5º Domingo de Páscoa, ano A – 3 de maio de 2026

 Jo 14 6 Caminho

 

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

 

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
 

Leitura do Evangelho segundo S. João (14,1-12)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 14,1«Não se perturbe o vosso coração. Acreditais em Deus, acreditai também em Mim. 2Na casa do meu Pai há muitas mansões. Se assim não fosse, ter-vos-ia dito. Pois vou preparar-vos um lugar. 3E quando for e vos tiver preparado um lugar, venho de novo e tomar-vos-ei para junto de mim, para que onde Eu estou, estejais vós também. 4E para onde Eu vou, sabeis o caminho.» 5Diz-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?» 6Diz-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim. 7Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E a partir de agora, o conheceis e o vistes.» 8Diz-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.» 9Diz-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como dizes tu: “Mostra-nos o Pai”? 10Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as falo por mim mesmo; mas é o Pai que, permanecendo em Mim, faz as suas obras. 11Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; senão, crede por causa das mesmas obras. 12Amen, amen, vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai.»

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:


O texto de hoje faz parte da secção ligada ao tema da partida de Jesus (13,31–14,31). Divide-se em três partes, dispostas concentricamente, em forma de quiasma:

 A) 13,31-14,6: sentido da morte de Jesus
      B) 14,7-11: o Pai, profundidade do mistério de Jesus
            C) 14,12-17: frutos da fé em Cristo
      B’) 14,18-26: o Pai, profundidade do mistério de Jesus
 A’) 14,27-31: sentido da morte de Jesus

  • v. 1. «Não se perturbe o vosso coração. Acreditais em Deus, acreditai também em Mim.

    Estamos em Jerusalém, no Cenáculo, na Última Ceia. Jesus sabe que “volta” para o Pai e que os seus discípulos vão continuar no mundo. Despede‑se, então, deles e deixa-lhes as suas últimas palavras, a modo de testamento final.

    O anúncio que Jesus fez da traição de Judas, das negações de Pedro e da sua partida (13,33.38), deixou os discípulos “perturbados”, ou seja, ansiosos, angustiados, perplexos. Tal como Jesus se sentiu perturbado na perspetiva da sua própria morte (12,27; 13,21; cf. Sl 55,5; 109,22; 143,4), também os discípulos estão agora perturbados. A sua perturbação é prenúncio do que, à semelhança de Jesus, lhes irá acontecer, a eles e às comunidades cristãs: ódio e perseguições (15,18-20). Por isso, Jesus exorta-os, por duas vezes, a deixarem de estar perturbados, de ter medo (v. 27; Ha 3,2.15-16 LXX).

    Jesus fundamenta a sua exortação no que já tinha dito aos seus discípulos em 12,44-45, e que agora, aqui, vai desenvolver, em dois momentos: a) «Quem acredita em mim, não é em mim que acredita, mas naquele que me enviou» (12,44: vv. 1-7); b)  «E quem me vê, vê Aquele que me enviou» (12,45: vv. 8-11). Trata-se, em ambos os momentos, duma vigorosa exortação à fé e à confiança, que devem informar a vida dos discípulos ao longo da sua peregrinação sobre a terra até chegarem à meta final, a pátria celeste.

    Para os discípulos não se deixarem dominar pela perturbação, há que, tal como acreditam em Deus, acreditar nele, Jesus (v. 11; cf. Ha 2,4). É uma expressão que evoca Ex 14,31, mas que aqui vai mais longe, pois não se trata apenas de acreditar na Palavra de Deus, transmitida pelo enviado de Deus (gr. pisteô + dativo), mas em “acreditar em” Jesus como em Deus, entregando-se confiadamente a Ele (gr. pisteúo eis + acusativo: 12,44; 1,12; 14,12). A fé dos discípulos em Deus deve ser corroborada pela sua fé em Jesus.

  • v. 2. Na casa do meu Pai há muitas mansões. Se assim não fosse, ter-vos-ia dito. Pois vou preparar-vos um lugar.

    O objetivo do plano de salvação de Deus é estabelecer uma íntima e perene comunhão de vida e de amor entre Ele e os homens por meio de Jesus Cristo, fazendo deles seus filhos adotivos, membros da sua “casa” (8,35; cf. Ef 2,19).

    No AT, “casa” é sinónimo de “família”, “descendência”; e a “casa de Deus” é o templo (Gn 28,16: cf. Jo 1,51; Qo 4,17), sendo na tradição rabínica também o céu (Filão de Alexandria, Somn. 1,43,256).

    A expressão “casa do meu Pai” tinha sido aplicada por Jesus ao Templo (2,16), usando o termo oikós, que significa “habitação”. Aqui, é diferente: prefere-se o termo oikía, “morada”, “lar”, termo este que destaca mais a nota do relacionamento pessoal, da convivência familiar dentro da habitação (4,53; 12,3): "a casa do meu Pai".

    Na casa do Pai há “muitas mansões”. “Mansão” (gr. monê; Vulg. mansio; na Sagrada Escritura, só aqui, no v. 23 e em 1Ma 7,38) é um termo que significa “habitação familiar”, “morada”, “repouso”. O termo reaparece no v. 23, formando uma inclusão com este versículo. Segundo a tradição rabínica, no “século vindouro há muitas mansões preparadas para o homem: boas, para os bons; más, para os maus; muitas, sem número” (2Hen 61,2s; cf. 1Hen 39,4s; 41,2; 45,3).

    Jesus destaca a multiplicidade de mansões: “há muitas mansões” porque cada batizado é uma mansão/morada de Deus (v. 23; 1Cor 3,16s; 6,19; 2Cor 6,16), sendo todas elas uma só na “morada eterna” que é o Pai (2Cor 5,1).

    Todos estes temas convergem e formam uma única realidade em Cristo: o que nenhum templo conseguia – conter Deus e fazer o homem participar da vida divina –, torna-se realidade em Cristo ressuscitado, que fará o discípulo morar com Ele na “casa” do Pai.

    “Pois”: a conjunção hotí tem aqui um sentido causal "pois", “porque” (vv. 12.17.19; 1,16; 8,29; 16,9-11) e não demonstrativo "que" ("se assim não fosse, ter-vos-ia dito que vos vou preparar um lugar?", o que, a nosso ver, tornaria esta frase incompreensível, uma vez que é primeira vez que Jesus o afirma, não o tendo feito antes).

    "Vou": Jesus “vai” (para o Pai: vv. 12.28; 16,7.28; 20,17); é alusão à paixão, morte e ressurreição de Jesus. Para que o plano de Deus se realize, Jesus tem de “ir” para Aquele para onde só Ele pode ir e que só Ele conhece (3,13).

    “Preparar-vos um lugar” (v. 3; Ap 12,6). A expressão alude:

    a) ao êxodo: cf. Ex 15,17; 23,20. Neste caso, evoca de forma especial, aplicando-o a Jesus, Dt 1,19-33, onde Moisés (aqui Jesus) exorta o povo, que se devia preparar para entrar na “terra prometida” (a casa do Pai: vv. 2.6), a não temer os inimigos (v. 1; o mundo e Satanás: 14,30; 15,18; 16,11.33), pondo toda a fé e confiança em Deus (e nele, Jesus), que os guiará e irá à sua frente para lhes “preparar” um lugar (v. 2) e introduzir na sua morada (cf. Hb 6,19-20), tema este que remete para o Targum sobre Dt 1,33, onde, em vez de “procurar”, se diz “preparar”: “o Senhor vai adiante de vós para preparar um lugar” (Tg.Onk. Dt 1,33).

    b) à construção do Templo (1Cr 15,1.3; 2Cr 3,1).

    Com a sua “ida”, Jesus inaugura o novo e definitivo êxodo, a nova e eterna Páscoa (“passagem”), a fim de fazer os homens entrar onde só Ele estava como Deus Unigénito, o seio do Pai (1,18), introduzindo aqueles que nele creem, inseridos no Seu Corpo (o novo templo de Deus: 2,21; Ap 21,22), na relação pessoal e familiar que Ele tem com o Pai, fazendo deste modo com que o Pai passe a ter muitos filhos no Filho (cf. 20,17).

  • v. 3. E quando for e vos tiver preparado um lugar, venho de novo e tomar-vos-ei para junto de mim, para que onde Eu estou, estejais vós também.

    Jesus anuncia veladamente a sua morte e ressurreição: o lugar que Ele vai preparar para os discípulos é o seu Corpo glorioso (2,21) e a promessa de “vir” (20,19; 21,13) “de novo” (20,26; 21,1) realizar-se-á na ressurreição, prelúdio da sua vinda gloriosa (21,22s).

    A finalidade da obra de Cristo é “levar” em si os seus discípulos para onde vai, para que estejam com Ele “onde Eu estou” (gr. ‘opou eimi ego: 7,34.36; 12,26; 17,24; 1Ts 4,17), ou seja, no Pai (uma alusão à Sua divindade), participando da Sua comunhão com o Pai.

    Realiza-se assim a principal promessa do AT, relativa à nova Aliança: «Habitarei com eles, serei o seu Deus e eles serão o meu povo» (Ex 29,45; Ez 37,26ss; Zc 2,14s; 8,23; 2Cor 6,16; Ap 21,3). Isso acontecerá não apenas no sentido, impensável no AT, de que Deus porá a sua morada nos homens (v. 23; 1,14; cf. Pv 8,31), mas também no sentido de que o que o homem tinha pecaminosamente intentado ao construir a torre de Babel, “tocar o céu”, acabando por provocar a confusão das línguas e a dispersão da humanidade, realizar-se-á agora, dum modo que ninguém podia imaginar, em Cristo, concedendo Ele a graça de habitar já consigo nos céus, junto do Pai, os que nele creem (Ef 2,6; Cl 3,3; Hb 12,22ss).

    Jesus responde deste modo, de forma plena e satisfatória (vv. 3-6), à pergunta pairava desde o início do Evangelho e que os dois primeiros discípulos lhe tinham feito, quando Jesus lhes perguntou o que procuravam: "Rabbi, onde moras?" (1,38).

  • v. 4. E para onde Eu vou, sabeis o caminho».

    Jesus desafia os discípulos a conhecê-lo à luz da fé, apontando-lhes o único verdadeiro caminho que um discípulo seu “conhece” (gr. oida; he. iadá) no sentido bíblico, forte, do termo, ou seja, “sabe” por experiência própria, pessoal, por ter uma relação pessoal, íntima, com Ele. É um incentivo muito delicado de Jesus, que sabe ter inaugurado um caminho novo, até então desconhecido, o caminho do novo êxodo (cf. Is 42,16; Jr 24,7; 31,34), o único que leva ao verdadeiro termo, à plenitude da vida.

  • v. 5. Diz-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?»

    Na realidade os discípulos não sabem e Tomé expressa a sua dúvida (20,25), buscando uma certeza.

    “Não sabemos” (1,31.33; 3,11; 4,10): é impossível ao homem conhecer Jesus e o Pai, pois isso é um dom de Deus, concedido pelo Pai (6,44) aos que renasceram pela fé como seus filhos.

    “Para onde vais”: dizem isto com todo o acerto porque ainda não conhecem o Pai (4,22).

    Como “podemos (gr. dynamai) saber (gr. oida) o caminho”: Tomé constata que por si só o homem é incapaz de seguir Jesus (11,16) e de o imitar (7,34.36; 13,33.36; 16,31s) no Seu caminho da salvação.

  • v. 6. Diz-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim.

    A dúvida de Tomé provoca uma revelação fundamental de Jesus.

    Ela começa pela declaração solene “Eu Sou” (Jo, 23x): é o Nome divino revelado por Deus a Moisés (Ex 3,14; Is 43,10-19; 48,17), neste caso completado com ulteriores atributos (Jo, 7x), aqui três, precedidos de artigo, em sentido absoluto, indicando que é graças à humanidade que assumiu, enquanto Verbo de Deus encarnado, que Jesus introduz e torna participante da comunhão trinitária e da vida divina que Ele tem com o Pai os homens. São três os atributos.

    1) Jesus é “o Caminho”, em sentido absoluto. Um caminho é um lugar de passagem, de encontro, de descoberta, de opções. No AT, “caminho”:

    a) é sinónimo da conduta, comportamento prático, rumo existencial do homem (Sl 1,1).

    b) “Caminho do Senhor” (Is 40,3; Ml 3,1) designa a obra salvífica de Deus (Dt 8,2; Sl 16,11; 67,3; At 16,17) e o que se deve fazer, como se há de proceder, para chegar a Ele, viver em comunhão com Ele e alcançar a salvação. É sinónimo da vontade de Deus (2Pd 2,21), expressa na Sua Palavra (Sl 18,30; 119,9.101.105) através dos mandamentos (Gn 18,19; Ex 18,20; Dt 5,33; 8,2.6. 12; 19,9; 30,16; Sl 118,32; 1Rs 8,58; Is 2,3; Os 14,9; Pv 6,23), sendo, por isso, correlato do amor (Dt 11,22; 19,9; 30,16; Js 22,5).

    c) Associado ao tema do “lugar”, designa o êxodo (Ex 23,20; 33,13) e o novo êxodo (Is 35,8; 40,3s; 42,16; 49,8-13; 57,14; 62,10), em que é o próprio Deus quem vai à frente do Seu povo e o conduz (Ex 23,20; Dt 1,31.33; Sl 68,8ss).

    No judaísmo, “o caminho” é a Halaká (“o caminho a seguir”), o conjunto de regras e costumes que regulam todos os aspetos práticos e opções de vida dos judeus, etc.

    Um caminho é um trajeto que une dois extremos e em que se circula em ambos os sentidos (1,51; 3,13; 10,9). Em virtude da união das duas naturezas, a divina e a humana, na Pessoa do Verbo, Jesus é o único caminho verdadeiro: em sentido descendente (de Deus para o homem) e em sentido ascendente (do homem para Deus). Por isso, no início, o cristianismo designava-se “o Caminho” (At 9,2; 19,9.23; 22,4; 24,4.6).

    2) Enquanto “caminho” (do Pai para o homem: v. 10; e do homem para o Pai: v. 6b) Jesus é “a Verdade” (cf. Gn 24,48). A verdade é o princípio da Palavra de Deus (Sl 119,160), o atributo de Deus (Ex 34,6; Sl 31,6; 86,11.15; Is 65,15), o selo de Deus, que o distingue (bShab 55abYom 69b), e que desde o princípio aparece ligado ao seu amor (hesed: Gn 24,27.49), à sua graça e à sua misericórdia (1,14.17; Gn 32,11; Sl 25,10; 36,6; 40,12; 85,11), tendo como consequência a salvação do homem (Sl 40,11; 1Tm 2,4).

    Em hebraico, “verdade” diz-se ‘emet, palavra que deriva de ‘em, “mãe”: “verdade” é o que é firme, fiável e estável para sempre. Escreve-se com três letras: a primeira (alef), uma mediana (mem) e a última (tau) do alfabeto hebraico. “Verdade” é quando a palavra e a ação, a razão e a obra, o princípio e o fim de algo se unem e completam mutuamente, mantendo a sua coerência e coesão ao longo de todo o processo (bShab 104a).

    Jesus é a Verdade (18,38s) porque é a revelação, o dom pleno e definitivo de Deus ao homem (1,17-18).

    3) O discípulo que segue o caminho que Jesus é, apoiado na sua Palavra, a Verdade, alcança a meta a que eles conduzem: a vida divina. Ou seja: recebe “a Vida” (5,21.25s) que Jesus é (11,25; 1,4; 1Jo 1,2; 5,12) e dá em abundância (10,10), fazendo o crente participar da vida eterna que n'Ele está (3,15s.36; 4,14; 5,24; 6,40.47.54.68; 10,28; 12,50; 17,2s; 1Jo 5,11; Dn 12,2) e da sua comunhão com o Pai e com os irmãos (10,9; Sl 16,11; Jr 21,8), graças ao batismo, mediante o qual aquele se une a Cristo, tornando-se membro do Seu Corpo.

    Quem está em Cristo, está no Pai, que nEle está (vv. 9ss. 20; 10,38). Por isso, Jesus diz que “ninguém vem (e não: vai) ao Pai senão por Mim” (Rm 5,2; Ef 3,12), pois é em Jesus que se abre o caminho de regresso ao paraíso (Lc 23,43; cf. Ez 36,35), da comunhão do homem com Deus e é sendo inserido nele que por meio dele se tem acesso ao Pai.

  • v. 7. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E a partir de agora o conheceis e o vistes.»

    O conhecimento pessoal de Deus é um dos dons que estavam prometidos para a nova aliança (Is 11,9; Jr 31,34; Ha 2,14): Jesus é o Messias que inaugura a nova aliança em que cada um poderá conhecer a Deus e, consequentemente, a Ele. Só Ele dá a conhecer o Pai (1,18; Mt 11,27; Lc 10,22) na Sua Pessoa, palavras e obras (vv. 9ss). Se os discípulos O tivessem conhecido, teriam conhecido também o Pai; ou seja, quem O conhece, conhece o Pai (8,19).

    É uma promessa que Jesus começa a cumprir “desde agora” (gr. ap’árti), a partir da “hora” da sua paixão, morte e ressurreição (12,23; 17,26), enviando o Espírito da Verdade aos que nele creem, Espírito este que lhes dará a conhecer tudo o que Jesus disse e fez (14,26; 16,13).

    E, de imediato, num só ato, Jesus passa do plano histórico da sua caminhada e convivência com os seus discípulos nesta terra para o plano da fé, afirma que “desde agora já O conhecem”, acrescentando, de forma surpreendente, o que só esclarecerá no v. 9: “e O viram”. Não se trata de um conhecer e de um ver carnal, mas do "conhecer" e do “ver” da viva nova da fé (v. 9), dados pelo Espírito Santo (3,3) aos que por Ele foram introduzidos na nova aliança (2Cor 5,16).

  • v. 8. Diz-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.»

    Filipe crê em Jesus e pede-lhe, de forma surpreendente, que lhes “mostre” o Pai (cf. Ex 33,18). Filipe expressa assim o desejo mais profundo da humanidade: ver a Deus. “Isso nos basta”: só o conhecimento e a visão do Pai “basta”, pois, sendo Ele a origem e o termo da caminhada do homem (cf. 13,3), só o Pai abre à profundidade do amor, do conhecimento e da comunhão com Ele e com os irmãos por meio do seu Filho, Jesus Cristo.

    Mais: Filipe, sem disso se aperceber, está, na realidade, a pedir a Jesus que lhes dê agora, ainda sobre esta terra, o que só será poderá acontecer no céu: ver o Pai. Mas isso só é possível depois da morte (cf. Ex 33,20). Então, na pátria celeste, participando já da visão da glória de Deus, de facto, nada mais faltará ao homem, pois a visão de Deus para tudo bastará, ultrapassando em muito a capacidade e expectativa do homem.

  • v. 9. Diz-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como dizes tu: “Mostra-nos o Pai”?

    Jesus admira-se que Filipe, seu discípulo desde o início (1,43), ainda não o tenha conhecido e recorda-lhe o que já antes lhes tinha dito, ou seja, que quem o vê, vê o Pai (12,45).

    “Ver” Jesus é discernir e reconhecer pela fé que Ele é o Filho de Deus (1,34.51; 8,24.28), enviado pelo Pai (3,17; 17,3.8.21.25), para salvar, não só Israel, mas o mundo inteiro (3,14ss; 1Jo 2,2). Jesus é a única imagem verdadeira do Pai (2Cor 4,4; Cl 1,15; Heb 1,3; Sb 17,20), pois Ele e o Pai são um (10,30).

  • v. 10. Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as falo por mim mesmo; mas é o Pai que, permanecendo em Mim, faz as suas obras.

    Só a fé (1,12) discerne a profundidade divina de Jesus e permite conhecê-lo, fazendo o discípulo perceber que Jesus está no Pai e o Pai nele (v. 20; 17,21), revelando-se através dele, da sua Pessoa, das suas palavras (5,19s.30.36; 8,28; 12,49)…

  • v. 11. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; senão, crede por causa das mesmas obras.

    … e também das suas obras (10,25.32.37s). Na prática, Jesus exorta os seus discípulos a uma fé plena nele: na sua Pessoa, nas suas palavras e nas suas obras.

  • v. 12. Amen, amen, vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai.»

    “Amen, amen, digo”: Jesus começa por atestar o que vai dizer, repetindo duas vezes no início de cada declaração a palavra “amen” (he. “em verdade”), seguida do verbo "dizer": “digo”. No NT, esta expressão só ocorre no Quarto Evangelho (24x + 1x). Ela é tirada da fórmula com que no AT se concluíam, de forma solene, as orações em Israel (Sl 41,14; 72,19; 89,52; Ne 8,6; Tb 8,8). Jesus sublinha deste modo a verdade das suas palavras, dignas de toda a fé, que infalivelmente se cumprem (cf. Nm 5,22).

    Assim como as obras de Jesus são “ex-pressão” do amor e da obra do Pai, também as obras do discípulo que acredita em Jesus, entregando-se totalmente a Ele, apoiado na sua Palavra (gr. pisteuein eis: v. 1), serão as de Jesus (Mc 16,16-20!). Isto aplica-se, de modo especial, à prática do mandamento novo do amor (13,34; 15,9.12).

    O discípulo de Jesus é aquele acredita nele e imita o Seu exemplo, procedendo como Ele procedeu (13,15; 1Jo 2,6), continuando a Sua missão na terra (17,20), na força do Seu Espírito (20,21).

    Mais: uma vez glorificado, Jesus fará através daquele que nele crê, obras “maiores” (1,50) do que as que Ele até ali tinha feito, não só as obras relativas à difusão do Reino (p. ex., a edificação da Igreja, a evangelização dos povos, etc.), mas também os “sinais” carismáticos que acompanham o anúncio do Evangelho (cf. Mc 16,17-18; At 4,29-30; Rm 15,19; 2Cor 12,12; Gl 3,5; Hb 2,4).

    A razão disto é “porque Eu vou para o Pai”, pois o Pai é maior que Ele (14,28; 16,28; cf. 20,17). Pela sua paixão, morte na cruz e ressurreição, Jesus vai ser glorificado na Sua humanidade e nela, então, junto do Pai e a partir dele, vai realizar obras maiores que até ali tinha feito. Como? Através dos seus discípulos, por meio do Espírito Santo que derramará sobre todo aquele que nele acreditar (7,39), de modo que as obras de Jesus, que são do Pai que nele está, serão obras dos seus discípulos, obras de Jesus, realizadas através do Seu Corpo, que é a Igreja (Ef 1,23; 3,19), de modo que nesta cadeia haverá uma unidade e uma perfeita continuidade de vida e de ação do Pai, por meio de Jesus, no Espírito Santo, através dos discípulos. Jesus é o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5).

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

 

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

     a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
     d) Partilha... e) Que frase reter? f) Como a vou / a vamos pôr em prática?

  • Pelo batismo entrámos na família de Deus: a nossa vida tem sido coerente com o compromisso que este dom implica?

  • Quando esta família, que é a família de Deus, tem falhas e nela há falta de amor, afasto-me dela ou procuro viver de forma ainda mais coerente e generosa a minha fé em Cristo?

  • Sou muro ou caminho para Cristo, apóstolo da sua verdade, reflexo do seu amor ao Pai e aos homens? Como poderei ser cada vez mais canal de Jesus Cristo para os outros?


3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me toque e inflame o coração)

Salmo responsorial                                      Sl 33,1-2.4-5.18-19 (R. 22)

Refrão: Dai-nos a vossa misericórdia, de Vós a esperamos, Senhor.

Justos, aclamai o Senhor,
os corações retos devem louvá-lo.
Louvai o Senhor com a cítara,
cantai-lhe salmos ao som da harpa.     R.

A palavra do Senhor é reta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.      R.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.      R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Deus todo-poderoso e eterno, realizai sempre em nós o mistério pascal, para que tendo sido renovados pelo santo batismo, com o auxílio da vossa proteção, dêmos fruto abundante e alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida, unidos a Cristo e em Cristo)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.