Apresentação do Senhor – 2 de fevereiro de 2026

Apresentação do Senhor Ícone

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:


A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.


A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.


1) LEITURA
(Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)


Leitura do Evangelho segundo S. Lucas
(2,22-40)

2,
22Ao completarem-se os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, 23tal como está escrito na Lei do Senhor: “Todo o macho que abre o ventre materno será consagrado ao Senhor”, 24e para oferecerem em sacrifício “um par de rolas ou duas pombinhas”, segundo o que está dito na Lei do Senhor. 25Ora, havia em Jerusalém um homem, cujo nome era Simeão; homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. 26Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. 27E veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus para fazerem segundo o que está prescrito na Lei a respeito dele, 28ele recebeu-o nos braços, bendisse a Deus e disse: 29«Agora, Senhor, segundo a tua palavra, podes deixar partir o teu servo em paz, 30porque os meus olhos viram a tua salvação, 31que preparaste diante de todos os povos: 32luz para se revelar às nações e glória do teu povo, Israel». 33O pai e a mãe do Menino estavam admirados com o que se diz sobre Ele. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Eis que este Menino está posto para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição; 35e a ti, uma espada traspassará a tua alma, para que se revelem os pensamentos de muitos corações». 36Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Era de idade muito avançada; tinha vivido com o marido sete anos desde a sua virgindade 37e viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do Templo, prestando noite e dia culto a Deus, com jejuns e orações. 38E estando ela também presente naquela hora, pôs-se a dar graças a Deus e a falar sobre Ele a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. 39Depois de terem cumprido tudo segundo a Lei do Senhor, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria. E a graça de Deus estava sobre Ele.

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

O texto de hoje, exclusivo de Lucas, é o penúltimo episódio das “narrativas da infância de Jesus”, onde ele apresenta Jesus a percorrer as diversas etapas da sua infância segundo as normas da Lei (a Torá).

  • v. 22. Ao completarem-se os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor.

    “Ao completarem-se os dias”: “a Lei de Moisés” (Lv 12,1-8) prescrevia que uma mãe se devia “apresentar” (cf. 1,19; Nm 16,9; Dt  21,5 Jdt 11,13), – isto é, subir ao Templo de Jerusalém, “à presença do Senhor” –, no 40º dia do nascimento do seu filho, para se “purificar” do contacto com o sangue do parto, oferecendo um sacrifício (v. 24). Esta obrigação só dizia respeito à mãe, não ao filho, mas Maria leva também consigo o Menino Jesus e José (cf. v. 23).

    “Jerusalém”: o evangelista usa a forma grega Hierosolyma (13,22; 19,28; 23,7; At, 25x), provavelmente para ligar a etimologia de “Hierosalem” (hieros, “santa ”+ Salem “paz”: vv. 25.38.41.43.45; Hb 7,2), a hieros, “santa”, (kat)alyma, “sala de hóspedes” (2,7), numa alusão ao cenáculo (22,11).

  • v. 23. Tal como está escrito na Lei do Senhor: “Todo o macho que abre o ventre materno será consagrado ao Senhor”.

    Além da purificação da mãe, a Lei prescrevia que “todo o primogénito varão que rasga o ventre materno (nascendo de parto natural) será consagrado ao Senhor” (lit. “será chamado santo para o Senhor”: 1,35; Ex 13,2.12.15). Segundo a Lei, as primícias de tudo o que se tem são do Senhor. Isto aplica-se em especial aos primogénitos machos, tanto dos homens, como dos animais: eles pertencem a Deus e devem ser “resgatados” (libertados mediante um pagamento), em agradecimento a Deus por ter poupado os primogénitos de Israel na noite de Páscoa, quando feriu de morte os primogénitos dos egípcios, tanto dos homens, como dos animais (Ex 13,15s; 22,28; 34,19).

    Desta obrigação estava isenta a tribo de Levi (Nm 3,12-13.40ss.45), porque, segundo a tradição, todos os primogénitos de Israel tinham sido escolhidos pelo Criador para o sacerdócio, por terem sido poupados na última das dez pragas do Egito. No entanto, quando os israelitas pecaram junto ao Sinai, oferecendo sacrifícios ao bezerro de ouro, só os membros da tribo de Levi se juntaram a Moisés para executar a sentença divina (Ex 32,26-29), passando a ser apenas eles a assumir o sacerdócio. Desde então foi instituído “o resgate do primogénito” (he. pidyon ha-ben: Nm 18,16; gr. lytrôsis, “redenção”: v. 38; 1,68), como forma de resgatar (libertar mediante um pagamento) o primogénito da obrigação do sacerdócio. Isto deve fazer-se a partir do 30º dia do nascimento dele (um mês civil) e antes de completar o segundo mês (Nm 18,16), o mais tardar até aos cinco anos de idade (Lv 27,6).

    O filho devia ser resgatado pelo pai que se pode dirigir a qualquer sacerdote em qualquer lugar da nação e lhe entrega o filho, dizendo “Este meu primogénito é o primogénito da sua mãe e o Santificado, bendito seja Ele, ordenou-nos que o resgatássemos”, pagando-lhe cinco siclos de prata pura (“segundo o ciclo do Santuário”, 5 x 11,4g: Nm 3,47; 18,16; Mek Ex 13,2, 22b; Mek Ex 22,29, 103a; SNu 18,15,118, 38a). Assim como Moisés, que devia libertar o seu povo do Egito, através das águas, foi salvo das águas na sua infância (cf. Ex 2,10; 14,27ss), também Jesus, que será o redentor da humanidade, deve primeiro ser resgatado.

    Lucas, que tanto gosta de sublinhar a pobreza (6,20; 9,3; 14,13.21; 18,22; At 3,6; 8,20; 20,33) e é avesso ao dinheiro, não refere este pagamento, mas alude ao rito e dá-o como cumprido (v. 39), fazendo-o coincidir com a purificação de Maria (cf. v. 22: “a purificação deles”, no plural, porque também inclui Jesus), por razões de ordem prática. Destaca assim a piedade de Maria e de José, que apresentam Jesus a Deus numa gesto que acena a 1Sm 1,24-26 (a apresentação de Samuel a Deus, por Ana, no templo de Silo).


  • v. 24. E para oferecerem em sacrifício “um par de rolas ou duas pombinhas”, segundo o que está dito na Lei do Senhor.

    “A Lei do Senhor” prescrevia, no caso da família ser pobre, que a mulher oferecesse em sacrifício pela sua purificação apenas “um par de rolas ou duas pombinhas” (Lv 12,6.8). É o caso da família de Jesus, que faz parte dos “pobres de Israel”, o resto fiel a Deus que obedece de coração, com amor, à sua “Lei” (5x aqui). Desta forma, Lucas mostra que Jesus é desde o princípio “o Santo” de Deus (v. 23: “consagrado”; 4,34), como o Anjo dissera a Maria (1,35), decorrendo toda a sua vida em conformidade com a Palavra de Deus, que nele se vai realizando.

  • v. 25. Ora, havia em Jerusalém um homem, cujo nome era Simeão; homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele.

    Duas personagens acolhem Jesus no Templo: ambas são idosas, representando o povo da antiga aliança que ardentemente esperava a restauração do reino de Deus e a libertação (“resgate”, “redenção”) do seu povo. Bem ao estilo de Lucas, são um par: um homem e uma mulher (4,25-28.31-39; 7,1-17.36-50; 23,55-24,35). Ambos “profetizam”, ou seja, agem e falam em nome de Deus, sob moção do Espírito Santo. Lucas expressa deste modo três temas fundamentais da sua obra: a) ambos, homem e mulher, estão juntos na presença de Deus, sendo iguais em honra e graça, tendo os mesmos dons e responsabilidades (Gn 1,27; Gl 3,28); b) em Jesus inauguram-se os tempos messiânicos, marcados pela efusão do Espírito Santo e a irrupção do dom de profecia (Nm 11,27; Jl 2,28), extinto há mais de 400 anos; 3) só é possível encontrar Jesus e (re)conhecê-lo por ação do Espírito Santo.

    A primeira personagem a vir ao encontro do Menino é Simeão (he. “Deus ouviu”). “Era um homem justo” (1,6.17; 23,50; At 10,22), que obedecia de coração à vontade de Deus (Is 51,7); “e piedoso”, cumprindo humilde e reverentemente os preceitos de Deus (At 2,5; 8,2; 22,12); “que esperava” (há longo tempo: Rt 1,13) a “consolação de Israel” (cf. v. 38), prometida pelos profetas (cf. Is 40,1; 49,13; 51,12; 52,9; 61,2; 66,13; Jr 31,9; Zc 1,17) ou seja, a libertação do cativeiro e o retorno do Povo de Deus, disperso pelo exílio, à sua terra, vivendo na esperança no cumprimento das promessas de salvação, porque “o Espírito Santo estava sobre ele” (3,22; Nm 11,25.29), ou seja, tinha posto a sua morada nele, habitava nele.

  • v. 26. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor.

    “Fora-lhe revelado” (cf. Jr 36,2.4; At 10,20) “pelo Espírito Santo”. “O Espírito Santo” aparece aqui pela primeira vez em Lucas com o artigo (10,21; 12,10. 12), o que só ocorre três vezes no AT (Sl 51,13; Is 63,10s). “Que não veria a morte”, que não morreria (Sl 89,49; Hb 11,5; Jo 8,51), “sem antes ter visto” (9,27) “o Cristo do Senhor” (só em 2,11; 1Sm 24,11), ou seja, o “ungido (he. Messiah) de Deus”, título que no AT designa o Sumo-sacerdote (Lv 21,12) e o rei (1Sm 24,6.10), sagrados com o óleo da unção (cf. Ex 25,6; 30,23-32), bem como o Messias prometido (Sl 2,2).

  • v. 27. E veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus para fazerem segundo o que está prescrito na Lei a respeito dele

    Simeão vai ao Templo “movido pelo Espírito” (lit. “no Espírito: 1,17; 4,1; 10,21; Mq 3,8; Zc 4,6; 7,12), na ocasião em que “os pais trouxeram o Menino Jesus para fazerem segundo o costume da Lei acerca dele”. Ao cumprirem o que a Lei prescrevia, cumpre-se também Ml 3,1: “De repente, virá ao seu Templo o Senhor, a quem buscais, o Anjo da Aliança, a quem desejais”. Lucas chama aqui pela primeira vez “pais” a José e Maria porque foi só na circuncisão que José assumiu a paternidade legal sobre Jesus (vv. 21.33; 3,23),  passando a chamar-se, com direito, pai dele.

  • v. 28. Ele recebeu-o nos braços, bendisse a Deus e disse.

    Impelido pelo Espírito (cf. At 8,29; 10,19; 11,12; 13,2), Simeão reconhece Jesus e intervém com atos e palavras expressivos. Num gesto de amor, ternura e gratidão, “recebe” o Menino nos braços (cf. Mc 9,36; 10,16) como um  dom (gr. dékomai: 9,48; 18,17; 22,17; Gn 33,10; Dt 32,11) e bendiz a Deus (1,42.64; 24,53; Sl 16,7; 34,2; 63,5; 96,2; 103,2; 134,2), profetizando.

  • v. 29. «Agora, Senhor, segundo a tua palavra, podes deixar partir o teu servo em paz.

    “Agora” (gr. nûn). É o “agora” do tempo da graça, do dia da salvação (22,18.69; 2Cor 6,2). “Senhor” (gr. despótes, “mestre”, “soberano”: At 4,24; Gn 15,2.8; Js 5,14; Dn 9,15-19): é Deus quem dirige tudo. “Podes deixar partir em paz”, ou seja, deixar morrer (Gn 15,15; 46,30; Tb 11,9), livre do medo da morte (Hb 2,14s). “O teu servo” (gr. doulós, “escravo”: 1,38.48; Rm 1,1; 2Co 4,5; Gl 1,10; Fl 1,1; 2,7; Tt 1,1; Tg 1,1; 2Pd 1,1; Jd 1,1; Ap 1,1), ou seja, a mim, sobre quem podes dispor, com direito de vida e de morte. “Segundo a tua Palavra”: o que me prometeste pelo Espírito Santo (v. 26), e de acordo com o meu desejo (cf. Gn 47,30; Nm 14,20; 1Rs 3,12). O encontro com Jesus ilumina e projeta uma nova luz sobre a existência do homem e a sua morte, fazendo dela uma passagem para a eternidade.

  • v. 30. Porque os meus olhos viram a tua salvação,

    Depois, no Templo de Jerusalém, confessa que os seus olhos “viram a salvação” (3,6; Sl 98,3; cf. Jb 42,5; Sl 67,3). O nome “Jesus” em aramaico é Ieshuah (“Deus salva”), a palavra hebraica para “salvação”.


  • v. 31. Que preparaste diante de todos os povos.

    ”Que preparaste diante de todos os povos” (gr. laós: Is 52,10; 26,11), ou seja, que começaste a preparar no seio do teu povo, mas que é para ser levada a todos os povos (Is 40,5 G; cf. Rm 15,11). Normalmente, a tradução grega da Bíblia, os LXX, reserva a palavra “povo” (gr. laós) a Israel, enquanto que os gentios são chamados “nações” (gr. ethnós: Is 51,4; 62,1); mas aqui os gentios recebem a mesma designação de Israel, “povo# (o que, em hebraico, acontece em Is 61,9), indicando que os gentios farão parte do novo povo de Deus.

  • v. 32. Luz para se revelar às nações e glória do teu povo, Israel».

    A seguir, Simeão anuncia o objetivo da obra de Jesus: levar a todos os homens a “luz” (Is 9,2; At 26,18) do Evangelho que se deve “revelar às nações”, isto é, aos gentios (Is 42,6; 49,9.6; 51,4; At 13,47) e ser a “glória de Israel”, o povo de Deus (cf. Is 4,2; 45,25; 46,13; 60,1s.19). “Glória”, não é apenas a manifestação transcendente de Deus ao homem (Ex 24,17; 2Cr 7,3) e a graça da sua presença no meio do seu povo (1Sm 4,22G) mas alude também à glória da ressurreição de Jesus (9,26.31s; 21,27; 24,26), da qual participará o novo Povo de Deus, o novo Israel (Rm 9,6ss; Gl 6,6; Fl 3,3). Jesus é o Servo de Iavé que levará a salvação a todos os povos da terra, que nele serão irmanados, sem qualquer distinção, no único povo de Deus, que Jesus fará participar da Sua glória. Emerge aqui, pela primeira vez, de forma explícita, o tema, tão caro a Lucas, da universalidade da salvação (2,14; 24,47; At 1,8).

  • v. 33. O pai e a mãe do Menino estavam admirados com o que se diz sobre Ele.

    “Seu pai e sua Mãe” (v. 27) ficam “admirados” com o que “se diz” (particípio presente) de Jesus (1,63; 2,18.48). De facto, até aqui, só lhes tinha sido anunciada a missão de Jesus em relação a Israel, seu povo; mas agora é-lhes profetizado que Ele será glorificado e que a sua missão se estenderá a todos os povos.

  • v. 34. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Eis que este Menino está posto para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição.

    “Simeão abençoou-os”: a Jesus, a Maria e a José (cf. Dt 18,5 LXX) com a bênção habitual, a bênção aarónica de Nm 6,23-26, a única ocasião em que era permitido aos sacerdotes (he. kohen) pronunciar o Tetragrama sagrado, o Nome divino YHWH (SNu 39,1; cf. bHul 49a.16), além do dia da Expiação (o Yom Kippûr), pelo Sumo Sacerdote. Depois anuncia profeticamente a Maria a divisão que Jesus irá provocar em Israel e no mundo (cf. 4,16-30; 12,51), desvelando-lhe o seu destino: o anúncio e a obra da salvação da humanidade passarão pelo sofrimento (“a cruz”: 24,7.44.46), de modo que Jesus será “um sinal de contradição” para todos (7,23; At 28,22; Is 8,14; 28,16): para os que não acreditarem nele e o rejeitarem, será causa de queda e de ruína (como acontecerá a Jerusalém no ano 70 d.C.: Dn 11,41 LXX; Mt 21,42; Rm 9,32; 1Pd 2,7); para os que nele crerem, será fonte de “ressurgimento”, literalmente de ressurreição (gr. anástasis, o termo usado para designar a ressurreição de Jesus), ou seja, de vida nova, de luz e de salvação (At 26,23; Rm 6,5; 1Cor 1,23). É uma alusão ao núcleo central do querigma: a morte e ressurreição de Cristo e o seu anúncio a todos os povos (9,20.22; 24,26. 46s; At 2,36; 4,10ss; 10,36-42; 17,3), missão esta que será acompanhada de hostilidade e de perseguições não só em Israel, mas também em todo o Império Romano.

  • v. 35. E a ti, uma espada traspassará a tua alma, para que se revelem os pensamentos de muitos corações».

    Tal como o discípulo é associado à cruz (9,23; 14,27), também Maria será intimamente associada à obra do seu Filho de modo singular, único, para a vida e para morte, obra esta que “traspassará” como espada a sua alma (v. 48; Jo 19,25s.37; Hb 4,12; Sl 124,5) de dor (cf. Am 5,17) “para que se revelem os pensamentos de muitos corações” (cf. 5,22; 9,47; 16,15; 24,38; Sb 7,20; Jr 17,9s; Dn 2,22.30; 1Cor 3,13) pró ou contra Jesus, em última análise, pró ou contra Deus.

  • v. 36. Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Era de idade muito avançada; tinha vivido com o marido sete anos desde a sua virgindade.

    A segunda figura, Ana, é, toda ela, simbólica. O seu nome, “Ana”, significa “graça”, “ternura”; e o apelido, “Fanuel”, “rosto de Deus” (Gn 32,31): em Jesus, Deus mostra o seu rosto e dá a sua graça. Ela é “profetiza” (cf. v. 25; Ex 15,20; Jz 4,4; 2Rs 22,14; 2Cr 34,22; Is 8,3), indicando que em Jesus chegou o tempo da era messiânica, caracterizada pela efusão do Espírito (Jl 3,1; At 2,17s). Ana é da tribo de Asser (“feliz”), a mais pequena, afastada e insignificante de Israel (Dt 33,24), a NW da Galileia, então já fora desta, na província siro-fenícia.

  • v. 37. E viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do Templo, prestando noite e dia culto a Deus, com jejuns e orações.

    A idade de Ana também é simbólica: 7x12=84 anos, indicando 7 a perfeição e 12 o Povo de Deus. Ela é “viúva”, figura daquele Israel pobre e sofredor que se manteve sempre fiel a Iavé. Manteve-se viúva após a morte do marido (cf. Is 60,20; 61,3), ansiando, suplicando e esperando o cumprimento das promessas de Deus, “Sem se afastar do Templo” (cf. Sl 26,8; 27,4; 84,11), não porque nele pernoitasse (uma vez que as portas deste se fechavam durante a noite: cf. 21,37; Sl 134,1), mas porque vivia perto dele. “Prestando culto” a Deus (cf. Ex 3,12; 20,5; 23,25; Dt 6,13; 10,20; Js 24,14); ininterruptamente, “noite e dia” (Jt 11,37; At 20,31; 26,7; 1Ts 2,9; 3,10; 2Ts 3,8; 1Tm 5,5; 2Tm 1,3); “com jejuns e orações” (cf. 5,33; At 13,3; 14,23; Ne 1,4; Dn 9,3), uma prática regular dos judeus piedosos (Jt 8,6!), destinada a implorar a vinda do Messias (cf. 5,33; Dn 10,3).

  • v. 38. E estando ela também presente naquela hora, pôs-se a dar graças a Deus e a falar sobre Ele a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.

    Ao ver Jesus, Ana não só reconhece nele o Messias, mas põe-se a louvar a Deus (Sl 79,13; Dn 4,37) e a falar profeticamente dele “a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (cf. v. 25; Sl 111,19; 130,7; Is 43,1; 59,20; 63,4). A palavra “redenção” (gr. lytrosis, “resgate”: 1,68; cf. v. 23) é a mesma que é usada para falar da libertação de Israel da escravidão do Egito (cf. Ex 6,6; 15,13; Dt 7,8; 2Sm 7,23) e para designar o novo êxodo, o da salvação futura do povo de Deus (Is 41,14; 43,1; 44,6.22ss; 52,3; 62,12; 63,9; Jr 31,11; Os 13,14; Zc 10,8), levado a cabo pelo Messias (Jesus: 9,31). Esta redenção, que se estendia a todo o povo eleito (1,68; 24,21), interessava em primeiro lugar à sua capital, Jerusalém (cf. Is 52,9; 40,2), onde David se instalara como rei de Judá e de Israel (2Sm 5,9) e Salomão construiu o Templo. Ana é figura do Israel pobre e fiel que põe toda a sua esperança em Deus e, guiado, pelo Espírito, reconhece Jesus como o Messias, que a anuncia a todos os que aguardam a redenção.

  • v. 39. Depois de terem cumprido tudo segundo a Lei do Senhor, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré.

    O texto conclui com um sumário da infância de Jesus. Cumpridas todas as prescrições da Lei a respeito do Menino, “voltaram à sua cidade, Nazaré” (1,26; 2,4; Mt 2,23), donde tinham partido.

  • v. 40. Entretanto, o Menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria. E a graça de Deus estava sobre Ele.

    v. 40: v. 52; cf. At 7,10. “Entretanto, o Menino crescia” (1Sm 2,21.26) “e fortalecia-se” (cf. 1,80; Sl 80,18; Ef 3,16; 6,10). “Enchendo-se de sabedoria” (cf. 11,31; Is 11,2; 1Cor 1,24.30; Cl 1,9; 2,3; Tg 3,17), “e a graça de Deus estava com Ele” (cf. 4,22; Sl 45,2; Sb 3,9; Jo 1,14.17), ou seja, nele, derramada por Deus, dons estes que vêm de Deus (cf. Tg 1,17; 3,15) e que Jesus, diversamente de João Batista, possui como próprios, atestando que é o Filho de Deus.

    Ler o texto segunda vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou/vamos pôr em prática?

  • Como conheci o Senhor? Já me senti conduzido por Ele? Vou ao encontro dele e reconheço-o, não só no Templo, que é a Igreja, mas também na minha vida, no meio do mundo e, em especial, na pessoa dos pobres?

  • Deus ocupa o centro da minha vida? Deixo-me guiar pelo Seu Espírito e iluminar pela Sua Palavra? Levo a cabo a missão que Ele me confiou no batismo de ser sua testemunha e de O anunciar a todos?

  • Que contradições devem acabar em mim, porque me afastam de Jesus ou o ofuscam na minha vida e que aspetos devem receber vida nova melhor O refletir?

 

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que inflame o coração)

Salmo responsorial                                                    Sl 24,7-10 (R. 10b)

Refrão: O Senhor do Universo é o Rei da glória.

Levantai, ó portas, os vossos umbrais,
alteai-vos, pórticos antigos,
e entrará o Rei da glória.      R.

Quem é esse Rei da glória?
O Senhor forte e poderoso,
o Senhor poderoso nas batalhas.      R.

Levantai, ó portas, os vossos umbrais,
alteai-vos, pórticos antigos,
e entrará o Rei da glória.      R.

Quem é esse Rei da glória?
O Senhor dos Exércitos,
é Ele o Rei da glória.      R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Deus todo-poderoso e eterno, humildemente Vos suplicamos que, assim como o vosso Filho Unigénito foi neste dia apresentado no templo, revestido da natureza humana, assim também, de alma purificada, nos apresentemos diante de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na própria vida)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.