
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. João (1,1-18)
1,1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. 2Ele estava no princípio com Deus. 3Tudo foi feito por meio d’Ele e sem Ele nada do que existe foi feito. 4N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. 5A luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam. 6Houve um homem, enviado por Deus: o seu nome era João. 7Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 9O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem ao mundo. 10Estava no mundo e o mundo foi feito por meio d’Ele e o mundo não O conheceu. 11Veio para o que era seu e os seus não O receberam. 12Mas àqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que acreditam no seu nome, 13os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade de um varão, mas de Deus. 14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós e contemplámos a sua glória, a glória como Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15João dá testemunho d’Ele e clama, dizendo: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem após mim, passou à minha frente, porque era primeiro do que eu». 16Porque da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça. 17Porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. 18A Deus ninguém jamais O viu; Deus Unigénito, que está no seio do Pai, esse é que O deu a conhecer.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
O presente texto, com o qual se abre o Quarto Evangelho, não é um prólogo semelhante ao do Ben-Sirá (Sr prol 1-34), nem um proémio como o de Lc 1,1-4, mas um hino poético, no mesmo estilo dos hinos cristológicos primitivos do NT (cf. Fl 2,5-11; Cl 1,12-20; Ef 1,3-14), anterior ao Quarto Evangelho, de acentuado caráter joanino, adaptado pelo evangelista de modo a poder servir de prólogo à sua obra (vv. 1-18), onde revela, em forma de confissão de fé, a identidade de Jesus Cristo, enquanto Palavra viva de Deus, a sua origem eterna, a sua procedência divina, a sua ação no mundo e na história, possibilitando a todos os que O escutam e acolhem tornarem-se filhos de Deus, enunciando assim nele os temas que depois vai desenvolver ao longo da sua obra.
O prólogo compõe-se de duas partes, ambas começando com uma frase que tem por sujeito “o Verbo” (gr. o lógos). A primeira parte (vv. 1-13) está formulada na terceira pessoa do singular e do plural. Nela proclama-se a dimensão cósmica e a mediação histórico-salvífica do Verbo divino, num dinamismo descendente, em direção ao homem. A segunda parte (vv. 14-18), está formulada na primeira pessoa do plural, expressando-se nela a confissão de fé da comunidade crente na atualidade salvífica definitiva do Verbo encarnado e glorificado no seio do Pai, num dinamismo ascendente. A primeira parte divide-se em quatro secções e a segunda em três, formando um total de doze segmentos, dispostos concentricamente num quiasma, delimitado pela inclusão definida pelos vv. 1.18:
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I |
a) vv. 1-2: o Verbo preexistente em Deus |
a’) v. 18: o Verbo glorificado no seio do Pai |
VII |
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b) v. 3: exclusividade da mediação universal do Verbo na ordem da criação |
b’) v. 17: exclusividade da mediação universal do Verbo na ordem da graça |
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c) vv. 4-5: dom da vida aos homens pelo Verbo |
c') v. 16: plenitude do dom da vida aos homens pelo Verbo |
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II |
d) vv. 6-8: a missão de João Batista: dar testemunho da luz |
d') v. 15: o testemunho de João Batista sobre o Verbo encarnado |
VI |
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III |
e) vv. 9-11: Missão do Verbo no mundo |
e') v. 14: Encarnação do Verbo no mundo |
V |
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IV |
f) v. 12: pela fé recebemos a graça da filiação divina... |
f’) v. 13: ...que é uma vida nova a partir de Deus |
IV |
- v. 1. No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus.
v. 1: Mc 1,1. “No princípio” (v. 2; 8,25; 1Jo 1,1s; 2,13; Pv 8,22s; Sr 24,9; Sl 110,3 LXX; cf. Ap 3,14; 21,6; 22,3): é com esta expressão que começa o Quarto Evangelho. Com ela, o evangelista enlaça a atividade de Jesus com o relato da criação: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1,1). Deste modo oferece-nos, logo no início, a chave de interpretação do seu Evangelho: aquilo que vai narrar sobre Jesus está em relação com a obra criadora de Deus; em Jesus acontece a definitiva intervenção criadora de Deus, mediante a qual Jesus vai completar, levar à plenitude, a obra de Deus, dando ao homem e ao mundo uma vida nova, a vida eterna.
Esta nota associa o prólogo de João a outros dois hinos do AT, onde se apresenta a sabedoria de Deus, expressa na sua Palavra, personificada, ligada à ação criadora e reveladora de Deus. Aí aparece como a primeira criatura de Deus (Pv 8,22s; Sr 24,9), anterior a tudo o que existe, criada por Ele em vista da obra da criação, como sua auxiliar e medianeira. Esta mesma conceção aparece num midrash (“estudo”, “história”, “escrito”: 2Cr 13,22; 24,27) do tempo de Jesus: “Sete coisas (he. debarim) foram criadas antes do mundo ter sido criado: a Lei (he. Torá), o arrependimento (he. teshuvá), o Jardim do Éden, a Geena, o Trono da glória, o Santuário e o Nome do Messias… Mas o Nome do Messias existia antes da criação do sol e do resto do mundo” (bPes 54a Bar.8-11). Note-se que o midrash diz que era apenas o nome, não a pessoa, do Messias que existia antes da criação do mundo, ao invés da Lei, que já existia antes desta.
“Era”. O verbo está no imperfeito, indicando uma ação que começou no passado, continua no presente e se prolonga no futuro, sem ter acabado. Diversamente da sabedoria (Pv 8,22) o Verbo, não foi criado (cf. v. 3), mas “era”, existe desde sempre, antes de toda a criação. Tal como Deus, o Verbo é definido pelo verbo “ser/existir” como “o que é”, por antonomásia, antes e independentemente de toda a criatura, com disse a Moisés quando lhe revelou o Seu nome: “Eu Sou Aquele que sou” (gr. Egô eimí ho Ôn: Ex 3,14). Jesus designa-se dez vezes em João o “Eu Sou”, em sentido absoluto (gr. Egô eimí: 4,26; 6,20.58; 8,12.18.24.28.58; 13,19; 14,3; 18,5.6.8) e duas vezes é designado “Aquele que é” (gr. ho Ôn: v. 18; 6,46).
“O Verbo”: o termo grego lógos, “palavra”, traduz o termo hebraico dabar, que significa não só “palavra”, mas também “coisa”, “ação”, “acontecimento”. Designa a Palavra divina, que é sempre eficaz, realiza aquilo que anuncia (cf. Is 55,11). Por isso, a Vulgata traduziu lógos por verbum, por ser um verbo uma palavra que indica ação. Situado aqui, “no princípio”, o Verbo aparece como a Palavra original, única, que contém em si todas as palavras, ou seja, tudo quanto existe (cf. v. 3).
Tal como Filão de Alexandria (†50 d.C.), João usa o termo lógos em sentido absoluto, ou seja, no singular, com artigo (cf. Nm 11,23; 2Sm 23,2), de modo a não só traduzir o termo hebraico dabar, mas também a explorar todo o campo semântico do termo grego: “palavra” que exprime o pensamento e a vontade de alguém, que os revela e dá a conhecer; “discurso” que expõe o seu desígnio; “razão”, ideia, regra, significado, princípio, fundamento, objetivo, fim, meta, lei, harmonia, inteligibilidade de tudo quanto existe.
“O Verbo era/estava com Deus”. “Deus”, com artigo, em João, designa “o Pai” (vv, 14.18). “Com Deus”: a preposição grega prós com acusativo indica “movimento para” (13,3; Js 24,23), “aproximar-se de” (Sf 3,2), “chegar junto de” (Ex 2,23), “vir a casa de” (Lc 1,43), dirigir a palavra, falar com alguém (Gn 17,18; Ex 33,11: “O Senhor falava com Moisés, face a face, como alguém fala com o seu amigo”). João indica que o Verbo está com o Pai, mas não é uma ideia abstrata do Pai: Ele é uma Pessoa divina viva, distinta do Pai, que está com Ele e n’Ele em permanente intimidade relacional, em constante diálogo pessoal (escuta-elóquio; proposta-resposta) com Ele.
“E Deus era o Verbo” (literalmente). “Deus” é usado aqui sem artigo, como predicado: o Verbo não é criatura, mas é divino, Deus. Uma afirmação considerada desde logo blasfema pelo judaísmo (10,33; Mt 26,65). Ao afirmá-lo, o evangelista excluiu que qualquer outra coisa, pessoa ou ser possa ser Deus, rejeitando desta forma todo o politeísmo.
O evangelista introduz-nos, logo desde o início, na esfera divina: esta não é situada nos céus, como no AT (cf. Sl 2,4; 115,3), mas no seio da comunhão trinitária, anterior a tudo o que existe. Deste modo, apresenta-nos Jesus como a suprema, plena e definitiva revelação de Deus, consistindo a sua obra em inaugurar a nova criação, fazendo nascer o homem novo, completando assim e coroando com a sua ação a obra iniciada por Deus na criação e levando-a à sua plenitude, tornando o homem participante da vida divina por seu intermédio.
- v. 2. Ele estava no princípio com Deus.
João repete o que disse no v. 1: o Verbo estava/era desde toda a eternidade com Deus. João distancia-se, porém, de Filão de Alexandria, que via no lógos apenas uma ideia abstrata de Deus, em vista da criação: o Verbo é coeterno ao Pai, Ele vive desde sempre numa profundidade íntima e relacional com o Pai (cf. 10,30; 14,20; 17,21ss), sendo esta sua relação com o Pai a sua identidade, a sua razão de ser, constitutiva e pessoal, independentemente da criação e anterior a ela. De modo que é a criação a existir graças a Ele (v. 3).
Os vv. 1-2 formam uma unidade, formando um paralelismo sinonímico em degrau disposto quiasticamente:
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A. no princípio |
A’. no princípio com Deus |
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B. era |
B’. estava (gr. “era”) |
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C. o Verbo |
C’. Ele (gr. “este mesmo”) |
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D. e o Verbo |
D’. o Verbo |
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E. estava (gr.: “era”) |
E’. era |
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F. com Deus |
F’. e Deus |
- v. 3. Tudo foi feito por meio d’Ele e sem Ele nada do que existe foi feito.
João apresenta em seguida, num paralelismo antitético, o papel do Verbo na obra da criação, sublinhando que é o mediador exclusivo do pensamento, da vontade e da ação de Deus. “Tudo” (gr. pãs), ou seja, todas as coisas e cada uma delas. Tudo o que existe foi criado a partir do nada (2Ma 7,28) pelo Verbo, palavra de Deus (Sb 9,1; Gn 1,3.6.9.11.14.20.24. 26.29; Sl 33,6; Is 45,12.18; 1Cor 8,6; Cl 1,16s; Hb 1,2; Ap 3,14). O Verbo não é um mero plano, instrumento e mestre de obras funcional, em vista da criação, mas é uma Pessoa divina, viva, criadora, em par de igualdade com o Pai, sendo por seu intermédio que tudo é feito, como repete no v. 10. “E sem Ele nada do que existe foi feito”. Este enunciado negativo elimina toda e qualquer exceção (gr. oude: nada, nem mesmo). Idêntica afirmação encontra-se em Qumrã, na Regra da comunidade: “Tudo o que existe é Ele que o assenta com os seus cálculos e nada se faz fora d’Ele” (1QS 11,11). Não existe nada fora da vontade e do projeto de Deus, que não tenha sido expresso pela sua palavra, o Verbo, e realizado por Ele. Não há criatura que não seja expressão de Deus e, portanto, má em si mesma. Exclui-se todo o dualismo e emanancionismo, não há lugar para éones, nem divindades intermediárias, como no gnosticismo ou na filosofia grega.
- v. 4. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens.
Depois de ter falado da relação do Verbo com Deus e com as criaturas, o evangelista passa a falar das relações do Verbo com o homem (vv. 4-5). Começa por apresentar o projeto de Deus. Deus não se limitou a criar o mundo material, mas quis também criar a vida (Gn 1,11-12.20-27). “Vida” e “luz” são os dois grandes temas do Quarto Evangelho (8,12). “Vida” é sinónimo de vitalidade, de crescimento, de multiplicação, de transmissão, de ação.
Num primeiro nível, natural, a vida designa na Sagrada Escritura a própria existência pessoal, o único bem, o bem mais precioso que o homem tem (Sl 22,20; 35,17).
Num segundo nível, ético ou religioso, significa aderir a Deus, amando-o (Dt 30,6), guardando a Sua palavra e fazendo a Sua vontade (Gn 2,16-17; Dt 4,1.4), praticando a justiça (Dt 16,20; Rm 10,5), os seus mandamentos, leis e decretos com fidelidade (Hab 2,4): “Eis que hoje ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. Assim, ordeno-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus mandamentos, leis e decretos. Assim viverás, multiplicar-te-ás e o Senhor, teu Deus, abençoar-te-á na terra em que vais entrar para dela tomar posse” (Dt 30,15-16; cf. Lv 18,5; Ez 20,11.13.21; Lc 10,28; Gl 3,12). Quem faz a vontade de Deus e pratica a justiça viverá para sempre: “Os justos vivem para sempre (gr. eis tón aiôna), recebem do Senhor sua recompensa, o Altíssimo cuida deles” (Sb 5,15).
Num terceiro nível, teológico, a vida, aplicada a Deus, não refere algo que Ele possui, que lhe foi dado (como acontece como os seres vivos), mas que Ele é: Ele é vida (gr. zôe; he. hayim) por antonomásia, a vida propriamente dita: “Ele é a tua vida” (Dt 30,20). Ele é o “Eu Sou” que vive e diz: “vivo Eu” (Nm 14,28; Sf 2,9); é Aquele por que se jura, apelando ao que nele mais há de próprio e de sagrado: “vive o Senhor” (1Sm 26,16; 28.10; 1Rs 2,24; 17,1; 22,14; Jr 44,26; cf. 2Sm 2,27; Ez 20,3; 33,27). A vida é o atributo divino fundamental: Deus é o Deus vivo (6,57; Dt 5,26; Js 3,10; 1Sm 17,26.36; 2Rs 19,4.16; Sl 42,3; 84,3; Is 37,4.17; Jr 10,10; 23,36; Dn 6,21.27; 14,25; Os 1,10; Sr 18,1; Mt 1,6,16; 26,63; At 14,15; Rm 9,26; 2Cor 3,3; 6,16; 1Ts 1,9; 1Tm 3,15; 4,10; Hb 3,12; 9,14; 10,31; 12,22; Ap 1,18; 7,2),
“A vida” com artigo, em João, designa a vida eterna (Jo, 17x: 3,36; 5,24; cf. Dn 12,2; 2Ma 7,9; Gn 3,22), a vida de Deus (cf. Dt 32,40; Dn 12,2; Sb 15,3). Vida que o Pai comunica ao Filho e com Ele partilha: “como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter a vida em si mesmo” (5,26). Por isso, o Verbo é a vida (11,25; 14,6; 1Jo 5,12.20).
“N’Ele estava/era a vida”: “a vida” está no Filho (5,26; 1Jo 5,11.20). Como é por meio do Verbo que Deus cria, é também por meio do Verbo que Deus infunde a vida no homem através do seu sopro para que o homem passe a ser uma alma vivente (Gn 2,7; cf. Jo 20,22). No paraíso o que fazia o homem viver era a comunhão com Deus, mantida graças à obediência à sua palavra (cf. Gn 2,16); por isso, quando o homem desobedeceu, pecando, perdeu a comunhão com Deus e experimentou a morte (cf. Gn 3,6s.11.19). Desta forma para ter a vida, há que voltar à comunhão com Deus, o que só é possível por meio do Verbo (5,40; 1Jo 5,12). O Verbo é a comunicação da vida que o Pai é e que Ele tem, enquanto vive pelo Pai (6,57). A vida está no Verbo porque é Ele que dá a conhecer Deus e é o caminho que a Ele leva (14,6), comunicando-a a quem O escuta e nele crê (5,24), como fora anunciado no AT: “Esta palavra não é vã para vós porque ela é a vossa vida” (Dt 32,47). O Verbo é, pois, “a Palavra da vida. Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e damos testemunho dela e vos anunciamos a vida eterna que estava junto do Pai e nos foi manifestada” (1Jo 1,1-2). Deus faz-se presente, dá-se a conhecer e comunica-se ao homem através da sua Palavra, geradora de vida.
“E a vida era a luz dos homens”. Tal como a vida, “a luz” é entendida aqui também em sentido moral. Este é o projeto de Deus: que o homem tenha a vida, ou seja, que viva em comunhão com Ele. O que só é possível através da sua Palavra. Ora a primeira palavra de Deus foi: “Haja luz” (Gn 1,3). A “luz” é o resplendor da vida, a vida enquanto esta se dá a conhecer aos homens. A nível natural, a luz é o que possibilita vermos distintamente as coisas. A luz permite discernir a forma, a distância, a dimensão e a relação dos objetos, mostra o caminho e evita as perplexidades e perigos resultantes da escuridão. Por isso, a luz é símbolo da verdade, do conhecimento, da inteligibilidade, da transparência, da sabedoria. Por sua vez, a luz do sol é a irradiação e o calor que permite a vida, o âmbito onde ela decorre e é levada a cabo a ação (cf. Jb 3,20). “Deus é luz” (1Jo 1,5), enquanto é a fonte da vida: “pois a fonte da vida está em Ti e é na tua luz que nós vemos a luz” (Sl 36,9), que salva (Sl 27,1) para que o homem possa caminhar “na presença de Deus, na luz da vida” (Sl 56,14) e dá a vida (Mq 7,8; Jb 33,28.30). O Verbo é “a luz do mundo”, “a luz da vida” (8,12) que veio ao mundo e conduz à vida (12,46).
Por um lado, esta nota, em sentido lato, é uma referência à criação, em particular à criação do homem. Toda a obra da criação é uma luz feita por Deus, de forma bela, boa, sapiente e harmoniosa, para que os homens pudessem chegar ao conhecimento de Deus e levar uma vida moral reta de acordo com a sua consciência (cf. Rm 1,19-20).
Por outro lado, em sentido mais específico, o termo “luz” no AT era um dos modos de falar da Lei de Moisés: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos” (Sl 119,105); “a luz incorruptível da tua Lei” (Sb 18,4); “nos seus mandamentos deu-lhe o poder… para iluminar Israel com a Lei” (Sir 45,17 LXX). Enquanto “luz”, a Lei, dada a conhecer, é fonte de vida: “não apenas de pão vive o homem, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus” (Dt 8,3). A palavra é a verdadeira luz (cf. v. 9). Por isso, o judaísmo prefere a ordem inversa, afirmando que a Lei é a luz que dá a vida: “O preceito é uma lâmpada e a instrução é uma luz, e a exortação que disciplina é um caminho de vida” (Pv 6,23; Is 51,4).
Ao inverter a ordem do judaísmo, João sublinha que a verdadeira vida, a vida eterna, não procede da Lei, mas de Jesus Cristo, ao qual se tem acesso mediante a fé na sua Palavra, como afirma o elemento correspondente na estrutura quiástica do prólogo: “Porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (v. 17). Desta forma a vida não é apenas a luz dos homens enquanto os faz nascer para a luz e lhes é dada enquanto eles caminham segundo a palavra de Deus (cf. Is 2,3-5), mas também é luz enquanto lhes aponta a meta. De facto, aquilo a que o ser humano mais aspira é a vida, a felicidade, que, em João, Jesus vem trazer e só Ele pode dar em plenitude (10,10), porque só Ele dá a vida para além da morte (11,25; Ap 2,10). Neste sentido, o Verbo é a verdadeira “árvore da vida” (Gn 3,22.24; cf. Pv 3,18; 11,30; 13,12; 15,4), tema que em João se conjuga com diversas expressões: “Eu sou o pão da vida” (6,35.48), “a vida do mundo” (5,51), “a luz da vida (8,12).
“Vida” e “luz” são em João os dois conceitos que caracterizam a esfera da divindade, em oposição às trevas (v. 5) e à morte. Vida (11,25; 14,6) e luz (8,12; 9,5; 12,36.46) que adquirem um significado soteriológico ao serem identificadas com Jesus no Evangelho. Sendo o projeto divino expresso no Verbo, a vida em comunhão com Ele, então faz parte deste projeto mostrar qual é o caminho que há que seguir, para que isto aconteça. Esse caminho é a verdade que o Verbo dá a conhecer, para que o homem tenha a vida (cf. 14,6). Esse é o desígnio do Pai.
Ao dizer que no Verbo “estava a vida e a vida era a luz dos homens”, não apenas “luz”, nem apenas de Israel, como a Torá, João apresenta o Verbo como a fonte e a plenitude da salvação e do conhecimento de Deus para toda a humanidade.
- v. 5. A luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam.
João fala depois, num paralelismo antitético, da obra da luz, completando o versículo anterior: “A luz brilha nas trevas”: num primeiro nível, é uma referência à criação. “No princípio… a terra era informe e vazia e as trevas cobriam o abismo… Então Deus disse: ‘Haja luz’ E houve luz” (Gn 1,1-3).
“E as trevas não a compreenderam”. “Compreender” (gr. katalambano) significa “apoderar-se, apropriar-se, dominar, prevalecer, entender, compreender”. João, num primeiro nível, evoca uma vez mais a obra da criação: “Deus separou a luz das trevas. Deus chamou “dia” à luz e “noite” às trevas. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia” (Gn 1,4-5). Ou seja, depois de criar a luz, surgiram as trevas da noite, com as quais começou o primeiro dia. Mas estas não prevaleceram e despontou o novo dia. Mais: no quarto dia Deus criou o sol, a lua e as estrelas, para iluminar a terra, o primeiro durante o dia, a segundo e as terceiras, durante a noite. Portanto, as trevas nunca conseguiram prevalecer, vencer, dominar, apoderar-se da luz, mas esta, basta começar a brilhar, nem que seja um raio, para as vencer.
Num segundo nível, “luz” e “trevas” simbolizam os dois reinos que se definem a partir da aceitação ou da rejeição da vida (a comunhão com Deus mediante a observância da sua palavra, ou seja, por meio do Verbo) por parte do homem. “A luz brilha nas trevas”. O verbo “brilhar” (gr. phainô: “aparecer”) está no presente do indicativo.
Num primeiro sentido, na esfera de Deus, indica que o Verbo resplandece sempre, desde sempre e para sempre, como um sol permanente, por toda a eternidade, em Deus, sem qualquer treva ou sombra, como Deus.
Num segundo sentido, no que se refere à criação, indica que Deus tudo fez por meio do Verbo de modo que o ser humano o pudesse conhecer a partir das coisas visíveis (At 17,24-28), “pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar o seu autor (Sb 13,5).
“E as trevas não a compreenderam”. De facto, a luz divina, imaterial, que é o Verbo, não foi aceite por todos, ou seja, pelas “trevas”. As trevas simbolizam aqui o reino do mal e do pecado, da ignorância e da morte, introduzido na criação pela revolta e queda de Satanás (cf. 13,27; Jb 1,6; 2,1; Zc 3,1s) e dos seus anjos, que pecaram (cf. Gn 6,2.4) depois de terem sido criados por Deus por meio do Verbo (cf. 1Jo 3,8; 2Pd 2,4; Jud 6), arrastando consigo as forças da criação (cf. Ef 2,2; 6,13). A revolta de Satanás foi secundada pelo homem, que pecou no princípio, tentado por Satanás, não acreditando na palavra de Deus e desobedecendo à Sua vontade (cf. Gn 3,1-6; Ap 12,9), tornando-se presa das trevas e da morte, escravo de Satanás (cf. Sb 2,24; 1QS 3,17-24). “Entenebrecidos assim no seu entendimento, separados da vida de Deus, pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração, na futilidade dos seus pensamentos, tornando-se insensíveis” (Ef 4,18s), os homens, cegados pelo “deus deste século” (2Cor 4,4) “ignoraram a Deus e, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer Aquele que é, nem considerando as obras, de reconhecer o Artífice” (Sb 13,1), acabando por rejeitar, com a sua sabedoria mundana, o conhecimento de Deus para praticarem toda a espécie de mal (cf. Rm 1,20-25.28-32; Ef 4,19), preferindo as suas obras más à luz de Deus (3,19), tornando-se assim presa das trevas, sequazes de Satanás (cf. At 26,18), a cujo domínio está sujeito “o mundo” do pecado (cf. 12,31; 1Jo 5,19).
Mas “as trevas não prevaleceram” porque “Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para que subsista; são salutares as criaturas do mundo: nelas não há veneno de morte, e o Hades não reina sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1,13-15) . Assim, Deus chamou Abraão e com ele iniciou uma história de salvação, que depois estendeu ao Seu povo, o povo de Israel, e, através do seu Filho, a toda a humanidade, dando-lhes a palavra da vida, que ensina a verdadeira sabedoria, pois “Deus não ama senão quem habita com a sabedoria. Ela é mais radiosa do que o sol e supera todas as constelações; comparada com a luz, surge mais luminosa, porque a esta sucede a noite, ao passo que sobre a sabedoria não prevalece o mal” (Sb 7,28-30). “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1; cf. 42,16), não prevalecendo o pecado sobre a luz (Is 50,10).
- v. 6. Houve um homem, enviado por Deus: o seu nome era João.
v. 6: cf. Mc 1,4. Tendo exposto o desígnio salvífico de Deus através do Verbo, o evangelista introduz-nos nos umbrais da nova aliança, apresentando-nos a figura de João Batista, o Precursor. “Houve um homem”, um ser mortal, passageiro, que não é Deus (ao invés do Verbo). Ele foi “enviado por Deus”, ou seja, que é o Elias prometido (apesar do que ele próprio diz de si mesmo: vv. 21.25; Mal 3,1.3.22-23; cf. Mt 11,14; 17,10-13; Lc 1,17). “O seu nome João” (he. “Deus concedeu a graça”): é a primeira das dezassete passagens referentes a João Batista neste Evangelho.
- v. 7. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele.
O evangelista apresenta depois a sua missão de João (vv. 7-8): ele não é o Messias, é apenas uma testemunha que, como profeta, “veio… para dar testemunho da luz” ou seja, “da verdade” (5,33.35; cf. 18,37) que é a palavra de Deus (o Verbo). O substantivo “testemunha” (gr. martyría, Jo, 14x) e o verbo “testemunhar” (gr. martyréo, Jo, 31x) são um tema central do Quarto Evangelho. A testemunha é alguém que não fala de si mesmo (cf. 8,31), mas depõe em público o que ouviu e viu (cf. 1Jo 1,1-2). Pressupõe em geral, um pronunciamento feito em tribunal. Neste caso, o Quarto Evangelho é redigido como um processo em que a verdade rejeitada pelo mundo e o povo de Israel é declarada, atestada e confirmada pelos discípulos de Jesus Cristo, não só com a palavra, mas também com o dom da própria vida. Testemunhar é também um ato de revelação de cariz profético: anunciar aquilo que Deus deu a conhecer, mediante a palavra que diz e faz ver (cf. Nm 12,6; 1Sm 3,1), para que a transmita.
“Para que todos acreditassem por meio dele” (At 19,4): é uma referência à missão de João, que era preparar o caminho para Jesus, como diz Is 40,3-5 (v. 23). - v. 8. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
O evangelista insiste novamente no que acaba de afirmar, segundo o procedimento típico da poesia hebraica, o paralelismo, neste caso, um paralelismo antitético que forma um paralelismo sintético com o v. 7. “Ele não era a luz”: João não é a luz, o Messias prometido, “luz das nações” (Is 42,6; 49,6), “mas veio para dar testemunho da luz” (v. 7), para que através da sua palavra e missão, o Verbo, o Messias-Esposo, que se revela a Israel numa abertura universal (Is 61,11; 62,1-5). - v. 9. O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem ao mundo.
Depois de se ter referido à missão de João Batista, o evangelista alude nos vv. 9-13 à missão e vinda do Verbo ao mundo.
O Verbo – subentende-se o sujeito do v. 4 (gr. autós, “Ele”, “o Verbo”: v. 1), porque não se usa nenhum nome ou pronome – “era a luz verdadeira” (1Jo 2,8), que brilha no meio das trevas (v. 5; Mq 7,8; Sl 139,11), dissipando-as e fazendo e faz irromper o novo dia.
“Verdadeiro” (gr. alêthinos, Jo, 9x) é um dos atributos divinos em João (7,28; 17,3), que se aplica a Jesus (6,32; 8,16; 15,1; 1Jo 5,20) e às suas testemunhas (19,35 12,35s). “[Ele] era a luz verdadeira”: o verbo ser está no imperfeito, como nos vv. 1-2.4. Refere-se, portanto, ao Verbo preexistente. Ele é a luz verdadeira porque é a manifestação, a revelação plena de Deus (cf. v. 18), que as figuras do AT, os profetas e João Batista anunciavam.
A expressão “que ilumina todo o homem que vem ao mundo” tem no judaísmo por sujeito a Deus (LvR 31,1.6). “Todo o homem que vem ao mundo” é expressão frequente no judaísmo para designar os seres que existem, em particular, o ser humano (Yeb 92b:10; Mekh Ex 18,13; Pesiq 172b). Depois de ter dito no v. 4 que o Verbo “era a luz dos homens” e no v. 5 que ela “brilha nas trevas”, descrevendo a luz em si mesma, o evangelista aqui retoma a mesma afirmação, não apenas para descrever a luz em si, mas sobretudo a sua ação sobre o homem: “ilumina”. O verbo está no presente. Ele faz referência não apenas à qualidade do Verbo “brilhar” (v. 5), de ser visível, mas também à sua capacidade de iluminar e irradiar a vida como luz verdadeira que, mais do que a luz do sol, difunde sobre toda a humanidade e nela infunde, aquecendo-a e vivificando-a (cf. Sl 19,6-7.9). Ele é “a luz do mundo” (8,12), a revelação do Pai, que se destina a toda a humanidade e a cada ser humano, seja ele do Povo de Israel ou não (cf. vv. 4-5).
Ele é “a luz [que] veio ao mundo” (3,19) e que “vem ao mundo” (particípio presente: 11,27) para iluminar todo o ser humano que vem ao mundo, referindo-se assim, tal como no v. 4, também ao Messias que vem iluminar o povo que andava nas trevas e habitava na terra da sombra da morte (cf. v. 5; Is 9,1; Mt 4,16). Vem para iluminar todo o ser humano, judeu ou gentio, “para que todo aquele que crê [n’Ele] não permaneça nas trevas” (12,46), mas “tenha n’Ele a vida eterna” (3,16.36; 6,40; 20,31). É a Ele, pois, que Israel e todos os povos hão de acorrer e seguir, como profetizou Isaías: “Vinde, andemos na luz do Senhor” (Is 2,2-5). Porque será Ele a destruir a morte e a fazer “resplandecer a vida e a incorruptibilidade por meio do evangelho” (2Tm 1,10), sendo assim Ele “a luz verdadeira”, o único que “ilumina todo o homem que vem a este mundo”, não apenas no passado, mas também no presente e no futuro, não só sobre a terra, por toda a eternidade.
- v. 10. Estava no mundo e o mundo foi feito por meio d’Ele e o mundo não O conheceu.
É um paralelismo antitético. O sujeito da frase, omisso, continua a ser o do v. 9: o Verbo (v. 1). Os vv. 10-14 retomam o tema dos vv. 4-5, explanando-o. Por um lado, falam da presença do Verbo no meio da humanidade – a humanidade em geral e o povo de Israel – antes da sua vinda na carne; por outro lado, anunciam prospetivamente o que historicamente aconteceu com a vinda do Verbo na carne, um pouco ao modo de Jz 2,10-23.
“Estava no mundo”: o mundo é uma expressão polivalente no Quarto Evangelho. Pode ter um sentido: a) natural: a terra ou o universo; b) antropológico e existencial: a realidade em que os homens estão naturalmente imersos (cf. 3,16); c) teológico: a realidade que se opõe a Jesus e aos seus discípulos (7,7; 15,18s) e está sujeita a Satanás (cf. 12,31; 14,30; 16,11). Jesus é o Salvador do mundo (4,42) em todas estas dimensões: salva o mundo e salva do mundo. Nesta passagem, “o mundo” entende-se nos três sentidos: “estava no mundo”, em sentido existencial, ou seja, enquanto Palavra de Deus presente no meio dos homens; “e o mundo foi feito por meio d’Ele”, em sentido natural, retomando o v. 3 (1Cor 8,6; Cl 1,15-17; Hb 1,2; 11,3), “e o mundo não o conheceu”, em sentido teológico: a humanidade pecadora.
Destaca-se aqui a presença do Verbo no meio da humanidade. Num primeiro nível de significação, o Verbo, Palavra criadora de Deus, vida que ilumina, estava presente no meio da humanidade, através da linguagem da criação, e através da Lei (a Sagrada Escritura), revelada e confiada a Israel (v. 4; Pv 8,4.31; Sir 24,6-8.23).
Num segundo nível de significação, João anuncia prospetivamente o que João Batista vai dizer a seguir: “No meio de vós está Aquele que não conheceis” (v. 26; cf. 8,19; 14,17; 16,3; 17,25; 1Jo 3,1; 1Cor 1,21). É um tema presente no livro da Sabedoria: “Sim, vãos por natureza são todos os homens que ignoraram a Deus e que, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer Aquele que é, nem, considerando as obras, de reconhecer o Artífice” (Sb 13,1).
“Conhecer” (gr. ginôsko; he. iadá) no sentido bíblico, forte, do termo, significa ter não apenas um conhecimento intelectual, mas também experiencial, próprio, pessoal, íntima. Referido a Deus, implica o cumprimento dos seus mandamentos, da sua vontade (7,17; 8,55; 1Jo 2,3-4). Neste caso, “conhecer” tem o significado de “reconhecer” como Deus e prestar-lhe culto.
O não conhecimento de Deus traduz-se no pecado (1Jo 3,6; Rm 1,28; 1Cor 15,34; Ef 4,17-19; 1Ts 4,5). O mundo rejeitou o Verbo criador, ao rejeitar o Deus único e verdadeiro (17,2), o Artífice de tudo, porque não o via (14,17; At 17,30) e, com Ele, rejeitou a vida e a luz, passando a habitar nas trevas, tornando-se presa da morte (cf. Rm 5,12-13): “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3,19). O livro de Henoc fala também da rejeição da sabedoria pelos homens: “A Sabedoria foi habitar entre os filhos dos homens mas não encontrou lugar” (Hen 42,2).
Num terceiro nível de significação, João antecipa o que irá mostrar ao longo do Evangelho: a rejeição de Deus traduzir-se-á na rejeição de Jesus e dos seus discípulos; fazem-no porque não conheceram a Deus (17,25; 1Jo 3,1; 1Cor 1,21), nem conheceram Jesus (16,3; cf. Mt 11,27; 1Cor 2,8). Esta falta de fé em Deus e a rejeição d’Ele é “o pecado do mundo” do qual Cristo, o Cordeiro de Deus (1,29), vem libertar o homem.
- v. 11. Veio para o que era seu e os seus não O receberam.
Num novo paralelismo antitético João antecipa agora a resposta do povo de Israel à vinda do Verbo na carne. “Veio” (v. 7): a missão do Verbo é posta em continuidade com a de João Batista (vv. 27.30). “Para o que era seu” (gr. eis ta idía: 16,32; 19,27; Est 5,10; 6,12; At 21,6): para a sua casa. Israel é “a propriedade” de Deus (he. segullá: Ex 19,5-6; Dt 7,6; 14,2; 26,18; Sl 135,4; mAb 6,10; Mekh Ex 19,5), o seu tesouro escolhido (Qo 2,8), que assim deveria permanecer, desde que guardasse a Aliança de Deus, obedecendo à sua palavra. A salvação destinava-se em primeiro lugar ao povo de Deus, o herdeiro das promessas feitas por Deus a Abraão, a Israel, a David e à sua descendência (cf. Lc 1,55.73; 2,11; At 3,2613,26.46; Rm 1,16; 2,10; 9,4-5).
“E os seus não O receberam” (gr. paralambánô), ou seja, não O reconheceram, não O aceitaram, nem acolheram (cf. Rm 10,2-3). O verbo paralambánô é o verbo técnico da tradição rabínica: a palavra, o ensinamento, são anunciados, “entregues” (gr. paradídomi), pelo ministro da palavra, o rabino, e “recebidos” pelo ouvinte, o discípulo (cf. 1Cor 11,23; 15,1.3). Isso implica não só a receção de uma doutrina, mas também a imitação do rabino no estilo e na prática da vida (cf. 13,15; Fl 4,9; Cl 2,6; 1Ts 4,1).
Num primeiro nível de significação, o evangelista alude à rejeição do Verbo-palavra de Deus pelo seu próprio povo, um tema recorrente no AT, em especial nos profetas (Nm 14,22; Jz 2,17; 1Sm 8,7; 2Rs 18,12; 2Cr 36,16; Is 6,9; 30,8-11; 43,8; 44,18; Jr 5,21; 9,10; Ez 3,7; Zc 7,11; At 28,27).
Num segundo nível, ele antecipa o drama que se irá desenrolar na sua obra, a rejeição crescente de Jesus pelos dirigentes de Israel, até que ela se consumou, quando Pilatos O “entregou a eles para que fosse crucificado. E tomaram (gr. parélabon) Jesus” (19,16),para lhe dar a morte.
Em suma, sintetizando os vv. 10-11: toda a humanidade, incluído o povo de Israel, na prática não reconheceu o Verbo – e, n’Ele, Deus – que está na origem deles e para eles veio. Como diz S. Paulo conclui: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23). O homem, por si só, nem as religiões, mesmo a de Israel, não são capazes de corresponder ao plano de Deus sobre a criação e a humanidade, são incapazes de ter acesso à verdadeira vida, a vida plena em comunhão com Deus.
- v. 12. Mas àqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que acreditam no seu nome.
Os vv. 12-13 marcam o ponto de viragem da mediação universal do Verbo divino na ordem da criação para a mediação universal do Verbo encarnado na ordem da graça. Representam o ponto de passagem da primeira parte (vv. 1-11) para a segunda parte do prólogo (vv. 14-18), oferecendo a chave do Evangelho.
Anunciam prospetivamente o que irá acontecer com o acolhimento do Verbo vindo na carne. Se a humanidade, em geral, não reconheceu Deus e muitos do seu povo não receberam o Evangelho, no entanto houve outros que “O receberam”, isto é, escutaram, acreditaram, acolheram e aderiram a Ele para O seguir e imitar na prática da sua vida. É uma referência ao acolhimento de Jesus não só por parte dos seus discípulos, mas também ao seu acolhimento na Samaria (4,39), ao episódio dos gregos (12,20-22) e a todos aqueles que n’Ele hão de acreditar através da pregação dos seus discípulos (17,20), quer pertencentes, quer não, a Israel (10,16). Embora a vinda de Jesus na carne se tenha verificado historicamente em Israel, ela destina-se a toda a humanidade (v. 9), a todo o mundo (cf. 3,16). Jesus será um sinal de contradição (Lc 2,34); com Ele começa uma nova época na humanidade, que se dividirá em duas partes desiguais: aqueles que persistem manter a atitude da humanidade pecadora (cf. 3,18) e aqueles que acolhem, recebem Jesus.
O acolhimento de Jesus dá-se através da fé: “àqueles que O receberam…, aos que acreditam no seu nome”. A fé vem da escuta da pregação (Rm 10,17; Gl 3,2.5). Isso significa que para chegar à fé é necessário escutar o anúncio. E para isso é necessário haver alguém que anuncie. E para haver alguém que anuncie, é preciso um enviado (Rm 10,14-15). Por isso, antes de referir a vinda do Verbo ao mundo e a sua rejeição por parte dos homens (vv. 9-11), o evangelista introduz a figura de João Batista (vv. 6-8).
A fé não é apenas a aceitação de uma palavra: é uma caminhada. Por isso se usa a expressão: “acreditar em” (gr. pisteúo eis, Jo, 35x), uma construção gramatical grega que expressa dinamismo, movimento (cf. 3,16.36): a fé é um processo que tende a um crescendo, mas que também pode regredir. O verbo “acreditar” está no presente, indicando que para ser salvo e ter a vida, há que “permanecer” em Jesus (15,4-6), perseverando e progredindo na fé (6,29; Rm 2,7; 2Jo 1,9).
Esta caminhada de fé é na adesão e entrega pessoal a Jesus, para O seguir, confiando nele e vivendo unido a ele, apoiado na sua palavra (cf. 1Ts 2,13; Cl 2,6). Por isso, se acrescenta: “no seu Nome” (gr. eis tó ónoma: 2,23; 3,18; 1Jo 5,13; At 8,16; 1Cor 1,13.15; Hb 6,10). “Nome” é um semitismo que significa a pessoa, identificando-a e tornando-a presente. No AT, “o Nome” por antonomásia é o Nome divino revelado a Moisés: “Eu Sou aquele que Sou” (Ex 3,14). Receber Jesus significa acreditar que Ele é Deus (v. 1), o “Eu Sou” (8,24.28), confessar que Ele é o Messias (vv. 41.45.49; 4,25; At 2,38), o Filho de Deus (20,31).
Aestes que O recebem, acreditando no seu Nome, o Verbo deu-lhe o poder (gr. exousía, “potestade”, “autoridade”, possibilidade, capacidade), o direito não só legal, mas de facto, “de se tornarem”, ou seja, de serem adotados e feitos por Deus “filhos de Deus”, correspondendo a este dom pela prática da fé. Deus não se substitui ao homem, mas capacita-o para que possa levar a cabo a sua própria atividade. É o cumprimento de Os 1,10: “e será que no lugar onde se lhes dizia: ‘Vós não sois meu povo’, se lhes dirá: ‘Vós sois filhos (gr. huioí) do Deus vivo’” (Rm 9,26). Assim como o francês distingue entre fils e enfant, João distingue entre “filho” (gr. huiós), que designa um filho da própria natureza e que ele, em sentido não carnal, usa no singular e reserva para Jesus, e “filho” (gr. téknon), que aplica aos filhos adotivos, neste caso, de Deus (11,52; 1Jo 3,1-2.10; 5,2). Os cristãos são sempre filhos no Filho.
- v. 13. Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade de um varão, mas de Deus.
Num novo paralelismo antitético, complementar do anterior, esclarece-se o que se afirmou no v. 12, dizendo como é que “os que acreditam no nome” de Jesus recebem “a capacidade de se tornarem filhos de Deus”. Para isso, João opõe dois tipos de “nascimento”, originados por dois tipos diferentes de geração (o verbo gr. gennau significa tanto “nascer”, como “gerar”): a) a geração humana, expressa através de uma tríplice negação; b) e a regeneração divina.
a) A geração humana é referida na linha de Sb 7,1-2, que reflete a conceção grega: “Também eu sou um homem mortal, igual a todos, filho do primeiro que a terra modelou, feito de carne, no ventre de uma mãe, onde, por dez meses [lunares, 40 semanas, 280 dias] no sangue me coagulei, de viril semente e do prazer, companheiro do sono”. A geração natural do ser humano é atribuída:
1) ao sangue. “O sangue” para um judeu é onde está a vida (Gn 9,4; Lv 17,11). Aqui “sangue” está no plural (“não nasceram dos sangues”), uma referência à conceção e gestação do ser humano no seio da mãe pela mistura de dois sangues, segundo a conceção grega, originária de Aristóteles: o do pai, através do fluido seminal, que seria o sangue paterno purificado pelo calor do corpo, o princípio gerador que oferecia a forma (no sentido aristotélico, ou seja, o princípio que define e organiza a matéria, o ato que faz uma coisa ser o que ela é – a sua essência, estrutura e identidade) e o movimento do futuro ser; e o sangue menstrual da mãe, que alimentava o sémen depositado no seu ventre (o ovo gerado ou embrião), fornecendo a matéria, o corpo físico, formando-se assim o ser humano a partir do contributo dos dois progenitores (cf. Sb 7,2: “no sangue me coagulei”; Aristóteles, Gen. an. I, 18, 724b14-18; I, 19, 726b31-727a5; II, 4, 739b21-29);
2) “à vontade da carne”. “Carne e sangue” é uma expressão hebraica que designa o ser humano enquanto ser fraco, passível e mortal, em oposição a Deus, que é omnipotente, eterno e imutável (cf. Gn 6,3; Sr 17,31; Mt 16,17; Jo 6,53-56; 1Cor 15,50; Ef 6,12; e, em ordem inversa, como aqui, “sangue e carne”: Hb 2,14). Neste caso “a vontade da carne” é uma referência ao ato conjugal (cf. Sb 7,2: “o prazer, companheiro do sono”);
3) “à vontade de um varão”, uma referência ao desejo de procriar por parte do homem (cf. Gn 38,9; Sb 7,2: “de viril semente”).
Em síntese: João refere-se aqui aos três fatores que intervêm na conceção de um ser humano: a mãe, o pai e o ato conjugal. Ao negar de forma tríplice que a adoção filial de Deus não se deve a nenhum deles, exclui toda a possibilidade desta ter uma origem humana; a filiação adotiva divina não se recebe por descendência natural, como era o caso da pertença ao povo de Israel, chamado “o filho primogénito de Deus” (Ex 4,22; Os 11,1; Sb 18,13) – que fazia sempre valer os seus direitos de primogenitura (cf. Rm 9,3-5) –, povo este formado pelos “filhos do Senhor Deus” (Dt 14,1), que eram assim designados por serem “filhos de Abraão” (8,33.37), ou seja, descendentes carnais de Abraão através de Isaac.
“Mas de Deus”: a adoção filial deve-se a um novo nascimento, não carnal, mas sobrenatural, a regeneração do homem por Deus, independentemente da pertença ou não deste a Israel. Esta oposição entre a geração segundo a carne e a geração segundo Deus remete para a oposição entre o nascimento da carne e o renascimento do alto, da água e do Espírito: “O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires de eu te ter dito: é necessário a vós nascer do alto” (3,6-7). A adoção filial deve-se a um novo nascimento do homem, não na carne, mas a partir “do alto”, ou seja, de Deus, por ação do Espírito Santo (cf. Tt 3,5); não se alcança por força da Lei, mas recebe-se por meio da fé; não é fruto de uma geração humana, mas dom do Espírito Santo (cf. 7,39; Gl 3,2); não se destina apenas ao povo de Israel, mas a todos os homens.
Anunciado o projeto eterno de Deus, a resposta dos homens a ele e a impossibilidade do homem por si só se salvar e de ter acesso à vida divina, tornando-se filho de Deus, João passa a apresentar o modo como isso se tornou possível, em virtude da entrada do Verbo divino no seio da história humana. Dá-se assim uma passagem na estrutura quiástica do prólogo de S. João, da primeira parte do mesmo, formulada na terceira pessoa (do singular e do plural), num dinamismo descendente do Verbo até aos homens, situando-se na esfera da natureza e da lei, para a segunda parte, formulada na primeira pessoa do plural, num dinamismo ascendente, centrada na obra da graça, levada a cabo pelo Verbo encarnado.
- v. 14. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós e contemplámos a sua glória, a glória como Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Com o v. 14 começa a segunda parte do prólogo. Começa, tal como a primeira parte, com a referência ao Verbo: “E o Verbo (ho Lógos) fez-Se carne”. Nele exprime-se a vinda do Verbo aos homens e a sua receção. A sua vinda assinala um novo princípio, o do retorno ascendente para Deus, dado a conhecer pelo Verbo encarnado aos que n’Ele creem (O “veem”) como Pai (v. 18; cf. 14,9-11; 20,17).
“E o Verbo fez-Se carne” (1Tm 3,16; Hb 2,14; Rm 1,3; 9,5; Cl 1,22; 1Jo 4,2; 2Jo 7; cf. Mt 1,20; Lc 1,35; Hb 10,5; 1Pd 3,18). O Verbo divino, eterno, que tudo criou, fez o impensável, o que parecia ser impossível: entrou no tempo, “fez-Se” aquilo que não era, “carne” (v. 13), uma criatura humana, frágil, limitada, mortal que, por si mesma, nada é: “a carne para serve” (6,63). Deus não está em rivalidade com o homem, como pretendia o maligno (cf. Gn 3,4-5; Fl 2,6-7), Ele não é mudo. Não permaneceu calado, fechado para sempre no seu mistério. Deus quis comunicar-se: desejou falar-nos, revelar-nos o seu projeto, mostrar-nos o seu amor (3,16), dar-Se a nós, fazer-nos seus filhos, tornar-nos participantes da sua vida divina. Jesus, a Palavra-projeto de Deus feita carne, é quem torna isso possível.
Deus não se comunicou por meio de conceitos e doutrinas sublimes, que somente os eruditos podem entender. A sua Palavra, que é Deus, encarnou em Jesus, o Homem novo, em quem Deus se tornou visível aos homens, sendo Ele a única imagem de Deus permitida por Deus, porque por Ele dada, a única imagem capaz de representar e reproduzir verdadeiramente Deus (cf. Gn 1,26-27; Rm 8,29; Cl 1,15; Hb 1,3), para que até os mais simples O possam compreender (gr. katalambánô: v. 5; Ef 3,18; cf. At 4,13; 10,34; 25,25).
“E habitou entre nós”, literalmente “pôs a sua tenda (gr. skênê) em nós (gr. en hymin)”. É uma alusão à Tenda da Reunião (he. ‘ohel mo’ad; gr. skênê tou martyríou), ou do encontro com Deus (Ex 25,8.16.21-22), a “habitação” (he. mishkan: Ex 25,9; Ex 39,40) de Deus no meio das impurezas do seu povo (Lv 16,16). No seu interior, no Santo dos Santos, encontrava-se a Arca da Aliança (Ex 40,3). A tenda tinha sido montada por Moisés fora do acampamento (Ex 33,7). Ao longo de todo o AT Deus tinha feito a promessa de habitar no meio do seu povo (cf. Ex 25,8; 29,45-46; Lv 26,11-12; Ez 37,26s; Zc 2,14s; 2 Cor 6,16; Ap 21,3), mas isso só acontecia no Templo de Jerusalém. Curioso é que esta promessa de Deus habitar entre o seu povo (he. tavek; gr. en méso) é traduzida em muitas passagens em grego pela preposição ev (“em”: Ex 25,8; 29,45; Lv 16,16; 26,11; Ez 37,27), com a qual não só se diz o mesmo, mas também se abre a possibilidade de entender esta habitação de Deus entre o seu povo se realize “dentro” dos seus membros. É o que acontece em Cristo (cf. 2Cor 6,16) e que João afirma aqui: o Verbo feito carne pôs a sua tenda, estabeleceu a sua morada, não só no meio dos seus discípulos, mas também neles, dentro deles (14,23). É um dos temas fundamentais do Quarto Evangelho, indicado pelo verbo méno (“morar”, “permanecer”, Jo, 33x: 15,4) e o substantivo monê (“morada”, 2x).
“E nós vimos a sua glória” (2,11; 1Jo 1,1-3; Lc 9,32; 2Pd 1,15-16). O verbo “ver” (gr. theáomai, “ver atentamente”, “contemplar”: vv. 32.38; Ex 3,8; 24,16; 33,9; 34,5; Nm 11,17.25; Jz 14,19) indica aqui um ato que se repete. O verbo está no plural, indicando que João está aqui a dar testemunho de que Jesus é Deus. Como um testemunho para ser válido precisa de ser dado pelo menos por dois (8,17s; Dt 19,15; Mt 18,16), João apresenta o seu testemunho pessoal unido ao dos outros apóstolos (cf. 1,41.45; 1Jo 1,3-5), incluindo neste caso também os discípulos de Jesus Cristo (v. 16: “todos nós”; 11,40).
A “glória” (he. kabôd, gr. doxá, 2x: “abundância, peso, brilho, esplendor, majestade”) é aqui entendida como prerrogativa divina por excelência (5,41.44; 11,40.41). É o resplendor da presença e ação divina de Deus no meio dos homens, quer através de uma visão sobrenatural (Ex 24,17; 33,18s; 34,6s), quer através de acontecimentos, sobretudo dos “sinais” e prodígios. Durante o Êxodo, isso aconteceu de forma especial através da shekhiná (“habitação”), a presença de Deus no meio do seu povo no Sinai (Ex 19,16; 24,18), na Tenda da Reunião (Ex 33,9; 40,34s; Nm 9,18) e, mais tarde, no Templo (1Rs 8,10ss), aquando a sua consagração. Assim, durante a peregrinação de Israel no deserto, a Sua presença no meio do seu povo era manifestada através da nuvem de fumo durante o dia e a coluna de fogo durante a noite que acompanhou Israel “em todas as suas jornadas” (Ex 40,38; 13,21). A Moisés de forma particular Deus revelou a Sua glória (cf. Ex 33,18), escondendo-o e deixando-o vê-la pelas costas, dizendo: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e piedoso, lento para a ira e cheio de amor e verdade” (Ex 34,6-7).
É esta mesma presença e ação de Deus no meio do seu Povo que João e os apóstolos viram em Jesus, nos seus milagres, na sua transfiguração, na sua paixão, morte e ressurreição. Só que essa glória não é apenas de Deus, mas é “a Sua glória”, a glória do Verbo encarnado, que manifesta aos homens que é Deus, quem é o Pai e comunicando-lhes a vida divina. Acompanhando, guiando e levando a cabo nos seus discípulos no grande êxodo da sua passagem deste mundo para o Pai (cf. 13,1; 20,17). Desapareceram as distâncias: Deus fez-se carne, habita entre nós, habita em nós, Ele nos guia e salva. Para nos encontrarmos com Ele, não é preciso sair do mundo: basta aproximarmo-nos de Jesus, unir-nos a Ele.
“A glória como Unigénito”: “Unigénito” (gr. monogenês: “único gerado”) significa “filho único” (Jz 11,34; Tb 3,15; Sl 22,21 LXX; Lc 7,12; 8,42; 9,38; Hb 11,17). No NT João é o único a aplica este título a Jesus (v. 18; 3,16.18; 1Jo 4,9). Como a expressão “filho de Deus” não tinha sentido transcendente, podendo designar o Rei-Messias (2Sm 7,14; 1Cr 17,13; Sl 2,7; 89,26s), o povo de Deus (Jr 3,19; 31,9; Os 2,1), os seus membros (Dt 14,1), o justo (Sb 2,18) ou os juízes (Sl 82,6), como o próprio Jesus nota (10,34ss), João aplica este título a Jesus para afirmar claramente que Jesus é o Filho único de Deus, por Ele gerado desde toda a eternidade, sendo da mesma natureza do Pai e, por isso, Deus (v. 1; 20,28).
“Do Pai”: só agora, depois de ter falado da encarnação do Verbo, é que João mostra que ao falar de Deus com artigo é ao Pai que se está a referir. Porque uma das missões de Jesus foi a de revelar Deus como “o Pai” (com artigo, Jo, 112x), em sentido absoluto (v. 18), de quem Ele é “o Filho”.
A expressão “Unigénito do Pai” evoca o sacrifício de Abraão, a quem Deus pediu que lhe oferecesse o seu único filho, Isaac, a quem tanto amava (Gn 22,2.12.16), em holocausto, o que não foi consumado. Em vez disso, o Pai dará o seu Filho unigénito para salvar a humanidade (3,16).
“Cheio de graça e de verdade” (v. 17): é uma citação de Ex 34,6 (v. supra), traduzindo a expressão “cheio de amor e de verdade” (he. rab hesed we ‘emet), uma expressão são que evoca também o Rei-Messias Esposo do Sl 45,3.5.
Diversamente dos LXX, que traduz hesed (o amor constante, forte e fiel, de Deus) por poluéleos (gr. “muito misericordioso”), João tradu-lo por “graça”. “Graça” é a manifestação e comunicação do amor gratuito e generoso de Deus ao homem de forma não absorvente, mas expansiva e libertadora. Ao traduzir hesed por “graça”, João põe sob o signo do amor toda a obra de Deus e de Jesus.
A “verdade”, em grego aletheia (Jo, 20x), traduz o hebraico ‘emet, adjetivo que deriva de ‘em, “mãe”, e designa a constância do amor, significando o que é firme, estável, contínuo, certo, veraz, autêntico, fidedigno, constante e fiel. Os rabinos notam que ‘emet se escreve com três letras: a primeira (alef), a mediana (mem) e a última (tau) do alfabeto hebraico, afirmando que “a verdade permanece eternamente” (bShab 104a). A verdade é quando o que se diz e o que se faz se confirmam, conciliando o princípio e fim, numa conjugação de esforços, que tudo engloba e em que tudo se completa, mantendo a sua continuidade e coesão ao longo de todo o processo, assegurando a sua consistência e plena realização até ao fim, isto é, até ao seu termo.
A esta conotação hebraica de ‘emet, João junta o significado grego de a-letheia, “des-velamento”, revelação. Neste sentido, João apresenta o Verbo encarnado como a plena auto comunicação e autor revelação do amor de Deus ao homem, da qual Jesus está “cheio”, repleto, na medida em que estes atributos, que são próprios de Deus, seu Pai, também são seus (17,10), não só enquanto Deus, mas também enquanto Verbo encarnado, uma vez que, enquanto Deus e enquanto homem é uma só e a mesma pessoa, o (Filho) Unigénito do Pai.
- v. 15. João dá testemunho d’Ele e clama, dizendo: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem após mim, passou à minha frente, porque era primeiro do que eu».
No v. 15, seguindo a disposição quiástica do prólogo, retoma-se o testemunho de João Batista. Ele “clama” (gr. krazo, Jo, 4x: 7,28.37; 12,44), ou seja, fala em alta voz, “grita”, como um pregoeiro, para que todos possam ouvir a sua voz e a sua mensagem chegue a todos, pois ela urge uma resposta (cf. Is 42,2-4; Jr 4,5).
“Era deste que eu dizia”: o evangelista antecipa prospetivamente o que vai narrar no v. 30, como se estivesse a referir-se a algo que aconteceu no passado.
“O que vem após mim” (gr. opíso mou, cf. Mt 4,19; Mc 1,17: “Vinde após Mim”; Lc 9,23). Jesus aparece inicialmente como continuador da missão de João Batista (cf. Mt 4,12.17; Mc 1,14).
Mas “passou adiante de mim” (3,25s; Gn 45,5.7), uma vez que era o Messias, porque “era primeiro do que eu”, ou seja, existe desde toda a eternidade como Logos divino (v. 1), sendo, por isso, “primeiro” do que João. “Primeiro” (gr. prótos), com artigo, é um título divino: “Eu Sou o primeiro” (Is 44,6; 48,12; Ap 1,17; 2,8; 23,13).
- v. 16. Porque da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça.
O v. 16 corresponde na estrutura quiástica do prólogo as vv. 4-5. A correspondência dá-se não a nível verbal, mas conceptual. À dupla vida-luz corresponde a dupla plenitude/graça.
“Plenitude”, em grego plerôma (cf. Ef 4,13; Cl 1,19; 2,9) significa a plenitude da divindade (Ef 3,19), com todos os seus atributos – “a graça e a verdade” (v. 14) –, e tudo o que ela possui: o tempo (cf. Mc 1,15; Gl 4,4; Ef 1,10), o universo e tudo o que nele existe (cf. Sl 24,1; 50,12; 89,12; 96,11; 98,7; 1Cor 10,26), incluindo o género humano (cf. Rm 11,25) e a Igreja (Ef 1,23).
“Graça sobre graça”, isto é, graças em catadupa, umas atrás das outras, procedentes da plenitude de Cristo, como de uma fonte inexaurível.
- v. 17. Porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.
O v. 17 corresponde na estrutura quiástica do prólogo ao v. 3. “Jesus Cristo”: é a primeira vez que João refere o nome de Jesus, identificando desta forma o Verbo encarnado como sendo Ele. Perante Jesus, aquele que revela e comunica a plenitude da mensagem e da vida divina, Moisés, tal como João Batista, é apenas uma figura limitada e circunstancial, tendo transmitido algo da mesma natureza: a Lei. Mas com Jesus inaugura-se uma nova era: o regime da graça e da plena e definitiva revelação de Deus.
- v. 18. A Deus ninguém jamais O viu; Deus Unigénito, que está no seio do Pai, esse é que O deu a conhecer.
O v. 18 corresponde na estrutura quiástica do prólogo aos vv. 1-2. “A Deus, ninguém jamais viu”: cf. Ex 19,21; Is 6,5. Os profetas, os sacerdotes, os mestres da Lei falavam muito de Deus, porém ninguém tinha visto o seu rosto. O mesmo acontece hoje entre nós: na Igreja falamos muito de Deus, porém ninguém o viu. Somente Jesus, “Deus Unigénito, que está no seio do Pai é quem o deu a conhecer”. Deus, sem artigo, tem sentido adjetival. Novamente se refere o Unigénito, afirmando que Ele é Deus e continua a ser/estar/ no seio do Pai, isto é, no mais íntimo ser do Pai.
“Esse é que O deu a conhecer”, em grego, exēgéomai, “explicou” interpretou. Só Jesus nos revela quem Deus realmente é, só Ele é a fonte para nos aproximarmos do seu Mistério.
De quantas ideias temos de nos libertar e deitar fora, para, libertos, nos deixarmos atrair e seduzir pelo Pai que se revela em Jesus! E como é importante abrir-nos a Jesus e acreditarmos nele, pois só Ele nos comunica e torna participantes da vida divina.
Tudo muda, quando se compreende que Jesus é rosto humano de Deus. Tudo se torna mais simples e mais claro. Agora, sabemos como Deus nos vê quando sofremos, como nos procura quando nos perdemos, como nos entende e perdoa quando o negamos. Jesus revela-nos “a graça e a verdade” de Deus.
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Como me aproximo de Deus: pelas minhas forças, interrogações e dúvidas, ou pela fé em Jesus Cristo?
- Escuto a Palavra de Deus no silêncio e íntimo do meu ser?
- Tenho acolhido o Senhor na minha vida, a Sua luz, a Sua Palavra? Reconheço-o na pessoa dos homens e mulheres, meus irmãos?
- Que sentido tem para mim a encarnação do Verbo de Deus e o seu nascimento na nossa história e na minha/nossa vida?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 98,1-6 (R. 3c)
Refrão: Todos os confins da terra viram a salvação do nosso Deus.
Cantai ao Senhor um cântico novo
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória. R.
O Senhor deu a conhecer a salvação,
revelou aos olhos das nações a sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e fidelidade
em favor da casa de Israel. R.
Os confins da terra puderam ver
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai. R.
Cantai ao Senhor ao som da cítara,
ao som da cítara e da lira;
ao som da tuba e da trombeta,
aclamai o Senhor, nosso Rei. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Senhor nosso Deus, que de modo admirável criastes o homem e de modo ainda mais admirável o renovastes, fazei que possamos participar na vida divina do vosso Filho que Se dignou assumir a nossa natureza humana. Ele que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.