
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (26,14-27,66)
26,14Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os chefes dos sacerdotes 15e disse: «Quanto me quereis dar, se eu vo-lo entregar?». Fixaram-lhe, então, trinta moedas de prata. 16E a partir de então procurava uma boa oportunidade para o entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: «Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa?». 18Ele disse: «Ide à cidade, a casa de tal homem, e dizei-lhe: "O Mestre diz: o meu tempo está próximo. É em tua casa que faço a Páscoa com os meus discípulos"». 19Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da tarde, reclinou-se à mesa com os Doze 21e, enquanto comiam, disse: «Amen vos digo: um de vós me entregará». 22Profundamente consternados, começaram, um após outro, a perguntar-lhe: «Sou porventura eu, Senhor?» 23Ele respondeu: «O que molha comigo com a mão no prato, esse me entregará. 24O Filho do Homem vai, tal como está escrito acerca dele, mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». 25Tomando a palavra, Judas, que o ia entregar, disse: «Sou porventura eu, Rabbi?» Responde-lhe Ele: «Tu o disseste!». 26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai, comei, isto é o meu Corpo». 27Em seguida, tomou o cálice, deu graças e deu-lho, dizendo: «Bebei dele todos, 28pois isto é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. 29Digo-vos: a partir de agora não mais beberei deste fruto da videira até àquele dia em que o hei de beber convosco, novo, no reino do meu Pai». 30E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. 31Diz-lhes, então, Jesus: «Todos vós vos escandalizareis nesta noite por causa de mim, pois está escrito: “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão”. 32Mas, depois de ter sido ressuscitado, preceder-vos-ei na Galileia». 33Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: «Ainda que todos se escandalizem por causa de ti, eu nunca me escandalizarei». 34Replicou-lhe Jesus: «Amen te digo: esta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás». 35Diz-lhe Pedro: «Mesmo que seja necessário eu morrer contigo, não te negarei». O mesmo disseram todos os discípulos. 36Então vem Jesus com eles a uma propriedade chamada Getsémani e diz aos discípulos: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar». 37E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. 38Diz-lhes então: «A minha alma está triste, até à morte; permanecei aqui e vigiai comigo». 39E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto e orava, dizendo: «Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; contudo, não seja como Eu quero, mas como Tu queres». 40Vem, então, ter com os discípulos, encontra-os a dormir e diz a Pedro: «Nem sequer tivestes força para vigiar uma hora comigo? 41Vigiai e orai para não entrardes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca». 42Afastando-se de novo, pela segunda vez, orou dizendo: «Meu Pai, se não é possível isto passar sem que o beba, seja feita a tua vontade». 43Ao vir de novo, encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados. 44Deixando-os, de novo se afastou e orou pela terceira vez, repetindo novamente as mesmas palavras. 45Vai ter então com os discípulos e diz-lhes: «Dormi ainda e descansai! Eis que se aproxima a hora em que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. 46Levantai-vos! Vamos! Eis que se aproxima o que me vai entregar». 47Falava Ele ainda e eis que chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma numerosa multidão com espadas e varapaus, da parte dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo. 48O que o ia entregar tinha-lhes dado este sinal: «Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o». 49E logo, aproximando-se de Jesus, disse: «Alegra-te, Rabbi!», e beijou-o. 50Jesus disse-lhe: «Amigo, a que vieste?». Então, aproximando-se, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no. 51E eis que um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da sua espada e golpeando o servo do Sumo-sacerdote, cortou-lhe a orelha. 52Então, Jesus diz-lhe: «Volta a pôr a tua espada no seu lugar, porque todos os que pegarem na espada, pela espada morrerão. 53Ou pensas que não podia rogar ao meu Pai, que agora mesmo poria à minha disposição mais de doze legiões de anjos? 54Mas como haviam de cumprir-se as Escrituras, segundo as quais é necessário que assim aconteça?». 55Naquela hora, disse Jesus às multidões: «Como a um salteador, saístes com espadas e varapaus para vos apoderardes de mim. Dia após dia sentava-me no templo a ensinar, e não me prendestes! 56Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas». Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram. 57Os que prenderam Jesus levaram-no a casa do Sumo-sacerdote Caifás, onde se tinham reunido os escribas e os anciãos. 58Pedro seguia-o de longe, até ao átrio do Sumo-sacerdote e tendo entrado, sentou-se entre os guardas para ver o fim. 59Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus para lhe dar a morte, 60mas nada encontraram, apesar de se terem apresentado muitas falsas testemunhas. Finalmente, apresentaram-se duas 61que disseram: «Este afirmou: "Posso destruir o Templo de Deus e em três dias edificá-lo"». 62Então o Sumo-sacerdote, levantando-se, disse-lhe: «Nada respondes ao que estes testemunham contra ti?». 63Mas Jesus calava-se. Então o Sumo-sacerdote disse-lhe: «Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus». 64Diz-lhe Jesus: «Tu o disseste. Digo-vos mais "a partir de agora, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu». 65Então o Sumo-sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfémia. 66Que vos parece?». Eles responderam: «É réu de morte!». 67Então cuspiram-lhe no rosto e deram-lhe murros, e outros esbofetearam-no, 68dizendo: «Profetiza-nos, ó Cristo: quem te bateu?». 69Entretanto, Pedro estava sentado lá fora, no átrio. Aproximando-se, uma criada disse: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu!» 70Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei de que estás a falar». 71Ao sair para o portão, uma outra viu-o e diz aos que ali estavam: «Este estava com Jesus, o Nazareno!». 72E novamente negou com juramento: «Não conheço tal homem!». 73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Na verdade também tu és um deles, pois o teu modo de falar te denuncia». 74Então ele começou a imprecar e a jurar: «Não conheço tal homem!». E nesse momento um galo cantou. 75Pedro recordou-se, então, da palavra que Jesus lhe dissera: «Antes que o galo cante, três vezes me negarás». E, saindo dali para fora, chorou amargamente. 27,1Ao romper da manhã, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se em conselho contra Jesus, para o matarem. 2E, depois de o amarrarem, levaram-no e entregaram-no a Pilatos, o Governador. 3Então Judas, aquele que o tinha entregado, ao ver que Ele fora condenado, encheu-se de remorsos e devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos, 4dizendo: «Pequei, ao entregar sangue inocente». Mas eles disseram: «Que nos importa? Isso é contigo!». 5Então ele, tendo atirado as moedas de prata para o Templo, retirou-se e foi-se enforcar. 6Os chefes dos sacerdotes, tendo tomado as moedas de prata, disseram: «Não é lícito deitá-las no tesouro do Templo, porque são preço de sangue». 7E, depois de se terem reunido em conselho, compraram com elas o Campo do Oleiro, para sepultura dos estrangeiros. 8Por isso, aquele campo é chamado "Campo de Sangue" até ao dia de hoje. 9Cumpriu-se então o que tinha sido dito por meio do profeta Jeremias: “E tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele foi avaliado, daquele que os filhos de Israel avaliaram”; 10e “deram-nas pelo Campo do Oleiro”, como me tinha ordenado o Senhor”. 11Entretanto, Jesus foi feito comparecer diante do governador e o governador interrogou-o, dizendo: «Tu és o Rei dos judeus?» Jesus disse: «Tu o dizes». 12E ao ser acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13Diz-Lhe então Pilatos: «Não ouves quantas coisas testemunham contra Ti?». 14E Ele não lhe respondeu nem uma palavra, a ponto de o governador ficar muito admirado. 15Ora, era costume, por ocasião da festa da Páscoa, o governador libertar um preso para a multidão, aquele que eles quisessem. 16Tinham então, um preso famoso, chamado Barrabás. 17Estando eles, pois, reunidos, disse-lhes Pilatos: «Quem quereis que vos liberte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?». 18Sabia, de facto, que o tinham entregado por inveja. 19Enquanto ele estava sentado no tribunal, a sua mulher mandou-lhe dizer: «Que nada haja entre ti e esse justo, porque sofri muito hoje num sonho por causa dele». 20Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram as multidões a pedir Barrabás e a fazer perecer Jesus. 21Tomando a palavra o governador disse-lhes: «Qual dos dois quereis que eu vos liberte?» Eles disseram: «Barrabás». 22Diz-lhes Pilatos: «Que farei então de Jesus, chamado Cristo?» Dizem todos: «Seja crucificado». 23Ele, porém, disse: «Mas que mal fez Ele?». Eles, porém, gritavam ainda mais, dizendo: «Seja crucificado». 24Pilatos, então, ao ver que nada conseguia, mas que antes aumentava o tumulto, tendo tomado água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é convosco». 25E todo o povo respondeu, dizendo: «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos». 26Então libertou-lhes Barrabás e depois de ter mandado flagelar Jesus, entregou-o para que fosse crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta dele toda a coorte. 28E, tendo-o despido, cobriram-no com um manto escarlate. 29E tendo entrelaçado uma coroa de espinhos, puseram-lha sobre a sua cabeça e uma cana na sua mão direita. E ajoelhando-se diante dele, escarneciam-no, dizendo: «Alegra-te, Rei dos judeus!» 30E cuspindo nele, pegaram na cana e batiam-lhe com ela na cabeça. 31E depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto, vestiram-lhe as suas vestes e levaram-no para ser crucificado. 32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a sua cruz. 33E tendo chegado ao lugar chamado Gólgota – que significa “Lugar da Caveira” –, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel; provou-o, mas não o quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram as suas vestes, lançando sortes, 36e, sentados, ficaram ali a guardá-lo. 37E por cima da sua cabeça puseram escrita a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram então crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-no, abanando as suas cabeças 40e dizendo: «Tu que destróis o templo e em três dias o reedificas, salva-te a Ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz». 41Da mesma forma, também os chefes dos sacerdotes escarnecendo dele, juntamente com os escribas e os anciãos, diziam: 42«Salvou a outros, mas a Si mesmo não se pode salvar! É o Rei de Israel: desça agora da cruz e acreditaremos nele! 43Confiou em Deus; livre-o agora, se Lhe quer bem, pois disse: ‘Sou Filho de Deus’». 44Do mesmo modo o insultavam os salteadores que tinham sido crucificados com Ele. 45A partir da hora sexta fizeram-se trevas sobre toda a terra até à hora nona. 46Pela hora nona, Jesus gritou com voz forte, dizendo: «Eli, Eli, lemá sabactáni?», isto é: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?». 47E alguns dos que ali estavam em pé, ao ouvirem isto, diziam: «Este está a chamar por Elias». 48E logo um deles foi a correr, tomou uma esponja, e depois de a ter embebido em vinagre, pô-la numa cana e dava-lhe de beber. 49Os outros, porém, diziam: «Deixa. Vejamos se Elias o vem salvar». 50Mas Jesus, gritando novamente com voz forte, entregou o espírito. 51E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. 52E abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram; 53e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, ao verem o terramoto e o que estava a acontecer, tiveram grande temor e disseram: «Verdadeiramente este era Filho de Deus». 55E estavam ali, de longe, a observar, muitas mulheres, as quais tinham seguido Jesus desde a Galileia, para o servir. 56Encontravam-se entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde, veio um homem rico, de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. 58Ele foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos ordenou que lho dessem. 59E José, tendo tomado o corpo, envolveu-o num lençol de linho puro, 60pô-lo no sepulcro novo que era dele e que tinha talhado na rocha; e depois de ter rolado uma grande pedra para a porta do sepulcro, foi-se embora. 61E estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas, em frente do túmulo. 62No dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os chefes dos sacerdotes e os fariseus e foram ter com Pilatos, 63dizendo: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor, quando ainda estava vivo, disse: "Três dias depois, ressuscitarei". 64Ordena, pois, que o túmulo seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso de os seus discípulos virem, o roubarem e dizerem ao povo: "Ressuscitou dos mortos". E seria pior a última impostura do que a primeira». 65Pilatos respondeu-lhes: «Tendes a guarda. Ide embora e guardai-o com segurança, como entenderdes». 66E, tendo eles ido, guardaram o túmulo com segurança, selando a pedra e pondo aí a guarda.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
Na última parte do seu Evangelho, Mateus descreve o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição. A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto do que foi a sua vida. Ela é a consequência lógica do anúncio do Reino: resultou das tensões e resistências que a proposta do Reino provocou contra a atmosfera de egoísmo, má vontade e opressão que dominava o mundo.
- v. 14. Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os chefes dos sacerdotes.
(vv. 14-16: Mc 14,10s; Lc 22,3-6; Jo 11,57) Traição de Judas. Judas Iscariotes é “um dos Doze” (v. 47; 10,4). Ao apresentar a sua traição logo a seguir ao episódio da unção de Betânia, Mateus põe em contraste o gesto público, o amor leal e o elevado preço do perfume da mulher, e a iniciativa escondida, o vil preço e a vergonhosa traição deste companheiro íntimo de Jesus (vv. 23.50).
- v. 15. E disse: «Quanto me quereis dar, se eu vo-lo entregar?» Fixaram-lhe, então, trinta moedas de prata.
v. 15: 27,3. “Trinta moedas de prata”: citação de Zc 11,12 (=27,9). Tudo acontece segundo o plano de Deus, enunciado nas Escrituras. Este era o preço de um escravo (Ex 21,32; cf. Gn 37,28). Não se trata, porém, de denários (ou dracmas), mas das moedas de prata do santuário (he. shekel, gr. siclo: Nm 7,85), a tetradracma ou estáter (17,1). A soma equivale a pouco mais de três meses de salário.
- v. 16. E a partir de então procurava uma boa oportunidade para o entregar.
“A partir daí”: esta fórmula assina em Mateus um ponto decisivo na vida de Jesus (4,17; 16,21). Começa a última fase da vida de Jesus. Agora, apresentadas as personagens, o drama pode começar.
- v. 17. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: «Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa?»
(vv. 17-19: Mc 14,12-16; Lc 22,7-13) Preparação da ceia pascal. A festa da Páscoa (hag haPesakh), em que se celebrava a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito (Ex 13,3-10; 23,15), durava oito dias (Ex 12,14-20). Na sua origem era uma festa de pastores que, na noite da lua cheia do primeiro mês após o início da Primavera (14/15 nisan) imolavam e comiam um cordeiro (ou um cabrito: Ex 12,8.11.15.27; Lv 23,5-8; 2Cr 35,1-19). Foi associada, séculos depois da fixação do povo de Israel na Palestina, à festa dos Ázimos (gr. “sem fermento”; he. hāmēts: 2Rs 23,22; Esd 6,19-22; Dt 16,1-8), os pães sem fermento usados na celebração da ceia pascal (Ex 12,8.34.39). Flávio Josefo distingue a festa da Páscoa, que começa no dia 14, da festa dos Ázimos, que começa no dia seguinte, 15 de nisan, e dura 7 dias (Ant. 3,10,5). A celebração pascal começava no início da tarde, com a imolação dos cordeiros pascais no Templo de Jerusalém (cf. vv. 45s).
Os Sinópticos apresentam a Última Ceia inserida na ceia pascal, tendo Jesus sido crucificado no dia de Páscoa (para os judeus, o dia começava com o pôr-do-sol). O que era possível, pois alguns rabinos defendiam que as execuções capitais deveriam ser feitas durante as festas de peregrinação (Páscoa, Pentecostes, Tendas), devendo os condenados ficar presos até lá, para a sua execução servir de exemplo, embora outros defendessem que a sentença deveria ser imediatamente executada (mSanh 11,4). João situa a Ceia pascal e a morte de Jesus na cruz na preparação da Páscoa (Jo 18,28), que naquele ano coincidia com o sábado (19,31.40ss). Há três hipóteses para sair deste impasse: 1) Jesus celebra a Ceia segundo o rito pascal judaico (como dizem os sinópticos), mas isso é contrariado por João; 2) Jesus celebra a Páscoa segundo um calendário não-oficial; 3) Jesus celebra a última ceia no decorrer de uma refeição de despedida, sendo só à luz da fé pascal cristã, que esse ato é visto como substituindo o antigo rito judaico.
- v. 18. Ele disse: «Ide à cidade, a casa de tal homem, e dizei-lhe: "O Mestre diz: o meu tempo está próximo. É em tua casa que faço a Páscoa com os meus discípulos"».
v. 18: cf. 21,2s. “Ide à cidade”: Jesus pernoitava com os discípulos fora da cidade, já não em Betânia (21,17), mas no Monte das Oliveiras (v. 30; 24,3; Lc 21,37). Durante a Páscoa, a cidade, que contava com cerca de 30.000 habitantes, podia encher-se com cerca de 300.000 peregrinos (cf. Fl. Jos. De bell. 2,14,3). Por isso, havia que fazer a reserva oportunamente. Mateus abrevia Marcos. “O Mestre” (gr. didáskalos: 9,11; 10,25; 17,24; 23,8). “O meu tempo” (Jo 7,6; Is 49,8; Dn 7,22; 9,26; Qo 3,1-8.11.17; 7,17; 8,5; 9,8; Pv 17,17; Sb 3,7; 8,8; Jl 4,1; Sf 3,19s), o tempo da sua paixão e morte na cruz (v. 1). “Está próximo”: 24,33; cf. 26,1.25, o tempo do cumprimento das profecias, do fim desta era e do advento do Reino de Deus através da sua paixão, morte e ressurreição. Jesus sabe de antemão o que vai acontecer: a sua morte foi um imprevisto, mas o dom livre da sua própria vida (vv. 26-29). “É em tua casa que faço a Páscoa”: Jesus não só “come a Páscoa” com os seus discípulos (v. 17; Ex 12,48; Nm 9,2; Dt 16,1; Js 5,10; Esd 6,19), mas “faz Páscoa” com eles, inaugurando na Última Ceia a Páscoa da nova Aliança (v. 28; Ex 24, 11). Aliás, na ceia pascal judaica afirma-se: «Cada geração deve considerar-se a si mesma como se tivesse saído do Egito» (Ex 13,8: mPes 10,5). Não é apenas uma comemoração, mas uma celebração, um memorial (Ex 12,14; 13,9) ou anamnese (Lc 22,19; 1Cor 11,24s).
- v. 19. Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.
v. 19: 21,6s. Os discípulos obedecem a Jesus, e tudo decorre segundo a Sua palavra, que se cumpre (cf. Dt 18,18s.21s).
- v. 20. Ao cair da tarde, reclinou-se à mesa com os Doze.
(vv. 20-29: Mc 14,17-25; Lc 22,14-23; Jo 13,2.21-26; 1Cor 11,23-25) A última Ceia. “Reclinou-se à mesa com os Doze”: esta informação é muito importante, porque atesta que não estava mais ninguém presente na última ceia, ao invés do que era habitual no ritual judaico, que decorria num ambiente familiar festivo, com a presença e intervenção de mulheres e de crianças.
- v. 21. E, enquanto comiam, disse: «Amen vos digo: um de vós me entregará».
“Entregar”, com o sentido de trair (cf. 10,4) para o entregar à morte (v. 2; 17,22; 20,18s), evoca o Servo de Iavé (Is 53,6.12).
- v. 22. Profundamente consternados, começaram, um após outro, a perguntar-lhe: «Sou porventura eu, Senhor?»
Os discípulos leais chamam a Jesus “Senhor” (cf. v. 25).
- v. 23. Ele respondeu: «O que molha comigo com a mão no prato, esse me entregará.
“O que molha comigo”: Sl 41,10. Na ceia pascal, depois da fração do pão (v. 26), mergulham-se as ervas amargas (he. máror) no harosset, um molho “avermelhado”, doce, que recorda os tijolos do Egito (cf. Jo 13,26s). Jesus sabe quem o vai trair. Tendo para os semitas uma refeição partilhada com a família e os amigos o sentido do máximo de comunhão e de hospitalidade, o gesto de Judas traduz o máximo de rutura e de traição.
- v. 24. O Filho do Homem vai, tal como está escrito acerca dele, mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».
“Ai”: 18,7. É uma lamentação profética, um gemido de luto e de dor, perante a ruína e condenação que caiu ou vai cair sobre o outro (1Rs 13,30; Am 9,12; Is 1,4; 3,11; Mq 7,4; Ez 2,10; Pv 4,10). “Seria melhor para ele não ter nascido”: Hen 38,2: «[Quando os pecadores forem julgados pelos seus pecados e expulsos da superfície da terra], quando o Justo se manifestar aos olhos dos justos… onde estará a morada dos pecadores? Onde estará o lugar de descanso daqueles que renegaram o Senhor dos espíritos? Seria melhor para eles não terem nascido». Judas vê Jesus apenas numa perspetiva humana, terrena, não reconhecendo nele, antes renegando, o Salvador (1,21; cf. 1Cor 15,19).
- v. 25. Tomando a palavra, Judas, que o ia entregar, disse: «Sou porventura eu, Rabbi?» Responde-lhe Ele: «Tu o disseste!»
Este versículo, exclusivo de Mateus, serve apenas para confrontar diretamente o traidor com o que é atraiçoado. Ao invés dos outros onze, Judas só chama a Jesus “Rabbi” e não “Senhor” (v. 49). “Tu o disseste”: v. 64; 27,11; cf. Is 54,17. O ímpio pelas suas próprias palavras se condena (12,37; cf. Sl 59,13; 64,9; Pv 18,7). - v. 26. Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai, comei, isto é o meu Corpo».
(vv. 26-29: Mc 14,22-25; Lc 22,15-20; 1Cor 11,23-25) A instituição da Eucaristia. Os Sinópticos apresentam a instituição no decurso da ceia pascal. “Partiu o pão”: é o momento em que o que preside à ceia pascal, reparte a metade do ázimo pascal (a matzá pascal, a do meio, que tinha sido partida em duas na yahatz, a “fração” do pão) e dá um pedaço dele a cada um dos convivas. É a “fração do pão”, a designação típica da Eucaristia (Lc 24,30.35; At 2,42.46; 20,7.11; cf. 1Cor 10,16).
- v. 27. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e deu-lho, dizendo: «Bebei dele todos,
É “o cálice da bênção” (1Cor 10,16), o terceiro de um conjunto de quatro cálices (m.Pes 10), em que cada um corresponde a uma das quatro partes do séder haggadāh shel pesach (ritual da narração da Páscoa) judaico, neste caso a bênção (barek), durante a qual o que preside à ceia convida todos a dar graças. Na ceia pascal cada um bebe do seu próprio cálice. Aqui bebem todos do mesmo cálice, o que só é feito pelos esposos no dia do casamento. É, pois, um símbolo nupcial (2Sm 12,3). O verbo da ação de graças é eukharistéō, raro na tradução dos LXX e sempre em literatura tardia (cf. 2Ma 1,11; 12,31; Sb 18,2; Jdt 8,25; 3Mac 7,16; OdSal 14,8).
- v. 28. Pois isto é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados.
“Sangue da aliança”: Ex 24,8; Zc 9,11; cf. Hb 7,22; 9,18.22. “Em favor de muitos”: 20,28; Is 53,11s. O sentido é inclusivo, não excludente; o grego parece fazer eco do hebraico hārabbîm (os muitos), que no AT tem o sentido de “multidão” ou mesmo de “todos”. Jesus entrega a vida por todos, mas nem todos aceitam a aliança que no seu sangue é selada e oferecida. “Remissão dos pecados”: Jr 31,34; 33,8; Ez 36,25-29; At 5,31 10,43; 13,38; 26,18. É o dom prometido por Deus para os tempos messiânicos, quando será inaugurada a nova aliança. Isso é o que acontece aqui: o início da nova aliança, em que é Deus em Jesus que, como sempre, toma a iniciativa. É “remissão”, porque implica não só o perdão de todos os pecados, mas também a libertação das suas consequências (a escravidão e alienação de espírito), libertação esta que se alcança graças ao pagamento de um “resgate”, efetuado pelo derramamento do Sangue de Cristo em favor de toda a humanidade (At 20,28; Ef 1,7; Cl 1,14; 1Pd 1,19; Hb 9,14s; Ap 1,5; 5,9).
- v. 29. Digo-vos: a partir de agora não mais beberei deste fruto da videira até àquele dia em que o hei de beber convosco, novo, no reino do meu Pai».
A ceia pascal termina com o cântico do Hallel (Sl 115-118) e do grande Hallel (Sl 136), seguido da ação de graças pela redenção (he. nishmat, “a alma”). Bebe-se então o quarto e último cálice, o da redenção, exprimindo-se a Deus o voto de celebrar outras Páscoas na Jerusalém reedificada e libertada. Jesus fala, porém, do “vinho novo” do Reino de Deus (9,17; Sr 9,10; cf. Jr 31,12; Sl 4,8), aludindo assim à Páscoa eterna da Jerusalém do alto (Gl 4,26), a nova Jerusalém (Hb 12,22; Ap 3,12; 21,2.10), que por Ele será edificada em conjunto com os seus discípulos a partir da terra, em união com Ele, na glória (cf. 16,18; cf. 28,20; 1Pd 2,5). Segundo a tradição judaica, quatro grandes acontecimentos da história da salvação tiveram lugar na noite de Páscoa: a criação do mundo, o enfaixamento (hā'aqedāh) de Isaac (Gn 22,9), o êxodo do Egito e a vinda do Messias (tgNeofEx 12,42). Jesus realiza-os, levando-os à plenitude (cf. 5,17s).
- v. 30. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras.
v. 30: Mc 14,26; Lc 22,39. A ceia pascal devia terminar antes da meia-noite (mPes 10,9; cf. Ex 12,11.29; Sb 18,14). O hino é o Grande Hallel que se canta antes da bênção do quarto cálice, o da redenção (Sl 136; v. 29). Ao ligar o hino com a saída para o Monte das Oliveiras, onde costumavam pernoitar (v. 18), Mateus apresenta os acontecimentos seguintes como sendo a obra da redenção, a Páscoa de Jesus, que é feita sob o signo da misericórdia de Deus (9,13; 12,7; cf. 23,23; Sl 136). Na noite de Páscoa não se devia sair de casa antes da manhã (Ex 12,22; Dt 16,17), proibição que mais tarde veio a ser substituída com a proibição não de sair de casa, mas de Jerusalém. Jesus, como novo Moisés, vai durante a noite ao encontro do Faraó (Ex 12,31!) – neste caso, o pecado do homem – e enfrenta o Exterminador (Ex 12,23), – neste caso, Satanás – para, com a sua morte e ressurreição, os vencer.
- v. 31. Diz-lhes, então, Jesus: «Todos vós vos escandalizareis nesta noite por causa de mim, pois está escrito: “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão”.
(vv. 31-35: Mc 14,27-31) Anúncio do abandono dos discípulos e da negação de Pedro.
v. 31: cf. vv. 54.56. Jesus, que tem um conhecimento profético do seu destino, anuncia aos seus discípulos que eles se vão escandalizar (“cair”) por causa dele (11,6) nessa mesma noite, tal como Deus tinha anunciado em Zc 13,7.
- v. 32. Mas, depois de ter sido ressuscitado, preceder-vos-ei na Galileia».
v. 32: 28,7! Esta profecia, porém, abre a porta à esperança da ressurreição, em que Jesus garante que será sempre fiel (2Tm 2,13).
- v. 33. Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: «Ainda que todos se escandalizem por causa de ti, eu nunca me escandalizarei».
Pedro, confiado no seu amor ao Mestre e consciente da seu lugar privilegiado no Reino (16,18), repete que não se escandalizará.
- 34. Replicou-lhe Jesus: «Amen te digo: esta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás».
(vv. 34-35: Lc 22,31-34; Jo 13,36-38) Anúncio das negações de Pedro.
v. 34: cf. v. 75 Jesus retorque a Pedro que nessa mesma noite ele o negará três vezes.
- v. 35. Diz-lhe Pedro: «Mesmo que seja necessário eu morrer contigo, não te negarei». O mesmo disseram todos os discípulos.
Pedro, porém, apoia-se apenas em si mesmo e contesta a palavra de Jesus, não acreditando nela (cf. 16,22). O mesmo fazem os outros discípulos (cf. Jo 11,16). Por isso, cairão (cf. Is 7,9; 2Cr 20,20; 1Jo 2,14; Rm 11,20).
- v. 36. Então vem Jesus com eles a uma propriedade chamada Getsémani e diz aos discípulos: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar».
(vv. 36-46: Mc 14,32-42; Lc 22, 40-46; Jo 18,1). A oração de Jesus no Getsémani. O Getsémani (aram. Gat-Schamen: lagar do azeite) situa-se no Monte das Oliveiras, sobranceiro ao vale do Cédron. O lugar tradicional onde Jesus orou está assinalado na Igreja de Todas as Nações ou Basílica da Agonia.
- v. 37. E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se.
v. 37: 17,1; cf. 4,21; 10,2. Enquanto os discípulos ficam no jardim, Jesus leva consigo os três discípulos mais íntimos, que tinham contemplado a sua transfiguração. Entristece-se (Sl 54,3; Mq 6,3; Lm 1,20.22) e angustia-se (Fl 2,26) na perspetiva da sua paixão e morte.
- v. 38. Diz-lhes então: «A minha alma está triste, até à morte; permanecei aqui e vigiai comigo».
v. 38: cf. Jo 12,27s; Hb 5,7s. A oração de Jesus evoca Sl 42,6.12; 43,5; 88,4-7; cf. Sr 37,2. Jesus experimenta o encontro com a morte e recorre à oração, convidando os discípulos a permanecer despertos, a “vigiar” com Ele em oração (v. 41; cf. 25,13). Assim como iniciou o seu ministério com a oração, sendo tentado e experimentando a fraqueza humana (4,2), assim também agora, na iminência da paixão, antes de enfrentar os inimigos (cf. Est 4,17qr.y), Jesus ora, experimentando a fraqueza humana.
- v. 39. E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto e orava, dizendo: «Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; contudo, não seja como Eu quero, mas como Tu queres».
“Indo um pouco adiante”: tal como a relação de Jesus com o Pai é única, também a sua oração. “Prostrou-se”, caindo sob o peso da dor (cf. Sl 118,13; Jb 1,20), em súplica (18,26.29); “sobre o rosto”, em adoração (17,6; Gn 17,3.17; Js 5,14; Sr 50,17; 1Cr 21,16). “Meu Pai” é o modo como Jesus fala e se dirige a Deus, traduzindo a sua relação filial, única, com Ele (vv. 29.42; 7,21; 10,32s; 11,27; 12,50; 15,13; 16,17; 18,10.19.35; 20,23; 25,34; cf. 6,9).
Jesus sente em si mesmo o dilema da liberdade pessoal, a luta entre a sua vontade pessoal, racional, que é fazer a vontade do Pai, e o desejo da carne, que é evitar a morte. O “cálice” (20,22s; Is 51,17.22; Jo 18, 11; cf. Jr 25,15) simboliza a sorte que cabe a alguém, neste caso, a sua paixão e morte na cruz. Mas também deixa entrever a glória da ressurreição (cf. v. 29; Sl 23,5; 116,13). No entanto, Jesus opta por “fazer a vontade do Pai” (Jo 5,30; 6,38! Hb 10,9), submetendo a sua vontade humana em obediência filial à vontade divina.
- v. 40. Vem, então, ter com os discípulos, encontra-os a dormir e diz a Pedro: «Nem sequer tivestes força para vigiar uma hora comigo?
Ao fim de uma hora, Jesus vai ter com os seus três íntimos e surpreende-se de os ver a dormir. Apenas Pedro é intimado: ele que há tão pouco tempo dizia ser capaz de morrer por Jesus, agora nem sequer tem força para orar.
- v. 41. Vigiai e orai para não entrardes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca».
Na pessoa de Pedro, repete aos discípulos o apelo à vigilância (24,42; 25,13; 13,33-37; 1Pd 5,8) e à oração (cf. Lc 18,1; 21,36; Ef 6,18; 1Pd 4,7), para não “entrarem em tentação” (6,13; Hb 2,18; 4,15; 1Cor 10,13; Ap 3,10), vacilando na fé e obediência à vontade divina no meio da prova. “Espírito-carne” para os rabinos correspondem às duas tendências (he. yesarim) do espírito humano, o bem e o mal. Embora o espírito esteja pronto, decidido, a carne é fraca, lit. enferma, ou seja volúvel, fraca, doente. Por isso, há que orar (cf. Sb 9,5).
- v. 42. Afastando-se de novo, pela segunda vez, orou dizendo: «Meu Pai, se não é possível isto passar sem que o beba, seja feita a tua vontade».
Jesus repete a mesma oração que tinha feito a primeira vez (v. 39), mas agora com a petição central do Pai-nosso: “faça-se a tua vontade” (6,10; cf. At 21,14).
- v. 43. Ao vir de novo, encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.
Jesus procura novamente o desabafo e o conforto da sua dor junto dos amigos; mas vê-se só (cf. Est 4,17k.s), porque os amigos estão com “os olhos pesados” (Lc 9,32), a dormir.
- v. 44. Deixando-os, de novo se afastou e orou pela terceira vez, repetindo novamente as mesmas palavras.
“Pela terceira vez”: é a oração insistente (2Cor 12,8; 1Rs 17,21; a oração fazia-se três vezes ao dia: Dn 6,13; Sl 55,18). O coração de Jesus foi esquadrinhado por Deus, para ver o que nele estava (cf. 2Cr 32,31); Jesus mostrou nesta oração que O ama de todo o coração (v. 42), de toda a alma (v. 38) e com todas as suas forças (vv. 41.45).
- v. 45. Vai ter então com os discípulos e diz-lhes: «Dormi ainda e descansai! Eis que se aproxima a hora em que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores.
Ao voltar novamente para os discípulos, encontra-os a dormir. Ironiza então com a sua pretensa prontidão para O seguir até à morte (v. 35) e, com uma lítotes, diz-lhes para continuarem com as mesmas disposições, uma vez que agora já nada adianta, pois está a chegar “a hora” (Jo 2,4; 7,30; 8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1), o momento predeterminado pelo Pai, em que o Filho do Homem vai ser entregue (17,22; 20,18), como Ele já lhes tinha anunciado. “Às mãos dos homens”, o que preanuncia que vai ser tratado sem piedade (2Sm 24,14; 1Cr 21,13; Is 47,6). “Dos pecadores”: não só dos que o vão maltratar, em particular dos gentios (Sl 104,35; Tb 13,8; 1Ma 1,34; 2,44.48; Gl 2,15; cf. 2Rs 3,13; 2Cr 24,24), mas, em sentido lato, também de todos homens (9,13; Rm 5,8; 1Tm 1,15; Hb 12,7; 7,26).
- v. 46. Levantai-vos! Vamos! Eis que se aproxima o que me vai entregar».
“Levantai-vos”: Jo 14,31. O fruto da oração, é que Jesus agora pode enfrentar os seus inimigos. Ele, que sempre tinha mandado aos miraculados guardar segredo e fugido das glórias humanas, vai agora espontaneamente ao encontro dos que o querem matar e reconhece abertamente a sua identidade messiânica e filiação divina (cf. 16,20) diante dos que o interrogam.
- v. 47. Falava Ele ainda e eis que chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma numerosa multidão com espadas e varapaus, da parte dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo.
(vv. 47-56: Mc 14,43-50; Lc 22,47-53; Jo 18,3-11) Prisão de Jesus. Chega então ali um corpo de pessoas conduzidas por Judas, “um dos Doze” (v. 14) e enviadas pelos “chefes dos sacerdotes e anciãos” (16,21; 21,23). Trata-se das forças de ordem afetas ao Templo, sendo por isso destacadas pelas entidades oficiais. Os escribas daí a pouco vão aparecer (26,57; 27,41), ao passo que os fariseus são exonerados pelos sinópticos (cf. Jo 18,3), sendo postos em cena por Mateus só no dia seguinte, sábado (27,62).
- v. 48. O que o ia entregar tinha-lhes dado este sinal: «Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o».
Ao usar o beijo como o sinal para identificar Jesus, Judas perverte o sentido da amizade, da intimidade e da lealdade.
- v. 49. E logo, aproximando-se de Jesus, disse: «Alegra-te, Rabbi!», e beijou-o.
v. 49: 27,29. “Alegra-te”: saudação habitual grega (he. shalom; lat: salve): 28,9. É o cúmulo do cinismo: alegra-te, quando o que está a acontecer é a traição de um amigo. O beijo, sinal de amor fraterno e de paz (Lc 7,45; Rm 16,16.20; 2Cor 13,12; 1Ts 5,26; 1Pd 5,14), torna-se sinal de morte (cf. 2Sm 20,9; Pr 27,6).
- v. 50. Jesus disse-lhe: «Amigo, a que vieste?». Então, aproximando-se, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no.
Jesus responde, chamando-o “amigo” (gr. hetairos, “camarada”: cf. Sl 41,10; 55,12ss. 20s; 120,7), um apelativo também irónico e convencional (20,13; 22,12), mas que também traduz o seu amor (5,39.44). É com esta palavra que Jesus se entrega nas mãos dos pecadores (v. 45), perdendo, a partir deste momento, o controle sobre o seu corpo e deixando-se conduzir docilmente, por eles até ao fim (cf. Is 50,5).
- v. 51. E eis que um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da sua espada e golpeando o servo do Sumo-sacerdote, cortou-lhe a orelha.
Segundo diz João, o discípulo que saca da espada é Pedro (Jo 18,12.26) e corta o lóbulo da orelha do servo do Sumo-sacerdote. Alguns discípulos devem ter subido a Jerusalém armados (Lc 22,36ss) pensando numa revolução armada e numa instauração pela força do Reino de Deus. A “espada” simboliza a sentença divina (Ez 21,3ss.9-12; Jr 25,15ss). Cumpre-se assim Zc 13,7, citado no v. 31.
O gesto não é acidental: é simbólico, intencional, deliberado. O servo não era um criado qualquer, era o vice-presidente da administração do Templo. Deste modo ele representa o Sumo-sacerdote e cortar-lhe a orelha a ele era como se se tivesse cortado a orelha ao Sumo-sacerdote. Ora qualquer defeito físico ou mutilação impedia a pessoa de exercer o sacerdócio e, como tal, o sumo-sacerdócio (Lv 21,17s. 21). Assim, aqueles que prendem Jesus em nome de Deus deixam de ser aptos para o seu ofício, o sacerdócio, acabando por perdê-lo.
- v. 52. Então, Jesus diz-lhe: «Volta a pôr a tua espada no seu lugar, porque todos os que pegarem na espada, pela espada morrerão.
Jesus diz ao discípulo: “Volta a pôr a espada no seu lugar” (Jr 47,6), pois não é com armas que Deus dá à vitória (cf. Os 1,7; Sl 44,4). Mateus aproveita o episódio para transmitir uma exortação ética de Jesus, na linha de 7,2: “Quem pega na espada, pela espada morrerá” (cf. Gn 9,6; Ap 13,10). É a recusa da violência armada e a opção pela não-violência (cf. 5,39).
- v. 53. Ou pensas que não podia rogar ao meu Pai, que agora mesmo poria à minha disposição mais de doze legiões de anjos?
Depois manifesta a sua crença tipicamente farisaica (At 23,8) no ministério (cf. 2Rs 6,17) e no poder dos anjos (cf. Gn 19,10s), cujo Senhor é o próprio Jesus (cf. 13,41; 16,27; 24,31; 25,31; 2Ts 1,7; cf. Jo 18,36), estando os anjos ao seu dispor (4,11; Sl 91,12). O seu número é incontável (Dn 7,10; Hb 12,22; Jd 1,14). “Doze” evoca o número dos apóstolos e das tribos de Israel (19,28). Uma “legião” compunha-se de cerca de 6.000 soldados, doze legiões seriam portanto 72.000 anjos. O Império Romano contava então com 13 legiões. “Mais de doze legiões”, significa ter mais anjos ao seu dispor do que o Imperador romano tinha de soldados. O poder de Deus está acima do poder do Imperador romano.
- v. 54. Mas como haviam de cumprir-se as Escrituras, segundo as quais é necessário que assim aconteça?»
v. 54: vv. 31.56. “É necessário que aconteça” (Dn 2,28s.45; cf. Is 46,10). Jesus conclui com a necessidade de obediência ao desígnio e vontade do Pai, expresso nas Escrituras, nas pessoas e nos acontecimentos, ou seja, a toda a Palavra que sai da boca de Deus (4,4).
- v. 55. Naquela hora, disse Jesus às multidões: «Como a um salteador, saístes com espadas e varapaus para vos apoderardes de mim. Dia após dia sentava-me no templo a ensinar, e não me prendestes!
Em Mateus, Jesus dirige-se não apenas ao pequeno grupo dos que O vieram prender, mas, neles, às “multidões” (27,20!), a todos aqueles do seu povo que o entregaram a Pilatos e o rejeitaram. Mostra-lhes que agem cobarde e dolosamente, às ocultas (cf. 26,5), pois o podiam ter feito abertamente, no Tempo, onde Ele “dia após dia” (Lc 19,47) tinha estado a ensinar (21,23; Jo 18,20).
- v. 56. Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas». Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram.
v. 56: v. 54. Jesus volta a insistir que tudo o que acontece na Paixão já estava anunciado por Deus nas Escrituras: ela faz parte do desígnio de Deus (At 4,28). As Escrituras cumprem-se agora a deserção dos discípulos (v. 31: Zc 13,7; Jo 16,32; cf. 2Tm 4,16): Jesus deverá levar a cabo sozinho a obra da redenção (Is 59,16; 63,3.5; cf. 27,46).
- v. 57. Os que prenderam Jesus levaram-no a casa do Sumo-sacerdote Caifás, onde se tinham reunido os escribas e os anciãos.
(vv. 57-68: Mc 14,53-65; Lc 22,54s. 63-71; Jo 18,13-24) Jesus perante o Sinédrio. Todos os Sinóticos referem que o Sinédrio se reuniu para julgar Jesus, tendo Ele sido levado à sua presença depois de ter sido preso no Getsémani.
Mateus resume aqui, uma vez mais, Marcos. Mateus é o único dos Sinópticos a, com João, referir o nome do Sumo-sacerdote: Caifás (v. 3; Jo 11,49; 18,13s.24.28). Ele apresenta agora aqui reunidos em casa de Caifás: os membros do Sinédrio que fazem parte do grupo que trama a morte de Jesus (v. 3); “os anciãos”; e os “escribas” (16,21; 20,18), os escrivães letrados, especialistas da Lei, tão invetivados por Jesus (23,13-15.23.25.27.29).
- v. 58. Pedro seguia-o de longe, até ao átrio do Sumo-sacerdote e tendo entrado, sentou-se entre os guardas para ver o fim.
v. 58: v. 69. Pedro segue Jesus “de longe” (27,55; Sl 38,12), com medo (Ap 18,10.15) e penetra no “átrio” (v. 3) do palácio de Caifás (Jo 18,15s) a fim de “ver o fim”, o desfecho de tudo aquilo. O fim (gr. télos: 24,14), porém, não terá fim, porque será não só a cruz e a ressurreição, mas também a vida eterna, a ressurreição final (22,31; 25,46).
- v. 59. Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus para lhe dar a morte,
v. 59: cf. Sl 27,12. Trata-se de uma reunião do Sinédrio (he. “Conselho”), tida em casa de Caifás (v.3), a uma hora invulgar da noite. O Sinédrio devia reunir-se no lado sul do átrio do Templo (segundo bSanh 88b, seria no lado norte do Átrio de Israel), na Sala das Pedras Lavradas (Lishkat Hagazit), dando uma entrada do Sinédrio para o Átrio, dentro do Templo, e a outra para fora (mMid 5,4; mSanh 11,2; SifraLv 19a). Reunia-se entre o sacrifício da manhã e o sacrifício da tarde (10-15h). Ao sábado e nas três festas anuais de peregrinação, reunia-se na Escola do Monte do Templo (Toseph, Sanh 7,1). Para condenar alguém à morte, era necessário o voto de 23 membros (mSanh 1,4), chamado o Sinédrio menor, ao passo que o Sinédrio maior era composto por 71 membros (mSahn 1,5). O blasfemo era morto por lapidação (mSanh 7,5) e o falso profeta era morto por estrangulamento (mSanh 11,1), mas nunca numa cruz. Para condenar um falso profeta à morte eram necessários os 71 membros do Grande Sinédrio. Não foi o caso de Jesus, que foi condenado à morte pelo Sinédrio menor como blasfemo (cf. vv. 65-66). Os chefes dos sacerdotes, com Caifás à frente, tentam primeiro forjar um processo aparentemente legal contra Jesus, chamando falsas testemunhas. Ao fazê-lo, estão a violar duplamente a Lei, pois estão a levantar um falso testemunho (Ex 20,16; Dt 5,20; Lv 19,11; pena: Dt 19,16-21), atentando contra a vida do próximo (Lv 19,16).
- v. 60. Mas nada encontraram, apesar de se terem apresentado muitas falsas testemunhas. Finalmente, apresentaram-se duas.
Para uma acusação poder ser considerada válida, tinha de ser confirmada por duas testemunhas, pelo menos (Dt 17,6; 19,15; Jo 8,17; cf. 1Rs 21,10). Mas apesar do terem inquirido diversas testemunhas, não o conseguem obter dois testemunhos convergentes.
- v. 61. Que disseram: «Este afirmou: "Posso destruir o Templo de Deus e em três dias edificá-lo"».
v. 61: 27,40; Jo 2,19. Jesus nunca falou da edificação do Templo, apenas da sua destruição (24,2; Mc 13,2; At 6,14), na linha dos profetas (Jr 26,18! Mq 3,12). Só Mateus e João referem a edificação do Templo(não a sua reedificação), o que acontecerá com o novo templo de Deus, a Igreja (16,18). Os termos deste dito de Jesus não indicam que ele só tenha sido escrito depois da destruição do Templo no ano 70 d.C.
- v. 62. Então o Sumo-sacerdote, levantando-se, disse-lhe: «Nada respondes ao que estes testemunham contra ti?».
v. 62: cf. Jo 19,10. Não eram então os acusadores que tinham de provar a verdade da sua acusação, mas o réu que tinha o dever de provar a sua inocência em tribunal. O Sumo-sacerdote, ao ver que a tática anterior nada adiantava, decide interrogar Jesus diretamente.
- v. 63. Mas Jesus calava-se. Então o Sumo-sacerdote disse-lhe: «Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus».
v. 63: 27,11p. Jesus cala-se como o Servo de Iavé (cf. 12,18; Is 53,7; At 8,32). Se Jesus falasse, defendendo-se, então acabaria por acusar e condenar os seus acusadores. Mas Jesus não veio para julgar, acusar ou condenar alguém, mas para salvar. O Sumo-sacerdote intima então Jesus com uma fórmula de juramento, a responder: “Eu te conjuro pelo Deus vivo”. E toca o ponto central identidade de Jesus, interrogando-o se Ele é “o Cristo, o Filho de Deus” (16,16; Jo 10,24).
- v. 64. Diz-lhe Jesus: «Tu o disseste. Digo-vos mais "a partir de agora, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu».
Sem o dizer, Jesus confirma a palavra do Sumo-sacerdote: “Tu o disseste” (v. 25; 27,11; cf. Is 45,23; Rm 14,10; Fl 2,10). A declaração da divindade de Jesus só será explicitamente feita primeiro, após a sua morte, pelo centurião (27,54), depois, após a Sua ressurreição, pelos seus discípulos.
Jesus apresenta-se também que é o Filho do homem, o Messias prometido: “a partir de agora vereis o Filho do homem”: citação de Dn 7,13 (24,30p; cf. At 7,54s); “sentar-se à direita de Deus” (Sl 110,1; Mt 22,44; Hen 69,26-29; Mc 16,19; Hb 1,3.13; 10,12; 12,2; 1Pd 3,22). A paixão de Jesus é a causa e início da sua glorificação (cf. 1Sm 2,6-10), que levará todos a reconhecê-lo como Messias e Filho de Deus, em quem se cumprem as profecias e a quem foi dado o Reino eterno e universal de Deus.
- v. 65. Então o Sumo-sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfémia.
“Rasgar as vestes” em sinal de luto e de dor. Era o que se devia fazer quando se ouvia uma blasfémia (2Rs 18,37-19,1; At 14,14) e se condenava o seu autor à morte (mSanh 7,5). O Sumo-sacerdote, porém, não o devia fazer (Lv 10,6; 21,10!). No processo de Jesus há diversas violações da Lei. “Blasfemou” (9,3): já não são precisas testemunhas, nem provas, pois ouviram Jesus reconhecer com a sua própria boca que é o Filho de Deus. É por blasfémia que Jesus será condenado à morte.
- v. 66. Que vos parece?». Eles responderam: «É réu de morte!».
v. 66: cf. Jo 19,7. A blasfémia era passível de pena de morte (Lv 24,16; cf. 1Rs 21,13), por lapidação. Mas, como não podiam condenar ninguém à morte, as autoridades judaicas vão entregar Jesus às autoridades romanas, sob a acusação de agitador político, a fim de conseguirem que Ele seja crucificado.
- v. 67. Então cuspiram-lhe no rosto e deram-lhe murros, e outros esbofetearam-no,
v. 67: cf. 27,30; Is 50,6. Uma vez que não podiam lapidar Jesus, os próprios membros do Sinédrio começam a punir Jesus, cuspindo na sua cara com desprezo (Jb 30,10), dando-lhe murros com ódio e bofetadas com desdém (5,39; Jb 16,10!; Lm 3,30). Jesus é assim apresentado como sendo o Servo de Iavé.
- v. 68. Dizendo: «Profetiza-nos, ó Cristo: quem te bateu?»
v. 68: cf. 21,11.46. Outros (talvez os saduceus, que, na linha de Dt 18,18 aguardavam a vinda do Profeta) fazem pouco de Jesus como falso profeta. Uma vez que profetas gozam do dom do conhecimento, vendo o que não se podia ver (2Rs 5,26; 6,12; Jo 4,19; 1Cor 14,24s), escarnecem-no, desafiando-o a provar a sua inocência, adivinhando quem lhe bateu. Mateus abrevia aqui de tal forma Marcos, que se esquece de referir que, antes de bater em Jesus, para lhe perguntar quem é que lhe tinha batido, lhe tinham vendado os olhos (Mc 14,64), resultando desta forma a narrativa mateana algo confusa.
- v. 69. Entretanto, Pedro estava sentado lá fora, no átrio. Aproximando-se, uma criada disse: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu!»
v. 69: v. 58 (vv. 69-75: Mc 14,66-72; Lc 22,56-62; Jo 18,15-18.25ss). Pedro nega Jesus. Tal como Jesus predissera (vv. 34.75), Pedro nega-o na mesma noite em que declarou ser capaz de dar a vida por Ele (v. 35). Cumpre-se assim a palavra de Jesus. As negações são apresentadas num triplo par de acusações-respostas, numa graduação de gravidade. Para a casuística judaica, a apostasia (negação da fé) em tempos de perseguição era graduada segundo uma escala de gravidade: a negação privada era menos grave do que a pública e a negação evasiva menos grave do que a explícita. Pedro está no pátio da casa de Caifás e uma das criadas interpela-o, apontando-o como um dos discípulos de «Jesus, o Galileu» (cf. At 4,13). Os galileus tinham fama de ser revolucionários, levantando sedições contra Roma (At 5,37).
- v. 70. Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei de que estás a falar».
Pedro cai na primeira negação, feita diante de todos, embora evasiva e de caráter privado.
- v. 71. Ao sair para o portão, uma outra viu-o e diz aos que ali estavam: «Este estava com Jesus, o Nazareno!»
Pedro aproxima-se do portão e uma outra mulher também o reconhece como discípulo de Jesus Nazareno.
- v. 72. E novamente negou com juramento: «Não conheço tal homem!»
Pedro nega de forma pública e explícita, acompanhada de juramento (5,33; Lv 5,4; Zc 5,4; 8,17; Ml 3,5), que conheça «o homem», não pronunciando sequer o nome de Jesus (cf. At 2,21.38).
- v. 73. Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Na verdade também tu és um deles, pois o teu modo de falar te denuncia».
A terceira afirmação é feita pelos que escutaram o que Pedro disse na segunda vez, confirmando a suspeita da mulher pelo sotaque de Pedro, mostrando que é galileu (cf. At 2,7; Jz 12,6).
- v. 74. Então ele começou a imprecar e a jurar: «Não conheço tal homem!». E nesse momento um galo cantou.
Pedro responde, imprecando (gr. katanathematizo, só aqui) e jurando (5,34.36; Is 48,1), repetindo que não conhece «o homem» (v. 72): a terceira negação é pública e explícita, reforçada com juramento e pragas (anathematizo: At 23,12.14.21).
Uma tríplice afirmação – neste caso, uma tríplice negação – significa a confirmação consolidada do que se diz (“três vezes”: Jz 16,15; 1Sm 20,41). É então, após a terceira negação, que ouve um galo a cantar. “O canto do galo” era o momento em que se passava da terceira vigília da noite para a quarta (três da madrugada).
- v. 75. Pedro recordou-se, então, da palavra que Jesus lhe dissera: «Antes que o galo cante, três vezes me negarás». E, saindo dali para fora, chorou amargamente.
v. 75: v. 34p. Pedro descobre assim a sua fraqueza, que é a fraqueza da carne (26,41; 2Cor 13,4; Hb 7,28). Não é, porém, para os fortes que Jesus veio, mas para os que têm males (9,12) e não são os fortes, mas os fracos que Deus escolheu (1Cor 1,27). Vendo-se traído pela sua fraqueza, que o levou a negar por três vezes Jesus, Pedro, ao contrário de Judas, que se condena a si mesmo e se suicida (27,3ss), arrependeu-se e “chorou amargamente” (Is 22,4; 2Cor 7,9; cf. Jz 2,4s).
- 27,1. Ao romper da manhã, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se em conselho contra Jesus, para o matarem.
(vv. 1-2: Mc 15,1; Lc 23,1; Jo 18,28) Jesus é entregue a Pilatos.
“Ao romper da manhã”: era logo de manhã que começavam os julgamentos, nos quais se devia administrar justiça verdadeira (Jr 21,12!; Ex 18,13s; cf. Sl 101,8; Sf 3,5). Neste caso, será para fazer sofrer de forma iníqua o justo (Sl 73,14!).
“Todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo”: o Sinédrio reúne-se na totalidade dos seus 23 membros. Embora os escribas não sejam mencionados (cf. 16,21; 20,18), pressupõe-se a sua presença, já assinalada há pouco, no início do processo (26,57). Eles serão novamente mencionados no termo do processo, junto à cruz (v. 41). “Anciãos do povo” (21,23; 26,3.47): ao explicitar que são os anciãos, as autoridades representativas, “do povo”, Mateus sublinha não apenas o seu poder, mas também o facto de através dele ser o povo de Israel a “entregar” Jesus à morte (v. 25).
“Reuniram-se em conselho” (gr. symboúlion lambáno): a expressão aparece só em Mateus (12,14; 22,15; 27,7; 28,12) significando sempre a tomada de uma decisão. “Contra Jesus”: não se trata de uma nova sessão do Sinédrio, mas da mesma que teve lugar na casa de Caifás.
“Para o matarem” (26,59; cf. Sl 109,16; Dn 13,28): apesar da sentença de morte já ter sido pronunciada durante a noite (26,66), para que uma sessão do Sinédrio pudesse ser considerada válida, tinha de ser realizada no lugar próprio das suas sessões judiciárias. Aí os membros (23 neste caso) sentavam-se em semicírculo. O presidente – neste caso, Caifás – sentava-se ao centro. Dois escribas judiciais colocavam-se diante dos juízes, um à direita e outro à esquerda (mSan 4,3). No meio da sala, estava, de pé, o acusado, rodeado de guardas. Tinha então lugar a sessão oficial. Além disso, para que a decisão pudesse ser considerada válida, o veredicto tinha de ser lavrado durante o dia. É esta a razão pela qual, além da reunião do Sinédrio menor durante a noite em casa de Caifás, eles reúnem novamente, agora, de manhã, para oficializar o julgamento e o veredicto, a fim de poderem depois apresentar Jesus a Pilatos como tendo sido legitimamente julgado e sentenciado.
Ao dizer que esta reunião foi feita para matarem Jesus, Mateus apresenta as autoridades judaicas, reunidas no Sinédrio, como sendo as verdadeiras responsáveis pela morte de Jesus, e não Pilatos, que apresenta como procurando ilibar Jesus ao máximo.
- v. 2. E, depois de o amarrarem, levaram-no e entregaram-no a Pilatos, o Governador.
v. 2: cf. 20,19. Como o Sinédrio podia decidir nas causas que lhe eram próprias, mas não tinha o poder de condenar ninguém à morte (o ius gladii: Jo 18,31; Fl.Jos. Bell. 2,8,1; tinha-lhe sido retirado nesse ano, quarenta anos antes da destruição do Templo: pSanh 7,2,4 [7,24b,43]), eles têm de “levar” (gr. apágo: v. 31; 26,57; Dn 13,44) Jesus ao Governador romano, fazendo-o comparecer em tribunal como revoltoso (cf. v. 11) para conseguir que Ele seja condenado à morte, neste caso, por crucifixão (cf. vv. 20-23).
Para isso, começam por “amarrar” Jesus como prisioneiro (14,3; 22,13; cf. At 9,2.14.21). Só agora é que Jesus é amarrado, segundo Mateus, que nesta narrativa segue Marcos (Mc 15,1; segundo Jo 18,12.24, Jesus foi amarrado logo no Getsémani). A ação de “amarrar” indica que se trata de alguém perigoso (12,229; 14,3; cf. Mc 5,3-4; At 21,33.38).
“E entregaram-no” (vv. 3.4.18), subentende-se, “para ser crucificado” (26,2; 27,26). Ao usar o verbo entregar” para designar esta ação das autoridades judaicas, Mateus qualifica-a como uma traição (tal como a de Judas: v. 3). Os judeus faziam questão de serem eles mesmos a julgar os membros do seu próprio povo (cf. At 23,12-15), de modo que nunca “entregavam” ninguém às autoridades gentias, neste caso romanas, a quem não reconheciam autoridade nenhuma para os julgar, uma vez que estas o faziam em nome dos seus deuses. Tal era o ódio das autoridades judaicas contra Jesus (cf. Lc 20,20), que Ele é o único caso conhecido a quem isto aconteceu.
“A Pilatos, o Governador”: só agora aparece o nome do “Prefeito” (lat. Perfectus, designação oficial) ou “Procurador” romano (cf. Fl.Jos. Ant. 18,3,1). Pôncio Pilatos foi o 5º governador da província romana da Judeia, de 26 a 36 d.C.
EM CONSTRUÇÃO...
- v. 3. Então Judas, aquele que o tinha entregado, ao ver que Ele fora condenado, encheu-se de remorsos e devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos.
v. 3: 10,4; 26,14.16.25.48-49. O remorso e morte de Judas (vv. 3-10). “Judas”: é Judas Iscariotes, o traidor, “que tinha entregado” Jesus às autoridades judaicas.
“Ao ver que Ele tinha sido condenado”: Jesus ainda não tinha sido condenado à morte, pois só o será depois do processo conduzido por Pilatos (v.26). Mateus, uma vez mais, mostra que os verdadeiros responsáveis da entrega, condenação e morte de Jesus na cruz são os membros do seu povo, a começar por Judas, seu próprio discípulo.
“Encheu-se de remorsos”, sabendo que é o primeiro responsável por este momento (cf. 26,14-15).
- v. 4. Dizendo: «Pequei, ao entregar sangue inocente». Mas eles disseram: «Que nos importa? Isso é contigo!».
“Pequei”: Dt 27,25; cf. Pv 1,11-19.24-29. “Inocente”: v. 24; Dt 19,10; 27,25. “Isso é lá contigo”: lit. Tu verás: v. 24.
- v. 5. Então ele, tendo atirado as moedas de prata para o Templo, retirou-se e foi-se enforcar.
v. 5: cf. 2Sm 17,23. Judas atira as moedas de fora para dentro do Templo (Zc 11,13), por não poder entrar no templo, visto não ser sacerdote.
- v. 6. Os chefes dos sacerdotes, tendo apanhado as moedas de prata, disseram: «Não é lícito deitá-las no tesouro do Templo, porque são preço de sangue».
v. 6: Dt 23,19. Lit. Corbanas, era o tesouro do Templo (de corban, he. “aproximação”, Mc 7,11, um dos cinco tipos de sacrifícios que se podiam oferecer no Templo, à exceção da oferenda consagração: Lv 7,37). Cf. Mc 12,41.43; Lc 21,1; Jo 8,20.
- v. 7. E, depois de se terem reunido em conselho, compraram com elas o Campo do Oleiro, para sepultura dos estrangeiros.
vv. 7-8: At 1,18s.
- v. 8. Por isso, aquele campo é chamado "Campo de Sangue" até ao dia de hoje.
- v. 9. Cumpriu-se então o que tinha sido dito por meio do profeta Jeremias: “E tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele foi avaliado, daquele que os filhos de Israel avaliaram”.
v. 9: 26,15. Trata-se de uma citação composta e livre de Zc 11,13…
- v. 10. E “deram-nas pelo Campo do Oleiro”, como me tinha ordenado o Senhor”.
… e de Jr 18,2s; 32,8s; Ex 9,12 LXX.
- v. 11. Entretanto, Jesus foi feito comparecer diante do governador e o governador interrogou-o, dizendo: «Tu és o Rei dos judeus?» Jesus disse: «Tu o dizes».
(vv. 11-14: Mc 15,2-5; Lc 23,2s; Jo 18,29-38). Jesus perante Pilatos.
v. 11: 1Tm 6,13.
“Rei dos judeus”: vv. 29.37; 2,2. “Tu o dizes”: 26,25.64; cf. Is 45,23; Rm 14,11; Fl 2,11.
- V. 12. E ao ser acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.
“Acusar”: Lc 23,10; At 22,30; 24,2. Jesus cala-se (26,63; Sl 38,14s; Lc 23,9) para não envergonhar o seu povo: é o Servo de Iavé (Is 53,7).
- v. 13. Diz-Lhe então Pilatos: «Não ouves quantas coisas testemunham contra Ti?».
- v. 14. E Ele não lhe respondeu nem uma palavra, a ponto de o governador ficar muito admirado.
v. 14: Jo 19,9. Admirado: Is 52,15; Sl 48,6.
- v. 15. Ora, era costume, por ocasião da festa da Páscoa, o governador libertar um preso para a multidão, aquele que eles quisessem.
(vv. 15-23: Mc 15,6-14; Lc 23,17-23; Jo 18,39s) Jesus ou Barrabás. O costume de amnistiar um prisioneiro pela desta da Páscoa (privilegium paschale) só é atestado pelos Evangelhos. O Papyrus Florentinus 61, 59.64 (Papyrus Florentinus 61, in: Supplementi Filogico-Storici ai Monumenti Antichi Papiri Greco-Egizzi pubblicati della Reale Academia dei Lincei, 1 [Milano 1906], tavola IX; 85 d.C.), procedente do Egito, e uma inscrição de Éfeso do ano 441, testemunham amnistias: o primeiro testemunha que o oficial romano G. Septimus Vegetus, a pedido da população, desistiu da punição de um suspeito, Phibion; a segunda atesta a libertação dum prisioneiro; mas nenhum deles tinha sido condenado à pena capital. Sabe-se também que em Jerusalém os judeus a quem fora prometida a libertação da prisão na véspera da Páscoa, podia comer do cordeiro pascal (mPes 8,6). Pode ter sido um ato de boa vontade da parte de Pilatos, como mostra Marcos, mas não se tratava de um costume, como indicam Mateus, Lucas e João.
- v. 16. Tinham então, um preso famoso, chamado Barrabás.
“Barrabás” é a transliteração grega do aramaico bar-'abbas (“filho de um pai”, ou seja, filho de pai incógnito). Nota-se a ironia de o seu nome ser uma paródia do verdadeiro título de Jesus, “Filho de Deus” (14,33; 16,16; 27,40.54).
- v. 17. Estando eles, pois, reunidos, disse-lhes Pilatos: «Quem quereis que vos liberte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?».
“O Cristo”: v. 22; 1,16. O título messiânico já aparece aqui como nome próprio de Jesus.
- v. 18. Sabia, de facto, que o tinham entregado por inveja.
- v. 19. Enquanto ele estava sentado no tribunal, a sua mulher mandou-lhe dizer: «Que nada haja entre ti e esse justo, porque sofri muito hoje num sonho por causa dele».
“Sentado no tribunal”: At 25,17. “Justo”: Dt 25,1; Sl 94,21; Lc 23,47; At 3,14; 22,14; cf. Tg 5,6. Só Mt apresenta o temor sagrado da mulher de Pilatos – uma gentia, considerada ímpia pelos judeus – em contraposição com a atitude dos chefes dos judeus.
- v. 20. Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram as multidões a pedir Barrabás e a fazer perecer Jesus.
“As multidões”: pela primeira vez, nos Sinóticos, o povo judaico – e não apenas os seus dirigentes – aparece implicado e é responsabilizado pela morte de Jesus.
- v. 21. Tomando a palavra o governador disse-lhes: «Qual dos dois quereis que eu vos liberte?» Eles disseram: «Barrabás».
v. 21: At 3,13ss; 13,27s.
- v. 22. Diz-lhes Pilatos: «Que farei então de Jesus, chamado Cristo?» Dizem todos: «Seja crucificado».
v. 22: v. 17. Este é o primeiro dos três gritos a exigir a pena de morte para Jesus. vv. 23.25.
- v. 23. Ele, porém, disse: «Mas que mal fez Ele?». Eles, porém, gritavam ainda mais, dizendo: «Seja crucificado».
- v. 24. Pilatos, então, ao ver que nada conseguia, mas que antes aumentava o tumulto, tendo tomado água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é convosco».
(vv. 24-26: Mc 15,15; Lc 23,24s; Jo 19,16a) Condenação de Jesus à morte. “Inocente”: v. 4; Jr 26,15! 7,6; Sl 64,21; cf. Dn 13,53. “Lavar as mãos” em sinal de inocência: Dt 21,6ss; Sl 26,6; 73,13. “Isso é lá convosco”, lit. vós vereis (cf. v. 4).
- v. 25. E todo o povo respondeu, dizendo: «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
Condenaram o justo: Dn 13,46; Pv 17,15; At 4,27s; 7,52. “Caia o sangue”: At 5,28; Dt 19,13; 2Sm 3,29; Jr 51,35; cf. Nm 35,33.
- v. 26. Então libertou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado flagelar Jesus, entregou-o para que fosse crucificado.
v. 26: 20,19; 26,2; cf. 23,34s; Hb 12,2s. Flagelar (gr. fragellóô, do lat. flagellum) era a pena terrível que antecedia a crucificação.
- v. 27. Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta dele toda a coorte.
(vv. 27-31: Mc 15,16-20; Jo 19,2s). Os soldados escarnecem Jesus no pretório. O pretório era a parte central da legião romana, o lugar onde residia o Pretor e os oficiais. Era aí que se instalava o Governador romano, quando se deslocava de Cesareia Marítima a Jerusalém, por altura das grandes festas, para vigiar e manter segura a cidade, devido ao grande afluxo de peregrinos.
“Reuniram”: Sl 35,15s. A coorte era a décima parte da legião romana (cf. Fl.Jos. Bell. 1,15,6). Compunha-se de três manípulos, sendo cada um deles formado por duas centúrias, contando assim com 600 soldados, que formavam uma unidade de elite chamada “guarda pretoriana”. O seu símbolo era o escorpião, que exibiam nos seus escudos e no seu estandarte, o vexillum.
- v. 28. E, tendo-o despido, cobriram-no com um manto escarlate.
“Manto”, lit. clâmide, do gr. khlamys, manto que os antigos gregos e, depois, os romanos – sobretudo os soldados e os mensageiros – usavam, seguro por um broche (lat. fibula) ao pescoço ou sobre o ombro direito. O “escarlate” era a cor das vestes dos ricos: 2Sm 1,24; Jr 4,30; Ap 17,3s; cf. Is 63,2s; Ap 19,13.
- v. 29. E tendo entrelaçado uma coroa de espinhos, puseram-lha sobre a sua cabeça e uma cana na sua mão direita. E ajoelhando-se diante dele, escarneciam-no, dizendo: «Alegra-te, Rei dos judeus!»
v. 29: 26,49. Cf. Is 45,23; Rm 14,11; Fl 2,11. “Escarnecer”: 20,19; cf. Hb 1,10. “Alegra-te” (gr. kairé): novamente a saudação habitual grega, feita cinicamente, como já a tinha feito Judas (26,49).
- v. 30. E cuspindo nele, pegaram na cana e batiam-lhe com ela na cabeça.
“Cuspiam”: 26,6; Is 50,6. “Batiam-lhe com a cana na cabeça”: cf. Mq 4,14.
- v. 31. E depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto, vestiram-lhe as suas vestes e levaram-no para ser crucificado.
O condenado era levado nu para o suplício; o caso de Jesus é uma exceção: ele é levado com as suas vestes para a cruz como o sumo-sacerdote devia levar as suas vestes próprias quando exercia as funções sagradas (Lv 21,10), em particular no dia da Expiação (Lv 16,4).
- v. 32. Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a sua cruz.
(vv. 32-44: Mc 15,21-32; Lc 23,26.33-43; Jo 19,17-19). A crucificação de Jesus. “Ao saírem”: do Pretório. Um homem de Cirene, lit. um homem cireneu. Cirene (At 6,9) era uma cidade fundada pelos gregos no norte de África, na atual Líbia (perto da cidade moderna de Xaate), e Simão era, como o nome indica, um judeu dessa colónia que em 96 a.C. se tinha tornado sede da província romana com o mesmo nome. As tropas romanas gozavam do direito de requisição de um passante, sem pagar (cf. 5,41), neste caso para carregar o patíbulo, que pesava cerca de 40 kg. Embora o percurso que Jesus teve de percorrer do pretório até ao Gólgota seja pequena (c. 600 metros), o estado em que o deve ter deixado a terrível flagelação (v. 26) devia ser tão lastimoso, que os soldados romanos tiveram medo que Jesus morresse pelo caminho, antes de ser crucificado – o que se tal acontecesse, faria com que eles fossem punidos com a pena capital –, tendo eles, por isso, requisitado Simão, o Cireneu.
- v. 33. E tendo chegado ao lugar chamado Gólgota, que significa “Lugar da Caveira”.
- v. 34. Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel; provou-o, mas não o quis beber.
v. 34: Sl 69,22. Esta mistura era uma espécie de sedativo para aliviar os sofrimentos dos supliciados à morte.
- v. 35. Depois de O terem crucificado, repartiram as suas vestes, lançando sortes,
v. 35: Sl 22,19.
- v. 36. e, sentados, ficaram ali a guardá-lo.
- v. 37. E por cima da sua cabeça puseram escrita a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus».
"Jesus, Rei dos judeus": é o titulus crucis, que o condenado levava ao pescoço e que depois de se encaixar o patíbulo no stipes, em forma de “T” se fixava sobre a cruz. Existe uma cópia deste em Roma, na Igreja da Santa Croce in Gerusalemme.
- v. 38. Foram então crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.
v. 38: Is 53,12. vv. 38-43: Mc 15,27-32a; Lc 23,35-38.
- v. 39. Os que passavam insultavam-no, abanando as suas cabeças.
v. 39: Sl 22,8; 109,25; Lm 2,15; “Os que passavam”: Lm 1,12; Sl 79,13.
- v. 40. e dizendo: «Tu que destróis o templo e em três dias o reedificas, salva-te a Ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz».
v. 40: 26,61; Jo 2,19. “Se é Filho de Deus”: 4,3! Sb 2,18.
- v. 41. Da mesma forma, também os chefes dos sacerdotes escarnecendo dele, juntamente com os escribas e os anciãos, diziam:
v. 41: 16,21.
- v. 42. «Salvou a outros, mas a Si mesmo não se pode salvar! É o Rei de Israel: desça agora da cruz e acreditaremos nele!
“O Rei de Israel”: Is 43,15; 44,6; Sf 3,15; Sl 149,2; Jo 1,49; cf. 1Sm 8,7.
- v. 43. Confiou em Deus; livre-o agora, se Lhe quer bem, pois disse: ‘Sou Filho de Deus’».
v. 43: Sl 22,9; Sb 2,13.18-20. “Filho de Deus”: v. 54; 16,16.
- v. 44. Do mesmo modo o insultavam os salteadores que tinham sido crucificados com Ele.
v. 44: Mc 15,32b; Lc 23,39-43.
- v. 45. A partir da hora sexta fizeram-se trevas sobre toda a terra até à hora nona.
(vv. 45-54: Mc 15,33-39; Lc 23,44-48; Jo 19, 28-30). A morte de Jesus. A hora sexta corresponde aproximadamente às doze horas, e a hora nona às três da tarde. Trevas: é o sinal do Dia do Senhor: Am 8,9!; Jr 15,9; Sf 1,15.
- v. 46. Pela hora nona, Jesus gritou com voz forte, dizendo: «Eli, Eli, lemá sabactáni?», isto é: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?».
v. 46: Sl 22,2. A hora nona era a hora em que se oferecia o cordeiro do sacrifício diário da tarde (Nm 28,4.8) e se imolava, no dia 14 de nisan, o cordeiro pascal (Ex 12,6).
- v. 47. E alguns dos que ali estavam em pé, ao ouvirem isto, diziam: «Este está a chamar por Elias».
- v. 48. E logo um deles foi a correr, tomou uma esponja, e depois de a ter embebido em vinagre, pô-la numa cana e dava-lhe de beber.
v. 48: Sl 69,22.
- v. 49. Os outros, porém, diziam: «Deixa. Vejamos se Elias o vem salvar».
v. 49: cf. 17,11; Ml 3,23; Sir 48,10s. A menção de Elias aqui indica não só que a morte de Jesus foi por amor, devendo dela brotar a vida, mas que é neste momento que chega o Dia do Senhor, com o qual começa a verdadeira restauração de todas as coisas.
- v. 50. Mas Jesus, gritando novamente com voz forte, entregou o espírito.
“Entregou”, lit. “deixou ir”, “enviou”.
- v. 51. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se.
Os vv. 51-53 apresentam uma sugestiva moldura imagética apocalíptica do dia do Senhor, própria de Mateus, que assim mostram que chegaram os tempos messiânicos, o tempo do fim: rasgão do véu do templo (Ex 26,31ss; Hb 6,19), que põe a descoberto a Arca da Aliança (Ap 11,19); o tremor de terra (v. 54; 28,2; Sl 18,8; Hb 12,26). - v. 52. E abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram;
v. 52: Ez 37,12ss; Dn 12,2.13; Is 26,19. A abertura dos túmulos abertos, os mortos que ressuscitam (cf. Lc 9,18) e aparecerem aos vivos. “Adormecido”: 1Cor 15,20; cf. 1Ts 4,13-15.
- v. 53. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
v. 53: “Cidade Santa”, 4,5; Ne 11,1.18; Is 48,2; 52,1; Dn 9,24 (Theod.). Os santos só saem dos sepulcros depois de Jesus ter ressuscitado: a morte e a ressurreição de Jesus são a causa da nossa ressurreição, estendendo-se a todos os homens, vivos ou mortos (At 10,42; Rm 14,9; 2Tm 4,1; 1Pd 4,5s).
- v. 54. Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, ao verem o terramoto e o que estava a acontecer, tiveram grande temor e disseram: «Verdadeiramente este era Filho de Deus».
v. 54: 16,16.
- v. 55. E estavam ali, de longe, a observar, muitas mulheres, as quais tinham seguido Jesus desde a Galileia, para o servir.
(vv. 55-56: Mc 15,40s; Lc 23,49; Jo 19,25). As mulheres que seguiam Jesus desde a Galileia: Lc 8,2. “De longe”: 26,58; cf. Sl 38,12.
- v. 56. Encontravam-se entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
v. 56: v. 61; 28,1p. “Maria Madalena”: Mc 16,9; Lc 8,2; “Maria, mãe de Tiago e de José”: Mc 16,1; “a irmã da Mãe de Jesus, Maria de Clopas ou Cléofas: Jo 19,25; “Mãe dos filhos de Zebedeu”: 20,20s (Salomé: Mc 15,40; 16,1); “Filhos de Zebedeu”: 4,21!; 26,37.
- v. 57. Ao cair da tarde, veio um homem rico, de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus.
(vv. 57-61: Mc 15,42-47; Lc 23,50-55; Jo 19,38-42) Sepultura de Jesus. “Rico”: cf. Is 53,9 LXX. Arimateia, povoação de Judá, a nordeste de Lida (cf. Dt 21,22s).
- v. 58. Ele foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos ordenou que lho dessem.
- v. 59. E José, tendo tomado o corpo, envolveu-o num lençol de linho puro,
v. 59: cf. 1Rs 13,29s; O lençol (gr. sindôn) é de linho, limpo, isto é, puro (cf. Ap 15,6).
- v. 60. pô-lo no sepulcro novo que era dele e que tinha talhado na rocha; e (depois) de ter rolado uma grande pedra para a porta do sepulcro, foi-se embora.
v. 60: At 13,29. Cf. Is 53,9 LXX. O sepulcro é novo, portanto puro. Ao invés dos cadáveres que tornavam impuro tudo o que neles tocava (cf. Lv 21,1.11; Nm 6,6s; 9,6-15 [relativo à Páscoa]); 19,11.13.16, o corpo de Jesus, coberto de sangue, santifica tudo o que toca. Pedra do sepulcro: cf. 28,2; Mc 16,4.
- v. 61. E estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas, em frente do túmulo.
v. 61: v. 56.
- 62. No dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os chefes dos sacerdotes e os fariseus e foram ter com Pilatos,
(vv. 62-66) O sepulcro é guardado. É um episódio exclusivo de Mateus. Paraskevé (gr.) refere-se ao dia da preparação, ou seja, o dia antes do sábado (cf. Jo 19,42). Neste caso é no sábado que vão falar com Pilatos.
- 63. dizendo: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor, quando ainda estava vivo, disse: "Três dias depois, ressuscitarei".
“Sedutor do povo”: Jo 7,12.47; Lc 23,5.14. “Três dias depois”: 12,40; 27,40. Trata-se de uma passagem redigida depois dos acontecimentos, pois Jesus só o anunciou aos discípulos: 16,21; 17,23; 20,19.
- 64. Ordena, pois, que o túmulo seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso de os seus discípulos virem, o roubarem e dizerem ao povo: "Ressuscitou dos mortos". E seria pior a última impostura do que a primeira».
“Os discípulos vieram roubar o corpo”: 28,13. “Pior”: 12,45.
- 65. Pilatos respondeu-lhes: «Tendes a guarda. Ide embora e guardai-o com segurança, como entenderdes».
“Guarda”: lit. “custódia” (do lat. custodia, “guarda” composta de soldados): v. 66; 28,11. Um grupo de guardas, entre 4 a 16 soldados (At 12,4), que vigiavam algum lugar ou alguém. Estes guardas podem não ser do exército romano, mas dos que estão ao serviço do templo: “tendes a guarda” (cf. At 5,26).
- 66. E, tendo eles ido, guardaram o túmulo com segurança, selando a pedra e pondo aí a guarda.
“Selaram a pedra”: Dn 6,18.
A morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém, mais radical e mais verdadeira (porque feita em silêncio e marcada com o próprio sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço. Na paixão de Jesus vemos aparecer o Homem Novo, que ama radicalmente e faz da sua vida dom para todos, a ponto causar espanto e admiração a todos.
Mateus insiste no facto de os acontecimentos estarem relacionados com o cumprimento das Escrituras, a fim de demonstrar que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas, o justo perseguido cujo destino passava pelo dom da vida (cf. Sb 2,12-20; Is 52,13-53,12).
São exclusivos de Mateus o sonho da mulher de Pilatos (v. 19) e a lavagem das mãos por parte do Procurador romano (v. 24). Por um lado, Mateus quer deixar claro que Jesus é inocente, o que os próprios romanos reconhecem; por outro, sugere que não foi o império romano, mas sim o seu próprio povo que O rejeitou.
Também é exclusiva de Mateus a descrição destes factos que acompanharam a morte de Jesus: “a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (vv. 51-53). Trata-se de elementos simbólicos, retirados da tradição apocalíptica judaica (como a ressurreição dos justos) que Mateus utiliza para indicar que com a morte de Jesus se entrou no final dos tempos (cf. Dn 12,2). Apesar do aparente fracasso de Jesus, Deus está ali a manifestar-Se n’Ele, mostrando que é o Messias, o Filho de Deus, Salvador, cuja morte é fonte de vida e nos abre as portas do Reino dos céus (“a cidade santa”: cf. Lc 23,43), inaugurando a nossa própria ressurreição, no fim do tempo.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Qual é a minha imagem de Deus: um Deus que age como Senhor absoluto ou aquele que serve e dá a vida?
- Que vejo na cruz do Senhor: uma tragédia, uma fracasso, um castigo de Deus ou a suprema manifestação do amor de Deus?
- Como reajo perante a cruz na vida: fugindo, negando ou traindo? Sinto necessidade de ser transformado pelo amor de Jesus?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 22,8-9.17-20.23-24 (R. 2a)
Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?
Todos os que me veem escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor, Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo». R.
Matilhas de cães me rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos. R.
Repartiram entre si as minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.
Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me. R.
Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,
glorificai-O, reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.