A minha vocação

A minha vocação

A este tempo – embora eu não andasse descuidada de meu remédio – andava o Senhor mais empenhado em me dispor para o estado que melhor me ia. Deu-me uma grande enfermidade e tive de voltar para casa de meu pai. Estando boa, levaram-me a casa de minha irmã – que residia numa aldeia – para a ver, pois era extremo o amor que me tinha e, por sua vontade, não sairia eu de junto dela. Seu marido também gostava muito de mim; pelo menos, mostrava-me todo o seu agrado. Até mais isto devo ao Senhor porque em toda a parte sempre O tenho sentido. E em tudo eu O servia como quem sou.

Estava em viagem para a casa dum irmão de meu pai, homem muito avisado e de grandes virtudes, viúvo, a quem o Senhor também andava dispondo para Si. Na sua velhice deixou tudo o que tinha e fez-se frade, e acabou de sorte que creio goza de Deus. Quis que eu estivesse com ele uns dias. Seu exercício era ler bons livros em vernáculo e, habitualmente, o seu falar era de Deus e das vaidades do mundo. Fazia-me ler-lhe esses livros e, embora não amiga deles, mostrava que sim; porque nisto de dar contentamento a outros tenho tido cuidado, mesmo que me causasse pesar. E assim, o que noutros fora virtude, em mim foi grande falta, porque era muitas vezes mui sem discrição. 

Oh! valha-me Deus, por que meios me andava Sua Majestade dispondo para o estado em que Se quis servir de mim! Sem o querer, forçou-me a eu me fazer força! Bendito seja para sempre. Amen. 

Embora os dias que lá estive fossem poucos, com a força que faziam no meu coração as palavras de Deus, tanto lidas como ouvidas, e a boa companhia, fui entendendo a verdade tal como em pequena: que tudo era nada, a vaidade do mundo, como acaba em breve, e a temer, se tivesse morrido, de ter ido para o inferno. E, embora a minha vontade não acabava de se inclinar a ser freira, vi, no entanto, que era o melhor e mais seguro estado e assim, pouco a pouco, determinei-me a forçar-me para o tomar. 

Nesta batalha estive três meses, forçando-me a mim mesma com esta razão. 

Deu-me vida o já ser amiga de bons livros. Lia as cartas de São Jerónimo, e estas animavam-me tanto que determinei dizê-lo a meu pai. O que para mim era quase como vestir o hábito. Era tão briosa que não voltaria atrás, me parece, por coisa nenhuma tendo-o dito uma vez. Era tanto o que ele me queria, que de nenhuma maneira o pude convencer, nem bastaram rogos de pessoas que procurei lhe falassem. O mais que se pôde conseguir foi que, depois de acabados os seus dias, fizesse o que quisesse. Eu já me temia a mim mesma e à minha fraqueza no voltar atrás, e assim não me pareceu que isto me convinha e procurei por outra via, como agora direi (V 3,4-7). 

Nestes dias em que andava com estas determinações havia persuadido a um irmão meu a que se fizesse frade, falando-lhe da vaidade do mundo. E combinámos entre nós ir um dia, muito de manhã, ao mosteiro onde estava aquela minha amiga a quem eu tinha muita afeição. Nesta minha última determinação já eu estava de modo que iria para qualquer convento onde pensasse servir mais a Deus ou que meu pai quisesse. Mais olhava eu já ao remédio da minha alma, porque do descanso nenhum caso fazia. 

Recordo-me, e a meu parecer com toda a verdade, que quando saí de casa de meu pai foi tal a aflição, que não creio será maior quando eu morrer. Parece que cada osso se me apartava de per si, pois, como não tinha amor de Deus a contrabalançar o amor de pai e parentes, fazia-me tudo uma força tão grande que, se o Senhor não me ajudasse, não teriam bastado as minhas considerações para ir por diante. Aqui deu-me o Senhor ânimo contra mim, de maneira que o pus por obra. 

Ao vestir o Hábito, logo o Senhor me deu a entender como favorece os que se esforçam para O servir. Isto ninguém se apercebeu, mas sim uma grandíssima vontade. Na altura deu-me um tão grande contentamento de ter aquele estado, que nunca jamais me faltou até hoje. Deus mudou a aridez da minha alma numa enorme ternura. Davam-me deleite todas as coisas da Religião. E verdade é andar algumas vezes varrendo nas horas que costumava ocupar em meus regalos e enfeites, e, lembrando-me que estava livre daquilo, me dava um novo gozo que me espantava e não podia entender por onde me vinha. 

Quando disto me lembro, não há coisa que se ponha diante de mim, por difícil que seja, que duvide de a acometer. Já tenho experiência em muitas que, se de princípio me esforço a me determinar a fazê-lo (sendo só por Deus), Ele quer – para mais merecermos – que a alma sinta aquele pavor até o começar e quanto maior este for, se se vai por diante, maior e mais saboroso o prémio se torna depois. Até mesmo nesta vida dá a paga Sua Majestade por vias que só quem goza disso o entende. Isto sei-o por experiência.

Santa Teresa de Jesus

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