5º Domingo da Quaresma, ano A – 22 de março de 2026


Eu sou a Ressurreição e a vida 1

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. João (11,1-45)

Naquele tempo, 11,1estava doente um certo homem, Lázaro, de Betânia, a aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria, cujo irmão Lázaro estava doente, era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos. 3As irmãs mandaram então dizer-Lhe: «Senhor, eis que aquele de quem és amigo está doente». 4Ao ouvir isto, Jesus disse: «Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que por meio dela seja glorificado o Filho de Deus». 5Ora Jesus amava Marta e a irmã dela e Lázaro. 6Mas quando ouviu dizer que estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7Depois disto, diz aos discípulos: «Vamos para a Judeia novamente». 8Dizem-Lhe os discípulos: «Rabbi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te e tu vais novamente para lá?». 9Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas se alguém caminhar de noite, tropeça, porque a luz não está nele». 11Disse estas coisas e depois disto, diz-lhes: «Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas Eu vou para o despertar». 12Disseram-lhe então os discípulos: «Senhor, se dorme, será salvo». 13Jesus, porém, referia-se à morte dele, mas eles pensavam que estivesse a falar do repouso do sono. 14Jesus disse-lhes então claramente: «Lázaro morreu. 15E alegro-me por causa de vós, por não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele». 16Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: «Vamos nós também, para morrermos com Ele». 17Ao chegar, Jesus encontrou-o há já quatro dias no sepulcro. 18Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. 19Muitos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as confortar por causa do irmão. 20Quando Marta ouviu dizer: “Jesus vem”, foi ao seu encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa. 21Marta disse então a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido. 22Mas sei que também agora tudo o que pedires a Deus, Deus to dará». 23Diz-lhe Jesus: «O teu irmão ressuscitará». 24Diz-lhe Marta: «Eu sei que há de ressuscitar, na ressurreição, no último dia». 25Disse-lhe Jesus: «Eu Sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que morra, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?». 27Diz-Lhe: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo». 28Dito isto, partiu e foi chamar Maria, sua irmã, dizendo-lhe em segredo: «O Mestre está cá e chama-te». 29Quando ela ouviu isto, levantou-se depressa e veio ter com Ele. 30De facto, Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta tinha vindo ao seu encontro. 31Então os judeus que estavam com ela em casa e a confortavam, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, pensando que fosse ao sepulcro para ali chorar». 32Quando Maria chegou aonde Jesus estava, vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido». 33Então Jesus, quando a viu chorar e vendo chorar também os judeus que tinham vindo com ela, fremiu no espírito e ficou perturbado. 34E disse: «Onde o pusestes?». Dizem-Lhe: «Senhor, vem e vê». 35Jesus chorou. 36Diziam, então, os judeus: «Vede como era seu amigo». 37Mas alguns deles disseram: «Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer com que este não morresse?». 38Então, Jesus, fremindo novamente em si mesmo, vem ao sepulcro. Era uma gruta e tinha sido posta uma pedra sobre ela. 39Diz Jesus: «Retirai a pedra». Diz-lhe Marta, a irmã do defunto: «Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia». 40Diz-lhe Jesus: «Não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?». 41Retiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos ao alto e disse: «Pai, dou-Te graças, porque Me ouviste. 42Eu bem sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa da multidão que me rodeia, para que acreditem que Tu Me enviaste». 43Dito isto, clamou com voz forte: «Lázaro, vem para fora». 44O morto saiu, com as mãos e os pés enfaixados com ligaduras e o seu rosto envolvido num sudário. Diz-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». 45Então muitos judeus, que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que fizera, acreditaram nele.

     Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

O Quarto Evangelho, de João, apresenta Jesus como o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar o Homem Novo. O trecho de hoje apresenta o sétimo sinal do “Livro dos Sinais” (1,19-12,50): a vida. Ele é a primeira parte do díptico que contrapõe o dom da vida aos homens por Jesus (11,1-45) e a sua condenação à morte pelos homens, os dirigentes judaicos (11,46-54).

O presente texto pode ser dividido em quatro partes: situação (vv. 1-6); a decisão da subida de Jesus à Judeia (vv. 7-16); a chegada de Jesus a Betânia (vv. 17-33); a ressurreição Lázaro (vv. 34-45).

  • v. 1. Estava doente um certo homem, Lázaro, de Betânia, a aldeia de Maria e de Marta, sua irmã.

    Está próxima a festa da Páscoa (v. 55), a terceira e última do ministério público de Jesus. A cena decorre em Betânia (“Casa dos pobres”, a atual al-‘Eizariya, árabe: “lugar de Lázaro”; a cerca de 2,8 km de Jerusalém [cf. v. 18], num dos caminhos que leva de Jerusalém a Jericó [agora, com o muro, dista 9,7-14,2 km]) e narra um episódio familiar triste: a morte de Lázaro.

    A família, em cuja casa Jesus se vai hospedar, é íntima de Jesus (cf. Lc 10,38-42). É aí que Jesus se hospeda quando vai a Jerusalém (Mc 11,11-12; Mt 21,17), especialmente por ocasião da Páscoa (12,1). Os três, Marta (he. “senhora”, só aqui), Maria (egípcio: “muito amada por Deus”) e Lázaro, são irmãos (v. 2). “Lázaro” é a forma latinizada (e virtualmente grega) do nomo hebraico Lazar, uma abreviação de Eleazar (he. “Deus ajuda”). “Irmão” é a palavra que Jesus usará após a ressurreição para definir a comunidade dos discípulos (20,17; 21,23). A relação de Jesus com Lázaro é de afeto e amizade (gr. philéô, “ter amizade”, “ser amigo”: vv. 3.36; agapáô, “amar”: v. 5). Lázaro fica doente.

  • v. 2. Maria, cujo irmão Lázaro estava doente, era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.

    Todo este episódio da ressurreição de Lázaro é narrado por João em retrospetiva, a partir da luz que sobre ele projeta a ressurreição de Jesus. Por isso, o evangelista  começa logo por referir no segundo versículo, como sendo já conhecida e tendo sido já feita a ação de Maria aqui, em Betânia, “seis dias antes da Páscoa” (12,1), quando ungiu os pés de Jesus com perfume e os enxugou com os cabelos. Embora só tenha sido feita aos pés de Jesus, João diz aqui que ela foi feita “ao Senhor” (gr. Kyrios, o título pascal de Jesus: 20,2.18.20.25.28), ou seja, a Jesus todo, a todo o seu corpo (Mc 14,8), uma vez que vê nela um anúncio da morte e sepultura de Jesus (12,7;  cf. 19,39-40; Mc 16,1; Lc 24,1).

  • v. 3. As irmãs mandaram então dizer-Lhe: «Senhor, eis que aquele de quem és amigo está doente».

    Jesus encontra-se na Pereia, no outro lado do rio Jordão (a Transjordânia), na outra Betânia (na realidade, Bethabara: 10,40; 1,28), para onde tinha ido para ficar a salvo das autoridades judaicas. “As irmãs” de Lázaro mandam dizer-Lhe que aquele de quem Jesus é amigo (gr. philô: v. 36) – ou seja, ama (gr. âgapô: v. 5); os dois verbos gregos são intercambiáveis em João, sublinhando mais o intercâmbio e comunhão de vida o primeiro, e mais a gratuidade e entrega pessoal o segundo – está doente, literalmente “enfermo” (gr. asthenéo, Jo, 8x), indicando o verbo, neste caso, uma doença que implica perigo de vida iminente (4,46). Marta e Maria sabiam que Jesus fazia grandes “sinais” sobre os doentes (cf. 6,2) e ao ver o seu irmão em perigo de vida, recorrem logo, sem demora, a Jesus. As irmãs são duas e, por isso, estão certas que serão escutadas na sua prece (cf. Mt 18,19).

  • 4. Ao ouvir isto, Jesus disse: «Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que por meio dela seja glorificado o Filho de Deus».

    Jesus, porém, ao saber que Lázaro está doente e que corre perigo de vida, não parte imediatamente, para ir ao seu encontro, uma viagem que demorava um dia, o mesmo tempo que o mensageiro tinha demorado a chegar até Ele, para lhe dar a notícia. Enquanto profeta (cf. 4,19; 9,17) e, mais do que isso, enquanto Filho de Deus, Jesus conhece sobrenaturalmente as pessoas, a realidade (cf. 1,48-49) e o que vai acontecer (13,19; 14,29; cf. 1Sm 10,2-6; Is 44,6-7; 45,21; 46,8-10). A doença de Lázaro, que ocorre neste momento, pouco antes da Páscoa, “não é para a morte”, não terá como fim a morte de Lázaro, mas tem um objetivo especial: “para que por meio dela” se manifeste “a glória de Deus” (9,3) em Lázaro, de modo que “por meio dela seja glorificado o Filho de Deus”, ou seja, a) por um lado, para que assim se manifeste “a glória” de Jesus – um tema que evoca o primeiro “sinal” de Jesus, o das bodas de Caná: “Jesus manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele” (2,11) –, mostrando  que Jesus é “o Filho de Deus” (Jo, 9x: v. 27; 1,34.49; 3,18; 5,25; 10,36; 19,7; 20,31) ou seja, é Deus, uma vez que só Deus pode ressuscitar alguém de entre os mortos (5,20-21; cf. Dt 32,39; 1Sm 2,3.6; 2Rs 5,7; Sl 68,21; Os 6,2); b) por outro lado, porque vai ser por causa deste “sinal” que os saduceus irão decidir a morte de Jesus (v. 53), mediante a qual Ele será glorificado (12,23; 13,31-32; 17,1). Desta forma, Jesus deixa que a morte física do amigo se consume, para dar um novo sentido à morte física e oferecer ao homem a vida eterna.

  • v. 5. Ora Jesus amava Marta e a irmã dela e Lázaro.

    A comunidade dos discípulos de Jesus é a comunidade dos amigos de Jesus (15,15), a comunidade daqueles que Ele ama (13,1.34; 15,9.12) e por quem dá a sua vida (15,13). Ao ressuscitar Lázaro, Jesus, como Bom Pastor, já começa a dar a sua vida (10,11) pelos seus amigos.

  • v. 6. Mas quando ouviu dizer que estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde se encontrava.

    Apesar do seu amor às duas irmãs e a Lázaro (v. 3), Jesus deixa que o terceiro dia da doença de Lázaro chegue ao fim, sabendo que ele irá morrer e que isso causará sofrimento às suas irmãs. A morte não é a negação do amor de Jesus, mas pelo contrário, este é maior do que a morte, vai além dela, tornando-se a morte o limiar da ressurreição, a passagem para esta.

  • v. 7. Depois disto, diz aos discípulos: «Vamos para a Judeia novamente».

    Só ao quarto dia do início enfermidade de Lázaro – ou seja, ao terceiro dia depois da notícia – é que Jesus decide regressar à Judeia, ao encontro do “amigo”.

  • v. 8. Dizem-Lhe os discípulos: «Rabbi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te e tu vais novamente para lá?».

    Os discípulos tentam dissuadir Jesus de voltar para a Judeia, recordando-lhe que se eles ali se encontravam, é porque os judeus há bem poucos dias O tinham querido lapidar (10,31-33), obrigando-o a fugir para aquele lugar (10,39-40). Mais uma vez, o evangelista mostra que este regresso de Jesus à Judeia será fatal para Ele e que os seus discípulos não entendem que a vontade do Pai é que Jesus dê vida ao homem mortal, mesmo que para isso tenha que dar a sua própria vida.

  • v. 9. Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo;

    Jesus volta a usar a imagem do dia e da noite, não para as apresentar como símbolo da vida e da morte, como no episódio do cego de nascença (cf. 9,4), mas como alegoria da vida na fé, pela prática do mandamento novo do amor, que faz que quem crê caminhe na luz (12,46), não tendo medo da morte (cf. Hb 2,15), porque passou da morte para a vida (cf. 1Jo 3,14), sendo capaz de amar o irmão, porque “vê a luz deste mundo”, no caso de Jesus, o Pai, fazendo a Sua vontade (9,4; cf. Lc 13,32-33), no caso dos seus discípulos, Jesus (8,12; 9,5).

  • v. 10. Mas se alguém caminhar de noite, tropeça, porque a luz não está nele».

    Pelo contrário, quem rejeitar a vontade do Pai, não acreditando na sua Palavra e não aceitando o seu desígnio, “tropeça” no pecado e cai, “porque a luz não está nele”, ou seja, porque não tem fé e as trevas que tem no seu coração são profundas, cegando-o (cf. 9,39; Mt 6,22-23; Lc 11,34-35). Jesus não dá atenção ao medo dos discípulos: a sua única preocupação é realizar o plano do Pai e consumar a Sua obra.

  • v. 11. Disse estas coisas e depois disto, diz-lhes: «Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas Eu vou para o despertar».

    Jesus introduz agora outro par de imagens, a do sono e a do despertar (gr. exypnízo, “despertar do sono”, só aqui, em toda a Sagrada Escritura), para falar da morte e da ressurreição, neste caso, da morte e da revivificação (“despertar”) de Lázaro. A morte era designada no AT como um adormecer (Gn 47,30; cf. 2Pd 3,4), tendo sido esta designação adotada pelos cristãos (cf. At 7,60; 1Cor 7,39; 15,6.20; 1Ts 4,13-15) que compararão a ressurreição a um ser despertado por Deus (gr. egueírôI: 2,22) do sono da morte. O verbo “dormir” está no perfeito do indicativo, voz média, indicando que Lázaro “adormeceu” (morreu) e que o seu sono é profundo, já está a decorrer há algum tempo, ou seja, que a morte já se consumou nele (cf. v. 17).

  • v. 12. Disseram-lhe então os discípulos: «Senhor, se dorme, será salvo».

    Os discípulos não compreendem o que Jesus lhes disse e entendem-no de forma literal, deduzindo que Lázaro será salvo (10,9), isto é, recuperará da doença, ficando com saúde.

  • v. 13. Jesus, porém, referia-se à morte dele, mas eles pensavam que estivesse a falar do repouso do sono.

    O evangelista alerta o leitor para mais um mal-entendido das palavras de Jesus, uma figura literária, típica do Quarto Evangelho ( (v. 32; 2,19; 3,4; 4,10.32; 6,34; 7,35; 8,33; 12,34; 13,9.36s; 14,22), em que a) a seguir à afirmação de Jesus (v. 11); b) se segue o mal-entendido da parte dos discípulos (vv. 12-13); 3) que ocasiona uma ensinamento de Jesus, desvelando o seu sentido espiritual (vv. 14.25).  

  • v. 14. Jesus disse-lhes então claramente: «Lázaro morreu.

    Jesus diz-lhes que, ao falar do sono, se está a referir à morte de Lázaro, que já se tinha consumado.

  • v. 15. E alegro-me por causa de vós, por não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele».

    Jesus não menciona a dor que lhe causou a morte do seu amigo Lázaro (cf. v. 35), mas diz que se alegra por causa dos seus discípulos, por não ter estado junto de Lázaro enquanto ele ainda estava vivo, de forma tê-lo então curado – se bem que não precisasse disso, pois teria bastado apenas uma palavra sua para curar Lázaro, mesmo sem lá ter ido (4,50-53) –, porque isto será ocasião de eles, ao ver que Jesus chama Lázaro da morte ao quarto dia, acreditarem nele, vendo que é o Senhor da vida e da morte. Desta forma, o evangelista aponta novamente para a verdadeira fé dos discípulos, a fé que Jesus espera deles, ou seja, a fé na Sua ressurreição (20,8.27-29). É esta fé em Jesus, na sua Palavra e nas suas obras, que será a fonte de vida nova e de alegria para os discípulos, alegria esta que é a de Jesus e que faz com que Jesus neles se alegre (cf. 15,11; 17,13).

    Jesus decide então partir para a Judeia. Apesar de saber que irá morrer lá, não teme a morte. Jesus é o bom pastor que dá a sua vida pelas ovelhas e não foge ao ver o perigo (10,10-15).

  • v. 16. Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: «Vamos nós também, para morrermos com Ele».

    Tomé é uma figura de destaque no Quarto Evangelho (8x: 14,5; 20,24.26-29; 21,2). É o único que se apercebe da gravidade do momento e aponta a todos o caminho do verdadeiro discípulo: “Vamos nós também, para morrermos com Ele”.

  • v. 17. Ao chegar, Jesus encontrou-o há já quatro dias no sepulcro.

    Quando Jesus chega a Betânia, no dia seguinte, já Lázaro tinha morrido fazia quatro dias.

  • v. 18. Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios.

    O evangelista volta novamente a apontar para “a hora” de Jesus, introduzindo Jerusalém – o local onde Jesus vai ser morto e vai ressuscitar – e dizendo que ela não estava longe de Betânia: distava apenas “cerca de quinze estádios” de Jerusalém, ou seja, cerca de 2,8 km (1 estádio = 186 m x 9 = 2,790 km). A proximidade geográfica de Jerusalém, prepara para a proximidade temporal da “hora” da paixão e morte de Jesus na cruz. Jesus, por ocasião da terceira páscoa do seu ministério, “sobe” para a Judeia mais cedo do que era habitual, por causa da morte de Lázaro.

  • v. 19. Muitos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as confortar por causa do irmão.

    Visitar os familiares de um defunto e consolá-los pela morte de um parente próximo era considerada pelos rabinos como sendo uma boa obra muito meritória (cf. Jr 16,5-7).

  • v. 20. Quando Marta ouviu dizer: “Jesus vem”, foi ao seu encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa.
  • v. 21. Marta disse então a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.
  • v. 22. Mas sei que também agora tudo o que pedires a Deus, Deus to dará».

  • v. 23. Diz-lhe Jesus: «O teu irmão ressuscitará».

    A fé e a esperança na ressurreição corporal dos mortos era típica dos judeus, tendo surgido depois das perseguições contra os membros do povo de Deus e a morte de muitos deles durante o reinado de Antíoco Epífanes IV (167 a.C.: 1Mc 1,50). Esperavam uma ressurreição física, um voltar à vida, primeiro dos justos e depois dos ímpios, para depois serem julgados todos e os justos irem para uma ressurreição de vida, vivendo em comunhão com Deus sobre esta terra, e os injustos para uma ressurreição de morte, ou seja, de condenação (5,29).

  • v. 24. Diz-lhe Marta: «Eu sei que há de ressuscitar, na ressurreição, no último dia».

    Marta refere-se a esta ressurreição final, que era meramente física.

  • v. 25. Disse-lhe Jesus: «Eu Sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que morra, viverá;

    Jesus apresenta-se a si mesmo com a última das sete fórmulas teofânicas do Quarto Evangelho, onde Ele acrescenta ao nome divino revelado por Deus a Moisés no monte Sinai, “Eu sou” (Ex 3,14-15; Is 45,8.18.19.22; Jo, 23x) uma explicitação que anuncia a missão salvífica que Ele leva a cabo enquanto “Filho do homem” (v. 35), ou seja, enquanto Verbo encarnado (1,14), neste caso, “a ressurreição e a vida”

    Jesus começa por dizer que é a ressurreição, ou seja, que a ressurreição não vai ser algo de apenas físico, mas uma participação na ressurreição de Jesus. Esta ressurreição não acontecerá, assim, apenas no último dia. Pelo contrário: ela será inaugurada em Jesus ressuscitado.

    Depois Jesus acrescenta que é “a vida”, um tema constantemente repetido desde o princípio do Quarto Evangelho. Não se trata de uma tautologia ou uma repetição. A vida, em João, é um atributo propriamente divino (1,4; 3,36; 5,21.24.26, etc.), sendo sinónimo de “vida eterna” (3,15.16.36; 5,24; 6,40.47; etc.), a vida divina, que Jesus tem (1Jo 5,11), é (5,40; 14,6; 1Jo 5,20) e dá (10,28; 1Jo 4,9; 1Jo 5,12).

    Esta vida divina é comunicada por Jesus ressuscitado àqueles que n’Ele acreditam (gr. pistéuo eis), ou seja, àqueles que O escutam, acreditam na sua palavra, n’Ele confiam e a Ele totalmente se entregam, unindo-se a Ele pelo batismo, tornando-se assim participantes da sua morte e da sua ressurreição: “sepultados com Cristo no batismo, com Ele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus que O ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12; cf. Rm 6,3-11). Assim, quem crê em Jesus passou da morte para a vida (5,24), participando já da sua condição de ressuscitado e da vida que Ele tem com o Pai, de modo que “nem a morte, nem a vida…, nem o presente, nem o futuro… nos poderão separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). Por isso, para quem crê em Jesus, morrer é entrar na verdadeira vida, porque então se possui o Senhor: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer um ganho. Tenho o desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é muito melhor” (Fl 1,21). Assim, aqueles que adormeceram em Cristo ressuscitado, não morreram, mas passaram para a verdadeira vida, que nunca mais terá fim. Por isso, o verbo “viver” está no futuro: “viverá”.

  • v. 26. E todo aquele que vive e acredita em Mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?».

    Por sua vez, “todo aquele que vive”, porque foi regenerado por Cristo e acredita n’Ele (gr. pistéuo eis), a Ele se confiando e n’Ele vivendo, não experimentará a morte eterna, não será condenado “para sempre”. É esta a esperança cristã. 

  • v. 27. Diz-Lhe: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo».

    Marta adere a Jesus pela fé, acreditando na sua palavra, e confessando a sua fé: que Ele é “o Senhor” (o nome divino com que era designado Deus no AT) seu (9,36; 20,28) e de tudo (Fl 2,11), o Messias prometido (1,41; 4,26; 20,21; At 2,36), “o Filho de Deus”, em sentido absoluto, próprio e pessoal (1,34.49; 10,36; 20,21; Mt 16,16), “que vem ao mundo” (1,9; 6,14; 12,46; 16,28; 18,37; 1Tm 1,15; Mt 11,3; Lc 7,19-20; Ml 3,1).

  • v. 28. Dito isto, partiu e foi chamar Maria, sua irmã, dizendo-lhe em segredo: «O Mestre está cá e chama-te».
  • v. 29. Quando ela ouviu isto, levantou-se depressa e veio ter com Ele.
  • v. 30. De facto, Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta tinha vindo ao seu encontro
  • v. 31. Então os judeus que estavam com ela em casa e a confortavam, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, pensando que fosse ao sepulcro para ali chorar».
  • v. 32. Quando Maria chegou aonde Jesus estava, vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido».
  • v. 33. Então Jesus, quando a viu chorar e vendo chorar também os judeus que tinham vindo com ela, fremiu no espírito e ficou perturbado.
  • v. 34. E disse: «Onde o pusestes?». Dizem-Lhe: «Senhor, vem e vê».
  • v. 35. Jesus chorou.
  • v. 36. Diziam, então, os judeus: «Vede como era seu amigo».
  • v. 37. Mas alguns deles disseram: «Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer com que este não morresse?».
  • v. 38. Então, Jesus, fremindo novamente em si mesmo, vem ao sepulcro. Era uma gruta e tinha sido posta uma pedra sobre ela.

  • v. 39. Diz Jesus: «Retirai a pedra». Diz-lhe Marta, a irmã do defunto: «Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia».

    A entrada do sepulcro está fechada com uma pedra, símbolo do caráter definitivo da morte. Jesus, no entanto, manda tirar essa pedra, mostrando que as duas realidades não estão separadas, pois ao oferecer a vida plena abate as barreiras criadas pela morte física.

    A ressurreição de Lázaro dá-se ao quarto dia. Porquê? Porque a nossa ressurreição, a vida nova que recebemos, é consequência da ressurreição de Jesus, que foi “ao terceiro dia” (1Cor 15,4; Lc 24,46), o dia que precede a ressurreição de Lázaro: a ressurreição de Jesus é o anúncio, a causa, a fonte de vida nova, a promessa e o penhor da nossa própria ressurreição.

  • v. 40. Diz-lhe Jesus: «Não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?».
  • v. 41. Retiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos ao alto e disse: «Pai, dou-Te graças, porque Me ouviste.
  • v. 42. Eu bem sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa da multidão que me rodeia, para que acreditem que Tu Me enviaste».
  • v. 43. Dito isto, clamou com voz forte: «Lázaro, vem para fora».
  • v. 44. O morto saiu, com as mãos e os pés enfaixados com ligaduras e o seu rosto envolvido num sudário. Diz-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir».
  • v. 45. Então muitos judeus, que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que fizera, acreditaram nele.

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus me diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • Pelo Batismo, recebemos a vida nova que Jesus nos dá. Tenho sido coerente com esse dom, fazendo da minha vida uma dádiva de amor?

  • Ao longo da nossa existência, convivemos com situações em que fomos tocados pela morte daqueles a quem amamos… e é natural que fiquemos tristes pela sua partida. A nossa fé ajudou-nos a viver esta situação? Como?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)

Salmo responsorial (↗partitura) (↗mp3)                         Sl 130,1-8 (R. 7)

Refrão: Junto do Senhor a misericórdia,
             junto do Senhor a abundância da redenção.

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.      R.

Se tiverdes em conta as nossas faltas,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão,
para Vos servirmos com reverência.      R.

Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora.      R.

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há de libertar Israel
de todas as suas faltas.      R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.