
Celebra-se no dia 30 de janeiro deste ano, 2026, o 8º Centenário da aprovação da Ordem Carmelita e da fórmula de vida dada por S. Alberto de Jerusalém aos carmelitas pela Santa Sé. Foi há 800 anos, no dia 30 de janeiro de 1226, que o Papa Honório III (1216-1227) aprovava a Ordem Carmelita com a bula Ut vivendi, confirmando a "fórmula de vida", dada por Santo Alberto aos eremitas do Monte Carmelo, como Regra a que os carmelitas se haviam de ater. A data é para as três Ordens e todos os Institutos religiosos e de vida consagrada de ambos os ramos da Ordem do Carmelita um motivo de celebração e de ação de graças, apesar da a importância que teve a aprovação, vinte e um anos depois, da Regra carmelita, adaptada às condições do Ocidente, pelo Papa Inocêncio IV, fazendo da "fórmula de vida" albertina uma Regra religiosa, em sentido canónico, próprio e verdadeiro, de uma Ordem doravante mendicante.
Foi o mesmo Papa Honório III, que aprovou a Ordem Carmelita neste dia, quem aprovou, antes dela, a Ordem dos Pregadores (os Dominicanos), com a bula Religiosam vitam, de 22 de dezembro de 1216, e a Ordem dos Frades Menores (os Franciscanos), com a bula Solet annuere, de 29 de novembro de 1223.
Foi um acontecimento histórico de grande repercussão, pois mediante esta bula o Papa Honório III confirmou a fórmula de vida dada aos carmelitas por S. Alberto de Jerusalém no Monte Carmelo, reconhecendo-a como uma Regra legítima, outorgada pela Igreja antes do decreto do IV Concílio de Latrão, de 1215, que proibia “rigorosamente que no futuro se fundem novas Ordens” e que “quem quiser abraçar um forma religiosa de vida, escolha uma das que já foram aprovadas. Igualmente quem quiser fundar uma nova casa religiosa assuma a Regra e as instituições das Ordens religiosas já aprovadas” (Conc. Oecum. Lateranense IV, Const. 13, in: Conciliorum Oecumenicorum Decreta, ed. Giuseppe Alberigo et al. Bolonha: Dehoniane, 2002, p. 242). Desta forma, Honório III aprovava também a Ordem Carmelita, a quem ele impõe a "fórmula de vida" de S. Alberto por ele confirmada, como Regra que os carmelitas deviam observar daí para o futuro.
O documento original da “fórmula de vida” albertina perdeu-se entre as vicissitudes da História, mas o seu texto foi felizmente conservado por um eremita carmelita catalão, Fr. Filipe Ribot, O.Carm. († 1391), que a recolheu na sua obra Libri Decem de Institutione et processu Ordinis Prophetici Eliani, Beatissimae Virginis Mariae de Monte Carmeli, lib. VIII, cap. 3.
Esta obra foi mais tarde publicada pelo Fr. Daniel da Virgem Maria, O.Carm., no Speculum Carmelitanum, sive Historia Eliani Ordinis Fratrum Beatissimae Virginis Mariae de Monte Carmelo, vol. 1. Antuerpiae: Typis Michaelis Knobbari sub signo S. Petri, 1680, nn. 318-329, e mais tarde reeditada no Bullarium Carmelitanum plures complectens Summorum Pontificum Constitutiones ad Ordinem Fratrum Beatissimae, semperque Virginis Dei genitricis Mariae de Monte Carmelo spectantes, vol. 1, ed. Eliseus Monsignano, O.Carm. Roma: Typ. Georgii Plachi, 1715, pp. 2-4.
Transcrevemos aqui a bula de Honório III, primeiro o texto latino, depois a nossa tradução em português. A esta bula vem anexado o texto da “fórmula de vida” que S. Alberto de Jerusalém nos deu (segundo o texto impresso, contendo certamente uma gralha), a 13 de janeiro de 1171 [sic] – o que é impossível, pois isso teria acontecido muito antes de S. Alberto ser nomeado Patriarca de Jerusalém, em 1205, tendo começado a exercer o seu ministério em S. João de Acre só a partir de 1206 até à data da sua morte, em 1214. A data correta do documento, conforme precisa Daniel da Virgem Maria no Speculum, terá sido 13 de janeiro de 1209.
É esta "fórmula de vida" a primeira Regra do Carmelo, tal como reconheceu e confirmou Honório III, "fórmula de vida" que depois teve de ser retocada, para a adaptar às condições do Ocidente, acabando por ser definitivamente aprovada por Inocêncio IV, com a bula Quae honorem Conditoris, no dia 1 de outubro de 1247, como Regra carmelita, dita bullata, a única Regra que desde então vigora em ambos os ramos da Ordem carmelita (sendo a Regra inocenciana a "Regra primitiva" a que se refere Santa Teresa de Jesus).
A seguir à bula de Honório III, transcrevemos o texto latino da “fórmula de vida” de Santo Alberto, por ele aprovado, seguido da nossa tradução em português.
No texto latino indicamos, entre parêntesis retos, “[]”, os números dos capítulos, acrescentados por razões práticas no Bullarium Carmelitanum, seguidos, na linha seguinte, em itálico e entre parêntesis retos, dos títulos correspondentes nos textos posteriores da Regra inocenciana que acompanhava as Constituições da Ordem até às Constituições de 1973.
Na tradução portuguesa, acrecentamos entre parêntesis retos, “[]”, algumas didascalias, que facilitam a compreensão do texto albertino, bem como os números atuais correspondentes da Regra carmelita inocenciana.
Estas didascalias são inspiradas por Bruno Secondin, “Herencia y nueva profecía. Nuestra missión hoy”, in: Id. (ed.), Un proyecto de vida. La Regla del Carmelo hoy. Madrid: Paulinas, 1985, pp. 223-260; Id., “Texto latino y español de la Regla”, in: Ibid., pp. 263-277, e ajudam a perceber como o texto albertino está disposto de forma concêntrica, em quiasma, sendo o centro arquitetónico da fórmula de vida o mesmo da disposição das celas, ou seja, o Oratório, onde se celebra diariamente a Eucaristia, à qual todos devem acorrer.
Entre parêntesis curvos, “()”, acrescentamos na mesma tradução as fontes bíblicas do texto albertino, bem como as fontes de duas expressões muito famosas usadas por S. Alberto na formula vitae.
O texto albertino soma 945 palavras, ao passo que a Regra inocenciana tem 1089 palavras. Apesar do texto albertino ser tão pequeno, podem contar-se nele 144 referências bíblicas, sendo apenas 10 delas explicitamente mencionadas, e sendo das restantes 10 implícitas (citadas, mas sem indicação de tal) e 124 indiretas, numa amálgama das palavras do texto bíblico com as do autor, derivada da lectio divina, fazendo da "fórmula de vida" albertina um exemplo notável da prática da lectio divina – a qual, aliás, o Patriarca de Jerusalém por oito vezes nela explicitamente recomenda – por ele abundantemente testemunhada em todas as passagens. De modo que a "fórmula de vida" albertina está impregnada de um inegável cariz bíblico. Destas 144 referências bíblicas, 96 são do Novo Testamento e 48 do Antigo Testamento, numa proporção de 2 para 1.
Todas as citações latinas extrabíblicas do texto podem ser consultadas diretamente nas fontes, felizmente publicadas online, bastando para isso clicar sobre os apontadores que estão inseridos nas respetivas passagens.
- Papa Honório III, bulla Ut vivendi, de 30 de janeiro de 1226:
HONORIUS EPISCOPUS, Servus Servorum Dei
Dilectis Filiis Priori et Fratribus Eremitis de Monte Carmelo
Salutem et Apostolicam Benedictionem.
Ut vivendi normam regulariter, a bone memoriæ Hierosolymitano Patriarcha editam, quam ante Generale Concilium, vos dicitis humiliter suscepisse, in posterum vos et successores vestri, quantum cum Dei adjutorio poteritis, observetis in remissionem vobis iniungimus peccatorum.
Datum Reate, 3. Kalendas Februarii, Pontificatus nostri anno decimo.
Regulae predictae tenor subsequitur.
Tradução:
HONÓRIO, BISPO, Servo dos Servos de Deus
Aos amados Filhos, ao Prior e aos Irmãos Eremitas do Monte Carmelo
Saúde e Bênção Apostólica.
Para viver regularmente a norma editada pelo Patriarca de Jerusalém, de feliz memória, a qual humildemente afirmais ter recebido antes do Concílio Geral, mandamos, a vós e aos vossos sucessores, que a observeis, tanto quanto puderdes, com a ajuda de Deus, em remissão dos vossos pecados.
Dado em Rieti, a 30 de janeiro, no décimo ano do nosso Pontificado [1226].
Segue-se o teor das regras acima referidas.
[Prologus]
ALBERTUS, Dei gratia Hierosolymitanae Ecclesiae vocatus Patriarcha, dilectis in Christo filiis Brocardo et caeteris Eremitis, qui sub eius obedientia iuxta fontem in monte Carmeli morantur, in Domino salutem et Sancti Spiritus benedictionem.
Multifarie multisque modis Sancti Patres instituerunt qualiter quisque in quocumque Ordine fuerit, vel quemcumque modum Religiosae vitae elegerit, in obsequio Iesu Christi vivere debeat, et eidem fideliter de corde puro et bona conscientia deservire.
Verum, quia requiritis a nobis, ut iuxta propositum vestrum tradamus vobis vitae formulam, quam tenere in posterum debeatis:
[Caput I]
[De Priore habendo et de tribus sibi promittendis]
Illud in primis statuimus, ut unum ex vobis habeatis Priorem, qui ex unanimi omnium assensu, vel maioris et sanioris partis, ad hoc officium eligatur; cui obedientiam promittat quilibet aliorum, et promissam studeat operis veritate servare.
[Caput II]
[De cellulis fratrum]
Praeterea, iuxta situm loci quem inhabitare proposueritis, singuli vestrum singulas habeant cellulas separatas, sicut per dispositionem Prioris ipsius, et de assensu aliorum Fratrum, vel sanioris partis, eaedem cellulae cuique fuerint assignatae.
[Caput III]
[De non mutando nec permutando cellulas]
Nec liceat alicui Fratrum, nisi de licentia Prioris, qui pro tempore fuerit, deputatum sibi mutare locum, vel cum alio permutare.
[Caput IV]
[De cellula Prioris]
Cellula Prioris sit iuxta introitum loci, ut venientibus ad eumdem locum primus occurrat, et de arbitrio et dispositione ipsius postmodum, quae agenda sunt, cuncta procedant.
[Caput V]
[De mansione in cellulis]
Maneant singuli in cellulis suis, vel iuxta eas, die ac nocte in Lege Domini meditantes et in orationibus vigilantes, nisi aliis iustis occasionibus occupentur.
[Caput VI]
[De horis canonicis]
Hi, qui literas noverunt, et legere psalmos, per singulas horas eos dicant, qui ex institutione Sanctorum Patrum et Ecclesiae approbata consuetudine, ad horas singulas sunt deputati. Qui vero litteras non noverunt, vigintiquinque vicibus dicant Pater noster in Nocturnis vigiliis, exceptis Dominicis et sollemnibus diebus, in quorum vigiliis praedictum numerum statuimus duplicari; ut dicatur Pater noster vicibus quinquaginta. Septies autem eadem dicatur oratio in laudibus matutinis. In aliis quoque horis septies similiter eadem sigillatim dicatur oratio, praeter officia vespertina, in quibus ipsam quindecies dicere debeatis.
[Caput VII]
[De non habendo proprium]
Nullus Fratrum aliquid dicat sibi esse proprium, sed sint vobis omnia communia. Et ex his, quae vobis Dominus dederit, distribuatur unicuique per manum Prioris, id est, per hominem ab eo ad idem officium deputatum, prout unicuique opus fuerit, inspectis aetatibus et necessitatibus singulorum; ita tamen, ut, sicut praemissum est, in deputatis cellulis singuli maneant, et ex his, quae sibi distributa fuerint, singulariter vivant.
[Caput VIII]
[De Oratorio et de audienda Missa quotidie]
Oratorium, prout commodius fieri poterit, construatur in medio cellularum, ubi mane per singulos dies ad audienda Missarum sollemnia convenire debeatis, ubi hoc commode fieri potest.
[Caput IX]
[De Capitulo et correctione fratrum]
Dominicis quoque diebus, vel aliis, ubi opus fuerit, de custodia Ordinis et animarum salute tractetis. Ubi etiam excessus et culpae Fratrum, si quae in aliquo deprehensae fuerint, caritate media corrigantur.
[Caput X]
[De ieiunio]
Ieiunium singulis diebus, exceptis Dominicis, observetis a Festo Exaltationis Sanctae Crucis usque ad diem Dominicae Resurrectionis, nisi infirmitas seu nimiae debilitatis corporis, aut alia iusta causa, ieiunium solvi suadeat, quia necessitas non habet legem.
[Caput XI]
[De abstinentia carnium]
Ab esu carnium semper abstineatis, nisi pro infirmitatis vel nimiae debilitatis remedio sint sumendae.
[Caput XII]
[De armis spiritualibus]
Quia vero militia est vita hominis super terram, et omnes qui pie volunt vivere in Christo persecutionem patiuntur; adversarius quoque vester diabolus, tamquam leo rugiens circuit, quaerens quem devoret, omni sollicitudine studeatis indui armaturam Dei, ut possitis stare adversus insidias inimici.
Accingendi sunt lumbi vestri cingulo castitatis. Muniendum est pectus cogitationibus sanctis, scriptum est enim: Cogitatio sancta servabit te. Induenda est lorica iustitiae, ut Dominum Deum vestrum ex toto corde, ex tota anima et ex tota virtute diligatis, et proximum vestrum tamquam vosmeipsos. Sumendum est in omnibus scutum fidei, in quo possitis omnia tela nequissimi ignea extinguere: sine fide enim impossibile est placere Deo. Et haec est victoria quae vincit mundum, fides vestra. Galea quoque salutis capiti imponenda est, ut de solo Salvatore speretis salutem, qui salvum facit populum suum a peccatis eorum. Glaudius autem Spiritus, quod est verbum Dei, abundanter habitet in ore et in cordibus vestris. Et quaecumque vobis agenda sunt, in verbo Domini fiant.
[Caput XIII]
[De assiduitate operationis ad evitandam otiositatem]
Faciendum est vobis aliquid operis, ut semper vos diabolus inveniat occupatos; ne ex otiositate vestra aliquem intrandi aditum ad animas vestras valeat invenire. Habetis in hoc Beati Pauli Apostoli magisterium, pariter et exemplum, in cuius ore Christus loquebatur, qui positus est et datus a Deo praedicator et doctor gentium, in fide et veritate, quem si secuti fueritis, non poteritis aberrare. In labore, inquit, et fatigatione fuimus inter vos, nocte ac die operantes, ne quem vestrum gravaremus. Non quasi nos non habeamus potestatem, sed ut nosmet ipsos formam daremus vobis ad imitandum nos. Nam, cum essemus apud vos, hoc denuntiabamus vobis: quoniam si quis non vult operari non manducet. Audivimus enim inter vos quosdam ambulantes inquiete, nihil operantes. His autem qui eiusmodi sunt denuntiamus et obsecramus in Domino Iesu Christo ut cum silentio operantes suum panem manducent. Haec via sancta et bona est: ambulate in ea.
[Caput XIV]
[De silentio]
Commendat autem Apostolus silentium, cum in eo praecipit operandum, quemadmodum propheta attestatur: Cultus iustitiae silentium est. Et rursus: In silentio et spe erit fortitudo vestra. Ideoque statuimus ut ab hora vespertina usque ad horam tertiam sequentis diei silentium teneatis, nisi forte necessitas, vel causa rationabilis, aut licentia Prioris, silentium interrumpant. Alio vero tempore licet silentii non habeatur observatio tanta, diligentius tamen a multiloquio caveatur. Quoniam sicut scriptum est, et non minus experientia docet, In multiloquio non deerit peccatum; et, Qui inconsideratus est ad loquendum sentiet mala. Item, Qui multis verbis utitur, laedit animam suam. Et Dominus in Evangelio: De omni verbo otioso, quod locuti fuerint homines, reddent rationem de eo in die iudicii. Faciat ergo unusquisque stateram verbis suis, et frenos rectos ori suo, ne forte labatur et cadat in lingua sua, et insanabilis sit casus eius usque ad mortem. Custodiens cum Propheta vias suas, ut non delinquat in lingua sua. Et silentium, in quo cultus iustitiae est, diligenter et caute studeat observare.
[Caput XV]
[De humilitate ad Priorem exhortatio]
Tu autem, frater Brocarde, et quicumque post te institutus fuerit Prior, illud semper habeatis in mente, et servetis in opere, quod Dominus ait in Evangelio: Quicumque voluerit inter vos maior fieri, erit vester minister. Et quicumque voluerit inter vos primus esse, erit vester servus.
[Caput XVI]
[De honorando Priorem ad fratres exhortatio]
Vos quoque, caeteri Fratres, Priorem vestrum humiliter honorate, Christum potius cogigantes quam ipsum, qui posuit illum super capita vestra. Et Ecclesiarum Praepositis etiam ait: Qui vos audit, me audit; et qui vos spernit, me spernit. Ut non veniatis in iudicium de contemptu, sed de obedientia mereamini vitae aeternae mercedem.
[Epilogus]
Haec breviter scripsimus vobis, conversationis vestrae formulam statuentes, secumdum quam vivere debeatis. Si quis autem supererogaverit, ipse Dominus, cum redierit, reddet ei. Utatur tamen discretione, quae virtutum est moderatrix.
Ex Acon. Idibus Ianuarii anno Domini MCLXXI [sic; allii: MCXCIX (1199); fortasse: MCCIX (1209)].
Tradução em português:
[I. O projeto carmelita (propositum)]
[Instituição dos eremitas como collegium (fraternidade apostólica)]
[Saudação]
[1] Alberto, por graça de Deus chamado a ser Patriarca da Igreja de Jerusalém (cf. Rm 1,1; 2 Cor 1,1), aos amados filhos em Cristo (cf. 1 Cor 4, 14.17; Ef 5,1; Fm 1,1), Brocardo e demais eremitas que, sob a sua obediência, vivem junto da fonte no Monte Carmelo: saúde [literalmente, “salvação”] no Senhor e a bênção do Espírito Santo (cf. Act. 9,31; 15,23; 23,26; Tg 1,1).
[A. Princípio básico: viver em obséquio de Jesus Cristo]
[2] Muitas vezes e de muitos modos (Hb 1,1) estabeleceram os Santos Padres que, quem quer que seja, qualquer que seja a Ordem em que estiver ou o modo de vida religiosa que tiver escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo (cf. 2Rs 5,2; 2 Cor 10,5) e servi-lo fielmente de coração puro e boa consciência (cf. 1 Tm 1,5; 1 Pd 1,22; 3,16; Sl 24,4; Sir 2,1).
[3] No entanto, como nos pedistes que vos déssemos uma fórmula de vida de acordo com o vosso propósito (cf. At 11,23; 2 Tm 3,10), à qual deveis permanecer fiéis no futuro:
[II. Estruturas da vida comunitária]
[B. A escolha do Prior e os vínculos sagrados]
[4] Determinamos, em primeiro lugar, que tenhais um de vós como Prior, que há de ser eleito para este serviço com o consenso unânime de todos (cf. At 6,5) ou da parte mais numerosa e madura. A ele prometa obediência cada um dos outros e se empenhe em guardar de verdade, por obras, o que prometeu (cf. 1 Jo 3,18).
[C. O lugar apto à vida da comunidade]
[6] Além disso, tendo em conta a disposição do lugar em que decidirdes estabelecer-vos, tenha cada um de vós a sua própria cela separada, conforme o que for indicado pelo próprio Prior, com o consentimento dos outros Irmãos ou da parte mais madura (cf. At 15,22), ou seja, naquelas celas que forem atribuídas a cada um.
[D. As celas dos Irmãos]
[8] A nenhum Irmão será lícito, a não ser com a licença do prior em exercício, mudar-se do lugar que lhe foi indicado ou trocá-lo com outro (cf. Lc 10,7).
[A cela do Prior, figura de Jesus Cristo, a porta do redil]
[9] A cela do Prior esteja junto da entrada do lugar, para que ele seja o primeiro a acorrer aos que vierem a esse lugar (cf. Jo 10,9; Lc 22,27); e, depois, proceda-se em tudo o que for necessário de acordo com o seu critério e disposições.
[III: O ideal carmelita, à semelhança da comunidade apostólica primitiva de Jerusalém (cf. At 2,42)]
[Fundamentos vivos da fraternidade]
[E. Permanência na cela e meditação constante da Palavra, vigiando na oração]
[10] Permaneça (cf. Jo 15,4; 14,23) cada um na sua cela ou perto dela, meditando dia e noite na Lei do Senhor (cf. Sl 1,2; Js 1,8) e vigiando em orações, a não ser que esteja ocupado com outros justificados afazeres (cf. Lc 2,37; 21,36; Act 26,7; 1 Pd 4,7; Cl 4,2; Ef 6,18; 2 Tm 1,3).
[F. As horas canónicas, oração em sintonia com a Igreja]
[11] Os que conhecem as letras e sabem ler os salmos, recitem em cada uma das horas aqueles que, segundo as Constituições dos Santos Padres e o costume aprovado pela Igreja, lhe são apropriados. Os que não conhecem as letras, recitem vinte e cinco vezes o Pai-nosso (cf. Mt 6,9-13; Lc 11,2-4) nas vigílias noturnas, exceto ao domingo e nas solenidades, em cujas vigílias determinamos que se duplique o número mencionado, de modo que o Pai-nosso se recite cinquenta vezes. A mesma a oração deve recitar-se sete vezes nas Laudes, de manhã, e de igual modo sete vezes em cada uma das outras horas, à exceção dos ofícios vespertinos, nos quais a devereis recitar quinze vezes.
[G. A comunhão fraterna de bens]
[12] Nenhum dos Irmãos diga que algo é seu (cf. At 4,32), mas tende entre vós tudo em comum. E aquilo que o Senhor vos der, seja distribuído a cada um pela mão do Prior — ou seja, pela pessoa por ele designada para este serviço —, tendo-se em conta a idade e as necessidades de cada um (cf. At 2,44s; 4,35), para que, como já se disse, permaneça cada um na sua respetivas celas e viva cada um com o que lhe foi distribuído (cf. Ex 16,16ss).
[H: O lugar do oratório e a Eucaristia diária, centro das celas e da vida comunitária]
[14] O oratório, conforme for mais cómodo, seja construído no meio das celas, onde cada dia (cf. Sl 145,2) pela manhã (cf. Lv 6,5; Ez 46,13ss) vos deveis reunir para participar na celebração da Eucaristia (At 2,46), onde isso comodamente se puder fazer.
[IV. Os meios para alcançar o ideal e fortificar o homem interior]
[G'. A revisão de vida e a correcção fraterna]
[15] Da mesma maneira, ao Domingo ou noutros dias, se necessário for, deveis reunir-vos para tratar da observância da vida comum e da salvação das almas (cf. 1 Pd 1,9). Corrijam-se também, nessa mesma ocasião, por meio da caridade, os excessos e as culpas que porventura forem encontradas nalgum irmão (cf. 2 Mac 10,4; 1 Cor 16,14; Gl 6,1).
[F'. O jejum e abstinência de carne]
[16] Deveis observar o jejum (cf. Lc 2,37; 2 Cor 6,5; 11,27) todos os dias, exceto aos Domingos, desde a festa da Exaltação da Santa Cruz até ao Dia da Ressurreição do Senhor, a não ser que alguma debilidade do corpo ou outro justo motivo aconselhem a dispensar do jejum, pois a necessidade não tem lei ([Pseudo] Papa Félix IV, Decreta ad omnes Episcopos: Decretales Pseudo-Isidorianae et Capitula Angilramni [sécs. IX-X], ed. Paulus Hinschius. Leipzig: Bernhard Tauchnitz, 1863, p. 700, ll. 50-51).
Nota: é aqui, nesta passagem Pseudo-Isidoro, que aparece pela primeira vez o famoso aforismo:“quoniam necessitas legem non habet”. A primeira formulação deste princípio encontra-se, porém, em Publílio Siro [séc. I a.C.], Sententiae, n. 399: “Necessitas dat legem, non ipsa accipit”: Publilii Syri, Sententiae, ed. Eduard Wölfflin. Leipzig: B.G. Teubner, 1869, p. 92; e, entre os autores cristãos, em S. Beda, o Venerável, Expositio in Marci evangelium, 2,27: PL 92,155A [depois de 716]: “si necessitas esset, reus non esset... quod licitum non erat in Lege, necessiate famis factum est licitum”.
[17] Abstende-vos de comer carne (cf. 1 Cor 8,13), a não ser que se tome como remédio em caso de enfermidade ou de debilidade.
[E'. A condição humana e as armas espirituais]
[18] Uma vez que a vida do homem sobre a terra é uma luta (Jb 7,1; cf. Sir 2,1) e todos os que querem viver piedosamente em Cristo sofrem perseguição (2 Tm 3,12; cf. Tt. 2,12); e como, além disso, o vosso adversário, o diabo, anda rondando por aí como um leão que ruge, procurando a quem devorar (1 Pd 5,8; cf. Sl. 7,3), esforçai-vos, com toda a diligência, por vos revestir da armadura de Deus, para poderdes permanecer de pé contra as insídias do inimigo (cf. Ef 6,11.13; 2 Cor 10,3ss).
[19] Os rins devem cingir-se com o cíngulo da castidade (cf. Ef 6,14; Lc 12,35; Ex 12,11; Is 11,5) e o peito munir-se com pensamentos santos (cf. 1 Pd 4,1), pois está escrito: O pensamento santo te protegerá (Pv 2, 11). Deve revestir-se a couraça da justiça (cf. Ef 6,14; 1 Ts 5,8; Is 59,17; Sb 5,18), a fim de amardes o Senhor, vosso Deus, de todo o coração, de toda a alma e com todas as forças e o vosso próximo como a vós mesmos (Mc 12,30-31p; Dt 6,5; Lv 19,18). Deve empunhar-se sempre e em tudo o escudo da fé (Ef 6,16; cf. Sb 5,19), com o qual possais apagar todas as setas inflamadas de malícia do inimigo (cf. Sl 7,13s), pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11,6). E esta é a vitória que vence o mundo: a vossa fé (1 Jo 5,4). O capacete da salvação deve ser posto na cabeça (cf. Ef 6,17; 1 Ts 5,8; Is 59,17; Sb 5,18), para que espereis a salvação unicamente do Salvador (cf. Hb 9,28), que salva o seu povo dos seus pecados (cf. Mt 1,21; Sl 130,8). A espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6,17; Hb 4,12), habite com abundância na vossa boca e nos vossos corações (cf. Cl 3,16; Rm 10,8; Sl 37,30; Dt 30,14). E tudo o que tiverdes de fazer, seja feito na Palavra do Senhor (1 Cor 10,31; Cl 3,19; Lc 5,5; cf. Dt 8,3; Lc 4,4; 2 Cor 6,7; Cl 1,5).
[D'. O trabalho]
[20] Deveis fazer algum trabalho, para que o diabo vos encontre sempre ocupados (S. Jerónimo, Ep. 125, ad Rusticum, 11: PL 22,1078: “Fac et aliquid operis, ut semper te diabolus inveniat occupatum”), não venha ele a encontrar, graças à vossa ociosidade, alguma brecha para se introduzir nas vossas almas. Nisto tendes o ensinamento e também o exemplo do apóstolo S. Paulo (cf. Fl 4,9), por cuja boca Cristo falava (cf. 2 Cor 13,3), e que Deus constituiu e deu como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade (cf. 1 Tm 2,7; 2 Tm 1,11). Se o seguirdes, não podereis enganar-vos. Diz ele: Estivemos no meio de vós entre trabalhos e fadigas, trabalhando de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós (cf. 1 Ts 2,9; At 20,34-35). Não que não tivéssemos esse direito, mas quisemos apresentar-nos a nós mesmos como um exemplo para que nos imitásseis. Com efeito, quando estávamos convosco, vos repetíamos: “se alguém não quer trabalhar, também não coma”. Ora, ouvimos dizer que alguns de vós levam uma vida irrequieta, sem nada fazer. A esses ordenamos e suplicamos no Senhor Jesus Cristo, que trabalhem em silêncio (cf. 1 Ts 4,11), ganhando o pão que comem (2Ts 3, 7-12). Este caminho é santo e bom: segui-o (cf. Is 30,21; 35,8; Jr 6,16; Sl 77,14; S. Agostinho, De opere monachorum 3,4: PL 40,551s).
[C'. O silêncio]
[21] O Apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que é nele que se deve trabalhar (cf. 1 Ts 4,11). E do mesmo modo, como afirma o profeta: É no silêncio que se cultiva a justiça (Is 32, 17); e ainda: No silêncio e na esperança estará a vossa força (Is 30, 15). Por isso, determinamos que guardeis silêncio desde Vésperas até à Hora de Tércia, a não ser que uma forte necessidade, uma causa razoável ou a permissão do Prior, interrompam o silêncio. Fora desse tempo, embora a observância do silêncio não seja tão rigorosa, abstenham-se diligentemente do muito falar. Porque, tal como está escrito e não menos o ensina a experiência, no muito falar não faltará o pecado (Pv 10,19); e quem fala inconsideradamente causa a sua própria ruína (Pv 13,3); e, também, quem fala muito, prejudica-se a si mesmo (Sir 20,8); e o Senhor no Evangelho: De toda a palavra ociosa que os homens proferirem, dela prestarão contas no dia do juízo (Mt 12,36). Faça pois cada um de vós uma balança para as suas palavras e ponha rédeas curtas na sua boca (cf. Sir 28,25s) para que não venha a escorregar e a cair por causa da sua língua numa queda incurável que o leve à morte (cf. Sir 14,1; 22,22). Vigie cada um sobre a sua própria conduta para não pecar com a sua língua (Sl 39,2; cf. Sir 19,16), como diz o profeta, e esforce-se por observar diligentemente e com prudência (cf. Dt 24,8) o silêncio no qual se cultiva a justiça (Is. 32,17).
[B'. Autoridade e serviço na comunidade madura, pela obediência, na escuta da Palavra de Deus]
[22] Tu, porém, irmão Brocardo, e quem quer que for designado Prior depois de ti, tende sempre em mente e guardai por obras (cf. Jo 13,15.17; Ap 3,3; 1 Jo 3,18) o que o Senhor diz no Evangelho: Quem quiser ser o maior entre vós, será o vosso servidor, e quem quiser ser o primeiro entre vós, será o vosso escravo (Mt 20, 26-27p; Gl 5,13).
[23] E vós, demais Irmãos, honrai humildemente o vosso Prior (cf. Sir 3,21), pensando, mais que na sua pessoa, em Cristo, que o pôs sobre a vossa cabeça (cf. Sl 66,12; Ef 5,21ss) e que disse aos responsáveis da Igreja: Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos despreza, a mim despreza (Lc 10,16p). Para que não sejais condenados por desprezo (cf. Est 16,23s Vulg.), mas mereçais, pela obediência, o prémio da vida eterna (cf. Mt 10,41; 25,46).
[A'. Fidelidade generosa e discernimento maduro
na expectativa da vinda do Senhor]
[24] Isto vos escrevemos brevemente (cf. 1 Pd 5,12; Hb 13,22), dando-vos uma fórmula de vida segundo a qual deveis viver (cf. At 11,26). Se, entretanto, alguém fizer mais, o próprio Senhor, quando voltar, lhe retribuirá (cf. Lc 10,35). Use-se, porém, de discernimento (cf. Pv 19,2), que é o guia das virtudes (S. João Cassiano, Collationes, 2,4: PL 49,528: “Omnium namque virtutum generatrix, custos moderatrixque discretio est”).
Dado em Acre, 13 de janeiro de 1171 [sic; provavelmente,1209]
Traduziu e editou: Fr. Pedro Bravo, O.Carm.