4º Domingo da Quaresma, ano A – 15 de março de 2026

 

Jo 9 6 Jesus cura o cego de nascença


Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. João (9,1-41)

Naquele tempo, 9,1passando, Jesus viu um homem cego de nascença. 2E os seus discípulos perguntaram-lhe, dizendo: «Rabbi, quem pecou, este ou os seus pais, para que tivesse nascido cego?». 3Jesus respondeu: «Nem este pecou, nem os seus pais; mas foi assim para que nele sejam manifestadas as obras de Deus. 4É necessário que nós façamos as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar. 5Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo». 6Tendo dito isto, cuspiu na terra, fez lama com a saliva, untou-lhe os olhos com a lama 7e disse-lhe: «Vai lavar-te na piscina de Siloé» – que significa “Enviado”. Ele foi, lavou-se e voltou vendo. 8Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto, porque era mendigo, diziam: «Não é este o que estava sentado a mendigar?». 9Uns diziam: «É este»; outros afirmavam: «Não é, mas é parecido com ele». Ele, porém, dizia: «Sou eu». 10Diziam-lhe, pois: «Como é que, então, te foram abertos os olhos?». 11Ele respondeu: «O homem chamado Jesus fez lama, untou-me os olhos e disse-me: “Vai a Siloé e lava-te”. Fui, pois, lavei-me e comecei a ver». 12Disseram-lhe: «Onde está Ele?». Diz ele: «Não sei». 13Levam aos fariseus o que antes fora cego. 14Ora, era sábado o dia em que Jesus fizera lama e lhe tinha aberto os olhos. 15Por isso, perguntavam-lhe novamente também os fariseus como tinha recuperado a vista. Ele disse-lhes: «Pôs-me lama nos olhos; lavei-me e vejo». 16Por isso, diziam alguns dos fariseus: «Este homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Mas outros diziam: «Como pode um homem pecador fazer tais sinais?». E havia divisão entre eles. 17Dizem, pois, novamente ao cego: «Que dizes tu acerca dele, visto que te abriu os olhos?». Ele disse: «É um profeta». 18Mas os judeus não acreditaram que ele tivesse sido cego e começasse a ver, até que chamaram os pais do que tinha começado a ver 19e lhes perguntaram, dizendo: «Este é o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que agora vê?». 20Responderam os seus pais e disseram: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Perguntai-lhe; já tem idade, ele falará acerca de si mesmo». 22Isto disseram os seus pais porque tinham medo dos judeus, porque os judeus já tinham combinado que se alguém confessasse Jesus como Cristo, fosse  expulso da sinagoga. 23Por isso, os seus pais disseram: «Já tem idade; perguntai-lhe». 24Chamaram então pela segunda vez o homem que tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador». 25Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. Uma coisa sei: era cego e agora vejo». 26Disseram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?». 27Respondeu-lhes: «Já vo-lo disse e não escutastes. Porque quereis novamente escutar? Será que também vos quereis tornar seus discípulos?». 28Começaram a insultá-lo e disseram: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. 29Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, não sabemos donde é». 30Respondeu o homem e disse-lhes: «Pois isto é que é de admirar: que vós não saibais donde é e que Ele, no entanto, me tenha aberto os olhos. 31Sabemos que Deus não escuta pecadores, mas se alguém O teme e faz a sua vontade, a esse escuta. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer». 34Responderam-lhe e disseram-lhe: «Tu nasceste todo em pecados e tu estás a ensinar-nos?». E expulsaram-no. 35Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e quando o encontrou, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». 36Ele respondeu e disse: «E quem é, Senhor, para que acredite nele?». 37Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Aquele que fala contigo». 38Então ele disse: «Acredito, Senhor!»; e adorou-O. 39Jesus disse: «Para um juízo vim Eu a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem, se tornem cegos». 40Alguns dos fariseus que estavam com Ele ouviram isto e disseram-lhe: «Será que também nós somos cegos?». 41Disse-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como dizeis agora: “vemos”, o vosso pecado permanece».

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:


João apresenta Jesus como o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar o Homem Novo. O episódio de hoje, a cura do cego de nascença, o sexto “sinal” do livro dos Sinais (1,19-12,50), apresenta Jesus como a Luz do mundo. O episódio tem numerosos pontos de contacto com a cura do enfermo na piscina de Bethzatha, onde o sinal realizado por Jesus é também seguido por um discurso polémico (5,1-47), e está ligado ao capítulo anterior, onde Jesus se apresenta como a luz do mundo (8,12), ilustrando esta declaração com o presente “sinal”.

O texto de hoje compõe-se de cinco quadros: i) apresentação de Jesus como a luz do mundo (vv. 1-5); ii) cura do cego de nascença (vv. 6-7); iii) controvérsia provocada pela cura do cego de nascença (vv. 8-34); iv) Jesus procura o homem curado e leva-o à plena confissão de fé e adesão a Ele (vv. 35-38); v) Jesus tira as consequência do sinal, declarando o propósito da sua vinda (vv. 35-41).

  • v. 1. Passando, Jesus viu um homem cego de nascença.

    i) O primeiro quadro é a apresentação de Jesus como luz do mundo (vv. 1-5). Estamos em Jerusalém, no último dia da Festa das Tendas (7,2.37). A festa das Tendas (he. Sukkôt, ou “das cabanas”, inicialmente “festa das colheitas”, no início do outono) era uma das três festas de peregrinação anual a Jerusalém (cf. Ex 23,16-17; 34,22-23; Lv 23,33-36.39-43; Dt 16,16), que decorria de 15 a 22 do sétimo mês (Tishrei, setembro/ outubro) – ou seja, durante oito dias, a partir do quinto dia após o grande Dia da Expiação (Yom Kippûr) – na qual se comemoram os 40 anos de peregrinação dos hebreus no deserto após a sua saída do Egito, durante os quais eles tinham vivido em tendas. Durante a festa era obrigatório colher um ramo de folhas de palmeira, mirto e salgueiro (Lv 23,40). Durante a festa, entoava-se todos os dias, depois do sacrifício quotidiano, o Sl 118, e quando os levitas cantavam os vv. 25-29 do salmo, todo o povo punha-se de pé e agitava os ramos, segundo um movimento ritual, enquanto exclamava Hossana.

    A festa das Tendas era acompanhada de outras cerimónias: a) a procissão em volta do altar dos holocaustos; b) a partir do final do primeiro dia, ardiam no Átrio das mulheres quatro candelabros de ouro, cada um com a capacidade de 60 l (mSuk 5,2; bSuk 51a; bShab 21a; bYom 23a) que eram postos sobre pedestais altos e juntamente com as tochas que ardiam nas mãos dos homens davam esplendor a todas as casas de Jerusalém. E durante a noite “não havia pátio em Jerusalém que não estivesse iluminado com a luz do lugar da recolha da água” (mSuk 5,3; bSuk 53a) e “era tão claro que uma mulher podia separar o trigo à luz da celebração do lugar da recolha da água” (bSuk 52b). c) durante os primeiros sete dias, cada dia, depois do sacrifício da manhã (bYom 26b), fazia-se uma libação numa bacia junto à base do altar do Templo com a água recolhida num jarro de ouro  de 1,5 litros nas nascentes da piscina de Siloé, na Cidade de David (v. 7; mSuk 4,9-10), numa celebração chamada Simchat Bet ha-Sho'evah (“Alegria da Casa da água”). Estas águas eram chamadas “águas da salvação”, em cumprimento de Is 12,3: “Tirareis água com alegria das fontes da salvação”, pois se considerava que delas se hauria o Espírito Santo (jSuk 5,1,3), fonte da salvação. Era junto das nascentes de Siloé, as água do Guihon (he. “irrompente”: Gn 2,13) que eram ungidos os reis da casa de David (como Salomão: 1Rs 33-45), pois era através deles que Deus trazia a salvação ao povo de Israel. A água aí tirada era depois levada processionalmente para o Templo e derramada sobre o altar, juntamente com a libação de vinho (bYom 26b; cf. Ex 29,40), como símbolo das bênçãos messiânicas (cf. Ez 47,1-12). Nessa ocasião havia tal alegria (cf. Dt 16,13-15) que se dizia: “Quem nunca viu a alegria da água da libação nunca viu alegria na sua vida” (bSuk 51a).  É literalmente o caso deste cego de nascença.

    Jesus tinha estado no Templo logo desde manhã (8,2), mas tinha saído dele, a fim de se esconder dos judeus (8,59). “Passando”, ou seja, caminhando (Mc 1,16; 2,14; Mt 9,9), vê um cego de nascença. Os cegos não podiam entrar no Templo (2Sm 5,8; Pir.R.El. 36,19), nem podiam testemunhar em tribunal (bSahn 34b), uma vez que não viam (cf. Lv 5,1). Eram considerados, juntamente como os pobres, os leprosos e os que não tinham filhos, mortos (bNed 64b). Este cego estava sentado, fora do templo, a mendigar (v. 8; cf. Mc 10,46; Lc 18,35; At 3,2), ou seja, a pedir, em alta voz.

  • v. 2. Os discípulos perguntam-lhe, dizendo: «Rabbi, quem pecou, este ou os seus pais, para que tivesse nascido cego?».

    Segundo a estrita mentalidade retributiva do AT (cf. 2Ma 7,18), a  doença era considerada como uma consequência direta do pecado (Dt 28,59-61). No caso de um cego, a sua deficiência devia ter sido causada por um pecado muito grave do próprio, pois era vista como sendo uma autêntica maldição divina, pois impedia os cegos de estudar a Lei. Perante tal situação, os discípulos fazem a Jesus uma pergunta surpreendente: se tinha sido ele ou os seus pais que tinham pecado, para que ele tivesse nascido cego. Quanto aos pais, era uma pergunta mais compreensível (cf. Sl 109,10), pois se afirmava que Deus castigava a falta “dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração” (Ex 20,5; 34,7), embora isto fosse contestado por Jr 31,29-30; Ez 18,2-4. Mas se uma culpa tão grande se devia ao próprio cego, então ela teria de ter sido cometida por ele no ventre materno. Era a opinião de alguns rabinos (muito poucos), que forçavam a interpretação do Sl 58,4 (cf. GnR 63,39c), mas que os fariseus deste episódio perfilhavam (v. 34).

  • v. 3. Jesus respondeu: «Nem este pecou, nem os seus pais; mas foi assim para que nele sejam manifestadas as obras de Deus.

    Jesus rejeita esta mentalidade retributiva (cf. Lc 13,2-5), mas diz que se isto aconteceu, foi “para que nele sejam manifestadas as obras de Deus”, ou seja, para glória de Deus (11,4; Ex 33,18), para que nele se manifeste o Senhor que é “misericordioso e compassivo, lento para a ira e cheio de amor e fidelidade” (Ex 34,6; cf. Jo 1,17).

  • v. 4. É necessário que nós façamos as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar.

    “É necessário” (gr. dei: Lc 13,14): é uma necessidade, no sentido de ser feito assim, porque tal é a vontade de Deus, sendo por aí que passa o seu desígnio. “Nós façamos”: Jesus apresenta-se como o homem novo (gr. ergazesthai: Gn 2,5.15; 3,23), o Filho de Deus que não faz sozinho as obras do Pai, mas o Pai e Ele trabalham sempre juntos (5,17), sendo o Pai, que está nele, quem faz as obras (14,10). “Enquanto é dia. Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar” (cf. 11,9-10; Jr 13,16): “dia” e “noite” são uma metáfora para “vida” e “morte” (cf. bEr 65a). Jesus vem completar, realizar plenamente e levar à perfeição, à sua perfeição, a obra criadora e o desígnio salvífica do Pai, que consumará com a sua morte na cruz (19,30), fazendo nascer daí o homem novo.

  • v. 5. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo».

    Jesus apresenta-se novamente como a luz do mundo, uma designação que vem em sequência do episódio anterior, onde Ele o afirma pela primeira vez: “Eu Sou a luz do mundo” (8,12). É uma fórmula teofânica, onde Jesus junta ao nome revelado por Deus a Moisés, “Eu sou” (Ex 3,14; Is 45,8.18.19.22; Jo, 23x) uma explicitação (Jo, 7x) que anuncia a missão por Ele levada a cabo enquanto “Filho do homem” (v. 35), ou seja, enquanto Verbo encarnado (1,14), em quem está a vida (1,3), que é “a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem ao mundo” (1,9), “a luz que veio ao mundo” (3,19) para que todo aquele que acredita nele não permaneça nas trevas (12,46).

  • v. 6. Tendo dito isto, cuspiu na terra, fez lama com a saliva, untou-lhe os olhos com a lama.

    ii) O segunda quadro é a cura do cego de nascença (vv. 6-7). Jesus cura o cego de nascença com um gesto (v. 6) e com uma mandato, uma palavra (v. 7). Primeiro Ele “cospe na terra” (cf. Mc 8,23) e “faz lama” (“barro molhado”: Jb 10,9; 33,6; Is 64,7; Jr 18,6) com a sua saliva. Este gesto evoca o que Deus fez quando criou o homem do pó da terra, modelando-o com a água do manancial do Éden e insuflando nele o sopro da vida (Gn 2,6s). Por isso, Jesus cospe na terra, para que juntamente com a saliva (água) venha o sopro, o hálito da vida. A saliva tem propriedades protetoras, aglutinadoras, transformadoras e terapêuticas, significando aqui a cura regeneradora. Ora, aquele dia era sábado (v. 14), o dia em que o ato de fazer lodo era precisamente uma das 36 atividades proibidas fazer pelas leis rabínicas (mShab 7,2) – mas não pela Torah, a Lei, a palavra de Deus escrita. Também o curar – exceto no caso de se tratar de uma intervenção feita para salvar uma vida – não era permitido ao sábado. É o que Jesus vai fazer a seguir. Pega, pois, na lama que fez e com ela unta (gr. epikriô: v. 11) os olhos do cego.

  • v. 7. E disse-lhe: «Vai lavar-te na piscina de Siloé» – que significa “Enviado”. Ele foi, lavou-se e voltou vendo.

    A cura do cego não é imediata, mas é levada a cabo mediante a fé e a obediência à palavra de Jesus, que assim mostra que não é Ele só quem age, mas é o próprio Deus que através dele age, através da sua Palavra. Por isso, Jesus diz-lhe: “Vai lavar-te” (gr. niptô, 4x neste texto: vv. 11.15; cf. 13,9-10.12; Tbs 7,9). “Na piscina de Siloé” (cf. 5,2.7). Trata-se de um lavar-se mergulhando na água (cf. 2Rs 5,10). A piscina de Siloé (he. selah, “enviado”, “remetente”, “emitir” [água]) era um reservatório que se situava a sul de Ofel, a oeste do vale do Cédron e da antiga Cidade de David. Era um recetáculo para as águas da fonte de Guion, que tinha sido transformado pelo rei Ezequias num reservatório de água da cidade muralhada de Jerusalém (2Cr 32,30, ca. 703 a.C.). Além das suas águas serem usadas para as derramar sobre o altar do Templo durante a festa das Tendas, numa alusão a Is 12,3 (cf. supra, v. 1), eram também usadas para tomar banho (cf. jTaan 2,1), provavelmente também pelos peregrinos de Jerusalém para tomarem um banho ritual (he. mikvá, gr. báptisma)  antes de entrarem no Templo. “Que significa ‘Enviado’”: é uma alusão a Jesus, o novo Moisés (Ex 3,12-15; Nm 16,28 LXX: “Moisés disse: ‘Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todas estas obras e que não agi por mim mesmo”), o verdadeiro “Enviado” do Pai (cf. 3,17.34; 5,24.36.38; 6,29.57; 7,29; 8,42; 10,36; 11,42; 17,3.8.18.21.23.25; 20,21; 1Jo 4,9.10.14) para realizar a sua obra de salvação.

    O cego obedece à palavra de Jesus, vai, lava-se na piscina e "volta vendo", curado por Deus, mostrando assim que Jesus é o Messias que cumpre as profecias atinentes à era messiânica (Is 29,18; 35,5; 42,7; Jr 31,8; Mt 11,5; Lc 7,22). Sendo a luz a primeira obra de Deus (Gn 1,3s), Jesus aparece como o princípio e o autor da nova criação (Cl 1,15), que vem realizar.

    A ordem de o cego se ir lavar na piscina de Siloé (Is 8,6; 7,3) é uma alusão ao batismo (13,10; 1Cor 6,11; Ef 5,26; Tt 3,5; Hb 10,22; 1Pd 3,21).

  • v. 8. Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto, porque era mendigo, diziam: «Não é este o que estava sentado a mendigar?».

    iii) Neste terceiro quadro (vv. 8-34) entram em cena diversas personagens referentes ao testemunho do “sinal” (o milagre) e do seu autor. É uma longa inquirição ao cego acerca da sua cura, composta de quatro atos: primeiro pelos vizinhos (vv. 8-12), depois pelos fariseus, que, incrédulos, improvisam uma espécie de processo judicial (vv. 12-17), interrogando os pais do que fora cego (vv. 18-23) e interrogando novamente o miraculado, terminando esta com a sentença da exclusão do cego da Sinagoga (vv. 24-34).

EM CONSTRUÇÃO...

  • v. 9. Uns diziam: «É este»; outros afirmavam: «Não é, mas é parecido com ele». Ele, porém, dizia: «Sou eu».

  • v. 10. Diziam-lhe, pois: «Como é que, então, te foram abertos os olhos?».

    “Abrir os olhos” (7x no presente texto) é uma expressão que remete para Is 35,5 e Is 42,7, onde se anunciam as obras que o Messias iria realizar. O verbo “abrir” está na voz passiva, permitindo entendê-la como um passivo divino: “abertos” por Deus. Os fariseus, querendo negar a obra de Jesus, acabam por deixar subentender que Ele é o Messias e é Deus.

  • v. 11. Ele respondeu: «O homem chamado Jesus fez lama, untou-me os olhos e disse-me: “Vai a Siloé e lava-te”. Fui, pois, lavei-me e comecei a ver».

    O cego inicia uma caminhada progressiva de fé, em quatro etapas. Começa por chamar Jesus apenas “o homem”.

  • v. 12. Disseram-lhe: «Onde está Ele?». Diz ele: «Não sei».

  • v. 13. Levam aos fariseus o que antes fora cego.

  • v. 14. Ora, era sábado o dia em que Jesus fizera lama e lhe tinha aberto os olhos.

    Tal como no caso do enfermo da piscina de Bethzatha, Jesus realiza esta cura apenas pela palavra, num dia de sábado (5,9).

  • v. 15. Por isso, perguntavam-lhe novamente também os fariseus como tinha recuperado a vista. Ele disse-lhes: «Pôs-me lama nos olhos; lavei-me e vejo».

  • v. 16. Por isso, diziam alguns dos fariseus: «Este homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».

    A pena por violar o sábado era a morte (Ex 31,15; Nm 15,35). As leis relativas à observância do sábado que os fariseus aqui dizem Jesus ter violado não estão na Torah, na palavra de Deus. Fazem parte das mais de 1600 leis judaicas que regulam a observância sabática e fazem parte da tradição oral, a chamada “lei oral”, composta pelos rabinos (a Halakha, “o caminho pelo qual há que ir”), mas à qual eles conferiam a mesma autoridade que à palavra de Deus. Por isso, bastava a violação de um deles, para acharem logo que a pessoa que o tinha feito era ré de morte. Jesus nunca teve a Halakha como palavra de Deus, mas como preceitos humanos (Is 29,13; Mc 7,6; Mt 15,8-9) que não seguia, libertando assim o homem do fardo insuportável da Lei, que ninguém conseguia cumprir (cf. At 15,10).

  • v. 17. Dizem, pois, novamente ao cego: «Que dizes tu acerca dele, visto que te abriu os olhos?». Ele disse: «É um profeta».

    O cego miraculado dá o segundo passo na sua caminhada de fé em Jesus: diz que Ele “é um profeta”.

  • v. 18. Mas os judeus não acreditaram que ele tivesse sido cego e começasse a ver, até que chamaram os pais do que tinha começado a ver.

  • v. 19. E lhes perguntaram, dizendo: «Este é o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que agora vê?»

  • v. 20. Responderam os seus pais e disseram: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego.

  • v. 21. Mas não sabemos como é que agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Perguntai-lhe; já tem idade, ele falará acerca de si mesmo».

  • v. 22. Isto disseram os seus pais porque tinham medo dos judeus, porque os judeus já tinham combinado que se alguém confessasse Jesus como Cristo, fosse expulso da sinagoga.

  • v. 23. Por isso, os seus pais disseram: «Já tem idade; perguntai-lhe».

  • v. 24. Chamaram então pela segunda vez o homem que tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador».

  • v. 25. Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. Uma coisa sei: era cego e agora vejo».

  • v. 26. Disseram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?».

  • v. 27. Respondeu-lhes: «Já vo-lo disse e não escutastes. Porque quereis novamente escutar? Será que também vos quereis tornar seus discípulos?».

  • v. 28. Começaram a insultá-lo e disseram: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés.

  • v. 29. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, não sabemos donde é».

  • v. 30. Respondeu o homem e disse-lhes: «Pois isto é que é de admirar: que vós não saibais donde é e que Ele, no entanto, me tenha aberto os olhos.

  • v. 31. Sabemos que Deus não escuta pecadores, mas se alguém O teme e faz a sua vontade, a esse escuta.

  • v. 32. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.

  • v. 33. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer».

    No terceiro passo da sua caminhada de fé, o homem que fora cego testemunha que Jesus vem de Deus.

  • v. 34. Responderam-lhe e disseram-lhe: «Tu nasceste todo em pecados e tu estás a ensinar-nos?». E expulsaram-no.

    O processo contra o cego que fora curado termina com: a) um veredicto, a afirmação que o que tinha sido cego tinha nascido “todo em pecados”, ou seja, os dele e os dos pais (v. 2), uma afirmação, aliás, válida para todos os homens (cf. Rm 3,9.23; Sl 51,7.15; Qoh 7,20), à exceção de Jesus, que o ele não sabe se pecou (v. 25), porque na realidade Jesus não o fez (8,46; 1Jo 3,5); b) e com uma sentença: a expulsão dele do Templo, e da Sinagoga, uma medida que foi adotada pelos judeus contra os cristãos a partir do ano 80 d.C..

  • v. 35. Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e quando o encontrou, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?».

    iv) No quarto quadro (vv. 35-38), o termo deste percurso que representa a iniciação cristã, Jesus procura o homem curado e leva-o à confissão de fé nele e à sua adesão a Ele pela fé.

  • v. 36. Ele respondeu e disse: «E quem é, Senhor, para que acredite nele?».

  • v. 37. Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Aquele que fala contigo».

    O homem que fora cego está a ver Jesus, não só porque o faz naturalmente, mas porque acreditou n’Ele (gr. pisteúô eis), isto é, se entregou a Ele como seu Senhor, como dirá o próprio Jesus mais tarde: “Quem me vê, vê Aquele que me enviou. Eu, a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que acredita em mim, não permaneça nas trevas” (12,45-46).

    Jesus é “Aquele que fala” (gr. ho lalôn) com o cego que foi curado, uma alusão velada à sua divindade (cf. 4,26: ego eimi ho lalôn soi, “Eu sou Aquele que fala contigo”), como diz Is 52,6: “Eu sou Aquele mesmo que fala (ho lalôn): Eis-me” e Is 45,19 LXX: “Eu sou o Senhor que fala (gr. lalôn) a justiça e anuncia a verdade (gr. alêtheia).

  • v. 38. Então ele disse: «Acredito, Senhor!»; e adorou-O.

    É este o quarto passo da caminhada de fé que o homem que foi curado da cegueira dá: ele reconhece a divindade de Jesus e prostra-se diante dele, adorando-o (gr. proskunéo, Jo, 11x, aqui a décima ocorrência: 4,20-24; 12,20) como a Deus.

    v) No quinto e último quadro (vv. 39-41), Jesus declara a finalidade da sua vinda ao mundo como luz do mundo, à qual se tinha referido no início desta perícopa (v. 5).

  • v. 39. Jesus disse: «Para um juízo vim Eu a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem, se tornem cegos».

    A finalidade da vinda de Jesus ao mundo é ser sinal de contradição: fazer os cegos ver e mostrar que são cegos os que pretendem ver, no sentido de afirmar a sua própria justiça e apresentar-se como modelos e juízes do outros (cf. v. 41). 

  • v. 40. Alguns dos fariseus que estavam com Ele ouviram isto e disseram-lhe: «Será que também nós somos cegos?».

  • v. 41. Disse-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como dizeis agora: “vemos”, o vosso pecado permanece».

    Os fariseus, porque afirmam que são justos e não reconhecem o seu pecado (cf. Rm 2,19; 3,19), continuam imersos nas trevas do pecado.

    Nesta narrativa, através da progressão na fé do cego curado, sobressai todo o itinerário de iniciação cristã que leva ao batismo, chamado “iluminação” no NT (Ef 5,14; Hb 6,4; 10,32): o cego começa por se ver beneficiário da misericórdia do homem Jesus (v. 11), que reconhece como profeta (v. 17), atestando depois que Ele vem de Deus (v. 33) e acaba confessando, através de um diálogo que evoca a profissão de fé batismal (cf. At 8,37; Rm 10,9s), a sua fé em Jesus como “Senhor”, a quem, prostrando-se, adora como a Deus (vv. 35-38).

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • O que é que no mundo gera escuridão, trevas, cegueira e morte?

  • Que “lama” pôs Jesus nos meus olhos para eu prestar atenção à sua Palavra, seguir a sua voz e me encontrar com Ele?

  • Tenho uma mentalidade retributiva vendo nas dificuldades um “castigo de Deus” ou reconheço nelas a presença do seu amor?

  • Que posso fazer nesta quaresma para que venha a renascer como uma pessoa nova que vive na “luz”, dando testemunho de Jesus?


3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)

Salmo responsorial                                                          Sl 23,1-6 (R. 1)

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.    R.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de passar pelo vale das sombras da morte,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.    R.

Para mim preparais a mesa
À vista dos meus adversários;
Com óleo me perfumais a cabeça
E meu cálice transborda.    R.

A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.    R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Senhor, nosso Deus, que pelo vosso Verbo realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na própria vida, unidos a Cristo e unidos em Cristo)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.