Beato Carlos de Foucauld: O Irmão Universal

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A 1 de Dezembro de 2016 celebra-se o primeiro centenário da morte do Beato Carlos Foucauld, uma ocasião para celebrar a sua vida e o seu carisma profético. 

Carlos de Foucauld nasce a 15 de Setembro 1858 em Estrasburgo, no leste de França, perto da fronteira alemã, numa família rica e nobre, marcada por uma antiga tradição militar. A mãe falece em Março de 1864, deixando a recordação saudosa da sua ternura. Alguns meses depois perde também o pai. Carlos vai viver com o Avô materno. Alguns anos mais tarde passa por outra experiência dolorosa: a guerra entre a França e a Alemanha rebenta em 1870. Estrasburgo fica perto da fronteira e obriga-o a abalar com o avô para Nancy. No decurso de uma adolescência difícil, perde a fé e mergulha numa vida desordenada de prazer, porventura para vencer um certo tédio da vida. (Hoje seria seguramente a droga, como muitos adolescentes experimentam na ilusão de serem felizes). No fundo do coração, sente, porém, uma grande tristeza, um vazio que nada consegue preencher. Mais tarde quando reencontra a fé, compreende que este vazio e esta tristeza manifestam a atitude infinitamente discreta de Deus que o espera sem nunca se ter afastado dele. No limiar da adolescência, mostra-se um jovem bastante solitário, fechado, sensível e angustiado. Muito inteligente, de espírito curioso, bem cedo adquire a paixão pela leitura. A sua época é marcada pelo cepticismo religioso e pelo positivismo. Acredita-se na ciência e pensa-se que só ela pode responder às grandes questões que os homens se colocam. Durante doze anos vai ser, como confessa, um jovem descrente e mergulha numa vida desordenada de prazer imediato, uma fúria de viver para afastar a angústia que traz no seu íntimo. Aos vinte anos começa uma carreira militar que dura três anos. Perde o Avô, outro choque muito profundo. Oficial aos 22 anos é enviado para a Argélia onde descobre novos horizontes. Três anos mais tarde abandona o exército e empreende uma arriscada exploração de Marrocos. No decurso da viagem é acolhido e protegido em diversas ocasiões por muçulmanos muito religiosos que se tornam seus amigos. O testemunho de fé que dão interpela-o: «Será que Deus existe?» Carlos fará uma releitura desta etapa da sua vida à luz da fé, não para ficar acabrunhado pelo passado, mas para cantar a misericórdia de Deus. De facto, descobre maravilhado que quando anda longe de Deus, recusando-se a acreditar n’Ele, quando se afunda na desordem, Deus não cessa de esperá-lo e de procurá-lo, de guiá-lo, com uma ternura infinita. 

Experiência da ternura de Deus 

De regresso a França, Carlos é bem acolhido pela família profundamente cristã, nomeadamente pela prima Maria, que sempre o acompanhou e teve um papel importante na sua conversão. Inicia um caminho de procura: «Passei a ir à Igreja sem acreditar, sentindo-me bem somente aí, e passando horas a repetir esta estranha oração: “Meu Deus, se existes, faz que Te conheça”. Providencialmente encontra um padre que será um pai e um amigo: Abbé Huvelin. Num sermão disse: «Nosso Senhor tomou de tal maneira o último lugar, que nunca ninguém lho conseguiu tirar». Carlos fica fascinado com esta frase e grava-a no coração. Aos 28 anos converte-se: toda a sua vida se transforma. Doravante a sua procura tem como objectivo responder – com toda a sua vida – a este infinito Amor de Deus. Diz: «Assim que acreditei que Deus existia, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele». Uma peregrinação à Terra Santa, revela-lhe o rosto de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus que partilhou durante 30 anos numa aldeia a vida de trabalhador manual com relações humanas do dia-a-dia e uma relação de intimidade com o Pai. 

O caminho está traçado, mas é longo e móvel. 

Carlos passa primeiro sete anos na Trapa, mais quatro em Nazaré, como eremita numa pequena cabana próximo do convento das Clarissas. Passa horas e horas de dia e de noite em adoração diante do Santíssimo Sacramento, como um enamorado: Deus faz-se ouvir no seu coração. 

De novo a caminho… 

Há uma frase do Evangelho que abala profundamente a vida do irmão Carlos: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes». (Mt. 25, 40). Estas palavras levam-no a trocar a solidão que tanto ama por terras mais abandonadas onde Jesus o espera em todos os que vivem uma vida de sofrimento e pobreza. Carlos antecipa o querido Papa Francisco e vai às periferias! Em Agosto de 1900 deixa Nazaré para se preparar para o sacerdócio. Ordenado a 9 de Junho de 1901, parte alguns meses depois para a Argélia e estabelece-se no oásis de Beni-Abbès, na fronteira com Marrocos. Constrói não um mosteiro, mas uma fraternidade, uma casa de porta sempre aberta a todos os que ali vêm, independentemente da nacionalidade, raça ou religião: «Quero habituar todos os habitantes, cristãos, muçulmanos, judeus, ou sem religião a verem em mim um irmão, o irmão universal. Começam a chamar a esta casa “a fraternidade” e isso me agrada muito.» Diante de tanta pobreza, denuncia a injustiça e a escravatura. Durante 1902, não cessa de interceder junto dos que detêm o poder: «É preciso amar a justiça e odiar a iniquidade, e quando o governo comete uma injustiça grave contra aqueles por quem somos responsáveis, é necessário dizer-lho, pois não temos o direito de ser “sentinelas adormecidas”, “cães mudos”, ou “pastores indiferentes”.»

O irmão Carlos está em Beni-Abbès há três anos, quando ouve falar dos Tuaregues, um povo pobre e de difícil acesso. Em 1904, percorre por mais de três meses as ásperas pistas do deserto para atingir as montanhas do Hoggar, no sul da Argélia, onde nomadizam pequenos grupos de Tuaregues. Sente-se chamado a estabelecer-se entre deles, em Tamanrasset. Sozinho, indefeso, confia na palavra de quem lhe dá a hospitalidade…Instala-se numa casita de terra batida, onde passa uma grande parte da vida em adoração ao Santíssimo Sacramento. Presença de Cristo na Eucaristia, e presença de Cristo nos pobres, eis os dois pilares ligados entre si e inabaláveis na vida do irmão Carlos. Estuda a língua tuaregue e empreende um grande trabalho linguístico põe-se também a escuta da sua cultura, transcrevendo milhares de poemas entoados à noite ao redor da fogueira. O irmão Carlos tem no coração um desejo imenso de falar de Jesus e do Seu Evangelho, mas percebe que os tempos não estão maduros. É pelo paciente trabalho da amizade e da bondade que ele procura dizer-lhes quem é Deus: «Queria ser suficientemente bom para que se diga: Se é assim o servo, como será então o Mestre?» Em 1914, rebenta a primeira grande guerra. A violência atinge o Hoggar. Por toda a parte há tribos em rebelião contra a ocupação francesa. O irmão Carlos sabe que se encontra em perigo: é convidado a partir, mas recusa abandonar quem o acolheu. Sente-se ligado ao povo Tuaregue por uma profunda solidariedade humana. Toda a vida tinha procurado seguir e imitar Jesus de Nazaré que um dia cativara o seu coração; agora deseja segui-Lo na sua paixão e morte, dando também a maior prova de amor. Ao fim da tarde do primeiro de Dezembro de 1916 é sequestrado por um grupo de rebeldes que, ao que parece, não tinham intenção de o matar. Num momento de pânico aquele que o guarda dispara contra ele. O irmão Carlos cai, vítima da violência, como tantos na tormenta da primeira guerra mundial. O irmão Carlos cai na terra silenciosamente como o grão que deve morrer para dar fruto…

Hoje a descendência espiritual do Beato Carlos de Foucauld conta pelo menos 18 famílias espirituais: sacerdotes, religiosas, religiosos, institutos seculares, leigos…Todos encontram nos seus escritos e sobretudo na sua vida o sopro evangélico que os fez nascer. A intuição profunda da sua vocação sempre se refere a uma pessoa viva: JESUS de NAZARÉ, cujas palavras e exemplo o interpelam ao longo da sua caminhada. 

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