Estive doente três anos

 

Estive doente três anos

A mudança de vida e de manjares fez-me dano à saúde e embora o contentamento fosse muito, não bastou. Começaram-se-me a aumentar os desmaios e deu-me um mal do coração tão grande que causava espanto a quem o via, e outros muitos males juntos, e, assim, passei o primeiro ano com muito má saúde, todavia parece-me não ofendi nele muito a Deus. E como o mal era tão grave que me privava quase sempre dos sentidos – e algumas vezes de todo me ficava sem eles – era grande a diligência que meu pai fazia para me buscar remédio. Como não lho dessem os médicos de aqui, procurou levar-me a um lugar que tinha muita fama de se curarem ali outras enfermidades e assim disseram fariam à minha. Foi comigo essa amiga de quem já falei e era antiga na casa. No convento onde eu era freira não se prometia clausura.

Estive, quase um ano, por ali e padecendo durante três meses grandíssimos tormentos nas curas tão violentas que me fizeram, que não sei como as pude sofrer. Enfim, embora as sofresse, não as pôde suportar o meu natural, como direi. 

Havia de começar a cura no princípio do Verão e eu fui no princípio do Inverno. Todo este tempo estive em casa da minha irmã que disse que vivia na aldeia, esperando o mês de Abril, porque estava ali perto e para não andar a ir e vir (V 4, 1-6). 

Estive naquele lugar três meses com grandes trabalhos, porque a cura foi mais forte do que o pedia a minha compleição. Aos dois meses, a poder de medicinas, tinha quase acabada a vida. O rigor do mal de coração de que me fui a curar era muito mais forte. Parecia-me algumas vezes que mo arrancavam com dentes agudos, tanto que se temeu fosse raiva. Com grande falta de forças – porque nenhuma coisa podia tomar senão fosse bebida, pelo grande fastio – febre mui contínua, muito, porque quase um mês me deram uma purga todos os dias. Estava tão abrasada que se me começaram a encolher os nervos com dores tão incomportáveis que nem de dia nem de noite podia ter sossego algum. Uma tristeza muito profunda. 

Com este ganho me voltou a trazer o meu pai aonde os médicos me voltaram a ver. Todos me desenganaram, pois, sobre todo este mal, diziam que estava tísica. Disto pouco se me dava; as dores é que me afligiam, porque eram desde os pés à cabeça; e as de nervos são intoleráveis, segundo dizem os médicos. Como todos se me encolhiam, era de verdade forte tormento; não tivesse eu, por minha culpa, perdido o mérito. 

Nesta violência de dores não estaria mais de três meses; parecia impossível poder-se padecer tantos males juntos. Agora espanto-me e tenho por grande mercê do Senhor a paciência que Sua Majestade me deu, que se via claramente vir d’Ele. 

Chegou a festa de Nossa Senhora de Agosto. Desde Abril até então tinha sido o tormento, embora mais nos três últimos meses. Tive pressa em confessar-me, que sempre fui muito amiga de me confessar amiúde. Pensaram que era por medo de morrer e, para não me dar pena, meu pai não me deixou. Oh! amor da carne demasiado, que, embora de pai tão católico e avisado – que o era muito e não foi ignorância – me pudera fazer grande dano! Deu-me, naquela noite, um paroxismo que durou quatro dias, pouco menos, ficando eu sem nenhum dos sentidos. Deram-me o Sacramento da Unção; a cada hora ou momento pensavam ver-me expirar e não faziam senão dizer-me o Credo, como se alguma coisa entendesse. Por vezes tinham-me por tão morta que até cera encontrei depois nos olhos. 

A dor de meu pai era grande por não me ter deixado confessar: clamores e muitas orações a Deus. Bendito seja Ele que as quis ouvir, pois, tendo dia e meio aberta a sepultura no meu mosteiro, esperando ali o meu corpo, e feitas as exéquias em um convento dos nossos frades fora daqui, quis o Senhor que eu voltasse a mim. 

Logo quis confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas. A meu parecer, não eram só de sentimento e pena de ter ofendido a Deus. Isto bastaria para me salvar, mesmo se o engano, que eu em mim trazia, dos que me tinham dito não serem algumas coisas pecado mortal – depois tenho visto de certeza que o eram – não me aproveitasse. As dores com que fiquei eram incomportáveis; o sentido pouco; no entanto – a meu parecer – a confissão foi inteira de tudo quanto compreendi ter ofendido a Deus. Esta mercê me tem feito Sua Majestade entre outras; nunca – depois que comecei a comungar – deixei coisa por confessar que eu pensasse ser pecado, embora fosse venial. Contudo, parece-me que assaz duvidosa ia a minha salvação, se eu então tivesse morrido... Isto, em parte, por serem os confessores tão pouco letrados e, por outro lado, por eu ser tão ruim e por outras muitas coisas. 

Certo é o estar eu agora com tão grande espanto ao chegar aqui e vendo como parece me ressuscitou o Senhor, que estou quase a tremer dentro de mim. Parece-me que fora bem, ó alma minha, visses o perigo de que o Senhor te livrara e, já que por amor não deixavas de O ofender, deixasses de o fazer por temor. Poderia matar-te em estado outras mil vezes mais perigoso. Julgo não acrescento muitas no dizer: outras mil, embora me ralhe quem me mandou moderar no contar meus pecados. E bem aformoseados vão (V 5,7-11).

Santa Teresa de Jesus

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