
Caríssimos irmãos e irmãs da Família Carmelita: Cristo ressuscitou!
Celebramos com alegria a ressurreição de Cristo, que é a pedra angular da fé cristã. A fé nasce do encontro pessoal com Cristo ressuscitado e transforma-se num impulso de coragem e liberdade que nos leva a proclamar ao mundo: Jesus ressuscitou e vive para sempre!
1. O midrash do Génesis conta: «Um rei construiu uma casa. Depois convidou os seus amigos para celebrar com uma esplêndida festa. Tudo parecia correr bem, a noite decorria na perfeição, as pessoas estavam felizes, mas as horas passaram e fez-se noite. Então espalhou-se o pânico, não se conseguiam ver uns aos outros, nem sequer podiam desfrutar do banquete. O rei disse: “De que me serve tudo isto se não tenho luz para disso poder desfrutar?” Então Deus disse: “Haja luz”, e houve luz. “E Deus viu que a luz era boa”. E juntamente com a luz houve alegria eterna, banquete eterno, festa eterna...” (Bereshit Rabah, Gn 1, 3).
Cristo é a Luz que venceu as trevas. Com a ressurreição, o dia de Deus entra na noite da história. A ressurreição de Cristo, verdade histórica, é mais do que uma simples reanimação biológica do cadáver, é o salto ontológico mais decisivo do género humano.
A Ressurreição é uma explosão de amor que rompeu a infeliz ligação que existia entre o nascer e o morrer e a transformou numa outra sequência abençoada: nascer, morrer e viver. O imenso amor de Deus torna-nos imortais. Martín Descalzo, escritor espanhol, expressava-o assim: «Sonhei, ao longo da minha vida, com uma infinidade de coisas. Agora sei que… só amando viverei eternamente; que os únicos fragmentos da minha alma que terão estado verdadeiramente vivos serão aqueles que investi em amar, servir e ajudar alguém. E demorei cinquenta anos a descobri-lo!».
2. O mistério pascal inaugurou um tempo novo, um mundo novo (cf. 2 Cor 5, 17). A ressurreição de Cristo abriu uma nova etapa na história, que terminará quando todas as coisas forem recapituladas em Cristo, única Cabeça. Graças ao batismo, fomos sepultados na morte com Cristo para podermos ressuscitar para uma vida nova. E ressuscitar para quê? Recordemos Teresa de Jesus: «Ressuscitar para voltar a morrer nas vicissitudes do amor».
Só se estivermos ressuscitados poderemos dar a vida! Vivos para servir todos os dias no trabalho… Vivos para cuidar dos nossos irmãos e irmãs doentes… Vivos para sermos semeadores de justiça e paz à nossa volta… Este é o sentido das nossas vidas: ressuscitar, para voltar a morrer, todos os dias, amando». O mundo acreditará se vir que o Corpo de Cristo está ressuscitado. E nós somos os membros do Corpo de Cristo. Agora, mais do que nunca, precisamos de um exército de ressuscitados, imunes à morte, à tristeza, ao desânimo… que curem corações despedaçados, que consolem os aflitos, que semeiem esperança, que tenham sentido de humor; que O reconheçam presente na Eucaristia; que O anunciem como o único Senhor da Vida…“ Bastou apenas uma noite para que o Senhor tirasse Israel do Egito; mas foram necessários quarenta anos para que o Senhor tirasse o Egito do coração de Israel». O que há ainda na nossa vida que tem que ressuscitar?
Que Maria, Mãe do Carmelo, nos ajude a compreender este mistério de amor que transforma os corações e nos faça saborear plenamente a alegria pascal, para que possamos, por nossa vez, transmiti-la aos homens e mulheres que nos rodeiam.