3º Domingo da Quaresma, ano A – 8 de março de 2026


Jo 4 14 Fonte de água viva

3o Domingo da Quaresma, ano A – 8 de março de 2026

 

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. João (4,5-42)

Naquele tempo, 4,5Jesus vem a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado a seu filho José. 6Ficava ali a fonte de Jacob. Jesus, fatigado da caminhada, sentou-se à beira da fonte. Era por volta da hora sexta. 7Vem uma mulher da Samaria para tirar água. Diz-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». 8Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. 9Diz-Lhe, pois, a mulher samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?» De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu Jesus e disse-lhe: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e Ele dar-te-ia uma água viva». 11Diz-Lhe a mulher: «Senhor, nem balde tens e o poço é fundo: donde tens, pois, a água viva? 12Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob que nos deu o poço, do qual ele bebeu e também os seus filhos e os seus animais?» 13Respondeu Jesus e disse-lhe: «Todo aquele que bebe desta água terá sede novamente; 14mas quem beber da água que Eu lhe darei nunca mais terá sede, pois a água que Eu lhe darei tornar-se-á nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna». 15Diz-lhe a mulher: «Senhor, dá-me essa água para que não tenha mais sede, nem venha aqui tirá-la». 16Diz-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». 17Respondeu a mulher e disse-lhe: «Não tenho marido». Diz-lhe Jesus: «Disseste bem: não tenho marido’, 18pois tiveste cinco maridos e aquele que agora tens não é teu marido. Isto que disseste é verdadeiro». 19Diz-lhe a mulher: «Senhor, vejo que Tu és profeta. 20Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar». 21Diz-lhe Jesus: «Acredita em Mim, mulher: vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em Espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai procura. 24Deus é Espírito e é necessário que os seus adoradores O adorem em Espírito e verdade». 25Diz-Lhe a mulher: «Sei que vem o Messias, chamado Cristo. Quando Ele vier, há de anunciar-nos todas as coisas». 26Diz-lhe Jesus: «Eu Sou, o que fala contigo». 27Nisto, chegaram os seus discípulos e ficaram admirados que por estar a falar com uma mulher, mas ninguém disse: «Que procuras?», ou: «De que falas com ela?». 28Então a mulher deixou o seu cântaro, partiu para a cidade e diz aos homens: 29«Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será Ele o Cristo?». 30Saíram da cidade e vieram ter com Ele. 31Entretanto, os discípulos pediam-lhe, dizendo: «Rabbi, come». 32Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». 33Os discípulos diziam então uns aos outros: «Ter-lhe-á alguém trazido de comer?». 34Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra. 35Não dizeis vós: mais quatro meses e vem a ceifa? Eis que vos digo: erguei os vossos olhos e vede os campos; já estão brancos para a ceifa. 36Aquele que ceifa já recebe a recompensa e recolhe fruto para a vida eterna para que se alegre o que semeia juntamente com o que ceifa. 37Nisto, de facto, é verdadeira a palavra: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. 38Eu enviei-vos a ceifar aquilo pelo qual vós não vos afadigastes; outros afadigaram-se e vós entrastes na sua fadiga». 39Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele, por causa da palavra da mulher que testemunhava: «Disse-me tudo aquilo que fiz». 40Por isso, quando os samaritanos vieram ter com Ele, pediam-lhe que permanecesse com deles. E permaneceu ali dois dias. 41E muitos mais acreditaram por causa da palavra dele. 42E diziam à mulher: «Já não é por causa do que disseste que acreditamos: nós próprios ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo».

     Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

O Evangelho de João apresenta-nos Jesus como o Messias, o Filho de Deus enviado pelo Pai para criar o homem novo. O episódio de hoje, a estada de Jesus na Samaria (vv. 4-44), transmite-nos o segundo ensinamento de Jesus no “livro dos sinais” (2,1-12,50) do Quarto Evangelho.

Embora o presente texto forme uma unidade própria, ele está intimamente ligado aos episódios dos cc. 2-3, onde Jesus apresenta as novas realidades que vão substituir as antigas (cf. Is 43,18-19; 65,17-18; 2Cor 5,17). Assim como nas bodas de Caná (2,1-12) o contraste entre a água da purificação judaica e o vinho que Jesus traz simboliza o contraste entre a Lei e o dom do Reino de Deus, neste episódio o contraste entre a água do poço de Jacob e a água viva dada por Jesus simbolizam a vida e a salvação do Reino. E da mesma forma que a purificação do Templo salientava o contraste entre o antigo Templo e o novo Templo do Corpo de Cristo (2,13-25), assim a oposição entre o culto de Jerusalém e o do monte Garizim é declarada ultrapassada e anuncia-se a chegada da nova era, a da salvação, com o novo culto, inaugurado por Cristo, graças à ação vivificadora do Espírito naqueles que nasceram de novo da água e dele (3,1-21).

A perícope de hoje pode ser dividida em seis partes: 1) a chegada de Jesus a Sicar, na Samaria (vv. [4] 5-6); 2) o diálogo de Jesus com a samaritana (vv. 7-26): o poço de Jacob e a água viva (vv. 7-18); 3) os cultos do passado e o novo culto inaugurado pelo Messias (vv. 16-26); 4) o testemunho da samaritana ao povo de Sicar (vv. 27-30); 5) o diálogo de Jesus com os seus discípulos (vv. 31-38); 6) a conversão do povo de Sicar a Jesus (vv. 39-42).

  • v. 5. Jesus vem a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado a seu filho José.

    Estamos a uns 1,2 km da cidade de Sicar (ou Siquém, he. “bêbado”, a atual Askar) no sopé do Monte Garizim. Era aí que se encontrava o terreno que o patriarca Jacob tinha legado ao seu filho José (Gn 48,22; Js 24,32; cf. Gn 33,19).


  • v. 6. Ficava ali a fonte de Jacob. Jesus, fatigado da caminhada, sentou-se à beira da fonte. Era por volta da hora sexta.

    Perto dele ficava “fonte de Jacob”. Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, com mais de 30 m de profundidade que é alimentado por uma fonte que, apesar de tudo, nunca o enche, e que, segundo a tradição, teria sido escavado por Jacob. Este acha-se entretanto dentro do Convento ortodoxo grego que aí foi construído em Balata, na cidade de Nablus.

    “O poço” tem no AT um valor simbólico. Evoca os poços abertos pelos patriarcas (cf. Gn 26,19: “poço de águas vivas”) e a água que Moisés fez brotar do rochedo para dessedentar o seu povo ao longo da sua peregrinação de quarente anos no deserto (cf. Ex 17,3; Nm 20,8-11; 1Cor 10,4). "O poço" é também símbolo das núpcias, como aqui: foi junto a um poço que o servo de Abraão foi buscar Rebeca para esposa de Isaac (cf. v. 7; Gn 24,11-27), Jacob encontrou Raquel (Gn 29,1-14) e Moisés Séfora (Ex 2,16-21). Aqui, porém, o evangelista começa por designar o poço como “fonte”. Porquê?

    No AT, a esposa era comparada a uma fonte (Pv 5,15; Ct 4,15). Aqui é Jesus, o Esposo (3,29), que é associado à fonte donde jorra o Espírito, a água da nova criação (7,39; Gn 2,6 LXX). De facto, ao referir-se a Jesus, João fala de “fonte”, ao passo que a samaritana o chama “poço” (vv.11-12). Onde a humanidade pecadora, representada pela samaritana, só via dentro de si um poço profundo do qual, dia após dia, tinha que tirar  a custo uma água que era incapaz de a saciar, Jesus, ao vir ao seu encontro, faz jorrar uma fonte, a única capaz de saciar a sede do homem com a água que mana para vida eterna.

    Para os rabinos, o poço era figura da Lei, pois era dela que brotava a água da palavra de Deus que mata a sede do Povo de Deus (cf. v. 14; bBer 56b.7, comentando Gn 26,19: “um poço de águas vivas”).

    Jesus, “fatigado da caminhada”, experimenta a debilidade e pobreza da condição humana (cf. Is 40,28-31; Sir 31,4), a “fadiga” que resulta da lida apostólica (v. 38; cf. Is 49,4; Sir 24,34; 33,18; 1Cor 15,10; Cl 1,29; 1Ts 5,12). Ao chegar lá, Jesus “sentou-se à beira (gr. epí) da fonte”. A preposição grega epí tanto pode significar “sobre”, como “ao pé de” (Gn 24,13). João joga com este duplo sentido: Jesus é a fonte que ocupa, se sobrepõe e substitui a fonte antiga da Lei (cf. v. 10) que cavava a divisão entre os judeus e os gentios (Ef 2,14-15).

    “Era por volta da hora sexta”: esta expressão ocorre novamente em 19,14 a “hora” (v. 23) de Jesus, quando Pilatos apresentou Jesus aos judeus como o seu “Rei” (19,14) – título que no AT era aplicado a Deus (Is 6,5;33,22;44,6), ao Messias (Sl 18,51) e ao esposo (Sl 45,1.11; Ct 1,4.12; 7,6) – e eles o rejeitam e pedem que seja crucificado, sendo na cruz que Jesus vai dizer a todos os homens: “Tenho sede” (19,28).

    A “hora sexta” era o meio-dia, a hora a que, dada a intensidade do calor, ninguém ia ao poço.

  • v. 7. Vem uma mulher da Samaria para tirar água. Diz-lhe Jesus: «Dá-Me de beber».

    “Vem” então “uma mulher”, apresentada sem nome próprio, que era “da (gr. ek tês) Samaria”. Tal como Nicodemos “era dos (gr. ek tôn) fariseus”, representando-os, também esta mulher representa os samaritanos, melhor ainda, toda a humanidade. A Samaria era a região central da Palestina que, após a conquista de Israel pela Assíria em 721 a.C. e a sua deportação para lá, tinha sido colonizada por gentios, daí resultando uma população mista, de religião sincretista (monoteísta e idolátrica: Esd 9,1-2; 2Rs 17,24-41). Por esse motivo, os judeus detestavam-nos e consideravam-nos hereges (Ne 3,33-37), objeto de anátema (Ex 22,19), ao passo que os samaritanos lhes retribuíam com desprezo (cf. Esd 4,6-24; Lc 9,53). Deste modo, os judeus evitavam passar pela Samaria. Jesus, porém, não faz discriminações (v. 27) e passa por lá (v. 4).

    A samaritana vai por volta do meio-dia ao poço, porque não quer encontrar lá ninguém, para não ser criticada nem acusada e julgada por causa da sua vida adúltera (cf. v. 18). Ela representa assim toda a humanidade pecadora, que procura desesperadamente uma água que seja capaz de matar a sua sede de vida plena. Mas o poço da Lei era incapaz de o fazer: nem aos judeus, nem aos samaritanos – que buscaram a vida noutras propostas religiosas (cf. v. 18) –, nem aos gentios.

    Ela vê Jesus, apercebe-se que Ele é judeu (cf. v. 9) e avança, convencida de que Ele não a irá abordar (cf. v. 27). Jesus, porém, não faz aceção de pessoas (cf. Gl 3,28), dirige-se a ela e “diz-lhe: ‘Dá-me de beber”. É um pedido que evoca a cena sobre a qual se constrói o presente episódio: o pedido que servo de Abraão fez a Rebeca, a futura esposa de Isaac, também junto ao poço (Gn 24,11-27 LXX: cf. v. 13: epi tes pegues tou udatos; pólis; antlêsai; hydor; v. 14: legô; pivô; hydría; v. 15: gynê; hydría; échô; v. 16: anêr ouk). Jesus é assim apresentado como o Messias-Esposo (3,29) que vai em busca da sua futura esposa, a humanidade não judaica, pecadora que, juntamente com os judeus (representados por Nicodemos: 3,1), fará parte do novo povo de Deus.

    É, no entanto, um pedido insólito. Primeiro porque os judeus não comiam nem bebiam de pratos, vasos e recipientes de não-judeus, pois os consideravam impuros. Depois porque a construção deste pedido também é insólita, só aparecendo na Sagrada Escritura aqui, nesta cena, em João (3x: vv. 9.10). Começa com o imperativo “dá-me”, seguido do dativo “me” (a mim) e do verbo “beber” no infinito aoristo ativo, sem complemento. Jesus não pede à samaritana que lhe dê água a beber, mas que lhe dê “o beber”. Qual beber? O da fé dela e da fé dos homens (v. 9-10.14.39.41-42), como dirá mais tarde: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (7,37; cf. 19,28).

  • v. 8. Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.

    Cf. 6,5. Só agora João diz que Jesus estava a falar a sós com a mulher (cf. v. 27; 8,10; 3,2). Jesus é o Deus-Esposo que atrai a sua esposa – o seu povo – “e a conduzirei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os 2,16).

  • v. 9. Diz-Lhe, pois, a mulher samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?» De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.

    A “samaritana” fica surpreendida com o pedido de Jesus, que fazem cair por terra o seu plano de não se encontrar, nem falar com ninguém, mas não se atrapalha, ripostando-lhe com desenvoltura como é que ele pode passar por cima da histórica inimizade entre os judeus e os samaritanos (cf. Lc 9,53) e dirigir-lhe a palavra.

  • v. 10. Respondeu Jesus e disse-lhe: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e Ele dar-te-ia uma água viva».

    Jesus responde à samaritana, recorrendo à figura literária do “mal-entendido”, típica de João (v. 32; 2,19; 3,4; 6,34; 7,35; 8,33; 11,11s; 12,34; 13,9.36s; 14,22): a) afirmação (vv. 10.13-14); 2) o mal-entendido (vv. 11-12. 15); 3) e o sentido espiritual (vv. 10.13-14).

    Jesus começa por desafiá-la a identificar a verdadeira sede dela (e de todo o ser humano): “Se conhecesses o dom de Deus”. “O dom (gr. doreá: em João, só aqui) de Deus” é o Espírito Santo (At 2,28; 8,20; 10,45; 11,17; cf. Ef 4,7; Hb 6,4), o grande dom que Jesus veio dar (1,33; 3,5s.8.34; 4,24; 6,63; 7,37ss; 14,16s.26; 15,26; 16,13 19,30; 20,22).

    ”E quem é Aquele que te diz”: a samaritana ainda não “conhece” Jesus (cf. 1,26.31.33) – “Aquele” que a conhece a ela (vv. 18-19.29; 1,48; 2,24) , ou seja, não sabe que Ele é o Messias (v. 26).

    “Tu é que lhe pedirias”: para receber o Espírito Santo há que o pedir (Lc 11,13; 2Rs 2,9).

    “E Ele dar-te-ia”: é Jesus quem dá o Espírito Santo prometido por Deus (Nm 11,29; Pv 1,23; Is 32,15; 44,3; Ez 36,27; 37,5-6 LXX.14; 39,29; Jl 3,1-2; Zc 12,10). No AT e no judaísmo era só Deus quem podia dar o Espírito Santo. Dizendo que é Ele quem o dá, Jesus apresenta-se veladamente como Deus. Enquanto “dom de Deus” ele é dado gratuitamente (Is 55,1; Ap 21,6; 22,17).

    “Uma água viva”: aludindo às “águas vivas” que corriam no fundo do poço (cf. Gn 26,19), Jesus designa o Espírito Santo como “água viva”, ou seja, como “água corrente” (a água que se usava na Igreja primitiva para batizar: Did. 7,1).

    Segundo Sir 29,21: “o princípio da vida é a água e o pão” etc.; o mesmo diz Sir 39,26: “o princípio de toda a necessidade para a vida do homem é a água e o fogo”, etc. Ao dizer que é Ele que dá esta água viva (v. 14), Jesus apresenta-se como a fonte da água viva, ou seja, como Deus que dá a vida através do Espírito (6,63), “a fonte das águas vivas” (Jr 2,13; 17,13), que haveriam de brotar de Jerusalém (Zc 14,8; cf. Zc 13,1; Jo 19,34). Jesus é a “nova fonte” onde todos os que têm sede de vida plena encontram resposta.


  • v. 11. Diz-Lhe a mulher: «Senhor, nem balde tens e o poço é fundo: donde tens, pois, a água viva?

    A mulher só compreende o que Jesus diz à letra, de forma terrena, carnal (cf. 3,6; 6,63). Jesus não tem nada para tirar água (cf. Gn 21,19) e o poço é fundo (cf. v. 6): “donde tens a água viva”. “Água viva” aparece aqui com o artigo. Ela pergunta a Jesus donde tem Ele a água viva. Jesus é a fonte da vida (Sl 36,10), da salvação (Is 12,3), que tem em si a água viva que dá (v. 13).

  • v. 12. Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob que nos deu o poço, do qual ele bebeu e também os seus filhos e os seus animais?

    Ela faz a Jesus uma pergunta, cheia de ceticismo, inquirindo se Ele não estará a ser presunçoso, pretendendo ser maior que “o nosso pai Jacob” (cf. 8,53; Mt 12,42), embora deixando aberta essa possibilidade – ignorando que Ele é o Filho de Deus (cf. 5,18; 10,33; 19,7).

  • v. 13. Respondeu Jesus e disse-lhe: «Todo aquele que bebe desta água terá sede novamente.

    Jesus diz que quem beber da água material nunca poderá ficar realmente satisfeito, para sempre (cf. Is 55,2), pois terá sempre a necessidade de voltar a beber dela.

  • v. 14. Mas quem beber da água que Eu lhe darei nunca mais terá sede, pois a água que Eu lhe darei tornar-se-á nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna».

    Num escrito do séc. IV os samaritanos falam das águas da vida que jorravam duma agradável fonte de água, em cujas águas profundas estava a vida do mundo (Marqah Memar 2,1,1).

    Jesus promete aqui uma água que Ele “dará” a beber que se tornará numa fonte de água que jorra para a vida eterna. Esta água é “a água” do Espírito (Is 44,3!; cf. 1Cor 12,13) que Ele dará gratuitamente (cf. v. 10; Is 55,1; Ap 22,17), sem medida (3,35) a quem lha pedir.

    O verbo “dar”, repetido duas vezes, está no futuro (Ap 21,6), confirmando que Jesus se está a referir ao Espírito que só dará a beber aos que nele crerem depois de se ter consumado a sua “hora”, ou seja, após a sua ressurreição (7,39; 20,22).

    Quem beber dessa água nunca mais terá sede (6,35), pois terá dentro de si o próprio manancial da vida (Is 49,10; cf. Sl 23,2-3). Ou melhor: quem dela beber terá uma sede que não faz definhar, mas antes sacia, restaura e revigora (cf. infra, v. 15).

    A “fonte de água”, como vimos (v. 10), é o próprio Deus, neste caso, o Espírito que é Deus (v. 24). “Jorrar” refere-se ao Espírito Santo (1Sm 10,10 LXX: “e o Espírito de Deus jorrou sobre ele”) que haveria de jorrar no deserto (Is 35,6; 41,18; 43,20; 48,21; 49,10), como em novo êxodo (Cf. Ex 17,6; Nm 20,11; Ne 9,1; Sl 78,15-16), e que Jesus porá no íntimo daquele que nele crê (7,37-38; 14,17), cumprindo a promessa de Deus (cf. Ez 36,27; 37,14).

    Segundo o judaísmo, que via na Lei uma fonte de água (cf. supra, v. 6), quem se consagrasse ao estudo e à meditação da Lei (cf. Sl 1,3), tornar-se-ia uma fonte que derramaria a água da sabedoria (cf. Pv 18,4; bBB 175b.5; mAb 6,1; mBB 10,8; ShirR 1,2,8; 4,14,1: Pir.R.E. 35,3).

    Jesus vai mais longe: aquele que bebe da água do Espírito que Ele dá aos que nele crerem (cf. vv. 39.41-42), tornar-se-á uma nova Jerusalém (cf. Zc 14,8; Sl 46,5), sua esposa (cf. Ct 4,15), um novo templo (cf. Ez 47,1-5) donde jorrará o Espírito “para a vida eterna”, ou seja, para além desta vida, para sempre, em Deus.

  • v. 15. Diz-lhe a mulher: «Senhor, dá-me essa água para que não tenha mais sede, nem venha aqui tirá-la».

    A mulher entende o que Jesus diz, mas só em sentido material, pensando que Jesus lhe daria uma fonte inesgotável, mágica, que lhe satisfaria a sede e pouparia o trabalho de ter de ir todos os dias ao poço tirar água. Não sabia que quem ama a Deus, quanto mais o ama, tanto mais por Ele anseia e tanto mais sede tem de o amar (cf. Sl 42,1-2; 63,1; Mt 5,6), como diz Sir 24,21: “Os que me comem terão ainda fome, os que me bebem terão ainda sede”.

  • v. 16. Diz-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui».

    Vendo que a mulher a partir da necessidade primária do beber não entendeu nada do que lhe tinha dito, Jesus experimenta abordá-la por outro lado, o da afetividade. Diz-lhe para chamar o marido e virem os dois ter com ele. Entra assim mais diretamente no tema das núpcias, que já estava presente desde o princípio (cf. supra, v. 6).

  • v. 17. Respondeu a mulher e disse-lhe: «Não tenho marido». Diz-lhe Jesus: «Disseste bem: não tenho marido’.

    Ela responde que não tem marido. Jesus replica-lhe que ela disse bem (13,13; cf. 8,48; 18,23), falou acertadamente, disse a verdade (v. 18).

  • v. 18. Pois tiveste cinco maridos e aquele que agora tens não é teu marido. Isto que disseste é verdadeiro».

    Jesus faz então referência aos “cinco maridos” que a mulher já teve, uma alusão às cinco nações gentias levadas para a Samaria, depois da deportação de Israel para a Assíria, levando com elas os seus deuses, os ídolos que adoravam e a quem ofereciam sacrifícios, juntamente com Deus (2Rs 17,29-32). Mas prestar assim culto a Deus, era não honrar verdadeiramente a Deus (2Rs 17,34-41), pelo que a mulher Samaria (Israel) “não é a minha mulher (gr. gynê) e Eu não sou o seu marido (gr. anêr)” (Os 2,4). Nisto ela já começa a falar em conformidade com o Espírito Santo (v. 24), dizendo o que é verdadeiro (3,33; 1Jo 2,27), dando testemunho da verdade (cf. 8,13; 19,35).

  • v. 19. Diz-lhe a mulher: «Senhor, vejo que Tu és profeta.

    Ao constatar o conhecimento sobrenatural que Jesus tem da sua vida (cf. vv. 29.39), ela reconhece-o como profeta (cf. Lc 7,39; 2Rs 5,26). Os samaritanos esperavam um profeta, o Profeta (1,21; 7,40) prometido por Moisés (Dt 18,15.18).

  • v. 20. Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar».

    Este reconhecimento leva-a a levantar a Jesus a questão mais candente entre os samaritanos e os judeus, ou seja, o lugar onde Deus deveria ser adorado. O mandamento em Dt 12,1-14 de adorar a Deus no lugar que Ele vai mostrar vem a seguir ao mandamento de pronunciar uma bênção sobre o monte Garizim e uma maldição sobre o monte Ebal (Dt 11,29). No Pentateuco Samaritano o lugar onde se devia construir um altar à chegada à Terra prometida é Garizim e não Ebal, como no texto massorético (Dt 27,3), o que devia estar correto, pois o texto original pode ter sido alterado por motivos anti-samaritanos. Os restantes livros do AT não eram aceites pelos samaritanos, pelo que as referências posteriores ao culto em Jerusalém não eram consideravas vinculativas.  

  • v. 21. Diz-lhe Jesus: «Acredita em Mim, mulher: vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.

    “Acredita em Mim, mulher”: Jesus chama a samaritana à fé, a resposta que o homem dar à Palavra de Deus. Esta palavra é a que Jesus lhe transmite, revelando-lhe que vai chegar a “hora” em que se vai instaurar o verdadeiro culto a “hora” da sua paixão, morte e ressurreição (2,4; 12,23; 13,1; 17,1; 19,27) e da caminhada na vida nova graças ao dom do Espírito (16,4.25) Nessa ocasião, inaugurar-se-á o verdadeiro culto, a adoração a Deus (Mt 4,10) como “Pai” (cf. 2,16; 17,3; 20,17), que não será feita apenas num determinado lugar, mas em toda a parte.

  • v. 22. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.

    Os samaritanos não “conhecem” o objeto da sua adoração (no neutro, Deus), pois não seguem guardam a sua palavra (8,55; 1Jo 2,3), já os judeus conhecem-no, pois foram eleitos como o povo de Deus de quem viria a salvação do mundo através do Messias.

  • v. 23. Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em Espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai procura.

    Jesus anuncia que vai chegar “a hora” (cf. v. 21) – e o evangelista acrescenta “e é agora” (5,25), dirigindo-se aos seus leitores, indicando que se trata da “hora” de Jesus, em que o Reino de Deus chega, através do derramamento do Espírito Santo (cf. 3,3), mediante o qual se prestará a Deus o verdadeiro culto, “em Espírito e em verdade”, ou seja, graças ao dom do Espírito da verdade (14,17; 15,26; 16,13; 1Jo 4,6), em conformidade com a palavra de Jesus, que ensina a verdade (cf. 6,63; 8,31-32), unidos a Jesus, ou seja, em Jesus, que é a Verdade (14,6), o Templo novo e definitivo de Deus (2,21),

  • v. 24. Deus é Espírito e é necessário que os seus adoradores O adorem em Espírito e verdade».

    “Espírito é Deus” (lit.). A expressão quer dizer duas coisas: por um lado, que Deus é espírito, não é material; por outro, que o Espírito Santo é Deus. “É necessário” (gr. dei): é uma necessidade decorrente do plano divino da salvação, ou seja, da vontade de Deus divina. Ele quer que todos lhe prestem culto em conformidade com a revelação de Cristo e o dom da vida nova que receberam, ou seja: estando em comunhão com Ele, que neles habita, e em comunhão uns com os outros, formando um n’Ele (14,23; 17,21-23).

  • v. 25. Diz-Lhe a mulher: «Sei que vem o Messias, chamado Cristo. Quando Ele vier, há de anunciar-nos todas as coisas».

    A declaração de Jesus sobre a adoração leva a mulher a jogar a sua última carta: “Sei que vem o Messias”, ou seja, que está a chegar, e “quando Ele vier, há de anunciar-nos todas as coisas”, dir-nos-á tudo. Ela mostra-se assim disposta a aceitar o Messias quando Ele chegar. Os samaritanos (he. “guardiães”) não reconheciam os livros proféticos (no sentido hebraico, os livros históricos, de Josué a 2 Crónicas, e os livros proféticos, de Isaías a Malaquias), designavam-se a si mesmos “filhos de Israel”.

    Apesar de num antigo texto samaritano do século IV se falar figurativamente de alguém semelhante ao Messias (Marqah Memar 4, 5), os samaritanos esperavam a vinda de um profeta na linha de Dt 18,15-18, que não seria nem rei, nem sacerdote, o Taheb (aramaico: “restaurador”, “aquele que regressa” ou, como aqui, “o que vem”), o qual haveria de instaurar a justiça no mundo no dia do julgamento – concebido como um dia de vingança e de recompensa, em que ele pagaria o bem e castigaria o mal, inaugurando – ou melhor, restaurando – uma era do favor divino. Além disso o Taheb, como outro Moisés, teria a tarefa de restaurar a verdadeira fé em Deus e a verdadeira adoração ou culto a Deus, revelando para tal a verdade. Não sabemos se este nome só foi criado depois do século I, mas é a ele que a samaritana se refere, chamando-o, porém, "Cristo", a tradução grega do hebraico "Messias" ou "Ungido", como ela própria aqui o diz.

  • v. 26. Diz-lhe Jesus: «Eu Sou, o que fala contigo».

    Com esta confissão da esperança da mulher na vinda próxima do Messias, Jesus revela-se a ela, dando-se a conhecer como tal, mas indo mais além, usando a fórmula teofânica: “Eu Sou”, o nome divino que Deus tinha revelado a Moisés no Sinai (Ex 3,14-15) e que no evangelista designa o ser absoluto de Deus (Jo, 10x: 6,20; 8,18.24.28.58; 13,19; 18,5.6.8). Esta é a única vez nos Evangelhos que, fora do contexto da paixão (cf. Mt 26,63-64; Mc 14,61-62; Lc 22,67-70), Jesus assume abertamente que é o Messias (cf. 10,24-25) e se apresenta como Deus, "o que fala contigo" (9,37), uma expressão que evoca a revelação de Deus a alguém Moisés (At 7,44: Moisés; At 10,7: o anjo ao centurião romano Cornélio). E a mulher acreditou (v. 29).

Em construção

 

  • v. 27. Nisto, chegaram os seus discípulos e ficaram admirados que por estar a falar com uma mulher, mas ninguém disse: «Que procuras?», ou: «De que falas com ela?».

  • v. 28. Então a mulher deixou o seu cântaro, partiu para a cidade e diz aos homens:

  • v. 29. «Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será Ele o Cristo?»

  • v. 30. Saíram da cidade e vieram ter com Ele.

  • v. 31. Entretanto, os discípulos pediam-lhe, dizendo: «Rabbi, come».

  • v. 32. Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».

  • v. 33. Os discípulos diziam então uns aos outros: «Ter-lhe-á alguém trazido de comer?».

  • v. 34. Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra.

  • v. 35. Não dizeis vós: mais quatro meses e vem a ceifa? Eis que vos digo: erguei os vossos olhos e vede os campos; já estão brancos para a ceifa.

  • v. 36. Aquele que ceifa já recebe a recompensa e recolhe fruto para a vida eterna para que se alegre o que semeia juntamente com o que ceifa.

  • v. 37. Nisto, de facto, é verdadeira a palavra: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’.

  • v. 38. Eu enviei-vos a ceifar aquilo pelo qual vós não vos afadigastes; outros afadigaram-se e vós entrastes na sua fadiga».

    Jesus refere-se à evangelização da Samaria, que inicialmente não foi levada a cabo pelos apóstolos, mas pelo diácono Filipe (At 8,1.4-25).

  • v. 39. Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele, por causa da palavra da mulher que testemunhava: «Disse-me tudo aquilo que fiz».

  • v. 40. Por isso, quando os samaritanos vieram ter com Ele, pediam-lhe que permanecesse com deles. E permaneceu ali dois dias.

  • v. 41. E muitos mais acreditaram por causa da palavra dele.

  • v. 42. E diziam à mulher: «Já não é por causa do que disseste que acreditamos: nós próprios ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo».


    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou/vamos pôr em prática?

  • Tenho sede? De quê? O que é preciso para que as pessoas de hoje tenham sede e reconheçam Jesus como o único capaz de a saciar?

  • A minha vida cristã tem sido coerente com a vida nova que recebi no batismo, sendo uma realidade que a marca?

  • Sou, como a samaritana, uma testemunha viva de Jesus?

 

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Tudo saborear em Deus, deixando que a Palavra inflame o mais íntimo do meu coração)

Salmo responsorial                                               Sl 95,1-2.6-9 (R. cf. 8)

Refrão: Hoje, se escutardes a voz do Senhor,
não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.      R.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.      R.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meribá, como no dia de Mássá no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
               apesar de terem visto as minhas obras.      R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Senhor, nosso Deus, autor de todas as misericórdias e de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.