Solenidade de Nossa Senhora do Carmo - 2015

EXCERTO DA CARTA DO PRIOR GERAL DA ORDEM DO CARMO

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Queridos Irmãos e Irmãs da Família Carmelita:

Mais um ano e aproximamo-nos da festa da Nossa Mãe do Carmo e, por este motivo, quero dirigir-me a todos vós para, em primeiro lugar, desejar-vos uma festa feliz (...). Não há dúvida que a dimensão mariana é um dos elementos constitutivos da espiritualidade carmelita. Mesmo vivendo-a com formas e expressões distintas consoante os diversos lugares do mundo e as diversas culturas, é algo que nos une, nos caracteriza, nos distingue e, definitivamente, nos enche de gozo.

Este ano gostaria de destacar brevemente quatro temas que, em maior ou menor medida, nos envolvem como Ordem e como família religiosa e que podemos ter em conta nas nossas celebrações.

Em primeiro lugar estamos a celebrar o V Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus. Santa Teresa é uma figura ilustre da história do Carmelo e uma das mais eminentes da sua espiritualidade. Mulher, escritora, caminhante, mística… e tantos outros aspectos, que nos convidam a voltar aos seus textos e ao seu exemplo e a encontrar neles chaves (inspiração, exemplo, criatividade) para a nossa vida actual como carmelitas.

Não em poucas ocasiões, Teresa mostra nos seus escritos a sua devoção à Virgem. Já em pequena, em Ávila, encomenda-se à Virgem da Caridade à qual pede que seja a sua Mãe. No Carmelo, a Santa recebeu as tradições espirituais e a profunda devoção à Virgem do Carmo, algo que a acompanharia durante toda a sua vida. Assim, quando começa a escrever o Caminho de Perfeição, Teresa refere com humildade: “Se nele houver alguma coisa boa, seja para glória e honra de Deus e serviço da Sua Sacratíssima Mãe, Padroeira e Senhora Nossa, cujo hábito eu trago, ainda que muito indigna dele (Caminho, Introdução). E, no final do seu caminho fundacional, Teresa exclama com gozo: “nós alegramo-nos de podermos em algo servir a Nossa Mãe, Senhora e Padroeira” (Fundações 29,23).

São textos que nos emocionam e também nos convidam a “servir a Nossa Mãe, Senhora e Padroeira” que nos leva ao coração do Evangelho e da vida cristã. Que a Santa desde o céu nos ajude a viver com gozo e autenticidade essa devoção e essa piedade mariana e carmelita.

Em segundo lugar, devemos ter em conta que estamos a celebrar o ano dedicado pela Igreja à Vida Consagrada. Por isso, enquanto nos dispomos a honrar a Maria sob o título protector de Mãe do Carmelo, pedimos-lhe que nos ajude a renovar a vida consagrada e a renovarmo-nos a cada um de nós, que nos ajude a colocar as nossas vidas ao serviço do Evangelho em comunhão com toda a Igreja.

Em terceiro lugar, este ano celebram-se os 750 anos da morte de São Simão Stock. A figura de São Simão Stock está inseparavelmente unida à tradição e à piedade do escapulário do Carmo e por isso, nunca será demais, recordar esta dimensão tão central do nosso carisma que nos une a Maria, Mãe e Irmã dos carmelitas. Oxalá saibamos - como fez São Simão Stock - dirigir-nos a Maria nos nossos momentos de tristeza e de desânimo, nas nossas angústias e decepções, para que ela, primeira mestra e primeira discípula do Senhor, nos ajude a caminhar como discípulos e testemunhas da Boa Nova do Evangelho, especialmente junto dos mais pobres e necessitados. O escapulário do Carmo, na sua simplicidade e humildade (ou, talvez, e precisamente por isso) continua a ser um recordar do nosso compromisso com os valores do Evangelho e uma semente de esperança.

Por último, também gostaria de partilhar convosco que no passado dia 23 de Maio teve lugar em São Salvador a beatificação do Monsenhor Óscar Arnulfo Romero, Arcebispo de São Salvador, assassinado em Março de 1980. O motivo de me referir a Romero nesta carta é porque, durante o seu ministério episcopal, pelo menos em três ocasiões, ele referiu-se com palavras muito belas à Virgem do Carmo e às celebrações do 16 de Julho. Como sabeis Romero costumava gravar as suas homilias que eram emitidas pela rádio para que chegassem a um maior número de pessoas. Na festa de Nossa Senhora do Carmo de 1976, 1977 e 1978, o Arcebispo louva esta devoção e pede que se converta numa forma de evangelização e de libertação. Com um estilo pastoral que nos faz lembrar o documento de Aparecida e também o Papa Francisco, Romero convida-nos a descobrir a força evangelizadora que está por detrás da piedade popular - mesmo que em muitas ocasiões deva ser purificada de certos riscos como o sentimentalismo passageiro, o mero “exteriorismo” folclórico ou a falta de compromisso de vida - supõe uma riqueza enorme para toda a Igreja. Nesta piedade o povo simples encontra em muitas ocasiões a forma de expressar as grandes verdades da fé, bem como a sua esperança e a sua confiança em Deus através da Virgem Maria. Romero, que trazia sempre o escapulário ao peito, pede às pessoas que o levem com todas as consequências, com autenticidade cristã, com uma sã devoção e carinho filial pela Mãe do Carmo.

Mesmo que não possa alongar-me, gostaria de partilhar duas frases de Romero que nos enchem de um orgulho são e que nos convidam a continuar a divulgar com empenho esta devoção tão popular, tão formosa e tão rica espiritual e teologicamente: “Não há pregadora mais atraente que a Virgem do Carmo no meio do nosso povo” (1977). O nosso povo sente que Maria, sob este título da Virgem do Carmo, é a grande missionária popular (…) Unamos pois a nossa reflexão a este carinho do povo, da vida religiosa e sacerdotal a Nossa Senhora do Carmo” (1978). Pouco tempo depois, o Arcebispo era baleado enquanto celebrava a eucaristia e caía morto próximo de uma imagem da Virgem do Carmo, na capela de um pequeno hospital.

Que Maria, nossa Mãe e Irmã, nos continue a acompanhar e a guiar neste mundo complexo e fascinante no qual nos coube viver e nos ajude a levar a Boa Notícia da salvação.

Umas felizes Festas de Nossa Senhora do Carmo e um forte abraço. 

Fernando Millán Romeral, O. Carm.

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