ela aluda –, enquanto aquele fumegava e tremia violentamente, sacudido por trovões e relâmpagos ouvindo-se a voz de Deus a falar do meio da nuvem, como um clamor muito forte de trombeta, tendo Deus decretado que ninguém se aproximasse do Sinai, caso contrário morreria (cf. Ex 19,12s.15-22), mas também à segunda vez, quando Moisés, depois do povo ter pecado, adorando o bezerro de ouro, subiu ao Sinai e, passados quarenta dias, dele desceu, trazendo na mão as tábuas da Lei, “e todos os filhos de Israel vieram ter com ele, e ele ordenou-lhes tudo que o Senhor lhe tinha dito” (Ex 34,32), renovando em seguida a Aliança de Deus com o Seu povo (cf. Ex 34,10.27).

    Pela semelhança com esta subida de Jesus “ao monte” e, ao mesmo tempo, em razão do contraste dela com as duas subidas de Moisés ao Sinai aqui referidas, o evangelista mostra que: 1) o regime do temor servil do AT dá lugar em Jesus ao convívio fraterno de Deus com o homem e à intimidade da sua relação com ele, como a de um pai com o seu filho; 2) Jesus é mais que Moisés (cf. 12,41s), pois Moisés transmite a palavra que recebeu de Deus, ao passo que Jesus a pronuncia por própria autoridade (vv. 18.20.22.28.32.34.39.44; 6,2.5.16.25.29; 7,29); 3) a palavra de Jesus destina-se a todos os homens, sejam eles judeus ou gentios (v. supra); 4) a palavra de Jesus dirige-se a pecadores (cf. 9,13), com os quais Ele não vai apenas renovar a aliança, mas, sobretudo, selar a nova Aliança (no Seu sangue, “derramado pela multidão, para remissão dos pecados”: 26,28).

    Esta subida de Jesus “ao monte” tem também a ver com a última e derradeira subida de Moisés “ao monte”, desta vez ao Nebo (cf. Dt 34,1), antes de morrer, para daí contemplar, a Terra Prometida que Deus iria dar aos filhos de Israel (cf. Nm 27,12s; Dt 32,49.52), mas onde ele não entraria, e na qual seria Josué (gr. Iesous), a introduzir o Povo de Deus e não ele (cf. Dt 31,7.23). Jesus não é apenas o novo Moisés que revela a palavra da nova aliança: é também o novo Josué que introduzirá o novo Povo de Deus na verdadeira “terra” prometida (cf. v. 5), a pátria definitiva do Reino dos céus.

    Tendo subido ao monte, antes de começar a falar, Jesus “senta-se”, à boa maneira dos rabinos, para ensinar (cf. 23,2; Lc 5,3). E os seus discípulos “aproximam-se d’Ele”, vêm ter com Ele, sentando-se a seus pés (cf. Lc 10,39; At 22,3), para O escutar e d’Ele receber a revelação definitiva de Deus e d’Ele aprender a fazer a Sua vontade (cf. 7,24).

  • v. 2. E Ele, abrindo a boca, ensinava-os, dizendo.

    Jesus “abre a boca” como a Sabedoria ("na assembleia", lit. “na Igreja”, gr. en ekklesia“: Sir 24,2; Sl 78,2: Mt 13,35), que Ele é (cf. 12,42), e “ensinava-os” (13,54) como rabbi, anunciando a Palavra de Deus ao povo e “explicando o seu sentido para que todos pudessem compreender” (Ne 8,8). O verbo “ensinar” está no imperfeito, indicando uma ação incompleta, ainda não terminada, dando a entender que o que Jesus começou a ensinar desde então Ele o continua a fazer (através dos seus discípulos, ao longo das gerações, em toda a terra, até à consumação do tempo: cf. 28,19-20).

    No seu ensino (he. lamad; gr. didaskalía), Jesus não promulga uma nova “Lei” (Mt, 8x: 5,17.18; 7,12; 11,13; 12,5; 22,36.40; 23,23), feita de mandamentos, normas e prescrições, incapaz de dar a vida. De facto, na Sagrada Escritura, nunca aparece a expressão “Lei da vida”, dizendo-se apenas que pelo cumprimento dos mandamentos da Lei o homem viveria (Lv 18,5; Ne 9,29; Br 4,1; Ez 20,11.13.21; Lc 10,28; Rm 10,5; Gl 3,12; Dt 4,1; 6,24; 8,1). Jesus, pelo contrário, proclama a sabedoria do Reino (cf. 13,19), verdadeira "árvore da vida" (Pv 3,18; 11,30; 15,4; cf. Gn 2,9; 3,22.24), muito superior à Lei mosaica, que dá a vida eterna.

    De facto, enquanto Filho de Deus, só Jesus conhece o Pai e só Ele sabe o que é que o Pai tinha em mente quando deu a Lei a Moisés no Sinai. Por isso, só Jesus pode mostrar o que é Deus realmente quer e o que é que Lhe agrada (cf. 11,27). E tal como Moisés, segundo a tradição, fixou por escrito a Lei (a Torá: Ex 34,27s; Dt 31,9; cf. Jo 1,45; 7,19) em cinco livros ou "rolos" (gr. Pentateuco), também Jesus, em Mateus, pronuncia cinco discursos (5-7; 10; 13; 18; 24-25), sendo o primeiro, o inaugural, este, o “Sermão da montanha” (5-7), introduzido pelas “bem-aventuranças”, nas quais Jesus apresenta o Reino dos céus, mostrando como ele vem e como o homem nele pode entrar.

    duas versões das bem-aventuranças: esta, a de Mateus, e a de Lucas. A versão de Mateus é mais extensa, mais espiritualizada e posterior à de Lucas, a qual é mais primitiva, só com quatro bem-aventuranças (6,20b-23), seguidas por outras tantas lamentações proféticas, dispostas, à boa maneira semítica, num rigoroso paralelismo antitético (6,24-26).

    As “bem-aventuranças” são um género literário já usado no AT que aparece: a) em fórmulas de ação de graças pela alegria presente (Sl 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13); b) em exortações a uma vida sábia, refletida e prudente (Pv 3,13; 8,32.34; Sir 14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9); c) como anúncios proféticos da alegria messiânica futura (Is 30,18; 32,20; Dn 12,12). São sempre anúncio de uma felicidade que vem de Deus, é dom de Deus e só Ele pode dar (cf. Br 4,4). Por isso, se chamam “bem-aventuranças”: porque respondem ao desejo fundamental de todo o ser humano – ser feliz –, mostrando-lhe como o pode ser, não lhe prometendo uma felicidade pessoal, intransmissível, terrena e temporária (cf. 1Cor 15,19), mas com a verdadeira felicidade, a do “Reino dos céus”, ou seja, a felicidade perfeita, eterna, plena e comunicativa de Deus, que ninguém pode alcançar graças aos seus esforços, porque é puro dom de Deus, oferecido a todos os homens, que se obtém por meio da fé em Jesus Cristo (cf. Rm 3,22; Gl 3,14.22)

    As bem-aventuranças são nove (3 x 3, sendo três o número divino), dispostas numa sequência de 8+1 (cf. Sir 25,7-11). Trata-se de um artifício sapiencial, em que, tendo-se enunciado os diversos comportamentos que se querem inculcar, se remata a série com um último, que é o desdobramento do anterior e a todos os outros inclui e sintetiza, mostrando a unidade profunda do conjunto. Também aqui, às oito primeiras bem-aventuranças, que são formuladas na terceira pessoa do plural (“eles”), se acrescenta a última que é formulada na segunda pessoa do plural (“vós”), e que a todas retoma, fornecendo a chave da sua interpretação e endereçando-as diretamente aos discípulos de Jesus, a quem elas se aplicam de forma singular.

    Cada bem-aventurança refere-se mais a um ou a outro termo do duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. 22,35-40), ligando ambos entre si, de modo a fazer progredir os discípulos de Jesus, passo a passo, no caminho da verdadeira santidade, rumo à plenitude da vida cristã, só totalmente alcançável na perfeita comunhão com Deus, na bem-aventurança eterna do Reino dos céus.

    A primeira (v. 3) e a oitava bem-aventuranças (v. 10) terminam com a mesma promessa – “porque deles é o Reino dos céus” –, formando uma inclusão semítica, à qual se acrescenta a última bem-aventurança, a nona, que retoma a anterior e a todas une. No interior desta inclusão semítica, as bem-aventuranças formam um quiasma, disposto em forma concêntrica.

    Esta oito primeiras bem-aventuranças ("oito" é o número da eternidade), dividem-se em duas séries de quatro. A primeira série de quatro “bem-aventuranças” (A-C) detém-se mais na atitude interior dos seus destinatários, saudando a felicidade daqueles que confiadamente se entregam a Deus, para fazer a Sua vontade, tendo-o a Ele como o seu Tudo; as outras quatro (D-A’) definem o comportamento cristão, de modo que, enquanto no primeiro grupo se contemplam estados de espírito e situações, no segundo se propõem os gestos próprios, as ações cacterísticas dos discípulos de Cristo. Chegamos desta forma à seguinte disposição:

A:

1ª bem-aventurança

v. 3: os pobres em espírito

amor a Deus

A:

2ª bem-aventurança

v. 4: os que choram

amor a Deus

B:

3ª bem-aventurança

v. 5: os mansos

amor ao próximo

C:

4ª bem-aventurança

v. 6: os que têm fome e sede de justiça

amor a Deus

D:

5ª bem-aventurança

v. 7: os misericordiosos

amor ao próximo

C’:

6ª bem-aventurança

v. 8: os puros de coração

amor a Deus

B’:

7ª bem-aventurança

v. 9: os artífices da paz

amor ao próximo

A’:

8ª bem-aventurança

v. 10: os perseguidos por causa da justiça

amor a Deus

A”:

9ª bem-aventurança

v. 11: vós, quando insultados, perseguidos
          e caluniados por causa de mim

amor a Deus

 

Cada bem-aventurança compõe-se de dois membros, segundo o esquema habitual da Palavra de Deus: o primeiro é um convite, o segundo, uma promessa. No primeiro membro, o convite, Jesus diz o que o homem deve fazer para responder ao apelo de Deus na situação em que se encontra; no segundo membro, a promessa, Jesus diz o que Deus fará em relação àquele que respondeu afirmativamnete ao seu apelo. Por isso, a maior parte destas promessas (exceto a do v. 8) ou usa um circunlóquio (“Reino dos céus”, “a terra”, “céus”), ou está no passivo divino (“serão consolados”, por Deus, subentende-se), para sublinhar a ação divina, evitando pronunciar, à boa maneira judaica, o Nome divino.

Por sua vez, o primeiro membro de cada bem-aventurança compõe-se de dois elementos: 1) a saudação profético-sapiencial “bem-aventurados” (v. infra), 2) a situação, atitude ou comportamento do tipo de pessoas a que se refere. Já no segundo membro da bem-aventurança, a promessa, declara-se o motivo da bem-aventurança, ou seja, a forma como Deus vai agir: “porque” (gr. óti).

Que são as bem-aventuranças? As bem-aventuranças não são, uma lei, porque as leis podem ser sempre contornadas; não são uma utopia, porque a utopia nunca se realiza verdadeiramente; não são uma moral, porque não consistem em normas exteriores; não são apenas um conjunto de princípios éticos, porque não dependem só do bom comportamento e do esforço humanos. São um anúncio profético, de cariz sapiencial, da bem-aventurança eterna do Reino dos Céus (cf. v. 2), tal como ela pode ser experimentada e vivida aqui, sobre a terra por aqueles que acolhem com fé “o Evangelho do Reino” (4,23). Porque anúncio profético, as bem-aventuranças são palavra de Deus que realiza aquilo que anuncia na vida daquele que a acolhe com fé e a põe em prática (24,34-35; Nm 23,19; Sl 48,9; Is 55,10-11; Ez 36,36; 37,14; Lc 1,38.45; 1Ts 2,13). E enquanto anúncio profético elas são "Evangelho", alegre notícia, boa-nova daquilo que Deus vai fazer na vida daqueles que ninguém espera ou supõe que alguma vez possa ou venha a ser feliz. São, desta forma, uma caracterização, repetida nove vezes, em nove asseverações diferentes, logo no início, da mensagem de Jesus, apresentando-a como boa-nova, Evangelho de Deus, oferecido à humanidade (cf. Is 52,7; 40,9; Na 1,15; Rm 10,15).

E , tal como Deus fez Moisés subir ao monte e do seu alto contemplar a Terra prometida (onde ele, porém, não entrou: v. supra), também Jesus, logo no início da sua pregação, faz os seus discípulos subir o monte da sua palavra –  onde Ele se senta e continua a ensinar todos os homens de todos os tempos que a Ele acorrem (cf. v. 14; Is 2,3) – para a partir daí os fazer contemplar a meta, dando-lhes a vislumbrar algo da verdadeira Terra prometida, o Reino dos céus, de modo que, caminhando animados por tão grande esperança, não desfaleçam pelo caminho, mas avancem com um entusiasmo crescente até verem a Deus na plenitude final (cf. Sl 84,6-8), onde Jesus, como verdadeiro Josué, ao invés de Moisés, entrará, para depois aí os fazer entrar, como novo Povo de Deus, a quem já dá a saborear, aqui sobre a terra, através da fé e da esperança, a plenitude final, que lhes "está preparada desde a fundação do mundo" (24,34), "a vida eterna" (25,46) para a qual Ele os conduz (7,13-14).

As bem-aventuranças são, desta forma, como que nove janelas, nove frestas, que Jesus, logo no início da sua pregação, rasga aos seus discípulos, para através delas os fazer contemplar, já aqui, sobre a terra, “como que num espelho” (1Cor 13,12; 2Cor 3,18), a meta, o Reino dos Céus (cf. Ex 24,10), mostrando-lhes como é que ele se torna presente, se começa a manifestar e se vai realizando ao longo da sua peregrinação terrena rumo à pátria celeste, a plenitude do Reino dos céus.

Porque boa-nova, "Evangelho", cada bem-aventurança começa com a palavra “bem-aventurado”, em grego makários (“feliz”, “abençoado”). Este adjetivo traduz nos LXX, o verbo hebraico ‘esher, que significa “ir em frente”, “seguir diretamente”, “avançar”. Cada bem-aventurança pode, pois, traduzir-se desta forma: “Avante, sigam em frente, sempre a direito, sem medo e com alegria, os pobres em espírito, os que choram, os mansos, etc., rumo à meta (cf. Fl 3,13-14) do reino dos Céus!”.

Desta feita, as bem-aventuranças são também as nove portas através das quais se pode entrar no Reino dos céus e as nove vias para nele caminhar e progredir até alcançar a plenitude da vida.

Não há outra maneira de o fazer: quem quiser entrar no Reino dos céus, pertencer-lhe e viver nele tem de se identificar com alguma das bem-aventuranças – uns, mais com uma, outros, com outra; mas cada um com, pelo menos, alguma delas –, pois só assim poderá ser "o discipulo como o seu Mestre e o servo como o seu Senhor (10,25), Jesus, a imagem viva e acabada de todas elas, que as ensina e realiza na vida daquele que n'Ele crê, porque Ele próprio viveu cada uma delas e todas elas realizou (cf. 5,19), para que elas se pudessem cumprir na vida daqueles que abraçarem a primeira de todas as bem-aventuranças, a fé: "Bem aventurada a que acreditou no cumprimento daquilo que lhe foi dito da parte do Senhor" (Lc 1,45); e: "Bem-aventurados os que não viram e acreditaram" (Jo 20,29).

Longe de serem uma utupia, um ideal distante, que só algumas pessoas de exceção com muito esforço ao longo de muitos anos poderão alcançar, as bem-aventuranças são a porta que Deus abre aos homens, para que, entrando por ela, possam abraçar, desde logo, o Reino de Deus, que vem ao seu encontro, se lhe revela e se lhe dá em Jesus Cristo, bastando para tal arrepender-se e acreditar no Evangelho (3,2; 4,17; Mc 1,15). Por isso, começam e terminam com a mesma promessa, formulada no presente do indicativo: "porque deles é o Reino dos céus" (vv. 3.10).

Introduzidas as bem-aventuranças, Mateus passa à sua apresentação.

  • v. 3. Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

    v. 3: Lc 6,20. Com esta boa nova, Jesus proclama, logo no início do seu ensinamento, uma revolução, anuncia uma rutura e introduz uma radical novidade em relação ao AT e ao sentir geral da humanidade. Faz, logo no início do seu primeiro discurso, aquilo que ninguém antes dele tinha feito: põe em primeiro lugar os pobres, aqueles em quem ninguém repara, de quem ninguém fala e em quem quase ninguém pensa. Desta forma, ao citar os pobres logo, em primeiro lugar (26,10), no seu discurso, dá prioridade e capta a benevolência do grupo de pessoas que compõe a imensa maioria da humanidade, não só na sua terra e época, mas também em toda a terra e nos nossos dias.

    De facto, no AT não era a pobreza, mas a riqueza, que era considerada uma bênção de Deus (cf. Gn 13,2; 24,35; 26,13s; 30,43; 32,6; 33,11; Lv 26,3-10; Dt 28,2-13; 1Rs 3,13; 10,14-25; Sl 112,3), sendo a pobreza tida como maldição (cf. Pv 13,18; 28,22; 30,8s) e olhada com desprezo pelos rabinos (cf. Pv 6,10; 10,15; 20,13; 23,21). O mesmo acontece com a esmagadora maioria das pessoas, cuja maior ambição é serem ricos. Com Jesus, passa-se ao revés. Ele não elogia certamente a miséria material ou a pobreza e a necessidade como condição social, mas exalta a atitude de desapego, a humildade e a total dependência de Deus que os pobres têm.

    Nos LXX, “pobre” (gr. ptôchós) traduz o hebraico anaw (pl. anawin), os “pobres de Iavé”, desprovidos de recursos, de influência social e de meios, que só têm a Deus por auxílio, n'Ele pondo toda a sua esperança. São estes pobres que são objeto de especial solicitude por parte de Deus (cf. Sl 9,19; 34,19; 40,18; Is 14,32; 29,19; 57,15; Tg 2,5), é a eles que se destina antes de mais o Evangelho (cf. Lc 2,10), é a eles que Jesus em primeiro lugar foi enviado e se dirige, como atestam Isaías e o próprio Senhor o declarou na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me a pregar a boa-nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração, a anunciar a redenção aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; a pregar um ano da graça do Senhor…; para consolar os tristes” (Is 61,1-2; cf. Lc 4,18-19).

    É a partir desta passagem, onde há uma entreita ligação entre os pobres e os quebrantados de coração, que se formulam as quatro primeiras bem-aventuranças, das quais as próximas três são o desdobramento desta primeira bem-aventurança, fundamental, que Jesus em Mateus também liga a Is 61,1, apresentando-se indiretamente como o Messias prometido: “os pobres são evangelizados” (11,5).

    Os pobres a que Jesus aqui se refere, são os literalmente pobres, como Lucas o declara abertamente (Lc 6,20), mas enquanto Lucas atenta mais à sua condição externa, Mateus, ao precisar que são "os pobres em espírito" destaca mais a sua atitude interior, não só para sublinhar o estado de espírito que os caracteriza, mas também para neles incluir os pobres que o não são por triste necessidade ou por condição social (como é o caso de Mateus, que era publicano: 9,9; 10,3), mas cuja atitude interior se assemelha à deles: "Deixarei no meio de ti um povo pobre (gr. praús, "manso", v. 5) e humilde (gr. tapeinós); e eles confiarão no nome do Senhor" (Sf 3,12).

    A expressão “pobres em espírito” aparece em hebraico pela primeira vez em Is 66,2: “Eis para quem olharei: para o pobre e quebrantado de espírito que treme diante da minha palavra”, seguido por Qumran, na “Regra da Guerra” (1QM 14,7), onde é usado no mesmo sentido de Isaías. Uma expressão sinónima ocorre no Sl 34(33),19 LXX: “o Senhor está perto dos corações quebrantados e salvará os humildes de espírito” (gr. toús tapeinoús tô pneumati).

    Estes “pobres em espírito” não são os “pobres de espírito” (os simplórios, os ingénuos, os tolos), nem os pobres com mentalidade de ricos; mas aqueles que se sentem e vivem como pobres (cf. 8,18), que acreditam nos pobres (cf. 11,25s) e neles veem os primeiros destinatários da Boa Nova (11,5; Is 61,1; v. supra).  São os que se arrependem sinceramente, de coração contrito e humilhado, dos seus pecados (cf. 4,17; Sl 51,19; Is 57,15), os que não se contabilizam os seus próprios méritos (cf. Lc 18,10-14), os que reconhecem que nada do que têm é seu (cf. Lc 17,10), mas que tudo é dom de Deus (cf. 1Cor 4,7; Tg 1,17), a quem entregam o rumo e a direção da sua própria vida e do qual tudo esperam e recebem. Não se apoiam, nem gloriam em si mesmos, considerando-se o centro e a medida de tudo, mas gloriam-se apenas no Senhor (cf. Jr 9,22s; 1Cor 1,27s). Por isso, mesmo quando são humilhados, desprezados e odiados pelos outros (cf. Pv 14,20; 19,4.7; Is 66,5), continuam a acolhê-los, vendo neles irmãos, a quem estimam como sendo superiores a si mesmos (Fl 2,3), considerando-se ditosos e sentindo-se mesmo agradecidos por os ter como irmãos (cf. 2Ts 2,13), deixando-se corrigir por eles (18,15s), fazendo tudo para viver em comunhão com eles, estando sempre prontos para servir o próximo (cf. 23,11s) e o assistir nas suas necessidades, nada querendo para si mesmos, mas tudo partilhando com eles, em especial com os mais necessitados, esquecendo-se de si mesmos (cf. 25,37-39; Lc 17,10).

    “Pobres em espírito” são em particular aqueles que não acumulam tesouros na terra (6,20), mas que, buscando “em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça” (6,33), tudo deixam (cf. 19,27), de tudo se desprendem e tudo vendem para dar aos pobres (cf. 19,21), de modo a adquirir o “tesouro escondido” e a “pérola preciosa” (13,44.46) do Reino dos céus.

    São também "os perseguidos por causa da justiça” (v. 11), que são humilhados, oprimidos, rejeitados, espoliados dos seus bens e encarcerados por causa da sua fé em Cristo (cf. v. 11; 1Ts 1,6; 2,14; 3,3-4; 2Cor 8,2; Hb 10,34; Tg 1,12; 1Pd 1,6).

    Esta pobreza voluntária, que Jesus assumiu e com a qual nos veio enriquecer (cf. 2Cor 8,9), implica a renúncia ao uso egoísta dos bens, dons e capacidades que se possuem (riquezas, carismas, dotes, tempo, sensibilidade, habilidades), para os partilhar, pôr à disposição e ao serviço dos outros, em especial dos mais pobres e necessitados.

    Tal pobreza não é facultativa, mas está no coração do Evangelho, sendo a porta de entrada no Reino (cf. 19,23-26). Porque só os pobres em espírito aceitam, como as crianças (cf. 11,25s; 18,3s), receber o que Deus lhes quer dar, como quer e quando quer, estando assim dispostos a acolher o Seu Reino.

    São “pobres em espírito”, no sentido do dativo instrumental (gr. en pneumati, pelo Espírito) porque só é capaz de viver esta pobreza com alegria quem foi regenerado por Deus (cf. 1Jo 5,1.4), nascendo da água e do Espírito Santo (cf. Jo 3,5), sendo então capaz de amar à semelhança de Cristo, passando da morte para a vida (cf. 1Jo 3,14). Pois, só quem foi enriquecido pelo amor de Cristo, é capaz de se tornar realmente pobre por amor d'Ele.

    Porque é tão importante a pobreza em espírito para entrar no Reino dos céus? Porque o rico dá coisas, dá do que lhe sobra, ao passo que o pobre, que nada tem, nada tendo para dar, se dá a si mesmo (cf. 1Rs 17,12-15; Mc 12,42s). Como Jesus, que “embora fosse rico, se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9), a pobreza que o levou a entregar-se e dar-se a si mesmo por nós, a fim de todo se nos dar a nós.

    A promessa feita aos pobres em espírito é que “deles é o Reino dos céus” (v. 10; cf. 18,3s; 23,8-12; Mc 10,14; Lc 18,16s; Tg 2,5). No AT, Deus tinha prometido que “Ele (o Rei MessiasTarg Ps 72,1) julgará o teu povo com justiça e os teus pobres (he. anawin; gr. ptôchous) com retidão” (Is 72,2); e que o Ungido pelo Espírito Santo “julgará os pobres (he. dalîm) com retidão e arguirá com equidade os pobres (he. ‘anawin) da terra” (Is 11,4). Jesus declara nesta primeira bem-aventurança, enquanto Messias, qual é a sua sentença sobre estes pobres: “porque deles é o Reino dos céus”.

    O verbo “estar” está no presente, indicando que os pobres de espírito já possuem o Reino. Isto só é possível, na ocasião pré-pascal em que fala, se se entender que é em Jesus, o Emmanuel (1,23), que o Reino se torna presente. Na ocasião, porém, em que Mateus escreve, depois de Jesus ter consumado a redenção, significa que esta promessa (tal como as das restantes bem-aventuranças) se realizará em virtude do Espírito Santo que Ele, depois de ressuscitado, enviará aos seus discípulos, para permanecer sempre com eles, até ao fim dos tempos (28,20), estabelecendo neles o Seu Reino e deles fazendo a Sua morada (cf. Ez 37,14; Lc 17,21; Rm 14,17; Cl 1,27).

    É desta forma que Jesus já começa a dar o Reino dos céus àqueles que O acolhem e n'Ele creem, fazendo-os entrar nele, dando-lho já a saborear (1Pd 2,3; Sl 34,9; cf. Sl 36,8; 63,6; 119,103; Ct 2,3; Hb 6,4-5) e fazendo-os participar na sua alegria, enquanto aguardam a posse plena dele, junto d’Ele, na bem-aventurança eterna, na glória celeste.


    A primeira bem-aventurança aponta assim, logo desde o início do Sermão da Montanha, para a realização escatológica das promessas de Deus, na plenitude final, advinda da comunhão com Deus, a qual, por Jesus Cristo, já começa aqui, sobre a terra, como Ele mesmo tinha prometido: “Naquele dia [a era do Messias] os surdos ouvirão as palavras do Livro e, libertos da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão. Os pobres alegrar-se-ão cada vez mais no Senhor e os indigentes entre os homens exultarão no Santo de Israel” (Is 29,18-20).

  • v. 4. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

    v. 4: Lc 6,21b. A segunda bem-aventurança é um desdobramento da primeira. Enquanto na primeira se refere a atitude do pobre diante de Deus, nesta destaca-se mais o seu estado de espírito interior.

    Nela podemos constatar uma alusão ainda mais impressionante a Is 61, do que na anterior. Jesus diz aqui que “os que choram” (gr. oi penthountes) serão consolados” (gr. paraklêthêsontai, passivo divino), e em Is 61,2 LXX diz-se que o Messias, ungido pelo Espírito (Is 61,1) veio para “para consolar (gr. parakalésai) todos os que choram (gr. toús penthoúntas)”, sendo ainda mais explícito no versículo seguinte: e “para dar aos que choram (gr. penthousin) em Sião glória em vez de cinza, o óleo da alegria aos que choram (gr. penthousin), um manto de glória em vez de um espírito abatido” (Is 61,3 LXX).

    Deus não tem prazer no sofrimento do homem, nem é Ele que envia desventuras e tribulações. Nos profetas, “os que choram” são os que foram despojados de tudo, que sofrem injustiças, prepotências e humilhações (cf. Is 61,7). São também os que choram porque veem os outros sofrer (cf. Sl 35,14; Rm 12,15), os que choram porque aguardam a resposta de Deus, que, por vezes, parece tardar (cf. Jr 14,17; Lc 18,7).


    Especialmente visados são aqui, segundo a conceção judaica, “os pobres em espírito” (v. 3) que “se arrependem” (3,2; 4,17) e fazem penitência, a fim de acolher o Messias e receber o Reino de Deus (cf. jTaan 1,1.63d).

    Uma das missões do Messias, segundo os rabinos, seria ser o “Consolador” (Mênachem: Is 51,12) destes “pobres em espírito” que fazem penitência e choram por causa dos seus próprios pecados (cf. Is 57,18; Jr 50,4; Lm 1,9.15; Br 1,5) e dos pecados do seu povo, pois sabem que são eles que provocam a sua ruína e humilhação (cf. Sl 137,1; Ne 1,4; Is 22,4; Jr 9,1; 13,17; Jl 2,17; Tb 13,14; Lc 19,41-44).

    Os que choram são ainda os que anunciam a Palavra de Deus, incompreendidos, passando por dificuldades, enfrentando adversidades e sofrendo tribulações, sabendo que “é necessário passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22; cf. Rm 8,35-36; 2Cor 1,3-6.8; 8,2; 1Ts 1,6; 3,3-4).

    A promessa é que “eles serão consolados” pelo próprio Deus (cf. Sl 71,21; 86,17; 126,5-6; Is 12,1-6; 35,3-4; 40,1; 41,10-14; 49,13; 51,3.12; 52,9; 57,15-19; 60,1-3; 61,2-3; 62,1-12; 66,10-14; Zc 1,17; Tb 13,16; 2 Cor 1,3-7; 2 Ts 2,16s) que Se dará Ele mesmo a eles por meio de Jesus Cristo, seu Filho, na graça do Espírito Santo (cf. Is 61,1-3; 40,1-2; Sir 48,24).

  • v. 5. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.

    A terceira bem-aventurança é praticamente uma citação do Sl 37,11 LXX: “os mansos herdarão a terra”“Manso” (gr. praús) é outro termo grego que nos LXX traduz o hebraico anaw (pl. anawin: v. 3) ou o seu sinónimo ‘aniy, significando ambos “pobre”, “humilde”, “aflito”, como atesta a passagem do profeta Sofonias que citámos a propósito da primeira bem-aventurança: "Deixarei no meio de ti um povo pobre (gr. praús, "manso") e humilde (gr. tapeinós, "pobre em espírito"); e eles confiarão no nome do Senhor" (Sf 3,12).

    Desta forma, as três primeiras bem-aventuranças estão ligadas pelo termo hebraico anaw ("pobre"), sendo, por isso, sinónimas. Enquanto que na primeira bem-aventurança se ressalta a atitude do pobre diante de Deus, na segunda sublinha-se o seu estado interior, ao passo que nesta se destaca a sua atitude nas relações com os homens.

    “Os mansos” são os brandos, os dóceis, os pobres em espírito, os humildes para consigo mesmos (Sir 10,28) e para com o próximo (Sir 3,17; 4,8; 1Pd 3,4s). São os que foram privados dos seus direitos e dos seus bens, que são oprimidos e que, embora sem se resignar, suportam a injustiça, sem se deixar levar, porém, pela ira, não cultivando sentimentos de ódio ou de vingança, nem pagando o mal com o mal ou guardando ressentimento (cf. 5,39-42; Rm 12,17-21; 1 Cor 13,4s; 1Ts 5,15; 1Pd 3,8s), mas construindo a paz (NuRab 11,7), porque só esperam no Senhor e nele confiam (Sof 3,12).

    A mansidão, que é fruto do Espírito Santo (Gl 5,23), era a grande virtude de Moisés (Nm 12,3; Sir 45,4), devendo ser uma das notas fundamentais do Messias (Sl 45,5). E assim também um dos traços fundamentais de Jesus (21,5; cf. 2Cor 10,1), “manso e humilde de coração” (11,29) – que o encarna num sentido bem mais radical e pleno que Moisés, humilhando-se “até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8) –, bem como dos seus discípulos (Gl 6,1; Ef 4,2; Cl 3,12; 2Tm 2,25; Tt 3,2; Tg 3,16; 1Pd 3,16).

    A promessa é que “eles herdarão a terra” (Sl 37,11; Is 61,7 LXX; Dt 4,38; Hen 5,7). Não a terra prometida a Abraão e à sua descendência (Gn 13,15) – porque então Jesus teria antes dito “terão a sua parte na terra” –, mas “a terra”, com artigo, ou seja, não uma parte, mas toda a terra (cf. Rm 4,13), a verdadeira e definitiva “terra” prometida que é “o mundo futuro” (cf. 19,28; Lc 20,35; Is 30,8; 66,22), o Reino dos céus para onde eles caminham como estrangeiros e peregrinos (cf. Lv 25,23; 1 Cor 6,9 s; Gl 5,21; cf. Fl 3,20; Hb 11,10.14.16), o próprio Deus, que já começam a saborear, por meio de Jesus, em virtude do Espírito (cf. 2Cor 1,22; 5,5; Ef 1,13-14), cá, sobre a terra (cf. v. 3; 19,29).


  • v. 6. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

    v. 6: Lc 6,21a. Esta bem-aventurança evoca o Sl 107,5-6.9: “Estavam famintos e sedentos, a vida já os abandonava. E na sua aflição gritaram ao Senhor e Ele livrou-os das suas angústias. Saciou a alma sedenta e encheu de bens a alma faminta”.

    Jesus fala aqui não tanto da justiça humana, retributiva (do do ut des: “dou para que tu dês”), nem apenas da justiça social, distributiva (suum cuique tribuere: “dar a cada um o que é seu”, justiça esta que leva à falta de pão e de paz, de modo que, enquanto poucos têm muito, a que chamam “seu”, a muitos falta mesmo o necessário para viver), mas da justiça de Deus que quer que todos se salvem (cf. Is 56,1; 61,11; Jr 9,22s; 23,5s; Dn 7,22; 1Tm 2,4), e que a todos se estende (cf. Sl 145), sem fazer aceção de pessoas (cf. Dt 10,17; Jb 34,19; At 10,34; Rm 2,11; Ef 6,9; Cl 3,25; Tg 2,1.9; 1Pd 1,17).


    No AT, a justiça é fundamentada na natureza de Deus, no Seu amor: Ele é justo, caracterizando-se pela defesa dos débeis e a proteção dos oprimidos. Está sempre associada à equidade, à retidão e à integridade nas Suas relações com o homem e, consequente, às mesmas virtudes nas relações dos homens uns com os outros. Está intrinsecamente ligada à Sua aliança com o seu povo, exigindo o cumprimento da Lei, a denúncia da corrupção e a união da justiça com a graça e a misericórdia. Deus é sempre justo em todas as suas ações e julgamentos. Ele é imparcial e perfeito, tratando todos com equidade. Ele não se limita a aplicar a justiça, mas personifica-a: “Ele é a Rocha, as suas obras são perfeitas e justos são todos os seus caminhos! Deus é fiel, sem iniquidade, Ele é justo e reto” (Dt 32,4).

    Deus é justo e reto não porque retribui conforme os méritos de cada um, mas porque, com o seu amor, “torna justos e retos” aqueles que são maus. Para o homem, a “justiça foi feita” quando o culpado foi punido; para Deus, a “justiça foi feita” quando o pecador se tornou justo, quando o pequeno foi escutado, quando o necessitado foi ajudado, quando o oprimido foi libertado.

    A justiça de Deus chama o homem a agir com justiça na sua vida diária em relação ao próximo, adequando a sua vontade e comportamento à vontade de Deus (3,15), obedecendo-lhe (Dt 6,25) e tratando os outros com amor e equidade, defendendo os oprimidos e vivendo de acordo com os princípios de retidão que Ele ensinou (23,23; Lv 19,15; Sl 146,7; Jr 7,5ss; 1Jo 3,10).

    A justiça de Deus realiza-se quando, no quadro da comunidade humana, concebida como um corpo harmónico, cada ser humano ocupa o seu lugar, nele tendo voz, valor, vez e vida, nele contribuindo para o bem de todos, de modo que cada um também tenha voz, valor, vez e vida no seio dessa comunidade.

    A palavra “justiça” (Mt, 7x: 3,15; 21,32, das quais 5x no Sermão da Montanha: vv.10.20; 6,1.33) aparece pela primeira vez na Sagrada Escritura ligada à fé em Deus: “Abrão creu no Senhor e isso foi-lhe creditado como justiça” (Gn 15,6; cf. Rm 4,3; Tg 2,23; Sl 4,6), daí resultando que, crendo em Deus, Abraão viveu em conformidade com a Sua vontade (cf. Gn 22,18), permitindo que a bênção de Deus se estendesse a todas as nações (cf. Gn 18,18s; Sl 98,2; Jr 4,2).

    É também (e sobretudo) desta justiça que fala a quarta bem-aventurança, a justiça de que têm fome e sede aqueles “pobres em espírito”, que reconhecem que, por si mesmos, não são capazes de alcançar uma justiça que tenha valor diante de Deus (cf. v. 20: “Digo-vos: se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos céus”), mas que, mesmo assim, anseiam por ela, sabendo que ela é um dom que só Deus lhes pode conceder. Por isso, se arrependem cada dia e a pedem a Deus, esforçando-se por a pôr em prática, pondo n’Ele toda a sua confiança. Trata-se assim, aqui, em Mateus, não da justiça em sentido meramente jurídico, humano, mas da justiça de Deus que se alcança pela fé em Jesus Cristo, justificando todo aquele que nele crê (cf. Lc 18,7-8; Rm 3,21-26; 1Cor 1,30; Fl 3,9; 2Pd 1,1).

    Tal noção de justiça está em oposição à justiça de Israel, a justiça que ele quis estabelecer por si mesmo, com a sabedoria e as força humanas, endurecendo-se assim no pecado: “Porque (eles, os judeus) não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Rm 10,3).

    Dar a conhecer a verdadeira justiça, a justiça de Deus, e levá-la até aos confins da terra é a obra do Messias (cf. Is 9,6s; 45,8; 61,10; Jr 23,5-8; 33,15s), que, para o fazer, recebe a plenitude do Espírito Santo (cf. Is 11,4s), a fim de purificar (cf. Is 4,4) e reconduzir o povo de Israel a Deus (cf. Zc 8,7s) e o apascentar com justiça (Ez 34,16), de modo a trazer também a justiça eterna à terra (cf. Dn 9,24), levando-a, sem desanimar, a todas as nações (cf. Is 42,6). O que se veio a realizar em Cristo e por meio dele, através dos seus discípulos, que hão-de levar a Boa nova até aos confins da terra. Por isso, esta quarta bem-aventurança, tal como a oitava ("os que são perseguidos por causa da justiça"), inclui o anúncio do Evangelho (cf. Rm 1,17).

    “Bem-aventurados” são os que “têm fome e sede de justiça”. O verbo ter está no presente do indicativo: eles são bem-aventurados porque nunca deixam de ter fome e sede de justiça, uma vez que estão num contínuo processo de conversão, procurando progredir nela e pondo-a em prática, sem se acomodar, nem desanimar ou desistir, tudo fazendo para que ela chegue a todos.

    De facto, quem recebe a justiça de Deus que vem pela fé em Cristo e a põe em prática, quanto mais recebe, tanto mais fome e sede dela tem, e quanto mais fome e sede dela tem, tanto mais a recebe e tanto mais se empenha na prática e na implementação da mesma entre os homens.

    A promessa é que, quem tem tal fome e sede de justiça, preferindo a justiça de Deus que vem pela fé (cf. Gl 2,16; Rm 3,21s; Fl 3,9; Hb 11,7), à sua própria justiça e à justiça das suas obras (cf. 2Pd 1,1), trabalhando pelo bem e a salvação dos homens (cf. Is 26,9; 45,8; Am 8,11s) “será saciado” com a única coisa que realmente é capaz de saciar o coração humano: fazer a vontade de Deus, repleto da justiça, da paz, do amor e da alegria de Deus, que lhe vêm do Espírito Santo (cf. Sl 63,2.6; 107,9; Is 12,3; 41,18; 44,3; 51,1-8; 55,1ss; Jo 4,10; Rm 14,17; Gl 5,22), em união com Cristo (cf. Jo 6,35), na expectativa da visão de Deus, que lhes saciará todos os anseios e desejos (cf. Sl 36,9-10; 42,3; Ap 7,15-16; 21,6; 22,17) de justiça: “nós aguardamos, segundo a sua promessa, novos céus e nova terra, em que habita a justiça.” (2Pd 3,13).

  • v. 7. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

    A quinta bem-aventurança constitui o coração das bem-aventuranças. Com ela começa a segunda parte das bem-aventuranças, em que se atenta mais ao comportamento cristão, propondo-se as atitudes, os gestos próprios, as ações dos discípulos de Cristo. A primeira delas é a misericórdia, que no NT é sinónimo de justiça: “Já te foi dito, ó homem, o que é bom, o que o Senhor te pede: nada mais do que praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus" (Mq 6,8). De facto, a forma através da qual se põe em prática a justiça de Deus, de acordo com a Sua vontade, é a misericórdia (cf. v. 48), como o próprio Jesus declara: “Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia eu quero, e não sacrifício. Com efeito, eu não vim chamar justos mas pecadores” (9,13; cf. 23,23; Os 6,6).

    A misericórdia de que aqui se fala não se refere apenas à filantropia de quem distribui esmolas – embora também passe (e muito!) por ajudar o necessitado (6,1-4) –, mas sobretudo à imitação de Deus, que tem entranhas de misericórdia para aqueles que sofrem (cf. Ex 34,6s).

    Na Bíblia, a misericórdia, mais do que um sentimento de compaixão e piedade, é uma ação em favor de quem precisa de ajuda (cf. Ex 22,26; Sl 112,4; Lc 1,54.72). “Ser misericordioso” é ter um coração que a miséria do outro e age para acudir à sua necessidade e diminuir a sua dor: “Bem-aventurado é o que tem misericórdia dos pobres” (Pv 14,21; bShab 151b.12-14). O exemplo mais claro é o do bom samaritano que viu e usou de misericórdia para com o homem agredido pelos bandidos (cf. Lc 10,37).

    "Bem-aventurado" é aquele que, imitando a misericórdia de Deus (cf. Lc 6,36), perdoa as ofensas (18,33) e faz o bem, mesmo aos injustos, aos ingratos e aos inimigos (cf. 5,45-48; Lc 6,35-38).

    A promessa é que “estes alcançarão misericórdia” (Pv 17,5 LXX), aquando o juízo de Deus, no último dia (Tg 2,13; 1Pd 2,10; 1Tm 1,13.16; cf. Sl 37,26), sendo-lhes redimidas todas as faltas (cf. 1Pd 4,8; Pv 10,12) e oferecida a entrada no Reino, que lhes “está preparado desde a fundação do mundo” (25,34).

     
  • v. 8. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

    A sexta bem-aventurança está em profunda continuidade com as anteriores, supondo a pobreza em espírito daqueles que se esquecem de si, o arrependimento dos que choram, a mansidão dos que não guardam ressentimento, o desejo dos que têm fome e sede da justiça de Deus, que vem pela fé em Jesus, e da prática da misericórdia que purifica todo o pecado (cf. Lc 11,41; v. infra). O mesmo se diga em relação à bem-aventurança seguinte.

    “Puros (ou limpos) de coração” (Sl 24,4; 73,1; 1Tm 1,5; 2Tm 2,22; Gn 20,5 LXX) são aqueles que procedem com intenção sincera e leal, sem maldade (cf. 15,17-20; 23,25s; Is 1,16.25), duplicidade ou segundas intenções (cf. Tg 4,8), com a finalidade de enganar os outros, mas com um coração de criança (18,3s) e simplicidade (cf. Gn 20,5; Sl 24,3s; Pv 22,11), esquecendo-se de si mesmos, procurando ter uma atitude e um comportamento em tudo conformes à vontade de Deus, vivendo na esperança de um dia se tornarem semelhantes a Ele no amor (1Jo 3,3). Alimentam-se da Palavra de Cristo (cf. Jo 13,10s; 15,3) e rejeitam os ídolos (cf. Ez 36,25) – inclusive o da desobediência (cf. 1Sm 15,23) e o do dinheiro (cf. Cl 3,5) –, para não terem dois senhores (cf. 6,24; Lc 16,13) e amarem a Deus sem desvios (1Cor 7,35).

    São também aqueles que não julgam (cf. 7,1-2; Lc 7,37s; Rm 2,1ss; Tg 4,11), que, sem guardar ressentimento, perdoam de todo o coração (6,12.14-15; 18,22.35; Ef 4,32; Cl 3,13), para amar, com boa consciência, sem hipocrisia e com sinceridade, os outros (1Tm 1,5; 1Pd 1,22), os que partilham com os pobres o que possuem (Lc 11,41), fazendo o bem, sem aceção de pessoas (Tt 1,15) e vivendo, quanto deles depende, em paz com todos (Rm 12,18; 2Cor 3,11).

    Como pobres em espírito, sabem que o coração puro é um dom de Deus (Jr 31,33-34; 33,8; Ez 36,25-29), sabendo-se pecadores, arrependem-se cada dia, para, perdoados por Deus (cf. 1Jo 1,9), viver, como novas criaturas, na presença de Deus, animados pelo Espírito Santo, determinados em tudo em fazer a sua vontade (Sl 51,10-11.4), na prática das boas obras (Tt 2,14).

    A promessa é que eles "verão a Deus” (Ap 22,4; Hb 12,14), ou seja, “verão”, nesta terra, o Reino de Deus (cf. Jo 3,3) e o Seu amor em ação (cf. 1Jo 3,1ss; Ex 34,6s), reconhecendo a Deus na pessoa dos irmãos, em especial dos mais pequenos e necessitados (cf. 25,34-40), enquanto esperam contemplar a face de Deus (cf. Ex 33,20-23; Sl 42,3), na Sua visão, no céu (cf. 18,10; Jo 1,18; 5,37; 2Cor 5,7).


  • v. 9. Bem-aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus.

    Na Bíblia, “paz” (he. shalom) não é a mera ausência de guerra; indica a harmonia com Deus, com os outros, consigo mesmo e com a própria criação (cf. Is 11,1-9); implica a justiça, a boa convivência entre os homens e as nações, a casa, o trabalho, a prosperidade, a saúde, a educação e a alegria do estar juntos, numa palavra: o bem-estar total.

    Os profetas, em particular, anunciam a paz como dom de Deus, a paz messiânica, consoladora, plenitude dos bens prometidos por Deus, que haveria de reinar na terra por meio do Messias, graças ao dom do Espírito Santo (Mq 5,5; Is 9,5s; 11,1-12,6; 52,7; 53,5; 57,19; 66,12; Rm 14,17; Gl 5,22; Fl 4,7). Paz bem diferente da paz terrena (10,34), paz que Jesus traz (Lc 2,14; 19,38.42) e anuncia por meio do Evangelho (Jo 16,33; At 10,36; Ef 2,17), que através da Sua morte na cruz (Ef 2,14) e ressurreição, instaura com toda a criação (Cl 1,20) e dá aos seus discípulos (cf. Lc 24,36; Jo 14,27; 20,19.21.26; 2Ts 3,16), para que eles nela vivam (cf. 1Pd 3,11; Sl 34,15) e anunciem (10,13; Ef 6,15).

    Esta paz é a que brota de um coração puro (2Tm 2,22), do coração daquele que conhece a Deus (cf. 2Pd 1,2; Tg 3,17) e que se traduz na comunhão com Deus e com os irmãos por meio de Cristo (Rm 5,1; Ef 6,15; Cl 1,20).

    “Artífices da paz” (“pacificadores” ou “construtores da paz” ou “promotores da paz”: Pv 10,10 LXX; Tg 3,18) são os que, como Cristo, nossa paz (Cl 1,20), vivem em paz uns com os outros (Rm 14,18) e se empenham e contribuem para que isto seja cada vez mais possível no interior das suas comunidades (Rm 14,19; 1Cor 7,15; 2Cor 13,11; Ef 4,3; Cl 3,15) e para cada homem, usando de misericórdia e acudindo aos necessitados com os seus bens (Tg 2,16).

    “Bem-aventurados” são os que constroem a paz sem recorrer à opressão, à violência, à coação ou ao uso das armas, esforçando-se por pôr fim às guerras e aos conflitos; são os que procuram levar os contendedores ao diálogo, os inimigos à reconciliação; são os que perdoam de coração, os que fazem o bem a quem lhes fez mal (Rm 12,17-21), os que, em vez de procurar o seu próprio interesse, fomentam a concórdia e constroem a comunhão fraterna (cf. Ef 4,3); são os que amam os inimigos e oram pelos que os perseguem (v. 44).

    A promessa é que eles “serão chamados filhos de Deus” (Os 2,1; cf. Mt 5,45; Lc 6,35; Rm 9,26; Ef 5,1), “o Deus da paz” ((Rm 15,33; 16,20; 1Cor 14,33; Fl 4,9; 1Ts 5,23; Hb 13,20), tal como Cristo, nossa paz (Ef 2,14, Mq 5,4; Is 9,6), cujas obras imitam, progredindo na santidade, a fim de virem a ver o Senhor na plenitude do Seu reino, no céu (Hb 12,14), participando da Sua ressurreição (cf. Lc 20,35-36).


  • v. 10. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa justiça, porque deles é o reino dos Céus.

    v. 10: cf. 1Pd 3,14. O paradoxo das bem-aventuranças, como dom de Deus, que, por meio de Cristo, torna os discípulos participantes da vida futura, atinge o seu ponto mais alto na oitava e nona bem-aventuranças, onde não só os pobres e os oprimidos são declarados “bem-aventurados”, mas também aqueles que estão a experimentar uma efetiva perseguição, precisamente por causa da sua retidão, ou seja, por causa da justiça que praticam e na qual procuram progredir, empenhando-se na promoção da paz, como Jesus diz nas bem-aventuranças anteriores, onde aponta “o caminho da (nova) justiça” do Reino (v. 20; 21,32).

    O tema das perseguições é particularmente importante em Mateus (7x; gr. diôkô, “perseguir”, 6x: vv. 11.12.44; 10,23; 13,21; 23,34; diôgmós, “perseguição”: 13,21), refletindo muito provavelmente a situação das comunidades para quem ele escreve o Evangelho. Comunidades estas compostas por numerosos judeo-cristãos, que saíram da Judeia e de Jerusalém, aquando a vinda das tropas romanas comandadas por Tito, no ano 67 d.C., obedecendo à palavra de Jesus (24,15-18; Lc 21,20-21), judeo-cristãos estes muito preocupados, tal como os judeus do seu tempo, com o tema da retribuição divina. Mateus mostra-lhes nestes dois versículos, que eles não se devem alarmar com tal situação (cf. 1Pd 4,12-14), assegurando-lhes que a sua recompensa é grande.

    Neste versículo, Jesus fala da justiça em geral, ou seja, da retidão das relações do homem com Deus e com os seus semelhantes (cf. v. 6), embora também não exclua os que são perseguidos por causa da justiça de Deus, no sentido da justiça que se alcança de Deus por meio da fé em Cristo. Mas a complementação desta bem-aventurança com a próxima, leva-nos a não restringir o seu horizonte apenas aos discípulos de Jesus, uma vez que Ele em todas estas primeiras oito bem-aventuranças se está a dirigir a uma multidão composta por todo o tipo de pessoas, das mais diversas proveniências (cf. v. 1).

    Não é por acaso que Jesus refere a perseguição pela justiça depois de ter falado do empenho pela construção da paz, ligando assim os dois temas um ao outro. Certamente visados por esta bem-aventurança são “o justo que é pobre” (Sb 2,10), as criancinhas inocentes que foram mandadas matar por Herodes (2,16), bem como os profetas, a que se refere no v. 12, entre eles, de modo particular, João Batista, que “veio no caminho da justiça” (21,32), foi preso (11,2) “e lhe fizeram tudo o que quiseram” (17,12), matando-o por ordem de Herodes Antipas (14,10).

    Jesus não ilude os seus discípulos, nem ninguém, dizendo claramente que quem alinha do lado da justiça, se empenha no restabelecimento da paz entre os homens e se esforça por levar a Boa-nova da salvação a todos, sofrerá perseguições (cf. 13,21; Mc 10,30; Lc 11,49; 21,12; 2Tm 3,12), tal como Ele (cf. 10,24-28; Jo 15,20; 1Ts 2,15), acabando por pagar na própria vida o preço do bem e da felicidade dos outros.

    A promessa é: “porque deles é o Reino dos céus", promessa que repete a do v. 3, formando uma inclusão semítica, indicando que aqui se concluem as bem-aventuranças dirigidas a todos os homens, as quais dão a contemplar, manifestam a presença, mostram a entrada, apontam o caminho e ensinam a viver no Reino dos céus já sobre esta terra.

  • v. 11. Bem-aventurados sois, quando, por causa de mim, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós.

    v. 11: Lc 6,22. A terminar, Jesus acrescenta uma última bem-aventurança, a nona, que é o desdobramento da anterior e a síntese de todas as outras.

    Nela torna-se patente o que já estava implícito nas bem-aventuranças anteriores: que se supõe já a época pós-pascal, assinalada pela regeneração e o derramento do Espírito (cf. 19,28; 3,11).

    Nesta última bem-aventurança, que recapitula as bem-aventuranças anteriores, Jesus passa da terceira pessoa do plural, usada até aqui, para a segunda pessoa do plural, dirigindo-se diretamente aos seus discípulos, indicando, desta forma, que todas as bem-aventuranças, de forma particular, lhes dizem respeito.

    O tema das perseguições por causa da justiça e da fé já estava presente no AT, sobretudo na vida dos profetas e nos escritos mais recentes, como os livros dos Macabeus (passim) e o livro da Sabedora (cf. Sb 2,10-20; 3,1-9). É um tema bem presente no livro de Daniel (de quem Mateus é o único autor do NT a mencionar o nome: 24,15), onde, depois de se falar no “Filho do homem”, se fala  dos “santos” contra os quais "o chifre mais pequeno" (Antíoco IV Epífanes) “movia guerra, prevalecendo contra eles” (Dn 7,21) e em cujas mãos eles “serão entregues” (Dn 7,25), falando-se depois do “tempo do fim”, que se caracterizará pela perseguição dos sábios, dos justos e do povo de Deus (Dn 8,10; 11,33.35; 12,10).

    Jesus adverte desta forma os seus discípulos que o tempo do fim já chegou: tal como o Messias, seu Mestre (cf. Dn 9,26; Jo 15,20), eles serão flagelados, odiados por todos, mesmo pelos próprios familiares (10,21), rejeitados e perseguidos (cf. 10,17-18; Mc 10,30; 13,13; 21,12.16s; At 9,16; 14,22; 2Tm 3,12), por causa do Seu nome (10,22-23; 24,9), vindo mesmo alguns a ser crucificados e mortos (23,34; 24,9-10).  Num mundo construído e organizado a partir do egoísmo, do poder, dos interesses pessoais e dos interesses de fações e de grupos, aqueles que desejam viver verdadeira e coerentemente de acordo com o amor desinteressado de Cristo, serão insultados, perseguidos, ridicularizados e difamados (cf. Is 51,7; At 8,1; 13,50; Rm 8,35; 2Cor 4,9), podendo mesmo chegar a pagar com a própria vida o seu empenho, porque os opressores, dando-se conta de que a ação livre e desinteressada dos discípulos ameaça a sua posição, desmascara as suas mentiras e põe a descoberto as suas faltas e manobras injustas, procurarão silenciá-los, rejeitando-os, agredindo-os violentamente e eliminando-os.

  • v. 12. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.

    v. 12: Lc 6,23. Ao convite do v. 11, Jesus apõe a respetiva promessa: “é grande nos céus a vossa recompensa” (cf. Gn 15,1; 2Cor 4,17; Hb 10,35; cf. Sr 2,8).

    O verbo está no presente do indicativo ("é"), dando a entender, por um lado, que, quando Mateus escreve o Evangelho, os cristãos já estão efetivamente a ser perseguidos; e, por outro, que os que são perseguidos por Cristo já possuem aqui na terra a sua recompensa, que "é grande", porque é o próprio Deus (cf. Is 62,11; 49,4) que neles habita (cf. 1Pd 4,14), embora só Se lhes venha a dar plenamente quando os fizer entrar na pátria celeste, a fim de gozar com Ele a glória eterna.

    As perseguições que os discípulos de Jesus irão sofrer não serão, pois, um castigo, uma derrota ou um desastre, mas um sinal de sucesso, sendo mesmo motivo de uma intensa alegria, sobrenatural (cf. 1Pd 3,14; Ap 19,7; cf. At 5,41; 2Cor 12,10; Fl 1,29; Cl 1,24; Hb 10,34; Tg 1,2), porque atestam que eles fizeram a escolha certa, aquela que os põe do lado de Deus, identificando-os com Jesus.

    Os discípulos de Jesus são, desta forma, como os profetas do AT que foram perseguidos (cf. At 7,52; Hb 11,33-38; Tg 5,10s), mas serviram sempre a Deus da forma mais desinteressada, não estando à espera de vantagens ou de recompensas pessoais, mas apenas por amor a Ele e aos homens (cf. 2Rs 5,15s), confiando sempre em Deus e permanecendo junto do povo, sem nada mais querer, e em nada mais encontrando recompensa, do que a de fazer a vontade de Deus, promover a Sua glória e empenhar-se na salvação dos homens.

    De facto, os profetas são a única categoria de pessoas na Sagrada Escritura que servem a Deus e permanecem junto do povo, sem qualquer recompensa por parte dos homens e sem Deus nunca lhes prometer e, muitas vezes, até sem lhes dar qualquer recompensa. Mesmo a Abraão e aos patriarcas, a David e aos outros justos do AT, Deus sempre lhes prometeu algo, não raro, muito grande. Aos profetas, porém, não: a estes, Deus irrompia na sua vida, atravessava-se no seu caminho, chamava-os, impunha-se à sua vontade, mesmo quando eles resistiam, e enviava-os, mandando-os fazer e dizer o que Ele queria, e eles obedeciam, sofrendo muitas vezes as consequências disso.

    Os profetas, porém, nunca desistiram: nem de Deus, nem dos homens, a quem eram enviados. O seu serviço e o seu amor a Deus eram gratuitos. É este amor desinteressado, esta obediência incondicional a Deus, esta fidelidade irremovível aos homens, que Jesus espera dos seus discípulos, os quais são, em definitivo, o único amor e a única atitude que faz com que eles possam ser, e realmente sejam, bem-aventurados!

    A Boa-nova pregada por Jesus abre-se assim no Sermão da Montanha com um impressionante e insistente apelo dirigido a todos os homens à plenitude da alegria e da felicidade, a alegria e a felicidade verdadeiras que vêm de Deus e d’Ele são, ou seja, abre-se com o anúncio da bem-aventurança eterna, que já podem começar a saborear aqui sobre a terra aqueles que aderem com fé à palavra de Jesus e seguem com confiança o Seu caminho. Caminho este que os leva a partilhar a sua vida e a identificar-se com os últimos dos homens, precisamente com aqueles que nem o mundo, nem nenhuma religião ou ser humano, achariam que alguma vez seria possível virem a ser felizes. Mas é precisamente aí, nas situações difíceis em que eles vivem, que desabrocha a verdadeira sabedoria, que irrompe a mais genuína felicidade, porque é aí que Deus está presente, é aí que se encontra Jesus e é por aí que passam os Seus caminhos. Jesus é, assim, a bem-aventurança eterna dos seus discípulos, como já dissera Maria, Sua Mãe, o maior exemplo da vivência das bem-aventuranças depois d’Ele, ao exclamar profeticamente: "o meu espírito exulta de alegria, em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade da sua escrava" (Lc 1,47-18).

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...


2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • Que tipo de felicidade buscam as pessoas do nosso tempo?

  • Procure recordar os momentos em que se sentiu feliz na sua vida. A sua visão de felicidade é a mesma da de Jesus?

  • Como é possível ser pobre e feliz ao mesmo tempo?

  • Com qual das bem-aventuranças se identifica mais? Que pode fazer para a praticar mais plenamente?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)

Salmo responsorial                                                                              Sl  146,7.8-9a.9bc-10

Refrão: Felizes os pobres que o são no seu íntimo, porque deles é o reino dos Céus.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.     R.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.     R.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.     R.

O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.     R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Concedei, Senhor nosso Deus, que Vos adoremos de todo o coração e amemos o próximo com sincera caridade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.